terça-feira, 4 de outubro de 2011

2678) Rock in Rio (4.10.2011)



Esperar espírito roqueiro num festival concebido e realizado por publicitários, financistas e fazedores de dinheiro é como ser um peixe, ver uma minhoca pendurada na ponta de uma linha, e imaginar que aquilo é um almoço gratuito. O Rock in Rio é uma briga de foice entre gravadoras (sim, ainda existem), empresários e patrocinadores para ver quem consegue colocar seus garotos-propaganda na frente de cem mil pessoas. Ficar discutindo que Fulano não deveria estar lá porque usa sequências harmônicas que não são típicas do rock, ou que Sicrano não faz música contestadora, equivale a achar que numa eleição só deveriam concorrer representantes autênticos do povo. Aquela galera está no Rock in Rio pelos mesmos mecanismos por que aquela outra galera está no Congresso Nacional.

Vi o Multishow, em parte para rever artistas que fazem parte da minha trilha sonora autobiográfica (Stevie Wonder, Elton John). Perdi outros que acho competentes (Metallica, Red Hot Chili Peppers). Vi um pouco do Slip Knot (estava trabalhando), que ainda acho uma incógnita; vi o Motorhead, que tem um guitarrista veloz e um vocalista com visual Dennis Hopper e voz mais rouca do que o cantador João da Silveira. Algumas surpresas interessantes (Josh Stone, Janelle Monáe) e coisas indescritíveis como KeSha, que parece uma integrante perdida do Spinal Tap.

Recorro ao depoimento de um dos meus gurus no assunto rock, o insuspeito Anderson Foca, que postou no Facebook: “A turma leva a sério demais o nome rock, quando na verdade o rolê é coxinha desde o início: Ivan Lins, Elba Ramalho, Al Jarreau e afins. O forte do rolê não é música, é entretenimento e diversão para quem paga o ingresso. Todos os festivais de grande porte são assim... Quem gosta de música vai a pubs, festivais indies, tours de bandas e afins. Quem vai a festival hype, vai pela vivência... Estamos no Brasil e os grandes festivais também são aqueles que trazem grandes artistas, isso termina resvalando em fãs de música que querem ver aquele show esperado e não têm outra oportunidade. Aí, tem que aguentar o rojão e ir mesmo ao grandes festivais. Resumo da ópera: tá valendo, vai quem quer e depois não reclame que tava apertado, que não tem como voltar, que foi roubado...”

O x do problema é a necessidade de botar o nome rock, que tem, para a galera de 20 anos, a credibilidade e o apelo que o nome jazz, digamos, tem para a de 40. Quem daria aquela pequena fortuna para ir a um festival chamado “Chiclete-Music in Rio” ou “Enganation in Rio”? Tem que chamar de Rock. E o bom é que, criada a fórmula, alguma coisa de rock vai ter que entrar na programação, pra poder vender o resto.

domingo, 2 de outubro de 2011

2677) Espaçonave assombrada (2.10.2011)



No fim da Torre de Comando ficava a Sala de Reuniões, com a mesa octogonal ao centro, coberta de monitores embutidos e touch-pads. O Capitão Barbosa me fez sentar e iluminou uma tela. “Esta é a primeira imagem que preservamos”, disse ele. “Depois que entendemos o que era, ativamos todas as câmaras da nave para que registrassem tudo nessa frequência de onda”. Surgiu a imagem do corredor dos alojamentos, oito portas de cada lado. “Foi por acaso,” prosseguiu ele. “Anteontem, alguém aplicou à câmara do corredor o Modo Multi-D, que só aplicamos às câmaras voltadas para o espaço exterior à nave. Eis o resultado”.

Um tripulante cainhava para o elevador. À medida que andava, o corredor retilíneo pareceu se desdobrar de dentro de si como um leque, multiplicando-se ortogonalmente em corredores parecidos, em ângulos retos uns aos outros, em diferentes eixos. O efeito era o de imagens repetidas num calidoscópio, só que cada uma delas povoada por pessoas diferentes. Três tripulantes caminhavam juntos por um deles; noutro, um homem entrava na primeira porta; noutro, um homem e uma mulher conversavam, parecendo de cabeça para baixo em relação aos outros corredores. O Capitão congelou e inverteu a imagem. “Theo Accioly e Délia Bertol”, disse ele. “Você os conheceu, não?”. Respondi: “Estudei com ambos na Academia do Espaço. Morreram há dois anos, num vazamento do reator”. O Capitão ampliou a imagem na parede ao fundo, em tamanho natural. Délia apoiava a cabeça na porta, sorrindo para Theo, que acariciava o rosto dela com os dedos. “Esta imagem foi captada uma hora atrás. Tudo indica que isto se deve aos saltos no Hiperespaço”, comentou. “É como se a cada mergulho a nave salvasse, por segurança, todas as versões anteriores de si mesma, comprimidas neste mesmo espaço”.

Olhamos os dois, em silêncio, as cadeiras aparentemente vazias em volta da mesa, e aqueles dois fantasmas imobilizados e faiscantes na parede de cristal líquido. “Se esta sala aos nossos olhos é um cubo”, prosseguiu ele, “na verdade é um tesserato que contém os momentos de todas as pessoas que por aqui passaram. Um cubo contendo em si infinitos cubos do seu próprio tamanho”. Revendo o rosto de Délia não senti saudade, nem de novo o desespero, nem incredulidade. Pensava na aparente incongruência geométrica entre o Espaço, que imaginamos ser esférico, e esse Tempo composto de infinitos cubos; essa idéia de um Tempo eriçado de eixos em dimensões paralelas, perpendiculares, ortogonais. Ramificações rumo ao passado e ao futuro, como cristais de uma neve imortal, que nunca se derrete, porque não pode ser tocada por dedos humanos.

sábado, 1 de outubro de 2011

2676) “A Morte Cansada“ (1.10.2011)



Este é um clássico do cinema mudo que eu não conhecia e vi agora em DVD. Der müde Tod, de Fritz Lang (1921), é distribuído também com o título inglês de “Destiny” e o francês “Les Trois Lumières”. 

O título original, A morte cansada, se refere ao personagem principal, que é a Morte propriamente dita. Ao levar consigo um rapaz e ver sua noiva pedi-lo de volta, a Morte explica que está cansada de levar gente para o túmulo, mas o faz por obrigação. Compadecida, ela dá um jeito de fazer o casal existir de novo em três épocas e países diferentes, e diz que se eles conseguirem evitá-la em apenas uma dessas três chances terão o direito de ficar juntos. 

Esta é a narrativa-moldura; e dentro dela surgem os três episódios, passados na Pérsia, em Veneza e na China, em que três casais (interpretados pelos mesmos atores, Lil Dagover e Walter Janssen) vivem três histórias trágicas. 

Este filme, ao que se diz, era o filme preferido de Alfred Hitchcock, e o filme que fez Luís Buñuel tomar a decisão de fazer cinema. Há um pouco dele nos casais acometidos de “amor louco” em Um Chien Andalou (1928) e L’Âge d’Or (1930). Além desses dois, há uma influência visível sobre Bergman: a Morte de O Sétimo Selo é claramente inspirada no sombrio personagem que Bernhard Goetzke interpreta aqui. 

Lang já mostra algo das concepções arquitetônicas que desenvolveria em Metrópolis (1926), como o muro gigantesco por trás do qual a Morte se esconde. Os três episódios históricos sobre um mesmo tema parecem uma influência do Intolerância de Griffith (1916), e todos têm estilos próprios de cenografia, figurino, direção de arte; no total, são quatro filmes bem distintos, do ponto de vista visual. 

Como todo filme mudo, principalmente filmes fantásticos, tem algo de folheto de cordel. Seu subtítulo original, “ein Deutsches Volkslied in sechs Versen” (“Uma canção popular alemã em seis versos”) tanto indica sua fonte de inspiração quanto cria uma ponte inesperada de parentesco. 

Outra conexão que não sei se alguém terá percebido é o fato do filme talvez ter influenciado Carlos Drummond a escrever a sua “Balada do Amor Através das Idades” do seu livro de estreia, Alguma Poesia (1930): “Eu te gosto, você me gosta / desde tempos imemoriais. / Eu era grego, você troiana...” 

Como no filme de Lang, o casal do poema se encontra em ambientações históricas diferentes, se apaixona, e morre tragicamente. No final (a surpresa modernista!) reencontra-se no mundo moderno, e “eu, herói da Paramount / te abraço, beijo e casamos”. A referência cinematográfica no fim, portanto, pode ser um indício de como veio ao poeta a idéia original.






sexta-feira, 30 de setembro de 2011

2675) Livros Proibidos IV (30.9.2011)



Checando as estatísticas de livros denunciados ou proibidos no período 1990-2010 nos Estados Unidos, temos números interessantes. Razão das denúncias: sexo explícito, 3.169; linguagem ofensiva, 2.658; violência, 2.289; livros inadequados para a faixa etária do grupo-alvo, 2.232. Drogas? Lá embaixo na lista, com 382. Política? Idem, com 319. Esses números claramente se referem ao universo escolar, infanto-juvenil, que é onde se exerce o peso da censura e do puritanismo nos EUA. Nesse mesmo período, os números dizem (por ordem decrescente) que a origem das denúncias veio das seguintes instituições: escola, 4.048; biblioteca escolar, 3.659; biblioteca pública, 2.679. Universidades aparecem com apenas 141 denúncias.

Nos EUA, existe liberdade para discutir idéias políticas, mas por outro lado o país é vítima de um puritanismo alucinado que cria as situações mais estapafúrdias. Tipo aquelas notícias em que um garoto de seis anos é acusado de assédio sexual porque beijou na escola uma coleguinha de cinco. Os EUA sempre me deram a impressão de um país onde é mais fácil publicar um livro propondo a derrubada do capitalismo do que um livro em que os personagens façam sexo oral.

No Brasil, já foram proibidos mais livros pelo seu conteúdo político do que por conteúdo sexual. Dizem que Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca só foi proibido porque um figurão do governo militar se escandalizou com a linguagem e o tema do conto-título (marginais invadem uma festa de reveillon de ricaços, estupram e matam quem bem entendem) e não descansou enquanto o livro não foi proibido. Algo parecido ocorreu com Zero de Ignácio de Loyola Brandão. Não me lembro de livros infantis proibidos pela ditadura.

Aqui no Brasil está surgindo uma censura do politicamente correto em que indivíduos ou grupos se julgam insultados porque um personagem de um livro diz alguma ofensa contra eles, e pedem a proibição do livro. É a democratização da censura. Em breve chegaremos ao aperfeiçoamento final desse método, quando qualquer pessoa pode denunciar um livro e solicitar oficialmente sua proibição, alegando que foi prejudicado.

As filhas de Garrincha conseguiram proibir a biografia do jogador, escrita por Ruy Castro; Roberto Carlos conseguiu tirar das livrarias sua biografia escrita por Paulo César de Araújo. Ora, há uma porção de livros-de-fofocas e livros maledicentes por aí, sobre gente famosa. Como digo sempre, a liberdade de expressão significa, também, a liberdade de expressão para ao maledicentes – os quais, se for o caso, terão que pagar por isso de alguma forma. Nem toda censura é política, mas toda censura é censura.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

2674) Contos de Campinoigandres (29.9.2011)




“Disseram-me que na feira de Campinoigandres, uma cidade famosa por ludibriar forasteiros, havia um homem capaz de mover objetos, com as mãos, mais rapidamente do que podíamos acompanhá-los com os olhos.

"Contavam-me essa história e nunca acreditei, portanto quando me aconteceu de ir pela primeira vez à tal cidade, procurei-o.

“Encontrei-o no mercado, diante de uma pequena mesa. Colocava sobre ela três cascas de noz, emborcadas. Levantava a do meio e colocava sob ela uma pequena moeda de prata, que era o prêmio destinado ao acertador.

"Em seguida, arregaçava as mangas, tocava nas semi-esferas com as pontas dos dedos e começava a movê-las de um lado para o outro, fazendo com que se rodeassem, se alternassem, se intercalassem umas às outras, com tal velocidade que de início até eu me perdi.

"Não fui o único; todos os que, ao final, indicavam a casca de noz onde estaria a moeda viam-no erguê-la e mostrar que estava vazia de prêmios.

“Depois de várias vezes, porém, vi que seu repertório de movimentos tinha recorrências, e acabava repetindo uma mesma sequência feita há uns sete ou oito movimentos atrás... Discerni naquilo um princípio de ordem. Os movimentos começavam caóticos mas depois sempre se repetiam.

"Era como uma mão sem pena fingindo riscar um pergaminho, sem deixar letras escritas: as letras estavam ali, subentendidas nos movimentos mudos. Eram como lábios se movendo por trás de um vidro.

“Afastei a turba, postei-me diante dele, e me inscrevi para a aposta. Ele aceitou, preparou-se, e repetiu todo o ritual: começou a mover as cascas de noz bem devagar; pareceu-me meio errático, indeciso, mas logo foi acelerando o ritmo, e as estruturas de repetição apareceram. Eu estava ali, desafiando-o, e todos olhavam para mim, de modo que respirei fundo e segui seus movimentos com os olhos.

"Quando ele se deteve (detinha-se sem obedecer a nenhum padrão, era sempre um breque súbito) eu tinha a casca certa embaixo dos olhos, não a tinha perdido de vista um instante sequer. Ele deu um meio passo para trás e fez um gesto com a mão, oferecendo a mesa à minha escolha. Eu ergui a casca de noz que acompanhara com a vista: e lá estava a moeda.

“Ele apanhou com a ponta dos dedos a moeda e a estendeu para mim, com uma reverência. Quando a guardei na bolsa, ele ergueu as duas outras cascas, e embaixo delas havia os dois diamantes mais bem feitos que eu já vi na minha vida.

"E o povo de Campinoigandres prorrompeu numa tremenda gargalhada; a feira inteira parecia estar sabendo, fizeram a maior pateada, com berros e assobios, creio até que na janela de um castelo balançaram a bandeira da cidade.”




quarta-feira, 28 de setembro de 2011

2673) Livros Proibidos III (28.9.2011)



A Semana dos Livros Proibidos (24-set a 1-out) pretende, entre outras coisas, defender a liberdade de expressão e de publicação de livros. Uma estatística curiosa no saite da American Library Association (http://bit.ly/LdDLu) mostra que da lista dos “100 Romances mais Importantes do Século 20” escolhidos pelo Radcliffe Publishing Course, 46 foram em algum momento proibidos ou denunciados para proibição em algum país. Geralmente por questões morais, porque o livro contém cenas de sexo explícito; ou defende atos sexuais considerados ofensivos (homossexualismo, adultério, promiscuidade, prostituição, masturbação, etc); ou usa linguagem ofensiva, imoral (palavrões, etc.). Esses valores mudam de país para país. O que é pornográfico aqui não o é acolá, então não é de admirar que o Ulisses de Joyce, o Lolita de Nabokov, os Trópicos de Henry Miller e O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence tenham sido proibidos mundo afora, inclusive em seus países de origem.

Nenhum desses livros, que eu me lembre foi proibido no Brasil. Eram cercados de tabus e de críticas, mas eram publicados, sim, e ninguém foi preso por vendê-los “por baixo do pano”. Paulo Francis se referia a Lady Chatterley como “o livro que todo mundo leu segurando com uma mão só”. Talvez tenha sido assim para a geração dele; eu me lembro em 1967, no Estadual da Prata, o pessoal com ar conspiratório emprestando uns aos outros o Sexus de Henry Miller e indicando: “Capítulo 16...”. Era em plena ditadura, mas esses livros passavam. A Revolução Sexual estava embranquecendo os cabelos dos nossos pais, mas os pilares da Pátria permaneciam incólumes. A ditadura estava mais preocupada em proibir coisas mais específicas; talvez o Que Fazer? de Lênin ou o Torturas e Torturados de Márcio Moreira Alves.

Ninguém lembra Cassandra Rios, que nunca foi grande escritora, mas foi perseguida durante décadas por seus romances eróticos: Tessa, a Gata, A Paranóica, Eudemônia, O Bruxo Espanhol... Li na adolescência (na casa de meus primos) A Lua Escondida, uma história de paixão lésbica; e anos depois li As Mulheres dos Cabelos de Metal, uma ficção científica erótica que passou despercebida até da censura. Quando as pessoas fazem campanha pela liberação da literatura erótica, geralmente estão pensando em Joyce ou Miller. Minha dúvida é: na hora do naufrágio, esses intelectuais teriam coragem de colocar Cassandra Rios no bote salva-vidas? Ou a salvação é apenas para os que são também intelectuais? A arte “redime” o erotismo? É preciso ser uma grande obra literária para que os intelectuais se mobilizem contra sua proibição?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

2672) A palavra inchirido (27.9.2011)




Até hoje não sei como se escreve: Inchirido? Enxerido? Não importa; esse adjetivo é uma daquelas palavras tipicamente nordestinas, como arretado, oxente, mangar. 

O cara inchirido é o cara atrevido, metido, ousado. No sentido sexual, é o homem que dá em cima, que “avança o sinal”, que “azara”, que dá cantadas, que fica rondando e pedindo uma chance. 

Como tantos outros termos nessa área, pode ter um sentido pejorativo e um sentido elogioso, dependendo do interesse que a vítima possa ter pelo cara que se comporta assim: “Não suporto Fulano, além de feio é inchirido”, ”Eu fico toda nervosa quando ele chega junto, porque ele é muito inchirido”, “Minha filha, eu só gosto de homem inchirido, porque a gente já sabe que ali acontece alguma coisa”.

Também se usa, meio metaforicamente, em outras circunstâncias. “O brasileiro é um povo muito inchirido, se metendo a fazer Copa do Mundo e Olimpíada ao mesmo tempo!”. “O São Caetano montou naquele tempo um time meio inchirido, que acabou sendo vice-campeão brasileiro e vice-campeão da Libertadores”. 

Ou seja, “inchirido” no sentido geral de ambicioso, disposto a ir além dos limites que lhe haviam sido traçados por outros. E existe, claro, o verbo “inchirir-se”, reflexivo: “Cuidado, Fulana, teu marido anda se inchirindo pra aquela galega do bar”.

Surge a questão: qual a origem da palavra? Por algum tempo pensei que viesse do verbo “encher”, mas logo descartei. Pensei que viesse de “inserir, inserido”: “Fulano anda se inserindo no meio de uma turma que não é a dele”. 

Num livro de Carter Dickson, Os Crimes da Viúva Vermelha, encontrei uma referência de que a palavra “Enchiridio” se referia a “uma coleção de orações mágicas inventadas pelo Papa Leão III e oferecidas a Carlos Magno no ano 800”.

Agora, o saite A Word A Day me explica que a palavra significa “manual, pequeno livro de informações básicas”, e vem do grego “encheiridion”: en (em) + chiros (mão) + idion (sufixo diminutivo). Ou seja, um livrinho com informações essenciais que pode ser levado na mão; daí o sinônimo “manual” (em inglês é “handbook”).

Diz o saite que o uso mais antigo documentado, é de 1541. Mas isso não importa. A questão é: o Enchiridio (que aliás deve se pronunciar “enquirídio”) medieval pode ter dado origem, pelas vias tortuosas de sempre, ao nosso conceito de “inchirido”? 

O inchirido seria, então, aquele sujeito que leva consigo um livrinho com todas as respostas (espécie de Manual do Escoteiro) e que devido a isso passa a ostentar uma cultura-de-almanaque, se torna pedante, metido a besta, sabe-tudo, atrevido? E ainda por cima conquista todas as mulheres com isso?! 




domingo, 25 de setembro de 2011

2671) Livros Proibidos II (25.9.2011)



(Capa de Harry Potter, recriada por M. S. Corley)

A Semana dos Livros Proibidos (última semana de setembro), chama a atenção para o que os organizadores, nos EUA, chamam de “Banned and Challenged Books”. “Banned” é o livro banido, proibido oficialmente por um governo, com todas as consequências (apreensão policial dos exemplares à venda, com prejuízo para o livreiro, etc.). Muitas vezes isto envolve a ameaça à liberdade ou à integridade física do autor ou do editor. “Challenged” significa que o livro é impugnado, questionado, denunciado por grupos ou entidades, sob a alegação de que infringe algum princípio. O número de livros denunciados, claro, é muito maior do que o de livros de fato proibidos, já que nem toda denúncia é aceita. Ainda assim, o estrago é grande, porque a denúncia produz efeitos locais, principalmente no que diz respeito à eliminação de livros das bibliotecas e do currículo escolar de colégios e universidades.

Todo mundo entende que o Minha Luta (“Mein Kampf”) de Hitler seja proibido. O furibundo alemão é o saco-de-pancadas preferencial do Ocidente. A tal ponto, aliás, que por todo lado brotam jovens carrancudos, insatisfeitos, irritados com a hipocrisia da época, e começando a murmurar uns com os outros: “Por que será que proibiram o livro do cara? Vai ver que ele denunciava isso-tudo-que-está-aí... Era um idealista...”. E pronto, a proibição tem um resultado inverso: projeta uma aura de contestação e de martírio sobre a obra de um desorientado.

Já os livros de Harry Potter têm sido largamente denunciados nos EUA porque grupos evangélicos de variadas colorações os consideram uma apologia ao satanismo, à magia negra, etc. Se você acha isso absurdo, e que Harry Potter é inofensivo, o que dizer então da denúncia contra a série Capitão Cueca de Dav Pilkey? Sucesso aqui no Brasil, os livrinhos ficaram em sexto lugar na lista de obras mais denunciadas nos EUA em 2002, por “falta de sensibilidade”, por serem “inadequados à faixa etária” e por “encorajarem as crianças a desobedecer as autoridades”. Pois é. Começa com Capitão Cueca, daqui a pouco os meninos vão estar lendo Che Guevara.

A denúncia contra Harry Potter, é claro, é proporcional ao seu sucesso. Há incontáveis livros sobre meninos bruxos que entram e saem dos lares e das escolas sem que ninguém lhes dê importância ou os considere Os Evangelhos de Belfegor. Mas os professores não são bobos. Harry Potter foi um movimento social em torno de um livro, um movimento que arrebatou dezenas de milhões de garotos. Ninguém faz sucesso impunemente. Ninguém atinge milhões de pessoas sem que alguma autoridade se debruce sobre o caso, luneta em punho, para saber por quê.

sábado, 24 de setembro de 2011

2670) Livros Proibidos I (24.9.2011)



Está começando nos EUA a Semana dos Libros Proibidos (“Banned Books Week”), celebrada na última semana do mês de setembro. É uma iniciativa conjunta de associações representando editores, professores, livreiros, bibliotecas e entidades culturais que combatem a censura a obras literárias, desde a proibição pura e simples até a sua retirada de currículos e do acervo de bibliotecas. Eu nunca tive um livro proibido pela censura. Tive uma música (“Nordeste Independente”, composta com Ivanildo Vila Nova, gravada por Elba Ramalho) que teve sua execução pública proibida durante o último ano da ditadura militar. Mas é como leitor que durante os próximos dias comentarei algumas dessas obras que foram retiradas de circulação, e por que motivos isso aconteceu.

Os principais motivos para um livro ser proibido são: 1) conteúdo sexual; 2) cenas de violência ou sadismo; 3) linguagem chocante (não necessariamente palavrões de cunho sexual, mas linguagem considerada agressiva, vulgar, violenta, etc.); 4) cenas envolvendo drogas e parecendo endossar o seu uso; 5) conteúdo racista ou discriminatório contra maiorias; 6) idéias políticas contrárias ao regime vigente; 7) agressões, calúnias ou afirmações graves contra um indivíduo ou grupo. Há outros, com certeza; estou enumerando de memória. As razões mudam de lugar para lugar.

A liberdade de literatura é muito parecida com a liberdade de imprensa. Todo mundo é a favor até o instante em que se torna vítima dessa liberdade, até quando surge um livro dizendo algo que nos ofende, nos envergonha ou nos ameaça. Nesse instante, nosso discurso democrático vai dar uma volta no espaço sideral, e a vontade que a gente tem é mandar apreender aquele livro, queimá-lo em praça pública, e premiar o autor com uma surra de fio-desencapado e um banho de sal grosso.

Digo isto para lembrar que a luta pela liberdade de expressão não é uma luta do Bem contra o Mal, a luta dos Cem Por Cento Certos contra os Cem Por Cento Errados. É um dilema, uma encruzilhada entre duas opções, ambas envolvendo ganhos numa direção e perdas na outra. Somos contra a proibição de James Joyce ou de Rubem Fonseca, mas aposto que muitos de nós somos a favor da proibição dos livros de Hitler. Cada sociedade se define pelos seus critérios para proibir um livro e ameaçar seu autor, porque ao fazer isto ela atinge um limite de si própria, atinge aquela fronteira ética na qual em nome dos mais elevados valores se cometem os atos mais graves. Somos todos a favor da liberdade de expressão. Mas cada um de nós tem pelo menos um livro que proibiria com prazer e vingança. Bora, rapaz. Fala a verdade.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

2669) Romero Cavalcanti (23.9.2011)



(recorte de Romero Cavalcanti)


Há artistas paraibanos que são famosos na Paraíba e desconhecidos no resto do Brasil. Romero Cavalcanti, pelo contrário, é famoso no Brasil e quase desconhecido na Paraíba. Explica-se pelo fato de que, tendo nascido em Itabaiana e estudado na capital, ele foi muito cedo para o Rio de Janeiro, onde construiu uma carreira de artista plástico, artista gráfico, ilustrador, capista de livros e discos, criador de cartazes e de programações visuais. As técnicas e os meios são os mais variados: óleo, bico de pena, desenho, objetos, colagem, aerógrafo, etc.

Fizemos muitos trabalhos juntos até agora, mas o mais importante talvez seja a série de capas e ilustrações que Romero produziu para minhas antologias de contos fantásticos lançados pela Casa da Palavra: Páginas de Sombra (2003), Contos fantásticos no labirinto de Borges (2005), Freud e o Estranho (2007), Contos Obscuros de Edgar Allan Poe (2010) e, a ser lançado em breve, Páginas do Futuro: contos brasileiros de ficção científica. São ilustrações feitas com colagem de fragmentos de gravuras antigas, num estilo muito usado pelos Surrealistas nos anos 1920 (principalmente Max Ernst).



Depois de décadas no Rio, Romero faz sua primeira exposição individual na Paraíba dentro do evento “Setembro Fotográfico” (24 a 30 de setembro). Alguém perguntará: Mas ele é fotógrafo? A resposta é: Não, ele é um desconstrutor de fotografias. A exposição “Ex-Fotos” (com um saboroso trocadilho no título, cheio de sugestões) mostra fotos alheias que o artista recorta com estilete até transformar em coisas completamente diversas. O corte do estilete produz uma nova silhueta que nada tem a ver com a original, e nessa nova silhueta as zonas de cor, de luz e de sombra sofrem uma leitura que também nada tem a ver com a da imagem em que foram produzidas originalmente.

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Existem as artes aditivas, que consistem em colocar coisas onde não havia nada (a pintura, p. ex.), e artes subtrativas, que consiste em pegar uma massa informe e retirar partes dela até deixar ali uma obra de arte (a escultura, p. ex.). A desconstrução promovida por Romero é de uma terceira natureza, porque pega uma obra de arte acabada (ou pelo menos um produto informacional acabado, no caso uma foto) e interfere nela até transformá-la numa voluta abstracionista, numa caricatura grotesca, numa colagem de formas surrealistas.

A exposição “Ex-Fotos” está aberta no Casarão 34, de 24 de setembro a 30 de outubro, de 2ª. a 6ª. feira, das 8às 12 e das 14 às 18 horas. Além da exposição, o artista estará ministrando a oficina “Recorte da Imagem a Partir da Fotografia”, nos dias 27 e 28, das 15 às 18 horas.