domingo, 13 de fevereiro de 2011

2479) Itamardito (13.2.2011)



Itamar Assumpção recusava a pecha de Maldito. Um artista maldito é em geral um sujeito que incomoda pelo que diz, pelo que faz e pelo que é; mas ao mesmo tempo nos impede de ignorá-lo. É um elemento estranho, às vezes agressivo, às vezes provocador, que coloca em xeque não somente os valores estéticos de quem está à sua volta, mas também sua paciência e seus bons modos. O Maldito inquieta, e não pode ser deletado. É como um vírus que se recusa a ser expulso e fica por ali, perturbando, e despertando o receio de que possa, de um momento para outro, fazer o mundo acabar.

O SESC lançou ano passado a “Caixa Preta”, reunião da obra completa de Itamar, com todos os discos que lançou em vida, e trabalhos inéditos que ele estava preparando quando morreu em 2003, aos 53 anos. Ouvi muito Itamar na década de 80, quando a melhor coisa na música brasileira era a chamada Vanguarda Paulista: Itamar, Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premeditando o Breque, Língua de Trapo e outros. Eram artistas e grupos reunidos em torno do Teatro Lira Paulistana, de saudosa memória, que ficava em frente à Praça Benedito Calixto, em Pinheiros. (E onde eu, Fuba e Tadeu Mathias realizamos show memoráveis há 30 anos, mas aí é outra história).

A Vanguarda Paulista foi o momento mais Frank Zappa da música brasileira. Algo desse espírito semi-erudito, semi-jazzístico, semi-dadaísta subsiste hoje na obra de Tom Zé e Jards Macalé (parceiros eventuais de Itamar). Um teste prático para saber o grau de novidade de uma música é colocar o disco como fundo musical para uma conversa entre amigos, numa sala, bebendo cerveja e batendo papo. Alguns tipos de música se prestam a servir como pano de fundo para nossas conversas, produzindo um som agradável e impregnando aquele momento de um tom emocional qualquer. Não tem nada a ver com qualidade. Pode ser um jazz, uma MPB tradicional, uma sinfonia orquestral, uma bossa nova; qualquer uma pode servir como sonoridade secundária, porque não atrapalha a nossa conversa.

Na maioria das canções de Itamar, esse encanto é impossível de manter. A música quebra o tempo todo, não tem uma continuidade rítmica que possa embalar nossos pensamentos e dispensar nossa atenção. A toda hora tem um breque! A toda hora parece que os músicos se desentenderam e resolveram dar uma parada para acertar as diferenças batendo boca. E é uma música atonal, que não segue melodias fáceis, uma música que “não é bonita” e parece estar desafinando aqui, acolá.

Não, não está, mas essa estranheza fez as platéias do começo da Bossa Nova, acostumadas ao bolero e ao samba-canção, acharem que João Gilberto estava desafinando quando cantava “Samba de uma Nota Só”. Não estava. As melodias e harmonias que a Bossa Nova propunha foram sendo entendidas e assimiladas, e se transformaram num novo padrão. Não incomodam mais, e servem de trilha sonora aos nossos saraus, ouvidas por todos, escutadas por ninguém, invisíveis como o padrão geométrico do tapete que pisamos.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

2478) Drummond: o poema ready-made (12.2.2011)



(Marcel Duchamp, foto de Julian Wasser)


O poema mais polêmico do livro de estréia de Carlos Drummond, Alguma Poesia, foi o famoso “No meio do caminho”, o qual produziu respostas tão numerosas e variadas na imprensa que o próprio Drummond, anos depois, se deu o trabalho de coletar todas elas num livro hoje raro (Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema, Editora do Autor, 1967) . É bem verdade que a repetição monocórdia das mesmas frases (“No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho...”) desconcerta e irrita os leitores de sonetos parnasianos; mas quem tiver boa vontade deve reconhecer que o poema descreve uma situação de perplexidade existencial e tenta reproduzi-la através dessas repetições. O leitor pode até dizer que aquilo “não tem poesia”, como muitos disseram; mas ele deve admitir que existe ali um mínimo de presença autoral, existe a intenção de dizer algo com os recursos da literatura.

Passemos agora a outro poema do mesmo livro, intitulado “Sinal de Apito”. Diz ele: “Um silvo breve: Atenção, siga / Dois silvos breves: Pare. / Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna. / Um silvo longo: Diminua a marcha. / Um silvo longo e breve: Motoristas a postos. / (A esse sinal todos os motoristas tomam lugar nos seus veículos para movimentá-los imediatamente)”. E pronto. Tá aí o poema! Oitenta anos depois ainda não entendo como este pequeno fragmento dadaísta deixou impassíveis sujeitos como Gondin da Fonseca e Oscar Mendes, que espernearam bastante diante do poema da pedra.

O que há de poético em “Sinal de Apito”? Para mim, que sou drummondiano, nada, nada além de uma brincadeira (coisa que “No meio do caminho” não pretendia ser), uma brincadeira bem ao gosto dos dadaístas de 1916 em diante. Numa crônica sobre Godofredo Rangel (em Passeios na Ilha), Drummond fala desse texto como “...algo que eu publicara como poema, e era apenas a transcrição, em linhas irregulares, de um trecho de regulamento da Inspetoria de Veículos”. Ou seja: um “ready-made” à maneira de Marcel Duchamp, que expunha como obra sua uma roda de bicicleta ou um urinol. O Modernismo brasileiro sofreu essa contaminação das vanguardas européias, inclusive no que tinham de mais provocativo, brincalhão, desconcertante. Qualquer vanguarda mistura, de modo aleatório, pouco planejado, obras que se pretendem uma nova maneira de fazer e obras que não passam de pilhérias para irritar os que preferem fazer as coisas à moda antiga. Como se os poetas novos dissessem: “Está vendo o meu Sinal de Apito? Pois eu acho que existe mais poesia nele do que n’O Caçador de Esmeraldas”.

Drummond, por trás dos óculos sérios, tinha um temperamento de clown (ele se auto-denominava “Carlito” às vezes, identificando-se com Chaplin), gostava de pregar peças aos amigos. Isto não transparece muito em sua poesia, e quando surge fica eclipsado pelo peso da seriedade ou da emotividade do resto da obra. Mas ele tinha também seus momentos Marcel Duchamp.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

2477) “CyBorges – The Game” (11.2.2011)




Recebi há cinco dias a versão beta de CyBorges - The Game, o grande lançamento da Orbis Tertius para este ano de 2033. Evidentemente não vivenciei o game por inteiro; o que registro aqui são primeiras impressões. 

A imagem de Jorge Luís Borges mudou muito nas décadas mais recentes. Tido como intelectual, erudito, livresco, ininteligível, o escritor foi redescoberto pelas novas gerações como um gerador de infinitos universos interativos, um metalinguista por excelência, um apostador compulsivo na capacidade re-criativa do leitor. Ou seja: um designer de games, nascido antes do tempo. Um visionário que precedeu a tecnologia adequada aos seus talentos. 

Mas vamos ao jogo. O game contempla as diversas facetas de Borges. 

Borges o descendente de generais (a reconstituição da batalha de Junín tomou-me duas madrugadas inteiras; venci). 

Borges o sedutor (e que grande golpe criativo escolher o visual de suas musas a partir de atrizes de sucesso: Beatriz Viterbo com o visual andaluz de Placeres Montoya; Teodelina Villar com o perfil clássico da francesa Lou d’Hergemont; e Ulrica, surpreendentemente, com as feições da bergmaniana Bibi Andersson). 

Borges o lutador de faca (sugiro ao jogador que escolha a seção do jogo intitulada “Esquina Rosada” quando tiver muito tempo disponível e garantia de não ser interrompido). 

Borges o sabotador do espaçotempo: fui informado de que seções como “O Imortal” ou “Averróis Quest” criam loops escherianos dos quais é impossível emergir. 

A imprensa comentou a ausência do “Aleph”, mas todos sabem que os direitos deste conto foram adquiridos pela Dangerous Multivisions Inc., que continua a anunciar o game para o ano que vem. Paciência; há material literário mais que suficiente no setor “The Forking Paths”, em que nos é dado acesso a um total de 22 contos de Borges reconstituídos em computação gráfica e lidos em voz alta pela voz (digitalizada) de Borges – e os que temerem alguma redundância entre texto e imagem preparem-se para variados tipos de surpresa. 

Alguns críticos se queixaram da falta de uma “narrativa principal” para o game. Ora, tal narrativa é justamente a passagem gradual de um homem do mundo real (simbolizado pela época em que Borges não era cego) para o mundo virtual. (Esses críticos certamente não visitaram a seção “Ruínas Circulares”, concebida numa releitura cyberpunk). 

A fase realista nos dá caminhadas intermináveis (acompanhadas pela voz digitalizada de Estela Canto ou de Maria Ester Vázquez) pelas ruas noturnas de uma Buenos Aires mítica; a fase virtual nos propele a labirintos (o de “Abenjacan El-Bokhari” supera em horror o próprio Alone in the Dark). 

Nada, contudo, iguala a seção “Funes”, onde, após horas de clamores e batalhas, de milongas e de hexágonos, o player se queda diante do próprio rosto em webcam e um som que lhe sugere estar no fundo de um rio, embalado e anulado pela correnteza. 

Cotação: 5 estrelas.





quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

2476) O moído de Kafka (10.2.2011)



Podemos defender, sem susto, a tese de que foi Franz Kafka o autor europeu mais emblemático do século 20, aquele que fez uma obra mais afinada com o diapasão do século. (Tolstoi ou Balzac seriam candidatos possíveis ao posto equivalente para o século 19.) No momento, o mundo literário acompanha uma polêmica meio kafkeana, envolvendo o destino de uma enorme quantidade de manuscritos e papéis deixados por Kafka (cerca de “vinte metros de pastas”) que estão em Tel Aviv. A história é complicada. Antes de morrer, Kafka pediu a seu grande amigo Max Brod que queimasse seus papéis. Brod retorquiu que jamais faria isso, e não o fez. Além de publicar os principais livros do amigo (O Processo, O Castelo, América) ele fugiu para a Palestina em 1939, e levou consigo tudo o que podia, pouco antes dos nazistas fecharem a fronteira tcheca. Graças a isso, os papéis de Kafka não foram destruídos.

Mas é como se tivessem sido. Brod os preservou com fidelidade e avareza. Ao morrer, deixou-os em poder de sua secretária, Esther Hoffe, que também os guardou com mão de ferro. Esther morreu em 2007, aos 101 anos, deixando o espólio para suas filhas Eva e Ruth, ambas hoje na casa dos 70 anos. E é neste ponto que a história empanca, porque as duas não chegam a um acordo sobre o que fazer com os papéis de Kafka. (Embora o manuscrito original de O Processo já tenha sido vendido para a Alemanha por quase 2 milhões de dólares). Corre na justiça israelense um kafkeano processo envolvendo inúmeros interessados e incontáveis advogados. Os documentos são contraditórios, especialmente os de Max Brod, que também teria deixado uma outra carta doando o material de Kafka para instituições culturais de Israel.

Enquanto o imbróglio jurídico não se esclarece, em 2010 foi possível pelo menos fazer um primeiro inventário. Fala-se de cadernetas e mais cadernetas de anotações e diários, manuscritos de textos já publicados, numerosas cartas (de e para Kafka), além de manuscritos do próprio Max Brod, que também teve uma farta produção literária, ainda que menor importância. Fala-se também numa primeira edição do livro de Tristan Tzara Première Aventure Céleste de M. Antipyrine, um clássico do Dadaísmo, com dedicatória do autor para Kafka. (Este ruído que vocês ouvem é de algumas dezenas de milionários, impacientes, esfregando as mãos na porta da Sotheby’s.)

O material está sendo inventariado, e quem quiser saber mais leia este artigo de Elif Batuman (http://tinyurl.com/2cnhm9u), cheio de detalhes pitorescos, inclusive ao descrever a excentricidade das irmãs Hoffe – uma delas vive num apartamento em Tel Aviv com mais de cem gatos, que dormem sobre os manuscritos do autor de “Investigações de um Cachorro”. Batuman afirma que nos últimos 14 anos foi publicado um livro a respeito de Kafka a cada dez dias. O autor tcheco morreu em 1924, e é espantoso imaginar que uma parte considerável dos seus escritos ainda está inédita.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

2475) “Método Prático da Guerrilha” (9.2.2011)



A guerrilha latino-americana já teve um charme, para os jovens, que os jovens de hoje são incapazes de compreender. Em primeiro lugar, naquele tempo havia um consenso difuso de que terroristas e guerrilheiros (considerados a mesma coisa) eram pessoas “do Bem”. Eram sujeitos idealistas, capazes de dar a própria vida para combater as injustiças sociais. Como vivíamos numa ditadura, tínhamos (nós, adolescentes naquela época) a noção de que a única opção moralmente correta era ficar a favor dos inimigos da ditadura (e tínhamos razão). E havia o aspecto literário. A guerrilha era excitante, era perpassada de aventura, de romantismo. Era uma conjugação perigosa entre doutrinação marxista e aquela valentia meio suicida desses caras que fazem Camel Trophy ou Rally dos Sertões. E nós, pobres nerds cheios de óculos e de espinhas, tínhamos uma inveja permanente desses sujeitos que, além de assumirem a tarefa de mudar o mundo, não tinham medo de levar tiro.

A guerrilha venceu em Cuba, talvez porque o regime de Fulgêncio Batista já estivesse mesmo caindo de podre; talvez até uma passeata de seminaristas o tivesse derrubado. Mas a vitória de Fidel Castro e Che Guevara alastrou uma fogueira de pequenas guerrilhas mundo afora. Infelizmente, Guevara estava para a Revolução assim como Orson Welles estava para o cinema: estreou com seu maior triunfo, e daí em diante foi uma “pisa” depois da outra. O romance Método Prático da Guerrilha de Marcelo Ferroni (Companhia das Letras, 2010) faz uma reconstituição da última aventura do Che, na Bolívia, onde acabou assassinado.

Se a juventude de algum país começar a ter sonhos guerrilheiros, acho que basta ao Governo distribuir milhares de cópias deste livro para dissuadi-los. Não pode haver retrato mais trágico e patético do que a descrição do Exército Brancaleone chefiado pelo Che na selva boliviana. Dezenas de homens esquálidos, desnutridos, esfarrapados, brigando o tempo todo entre si, assaltando as choupanas de camponeses famintos, vítimas de diarréias permanentes, emboscando soldados tão inexperientes quanto eles próprios, travando combates caóticos, e sendo dizimados “pelas beiras”, pouco a pouco, a cada confronto. Li em 1971 o diário Che Guevara na Bolívia (uma edição brasileira provavelmente clandestina), e fiquei com uma idéia meio depressiva sobre o que significava ser guerrilheiro. O livro de Marcelo Ferroni, escrito quase todo num presente do indicativo seco, factual, distanciado, faz parecer juvenis e românticos textos como Bar Don Juan de Antonio Callado ou Reunião de Julio Cortázar.

É difícil separar o café do leite, saber o que é fato pesquisado (o autor refere-se indiretamente, sem maiores detalhes, a relatórios militares, biografias, memórias dos guerrilheiros) e o que é a inevitável invenção ficcional de personagens, peripécias, emoções, diálogos. É a história cruel de alguém que acorda de um sonho e descobre que está num pesadelo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

2474) “Tio Boonmee” (8.2.2011)



Este filme tailandês em cartaz no Rio tem como título Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, e ganhou a Palma de Ouro em Cannes.. Se você acha o título difícil de memorizar, console-se pensando que o diretor se chama Apichatpong Weerasethakul. É um diretor “cult” do momento; não vi nenhum dos seus outros filmes, mas este é belamente narrado e fotografado, mesmo com uma relativa precariedade técnica. Apichatpong (que os críticos dos EUA, para simplificar, chamam de “Joe”) gosta de planos longos em que as coisas acontecem com seu próprio tempo, como se não soubessem que diante delas está uma sala escura cheia de poltronas onde pessoas impacientes esperam que aconteça alguma coisa. A cena inicial, ao amanhecer, mostra, numa baixada coberta de mato, um animal (uma vaca?) se desamarrando da árvore, fugindo, e sendo trazido de volta por um homem. Isto dura alguns minutos, com silêncio e cantar de grilos, e me fez sentir que aquela baixada era mais real do que a sala onde eu estava sentado. Cenas de filme podem nos dar duas sensações (ambas esteticamente legítimas): a de uma história que está sendo contada ou a de uma coisa que está acontecendo. No filme de “Joe” predomina a segunda. Ele sabe, para usar a expressão de Tarkovsky, “esculpir o tempo”.

Tio Boonmee fala da zona-de-sombra entre este mundo e o outro, e mostra os últimos dias de vida de um homem com um grave problema renal, que quer fazer as pazes com suas lembranças e sua família. Aparecem fantasmas e criaturas estranhas, gerando um clima meio David Lynch, pelo impacto do surgimento do fantástico, sem preparação dramatúrgica, numa narrativa que parecia estar se encaminhando de outra forma. Comparar um diretor novo com diretores velhos é um passatempo da crítica, talvez porque o cinema é como a culinária. Não é só o modo de preparar que conta, mas cada artista usa ingredientes que, mesmo sendo da Natureza, parecem seus. Quando os reencontramos na obra de outro é que percebemos que nada na arte pertence ao artista, tudo pertence à Memória Prima que nos faz fazer filmes e assisti-los.

Há uma cena calmamente bela em que uma princesa, junto a uma cachoeira, lamenta a juventude perdida e depois tem relações sexuais com um peixe. Contada assim parece uma bobagem, mas é um episódio (que pode corresponder a uma das “vidas passadas” do Tio Boonmee) que quebra o fluxo da história principal e a eleva a um estágio superior de significado. Outra sequência surpreendente é o sonho de Boonmee, de ir a um mundo do futuro em que os visitantes do passado são localizados, têm sua imagem projetada através de lanternas e com isto deixam de existir. Parece uma alegoria sobre a fotografia e a televisão (que aparecem reiteradamente no filme), além do próprio cinema. As pessoas morrem e deixam atrás de si imagens, fantasmas translúcidos; e a contemplação desses fantasmas é um dos passatempos mais importantes dos vivos, dos feitos de carne e osso.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

2473) Perdidos na Bienal (6.2.2011)




O estudo da Patologia Topológica vem enfrentando preconceitos dentro da comunidade científica internacional. Como toda ciência nova, ela lida mais com perguntas e incertezas do que com verdades chanceladas pelo uso e pela experimentação controlada. Daí ser considerada por uns uma pseudo-ciência e por outros um delírio paranóico. 

A Física contemporânea, por exemplo, estuda o que a literatura popular chama de fendas no espaço-tempo, fissuras no tecido no Universo. Sua existência em escala macro já foi comprovada – são os famosos “buracos de minhoca” nos quais uma partícula física entra, e sai, quase instantaneamente, noutro local, a milhares de quilômetros ou milhões de anos-luz. 

O que a Patologia Topológica estuda é a existência deste fenômeno na escala humana. Muitos desaparecimentos famosos, acidentes, fatos extraordinários, podem ser explicados pela ocorrência de fendas desse tipo. Passagens, portais, configurações tão extraordinárias que dentro do seu âmbito as leis que governam a matéria se comportam de forma diferente. 

Estuda-se, por exemplo, o caso da instalação pós-modernista “Klax”, do artista indiano Raman Sendjabi. Influenciado (segundo ele próprio) pelos parangolés do brasileiro Hélio Oiticica, Sendjabi criou um labirinto de placas de amianto e isopor, no qual os participantes eram convidados a entrar e experimentar, segundo ele, “sensações temporárias de perda da referencialidade espaçotemporal”. 

A obra foi exposta na Bienal da Lausanne em 2002 e causou escândalo pelo desaparecimento de seis pessoas, inclusive duas crianças, que entraram ali e não saíram; depois de horas de espera, e sob protestos do artista, a obra foi desmontada diante da polícia e dos curadores da exposição, mas sem sinal das pessoas. 

No ano seguinte, 2003, Sendjabi (processado pelas famílias dos desaparecidos) conseguiu uma liminar para remontar sua instalação na Bienal de Cracóvia. Qual não foi a surpresa de todos quando, no dia de abertura, emergiram da obra quatro dos desaparecidos, todos levemente desnutridos e anêmicos, mas em boas condições físicas. Foram incapazes de explicar e mesmo de entender o que se passara; com amnésia parcial, não faziam ideia de que tinham estado desaparecidos por cerca de um ano. 

Novo escândalo forçou a desmontagem da obra e novo processo movido contra Sendjabi. Em 2004, sob forte cobertura da imprensa, “Klax” foi remontada na Bienal de Osaka, e embora ninguém se atrevesse a penetrar em seu labirinto, logo emergiu dali a secretária suíça Michelle Lamproix, igualmente amnésica e desnorteada. Para ela, pouco mais de meia hora tinha transcorrido desde sua entrada no labirinto, dois anos antes. 

A última pessoa desaparecida era um taxista de Lausanne, de 22 anos, Jean-Marc Desmolieu. Na Bienal da São Paulo de 2010, quando “Klax” foi reexposta, ele não apareceu, mas jogou para fora do labirinto o manuscrito de um texto sobre arte pós-moderna, que está sendo decifrado pelos especialistas.







sábado, 5 de fevereiro de 2011

2472) Os polícias e os bandidos (5.2.2011)




O romance O Homem Duplo (“A Scanner Darkly”) de Philip K. Dick conta a história de Fred, um agente da polícia de Los Angeles, encarregado de vigiar um tal de Bob, dono de uma casa cheia de malucos que passam o dia tomando drogas alucinatórias. 

As drogas são tão pesadas que Bob não sabe que ele e Fred são a mesma pessoa. Toda vez que sai de casa, ele vai à polícia, veste uma roupa de camuflagem eletrônica (que projeta imagens falsas de seu rosto e de seu corpo) e volta àquele quarteirão, desta vez na pele do Agente Fred, para vigiar a própria casa onde mora – só que ele não sabe disso, porque agora é Fred, e pensa que Bob é outra pessoa.

O dilema esquizofrênico entre o Bem e o Mal, a Lei e o Crime, o Sistema e a Revolução, etc., é um subtema constante na literatura do nosso tempo, porque sabemos que não faz muita diferença pertencer a um ou a outra. 

Lembro de um conto de pacto-com-o-Diabo: um sujeito recebe de noite a visita de Lúcifer, que lhe oferece a vida eterna em troca de sua alma. O sujeito, que nunca tinha ligado a mínima para religião, se apavora, manda o Diabo pro inferno e corre até a igreja mais próxima para se aconselhar. 

O padre ouve a história dele e propõe batizá-lo e dar-lhe a comunhão. “Para que?”, pergunta ele. “Ora,” diz o padre, “porque, desse modo, quando você morrer sua alma vai para o Céu e viverá lá eternamente, junto de Deus”. O cara protesta: “Muito bonito! Então todos dois estão me propondo o mesmo negócio?!”

Sim. O Bem e o Mal, a Lei e o Crime, etc etc., são a mão direita e a mão esquerda do charlatão cósmico que nos propõe um só negócio: ser o nosso dono. 

Quem leu o 1984 de Orwell deve lembrar que o protagonista, Winston, é recrutado para agir numa célula subversiva coordenada por um tal de O’Brien. Quando ele se entrega totalmente a essa atividade libertária, fica sabendo que O’Brien era um agente do governo cuja função era atrair gente insatisfeita para falsas células subversivas, e prendê-los todos de uma vez só.

Não é muito diferente da situação básica de outro clássico do humor negro britânico, O Homem que era Quinta-Feira de G. K. Chesterton, em que o personagem é um policial disfarçado que se filia a uma organização subversiva, com a intenção de desmascarar e prender todos os participantes, e com o passar do tempo começa a perceber que todos os outros são policiais infiltrados, como ele. Nenhum é subversivo.

Chesterton publicou esse livro em 1908. Nessa mesma época, segundo Marshall Berman (Tudo que é Sólido Desmancha no Ar) havia na Rússia grupos terroristas que eram, sem o saber, controlados pelo Ministério do Interior. O chefe de um desses bandos, Evni Azev, acabou coordenando o assassinato do seu próprio empregador, o Ministro do Interior, Viacheslav von Plehve. 

Chesterton, Dick e Orwell não eram profetas nem visionários. Eram apenas sujeitos que conheciam a tendência do Charlatão Cósmico para o humor negro.






sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

2471) O mistério Krapotkin (4.2.2011)



“A semelhança eufônica com o nome do famoso anarquista poderia explicar, em parte, o relativo ostracismo a que o escritor russo-brasileiro Krapotkin foi estranhamente relegado", comentou o crítico J. Silveira sobre o fato de que até o Google localiza com dificuldade as (poucas) páginas dedicadas ao excêntrico romancista. Criador de uma Oulipo “avant la lettre”, e várias vezes comparado a Borges (cuja obra aparentava desconhecer ou desdenhar), ele não tem relação com Piotr Kropotkin (1842-1921), reverenciado por anarquistas e libertários do mundo inteiro, principalmente entre os jovens (ainda hoje, em manifestações contra o G-8, em Davos ou em qualquer parte, veem-se jovens “punk” com cabelo moicano azul empunhando posters do barbudo e atarracado pensador russo). Já o escritor, Nikolai Krapotkin (1916-1995), teve a possível má sorte de emigrar em 1945 para o Brasil, onde produziu sua obra e onde se enterrou para sempre no âmbar translúcido da nossa língua, que se tornou para ele, como para tantos outros, “esplendor e sepultura”.

“Há um poço subterrâneo, de trajeto caligráfico, ligando Rússia e Brasil”, escreveu Krapotkin num artigo publicado em 1961 na Revista do Livro, “uma corrente de energia psíquica entre territórios tão apartados e distintos; ela produz a mesma crispação cósmica arrebatando o intelecto, a mesma fascinação com a clareza da álgebra e com as sombras do incognoscível”. Krapotkin publicou aqui Ouroboros (1965), Mardi Gras (1972), O Livro dos Jogos (1978) e o póstumo (inacabado) O Livro das Superstições (2011). Seu roteiro de ficção científica O Livro Invisível (não filmado, publicado em 1990) só pode ser chamado de FC, segundo um crítico, “no sentido em que Alice in Wonderland pode ser chamado de literatura infantil”.

Krapotkin era um escritor fora-de-esquadro (a seu respeito, ver: http://tinyurl.com/4nf5f28). Com notória facilidade para idiomas (escrevia nas principais línguas européias), utilizava de modo surpreendente o português, desconcertando e divertindo o leitor. Contudo, sua principal força não é no nível estilístico, mas no estrutural. Assim como Italo Calvino, Harry Stephen Keeler ou Milorad Pavich, sua originalidade estava principalmente na estrutura interna da narrativa e no modo como organizava a sucessão de peripécias. Seu uso de cartões perfurados, como os dos antigos programas de computador, foi visto por alguns críticos como uma influência de Nabokov; mas essa semelhança superficial foi desmentida por Antonio Biely num artigo da saudosa revista Nicolau, de Curitiba.

Um grupo de abnegados está exumando a obra de Krapotkin, grande parte da qual (como sua volumosa correspondência literária, meticulosamente preservada em cópias carbono) continua inédita. Especula-se também sobre sua utilização de pseudônimos, pois mais de uma vez queixou-se de que seu verdadeiro nome era visto com desconfiança pelo leitor brasileiro.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

2470) Jekyll Estripador (3.2.2011)



(gravura de Barry Moser)

O trocadilho infame deste título poderá ser perdoado por alguns leitores, se eu os convencer da importância do intercâmbio entre literatura e vida, ou, no presente caso, entre literatura de crime e crime de verdade. O Dr. Jekyll é o personagem do livro de R. L. Stevenson conhecido no Brasil como O Médico e o Monstro. É um médico respeitado que, ao tomar uma poção que ele mesmo inventou, transforma-se em Mr. Hyde, um sujeito sádico, violento, que age no submundo e pratica atrocidades. O livro de Stevenson foi publicado em janeiro de 1886 e em junho já vendera 40 mil cópias em Londres. Teve enorme impacto junto ao público e à imprensa, e diz-se que a própria Rainha Vitória o leu.

Dois anos depois os palcos de Londres já exibiam as primeiras adaptações teatrais da obra de Stevenson, quando, entre agosto e novembro de 1888, aconteceram os cinco assassinatos atribuídos a “Jack o Estripador”. Até hoje não se sabe quem foi ele. Assassinou e desfigurou cinco prostitutas, demonstrando razoável conhecimento de anatomia. Entre os inúmeros indivíduos que foram suspeitos dos crimes estavam vários médicos famosos, inclusive Sir William Gull, médico da Rainha. De um momento para outro, portanto, um médico londrino viveu em carne e osso a transformação de Dr. Jekyll em Mr. Hyde, praticou crimes ainda mais sádicos do que os de Hyde, e conseguiu escapar. Ficcionalmente, escapou até de Sherlock Holmes, que nesse ano de 1888 o ignorou, pois estava às voltas com os casos do “Intérprete Grego” e do Signo dos Quatro.

Historiadores perguntam se o sucesso da noveleta de Stevenson teria incentivado algum médico esquizóide a liberar sua porção criminosa. A verdade é que a criminalidade no submundo londrino desse tempo já era muito grande. Os crimes de Jack se sobressaíram apenas por causa da meticulosa violência, da sua serialidade, e da incapacidade da polícia em descobrir a identidade do assassino. Hoje, serial killers são quase um lugar comum. Na época, era algo em que ninguém tinha pensado, e essa ameaça pendente (“ele está solto, ele vai atacar de novo, ele vai fazer aquilo com qualquer pessoa”) alvoroçou a opinião pública.

A polícia de Londres recolheu na época 128 cartas (remetidas para ela própria, para a imprensa ou para outros destinatários) de pessoas que diziam ser Jack. Fala-se que cerca de 40 delas poderiam ser do criminoso. A grande quantidade de cartas com falsas ameaças e falsas confissões demonstra o impacto dos crimes junto à opinião pública. O crime, principalmente o crime brutal, cruel, psicótico, é uma ruptura do Ego da sociedade, por assim dizer. É aquele momento em que as barreiras de controle se rompem e o animal bruto emerge. A literatura de crime é uma forma de liberar essa pressão e de chamar a atenção para a existência dela, sem que o crime ocorra. Se Mr. Hyde foi um pesadelo de Stevenson que virou livro, Jack the Ripper foi um pesadelo de Londres, e virou crime.