quarta-feira, 19 de novembro de 2008

0643) O jardim de infância do Rock (10.4.2005)



Vendo certa vez um documentário de TV sobre a história do rock, algumas cenas me comoveram tanto que deixei de prestar atenção à música e à narração para ficar olhando apenas aquelas imagens. Eram cenas de algum daqueles concertos de rock ao ar livre no fim dos anos 60, quando a “swinging London” estava a todo vapor. Já se viam algumas calças bocas-de-sino, algumas garotas com saias psicodélicas arrastando no chão, e cabeleiras que pareciam arbustos selvagens; mas era ainda no início do processo, e a maior parte do grupo era de rapazes de terno ou pulôver, e moças com os vestidos “tubinho” típicos da época, ou usando jeans, que eram o máximo da ousadia. Ao som de um rock qualquer, eles brincavam de roda no meio de um gramado. Alguns dos rapazes traziam pastas de documento na mão, e não as largavam: a pessoa seguinte na roda segurava com ele na alça, e assim iam dançando. Mocinhas de saia justa faziam o possível para acompanhar o ritmo cada vez mais rápido da roda que girava. Teriam todos eles entre 18 e 25 anos, e a expressão que havia em seus rostos era de êxtase, felicidade, deslumbramento e descoberta.

O rock foi muitas coisas e desempenhou muitas funções, mas uma delas, e não a menos importante, foi proporcionar a rapazes e moças da insuportavelmente repressora sociedade britânica um vislumbre do que é a infância em outras culturas. Qualquer criança de sete anos gosta de pular, virar cambalhotas, tomar banho de chuva, espadanar na lama. Qualquer criança gosta de berrar a plenos pulmões, bater em objetos que produzam barulho, desfilar por dentro de casa vestindo o roupão-de-banho da mãe e o chapéu e os óculos do pai. A imensa energia da explosão biológica que são os nossos primeiros dez anos de vida precisa dessas manifestações externas. Criança precisa produzir em volta de si mesma ecos que confirmem sua existência.

O sistema educacional inglês consistia nos prédios soturnos e asfixiantes dos colégios internos, nos terninhos militarmente impecáveis, no sistema sadomasoquista de castigos e espancamentos. Eu jamais trocaria a infância livre e solta que tive na Paraíba por uma dessas infâncias de Primeiro Mundo que reprimem, massacram, intimidam. Chamo o rock como testemunha. Assistam o The Wall do Pink Floyd, assistam Tommy do The Who para ver o seu lado negro. Já para ver o seu lado luminoso, utópico, tipo “a-infância-que-não-tivemos”, assistam Help com os Beatles. O rock serviu, para essas crianças de paletó educadas à base da vara-de-marmelo, como uma libertação provisória do sadismo de pais, monitores e professores. De repente era possível vestir roupas espalhafatosas, dançar no meio da rua, fazer barulho sem ficar de castigo. Mais do que a permissividade sexual, ou bem antes dela, o rock trouxe para aqueles jovens a percepção de que ter um corpo pode ser uma coisa agradável, e de que todo mundo tem o direito de ter sido criança em algum momento da vida.

0642) Os aventureiros e os exploradores (9.4.2005)


(O Flâneur)

Num prefácio a um romance de Arthur Machen, David Trotter vê a literatura policial inglesa do século 19, como outros a viram antes dele, como um produto da vida nas grandes cidades, da efervescência social urbana, que gera não apenas o crime, mas todo o entrecruzamento de ações, motivações e interesses ocultos que cabe a um detetive deslindar, para entender o Quem, o Como e o Por Quê de um crime. O detetive é alguém que percorre a cidade, mistura-se a todas as classes, entende como pensam e como agem, é capaz de interpretar todos os sinais da mecânica social que vê à sua volta.

Trotter faz uma comparação interessante entre o detetive e o “flâneur”, o caminhante despreocupado, tipo criado por Baudelaire para definir o homem urbano sofisticado, culto, dotado de sensibilidade poética e de curiosidade insaciável. Para Baudelaire, cabia ao poeta e ao “flâneur” a tarefa de “registrar o surgimento da modernidade nas ruas da metrópole”. Trotter vê no detetive alguém que vai um pouco mais longe: “O flâneur quer apenas observar e ser observado. Ele não se propõe a fazer o que quer que seja com as informações que reúne. Ele se detém no umbral do significado, constantemente instigado a pensar, mas não querendo, ou não podendo, transformar esse seu pensamento em ação”. O contrário disto é o detetive, conforme se auto-descreve um personagem de “The Dynamiter” de Robert L. Stevenson: “Aqui, todas as nossas qualidades importam. Nosso comportamento, nosso conhecimento do mundo, talento para a conversação, vastas quantidades de informações dispersas, tudo que somos e possuímos vem se somar para compor o caráter de um detetive. Esta é, para resumir, a única profissão indicada para um cavalheiro”.

Esta pequena, sutil e essencial distinção é equivalente à que li há pouco tempo numa entrevista do espeleólogo Bill Stone para a revista Wired. Stone é engenheiro, inventor, e sua ocupação principal é explorar cavernas subterrâneas, muitas delas cheias dágua. Nadar num lago a 1.500 metros de profundidade, na treva total, sem saber o que há do outro lado, faz parte do dia-a-dia dele. Stone já perdeu 16 colegas nestas expedições e em pelo menos sete casos teve que resgatar seus corpos pessoalmente.

Stone diz ao entrevistador que não se considera um aventureiro, e sim um Explorador. A diferença, diz, ele, reside numa única palavra: Informação. “Se você não volta da aventura trazendo dados, não fez nada”, diz ele. “É uma simples façanha. Uma simples história para contar. Mas você não realizou nada”. O Detetive nos nebulosos anos 1850 exprimia um novo tipo de relação entre o Homem e sua Cidade, mas o Explorador nestes anos 2000 mostra que esta é a antiqüíssima relação entre o Homem e seu Universo. O Explorador é aquele que arrisca a vida para descobrir um continente, descobrir a nascente de um rio, trazer uma pedra da Lua. E o que ele busca não é continente, rio ou pedra: busca o Conhecimento.

0641) O poder do dinheiro (8.4.2005)


A gente classifica as pessoas pelo que elas ganham ou pelo que gastam, mas não vejo na revista Forbes nenhuma lista de “Os 50 Indivíduos que Melhor Aplicam Seu Dinheiro”. Talvez porque, se pesquisassem mesmo, iriam descobrir que 40 dessas vagas seriam preenchidas por donas-de-casa de bairros operários, que fazem o milagre-dos-pães todo dia, antes do café da manhã.

Muita gente critica os livros de auto-ajuda que abarrotam nossas livrarias. Que tem muita besteira, tem. (Em qualquer estante ou balcão de livraria, metade é besteira. Não é questão de gênero.) Pois a auto-ajuda mais importante que eu vejo são esses livros do tipo “Aprenda a lidar com dinheiro”, “Como ganhar e como gastar”, “O segredo da inteligência financeira”... Estou inventando os títulos, porque na verdade nunca li nenhum livro desses. Se um livro ensina a lidar com muito dinheiro, não me interessa, nunca vou precisar mesmo. Se ensina a lidar com pouco, não preciso: sou PhD no assunto.

Passo cerca de um terço do meu tempo acordado pensando em dinheiro. Adoro dinheiro. Não tem melhor sensação na vida do que quando a gente passa no caixa e recebe um cheque pesado, daqueles que se a gente botar no bolso da camisa vai andar meio “penso” para um lado. E não tem sensação melhor para a auto-estima do que abrir o extrato do Banco e ver aquele saldo que parece um CEP. Dá uma sensação de super-poderes. Eu começo logo a me achar bonito.

Digo isto porque nós, os poetas, os artistas, os filósofos, temos fama de sermos indivíduos espiritualizados, que não dão atenção a essas mesquinharias da vida prática: deixamo-las para raças mais rudimentares, como os comerciantes e empresários. Pois em verdade vos digo, amigos, que nenhum comerciante acaricia um centavo recém-ganho com mais volúpia do que este modesto filósofo. Freud dizia que o dinheiro não traz felicidade porque não é um desejo de infância. Concordo que não traz a Felicidade, mas traz para mim algo mais importante do que a Felicidade: a possibilidade de comprar livros e CDs importados, a possibilidade de liquidar as malditas contas que jazem enfiadas entre a CPU e a impressora, a possibilidade de passar um ou dois meses escrevendo e lendo apenas o que me dá na telha.

Uma vez me perguntaram por que nunca fiz sucesso, e respondi de improviso que é porque estou satisfeito com a classe social a que pertenço. Todo mundo que persegue o sucesso quer ficar mais rico do que seus pais foram; eu nunca quis. Pense num “cába” com DNA de classe média! A ânsia de riqueza impele para o estrelato os sertanejos que vão para a cidade grande, os suburbanos cujo sonho é uma cobertura na Zona Sul, os filhos de operários que não sentem propriamente inveja do destino paterno. Todo esse pessoal corre atrás do dinheiro pensando em subir para o andar de cima. Eu, curiosamente, me acostumei com este lugar aqui onde meus pais me deixaram, só quero é poder curtir a janela e a paisagem.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

0640) Autobiografias (7.4.2005)



“Resuma sua vida em umas poucas palavras”. É um desafio inquietante, mas milhares de indivíduos já o enfrentaram, quando tiveram de colocar um título em suas autobiografias. Não direi que o título de um tal livro define a personalidade de quem o escreveu, até porque na confecção desses títulos influem também a vaidade, a arrogância, a falsa modéstia. Em todo caso, é como dizem os psicanalistas: “Tudo que não vale como verdade vale como sintoma”.

Minha Vida é de todos o título mais invisível, mais anódino, um título-placebo que todo mundo já escolheu, do incendiário Leon Trotsky ao vaselinoso Bill Clinton. Mais sutil é o título escolhido por Rudyard Kipling, que intitulou suas discretas memórias Something of Myself, título que para Jorge Luís Borges era justo mas podia ser melhorado para “Very Little of Myself”. Robert Bloch, o autor de Psicose, recorreu a um trocadilho, Once around the bloch, que numa possível tradução brasileira poderia ser adaptado para O Bloch do eu sozinho.

A primeira autobiografia que li foi Pelos caminhos de minha vida, de A. J. Cronin (sim, amigos, era um de meus autores prediletos na adolescência, e ainda gosto); a segunda foi Meus verdes anos de José Lins do Rego. Títulos com um sentimentalismo à beira da pieguice, o que deve ser evitado. Gosto de títulos presunçosos mas bem-humorados como o My wicked, wicked ways (algo como “Minhas sacanagens”) do grande mulherengo que foi o ator Errol Flynn. Mas acima de tudo prefiro os títulos misteriosamente poéticos como The Motion of Light in Water (“O movimento da luz na água”) do escritor de ficção científica Samuel R. Delany, ou A Postillion Struck by Lightning (“Um cocheiro atingido por um raio”) do ator Dirk Bogarde. O filho de Charles Chaplin, Michael, intitulou seu livro de memórias I couldn´t smoke the grass on my father´s lawn (“Nunca fumei maconha no jardim de meu pai”), mas, dadas as propriedades notoriamente amnesíacas do THC, pode ser que ele esteja equivocado.

O escritor Medeiros e Albuquerque tem um título autobiográfico encantador: Quando eu era vivo. Com sutileza, ele admite, num mesmo gesto, sua morte e sua imortalidade. José Américo de Almeida intitulou suas memórias com o precavido Antes que me esqueça, enquanto o diretor de TV Daniel Filho optou pelo angustiado (e talvez profético) Antes que me esqueçam.

O cineasta Roger Vadim produziu um dos títulos de autobiografia mais surpreendentes (embora, em retrospecto, previsível, e até inevitável): Bardot, Deneuve, Fonda. Ninguém perdoou ao grande conquistador resumir sua própria vida ao nome de suas ex-esposas mais belas e mais famosas – como já não lhe tinham perdoado a conquista de cada uma das três. Calma, colegas. Tiremos o chapéu com respeito para um sujeito que, não importa se seus filmes eram bons ou maus, foi contemplado não apenas uma, mas três vezes consecutivas, com o Paraíso.

0639) A dor e a delícia (6.4.2005)




(Pablo Picasso)

Algum tempo atrás falei aqui que escrevo esta coluna “com um pé nas costas”, e que ela não me exige nenhum esforço mental. Gostaria de corrigir esta leviandade, se ainda der tempo. Na verdade eu devia estar me referindo ao próprio texto que eu escrevia naquele momento, feito provavelmente enquanto eu bebericava um café e esperava um telefonema. 

Nem tudo é assim tão fácil. Já houve muitos casos em que comecei a escrever sobre um determinado assunto, percebi que não estava tão bem informado sobre o tema como imaginara, e fiquei das duas da tarde às dez da noite lendo alguns livros a respeito. Depois, escrevi o artigo em uma hora, e mandei.

Alguém irá me cochichar que a relação custo-benefício desse trabalho é meio deficitária, mas este linguajar de economês me lembra uma história de meus tempos de estudante. Meu guru João Antonio de Paula, que dirigia o cineclube de escola de Economia, comentou certa vez: 

“Rapaz... Marx era fogo. Ele só falava de um assunto se ele entendesse mesmo. Se ele queria escrever um artigo sobre operários de usina siderúrgica, ele ia no Museu Britânico e lia todos os livros sobre siderurgia que tivesse lá.” 

Por alguma razão misteriosa, esta informação incrustou-se em meu cérebro como um Projeto de Vida, um Estatuto de Conduta. Eu senti naquele exato instante, numa fria tarde belorizontina de 1971, que a vida humana só fazia sentido se um sujeito se comportasse exatamente daquela forma. E continuo achando, embora esta certeza esteja hoje temperada pelo bom senso.

Escrever é pensar em voz alta, é improvisar, mesmo quando a gente pesquisa até cair de sono. Nunca sabemos se dez horas de estudo nos renderão uma idéia sequer que se aproveite. O resultado às vezes é inversamente proporcional ao esforço, mas isto não é pretexto para que a gente se esforce menos. 

As boas idéias sempre nos dão a impressão de terem caído do céu. Dizia um poeta francês: “On ne cherche pas, on trouve”. A gente não procura: acha. (Fui dar uma peruada no Google: a frase é atribuída a Picasso, mas eu pensava que o autor era Alfred de Musset, Alfred de Vigny, um desses caras.)

Todo trabalho envolve a dor de ficar procurando em vão e a delícia de ver uma idéia genial cair do céu no colo da gente. Mas mesmo quando a idéia cai do céu o sujeito ainda tem trabalho. É preciso levantar da poltrona, pegar o caderno, pegar a caneta, e ficar prendendo a idéia no papel para que ela não saia voando pela janela e vá pousar no juízo de alguém mais disposto. 

Sabem por que os grandes cantadores de viola improvisam aqueles versos tão geniais? Porque improvisam o tempo todo. Quando você vir um cantador calado, o olhar perdido no teto, ou paradão no ponto de ônibus, ou fumando um cigarro no terraço, pode ter certeza de que ele está fazendo sextilhas, está glosando motes que ele mesmo inventa, está produzindo pepitas de ouro e jogando-as de volta ao rio, para procurar por elas quando alguém um dia lhe pedir uma.







0638) Monteiro Lobato (5.4.2005)



Cresci devorando os livros infantis de Monteiro Lobato. Li cada um deles mais de trinta vezes. Alguns, como História do Mundo para as Crianças ou Emília no País da Gramática, não menos de cem. Por que? Acho que porque eu era meio burrinho e acabava me esquecendo. Só sei que a releitura sempre me deu tanto prazer quanto a leitura inicial.

Nunca me dei bem com a literatura adulta de Lobato, que mesmo assim tem vários contos bons. Mas o linguajar era pomposo, o que nos mostra que as crianças de 1930 eram mais contemporâneas nossas do que os adultos. Sessenta, setenta anos depois de escritos, os livros do Picapau Amarelo mantêm uma fluência espantosa de narração, de descrição, de diálogo, de peripécias. Claro que alguns livros são meras dramatizações para fins didáticos, de ensino de história, geografia, física, astronomia. Mas mesmo no interior destes há episódios de enorme originalidade. Não posso imaginar melhor introdução à mitologia grega do que O Minotauro e Os Doze Trabalhos de Hércules.

Sua trilogia de ficção científica é muitíssimo original. Viagem ao Céu (1932) daria um belo filme de animação, com o seu São Jorge, seus marcianos cheios de crocotós, a cena da patinação nos anéis de Saturno. A Chave do Tamanho (1942) é talvez nosso primeiro livro sobre miniaturização de seres humanos, e um livro curiosamente cruel e sombrio, refletindo talvez a época da Guerra. A Reforma da Natureza (1941) mostra Emília fazendo alterações absurdas no mundo natural, agigantando insetos, tudo que o cinema americano faria na década seguinte.

Os seus livros com temas especificamente rurais são deliciosos: O Saci (1921), Caçadas de Pedrinho (1933). Sem falar no mais rico de todos, Reinações de Narizinho, de 1931, mas cujas histórias isoladas já vinham sendo publicadas desde 1920. Nos livros de Lobato, os garotos do Sítio contracenam com Dom Quixote, Tom Mix, heróis da Mitologia grega, cientistas americanos, São Jorge e Peter Pan. Sua salada cultural tem a impressionante credibilidade das histórias escritas por quem escreve pensando na história, e não em si mesmo ou no mercado editorial.

Monteiro Lobato foi um entusiasta da civilização norte-americana, embora tivesse dela uma visão distorcida, como mostrou em seu livro adulto de FC, O Presidente Negro. Vivendo num Brasil rural, que saía da hibernação do Império para a modorra da República, ele via nos EUA um sonho futurista de eficiência, seriedade, pragmatismo e espírito científico. Fico imaginando como veria o Brasil de hoje, que está se americanizando da pior forma possível, absorvendo a negação dessas qualidades com que ele sonhava.

Existem bons autores de livros infantis hoje em dia, mas foram Lobato e Malba Tahan os escritores que formataram a cabeça de sucessivas gerações de brasileiros. Graças a eles, dezenas de milhões de garotos como eu escaparam da burrice. Um país que tem dois escritores como estes não pode dar errado.

0637) As horas vagas (3.4.2005)




(gravura de Hokusai)

Tenho olho para perceber padrões recorrentes, eventos que se repetem de forma regular. Fiquei sabendo que o ator John Travolta gosta de pilotar aviões, e é dono de vários – estou falando de Boeings, não de jatinhos. E já sabia que o ex-técnico da Seleção, Carlos Alberto Parreira, pinta paisagens marinhas a óleo, as quais são até boas, considerando que as possibilidades de inovação no gênero andam por uma peínha de nada. Arthur C. Clarke é conhecido como escritor de ficção científica, mas a maior parte de sua vida foi dedicada ao mergulho submarino, e por isto mesmo foi morar no Sri Lanka, onde a água é mais confortável do que a da Inglaterra.

Einstein adorava tocar violino, e o fazia pessimamente, mas quem era doido de dizer que o maior gênio da humanidade não sabia fazer isso ou aquilo? Muito mais sorte têm músicos como Paulinho da Viola e Geraldo Azevedo, que são extremamente jeitosos com o serrote e o formão, e fazem trabalhos de marcenaria elogiado por todos. Nem todas as ocupações paralelas são tão louváveis como estas: descobrimos há pouco que o publicitário Duda Mendonça se dedica à briga-de-galos, um esporte absurdo e brutal cuja idéia só pode ter ocorrido a uma alma raposeira. Cadeia nessa galera!

Muitos indivíduos têm uma face pública, profissional, que os define aos olhos da sociedade, e muitas vezes essa atividade é a que eles escolheram para definir sua missão na Terra. É o que eles vieram fazer aqui. Mas as pressões profissionais são tão grandes que eles começam a inventar uma outra atividade, uma missão paralela desconhecida do público, e por isto mesmo mais pacífica, sombreada, amadorística, com aquele gosto relaxante de arte-pela-arte.

O que fazemos nas horas vagas nos define, tanto quanto o que fazemos nas horas de trabalho. Estas horas são “vagas” não apenas porque são “vazias”, mas porque são “imprecisas, indefinidas”, ninguém nos ordena coisa alguma, ninguém nos pressiona a fazer isto e não-fazer aquilo, e muitas vezes é o mundo que um sujeito cria nas horas vagas que acaba resgatando-o, depois que o que fez em sua profissão se dilui em irrelevância. O chefe-de-gabinete do Ministro Capanema costumava rabiscar nas horas vagas poemas como “A máquina do mundo” ou “A flor e a náusea”. O professor de Geografia e Corografia no Colégio Pedro II dedicava suas horas vagas a produzir poemas como “Monólogo de uma Sombra” ou “Versos Íntimos”. E nem todo mundo sabe que o humorista Jaguar dedicou apenas as horas vagas ao cartum, ao humor e à boemia, visto que seu “tempo oficial” sempre foi dedicado aos fluorescentes cenários do Banco do Brasil.

As horas vagas são muitas vezes as nossas horas mais importantes, e permitam-me um último trocadilho: são vagas porque são ondas, retornam como o mar e nos reconfortam. Elas nos convencem de que precisamos dessas oscilações rítmicas entre o que o Mundo nos exige que façamos e aquilo que nós mesmos resolvemos fazer e não tem Mundo que empate.


0636) O falso bis (2.4.2005)



Não agüento mais o tal do “falso bis” que virou uma moda nos shows, de uns 20 anos pra cá. Depois de uma hora e meia de show, a gente sente que está perto do fim. As músicas vão num “crescendo”, aí depois da mais animada delas a banda finaliza, tira os instrumentos do pescoço, acena, se despede, “Aí galera, valeu, brigadão, vocês são maravilhosos, té a próxima”, e sai do palco. Luzes do palco se apagam, som é desligado.

Aí, duas coisas podem acontecer. Uma delas é a platéia estar tão animada, ou ter gostado tanto do show, que quer mais, mais, mais. Não arreda pé dali, e tome palma, e tome a bater com os pés no chão, e a esmurrar as mesas, gritar, pedir. E os minutos estão se passando. Os músicos já voltaram ao camarim, jogaram no chão as camisas empapadas de suor, passaram uma toalha ou tomaram um chuveiro rápido, um acendeu um cigarro, outro abriu uma cerveja... Aí chega alguém da produção: “Olha, vocês vão ter que voltar ao palco, senão eles quebram tudo, o pessoal tá enlouquecido. Volta lá e faz um bis”.

Quando isso acontece, tudo bem. Mas, pasmem. Em 99% dos shows que ocorrem no Brasil, não é assim. A banda encerra, sai do palco, some nas coxias, e aí as palmas vão morrendo. Todo mundo volta sua atenção para a mesa, as cervejas, os pratinhos, a conta. Todos gostaram do show, estão satisfeitos. Ninguém está batendo palma. Ouve-se apenas o zum-zum-zum da conversa, dos comentários, “adorei aquela música nova”, “você viu aquele solo de bateria, que coisa”, todo mundo feliz com um show que satisfez a expectativa. Aí... de repente... as luzes do palco se acendem! A banda está voltando! O vocalista pega o microfone, “Tudo bem, galera, já que vocês insistem...” Aí cantam duas ou três músicas que não tinham cantado até então. Ninguém pediu que voltassem. Mas eles não querem ir embora sem mostrar aquelas músicas que visivelmente estavam ensaiadas para fazer parte do show.

Se não me engano foi Rita Lee no fim dos anos 1970, na época de “Mania de Você”, quem inventou essa moda: no bis, em vez de repetir uma música, mostrava um pequeno bloco de canções que não tinham sido cantadas ainda no show. Era uma surpresa, uma delícia para a euforia da platéia. Na época foi vanguarda, foi inovação. Hoje, virou cacoete insuportável, repetição mecânica e idiota de um ritual sem sentido. Acabem com isso, coleguinhas. Não tem nada a ver. A gente concede “bis” a uma platéia quando ela pede, e pede muito, depois de dez minutos ininterruptos de gritos e sapateios. Não paguem o mico de voltar ao palco sem ninguém ter chamado. Sabem o que se diz nas mesas? “Oxente, lá vem o besta de novo, não me diga que vai recomeçar tudo...”

Músicos voltam ao palco porque o bis, em vez de ser uma exceção, virou uma obrigação, uma regra besta. Na mentalidade idiota de hoje, show sem bis é porque não prestou. Tá errado. Façam o show de A a Z, e se acharem que ainda não satisfizeram a platéia, então é porque o show é ruim mesmo, arrumem uma lavagem-de-roupa e esqueçam esse negócio de música.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

0635) A culpa é da cerveja (1.4.2005)



Se juntassem toda a cerveja que eu já bebi, e a derramassem toda num só lugar, resultaria em algo parecido com o Mar Cáspio ou o Lago Titicaca. E não me arrependo, porque devo a esta simpática bebida alguns dos momentos mais agradáveis que já vivi. Não por causa dela propriamente dita, mas porque beber cerveja sempre foi para mim um mero complemento da presença de amigos, amigas, violão, muita conversa, muita alegria de viver. A cerveja é como o celofane e a fita colorida no presente de Natal: ajuda a criar um clima, mas não é A Coisa Em Si.

Compulsando velhos cadernos meus, encontrei uma estatística interessante, do tempo de quando o Brasil vivia naquela inflação desesperadora. Toda vez em que eu mexo nesses papéis antigos, eu encontro aqueles cálculos domésticos de fim-de-mês. E está lá: “Aluguel, 15 milhões. Luz, 2 milhões e 500. Gás, 1 milhão e 800. Supermercado, 12 milhões e 300”. E assim por diante. E não me perguntem a moeda: era cruzado velho, cruzeiro novo, sei lá o quê.

Vai daí que para me lembrar do valor das coisas eu associava produtos. E essa anotação que achei era um parâmetro para fixar preço de show. Em 1990-e-pouco eu fiz dois shows na Paraíba, um no Paulo Pontes e outro no Teatro Municipal em Campina. E anotei: “O ingresso custa o mesmo que uma passagem Campina-João Pessoa e que uma cerveja em garrafa”. Quanto seria um ingresso de show hoje? Uns 15 reais. Quanto está a passagem da Real? Da última vez que viajei, estava a uns 12. E agora me respondam quanto custa num bar da Paraíba uma garrafa de cerveja.

Não há coisa mais barata do que cerveja. Aquela latinha pela qual você paga 2 reais num show de rock custa 0,70 no supermercado. Vejam esta resultado da Pesquisa Industrial Anual de Produto (PIA/Produto), feita em 2001. Ela fornece uma lista com os 100 produtos mais vendidos no país. A cerveja, em 1980, estava em 41o. lugar; em 2001 tinha passado para quarto. A substituição da velha garrafa (“leva ali dez cascos na bodega...”) pela latinha contribuiu para este salto, mas acima de tudo eu acho (isto aqui é mera suposição minha) que o que houve foi uma enorme “expansão da base consumidora”.

Qualquer pirralho de 14 anos hoje em dia já está encarando uma desce-redondo, uma boa ou uma número um. No país da economia informal, muita gente descobriu que comprar latinhas a menos de um real e vender pelo dobro é bom negócio, quando você leva um isopor prum show de rock e vende 200 numa noite. Milhares de pais e mães de família sobrevivem catando latinhas de alumínio para reciclagem. Isto é o lado positivo desta curiosa situação econômica em que aumenta a demanda de um produto e o preço, em vez de subir, cai. Se me perguntassem: “Queres um Ministério? Queres uma ilha no Caribe? Queres um campo de petróleo no Oriente Médio?”, eu responderia: “Não quero nada disso, ó tetrarca. Eu quero uma cervejaria, e todo esse resto vem na seqüência”.

0634) O leitor Borges (31.3.2005)



A obra de Jorge Luís Borges vem sendo editada no Brasil com uma minúcia digna de aplausos, mas ainda espero ver à disposição do leitor brasileiro um livrinho que tenho achado essencial para entender o escritor argentino. Trata-se de Textos Cautivos (Madrid, Alianza Editorial, 1998). É um volume de bolso, com 342 páginas, que reúne os textos publicados por Borges entre 1936 e 1939 na revista El Hogar de Buenos Aires. Neles já estão presentes as idéias e as influências do futuro ficcionista: a noção da metafísica como literatura, as indagações sobre o Espaço e o Tempo, a identificação com a novela britânica e com os romances policiais. São 13 pequenos ensaios sobre temas gerais, 48 biografias sintéticas de escritores que vão de Benedetto Croce a Virginia Woolf, 130 resenhas de obras variadas, e 16 fragmentos curtos.

O livro dá uma visão geral de Borges no momento decisivo de sua vida. Àquela altura, ele era conhecido como poeta, e já tinha publicado alguns de seus melhores livros de ensaios (Discussão, História da Eternidade). Em 1938 seu pai morreu, deixando-o (pelo menos nominalmente) como o chefe da família; e no Natal daquele ano Borges sofreu um acidente, um corte na cabeça que infeccionou, deixando-o por duas semanas em perigo de vida. Estes fatos podem ter contribuído para que, ao se dedicar à prosa de ficção a partir daí, ele tenha concentrado nela todo o seu projeto literário – com os resultados que já sabemos.

Um mito que estes artigos desmontam é o de que Borges era um leitor preguiçoso, que não gostava de ler romances. Ele se queixava, com certa ironia, de não ter podido ler até o fim Madame Bovary ou Os irmãos Karamazov; dizia ser um leitor de contos, tendo lido alguns poucos romances “apenas por um senso de obrigação”. Tenho visto esta citação sendo repetida a torto e a direito, e gostaria de fazer-lhe uns pequenos reparos. Vejo, por exemplo, o que diz Borges em 19 de maio de 1939 sobre o romance policial The Four of Hearts de Ellery Queen: “Li em duas noites os vinte e três capítulos que compõem ‘The Four of Hearts’ e nenhuma de suas páginas me entediou”. Comentando o romance sentimental Maria do colombiano Jorge Isaacs, ele contesta os críticos que consideram o romance ilegível, e depõe: “Só posso dar meu testemunho de haver lido ontem sem dor as trezentas e setenta páginas que o compõem, suavizadas por gravuras em zinco. Ontem, no dia vinte e quatro de abril de 1937, das 2:15 da tarde às 8:50 da noite, o romance Maria era bastante legível.”

Borges era um leitor capaz de devorar romances populares e obscuros tratados metafísicos em alemão ou latim, mas desistia, impaciente, na metade de alguns clássicos do romance psicológico e realista. Longe de ser um leitor preguiçoso, era um leitor calejado e, ao que parece, com aquele imenso poder de concentração mental reservado aos míopes e tímidos. Um leitor temível, a quem não era fácil agradar.