quarta-feira, 7 de outubro de 2020

4628) Os que voltaram da Morte (7.10.2020)



Há um filme francês chamado Les Revenants (2004; em inglês, They Came Back) com uma premissa fantástica desenvolvida de maneira curiosa.
 
A premissa é que um belo dia os mortos voltam à vida.  Na cena inicial do filme eles saem do cemitério, caminhando devagar, mas não são como os zumbis. Voltam intactos, vivos mesmo, aparentemente saudáveis, trajando roupas limpas e normais. Seriam as mesmas pessoas que foram um dia, se não fosse o fato de algumas semanas, ou meses, ou anos atrás terem falecido e sido sepultados por suas famílias.
 
A cena inicial do filme, arrepiante, mostra esse êxodo vagaroso de pessoas bem vestidas, de cabelos brancos, saindo do cemitério numa procissão silenciosa e introvertida.
 
Voltam, inteiros, mas meio amnésicos. Parecem não saber que tinham morrido. Alguns se dirigem de volta a suas casas, outros ficam vagando. As autoridades providenciam espaços para recolhê-los, em galpões, em ginásios, porque são milhares que ressuscitam do dia para a noite. É como se fosse uma invasão de refugiados; ou de desabrigados por um furacão, algo assim.
 
Um dado comum a todos é essa amnésia, essa relativa ausência, esse descolamento da realidade. Falam pouquíssimo, e quando falam é para dizer banalidades, frases cotidianas, como se a vida fosse a vida normal de sempre mas eles estivessem meio tontos, meio convalescentes, meio maldormidos.
 
Lembrei do que acontece no livro Aniquilação (2014) de Jeff VanderMeer. Nessa história, algumas expedições militares são enviadas à misteriosa “Área X”, que parece ter sido bloqueada por uma força alienígena. As pessoas que entram ali não voltam mais, mas há algumas exceções. A Bióloga (um dos personagens principais) conta assim como o seu marido, um dos expedicionários, reapareceu inesperadamente em casa:
 
Uma noite, cerca de um ano depois que ele tinha partido para a fronteira, eu estava deitada sozinha na cama, e ouvi alguém na cozinha.  Armei-me com um bastão de beisebol, saí do quarto e acendi todas as luzes da casa.  Encontrei meu marido junto do refrigerador, ainda vestindo seu uniforme da expedição, bebendo leite e derramando-o pelo queixo e pelo rosto, e devorando furiosamente restos de comida.
 
Fiquei sem fala.  Só conseguia olhar para ele como se ele fosse uma miragem e se eu me mexesse ou dissesse qualquer coisa ele iria se dissipar no nada, ou em menos do que nada.
 
Sentamos os dois na sala, ele no sofá e eu numa poltrona em frente.  Eu precisava de alguma distância em relação àquela aparição repentina.  Ele não sabia dizer como tinha deixado a Área X, não lembrava absolutamente de como tinha chegado ali em casa.  Tinha apenas uma vaga lembrança da expedição propriamente dita.  Demonstrava uma calma estranha, rompida apenas por alguns breves momentos de um remoto pânico, quando eu lhe perguntei o que acontecera e ele reconheceu que sua amnésia não era natural. (...)
 
Depois de algum tempo, não aguentei mais aquilo.  Tirei a roupa dele, obriguei-o a um banho de chuveiro, depois levei-o para o quarto e fiz amor com ele, eu por cima.  (...) O tempo inteiro em que esteve dentro de mim ele ergueu os olhos para o meu rosto com uma expressão que me disse que ele lembrava, sim, de mim, mas somente através de uma névoa.  (...) O que quer que tivesse acontecido na Área X, ele não tinha voltado.  Não mesmo.
(trad. BT)
 
É mais ou menos assim que reagem as pessoas “retornadas” do filme escrito e dirigido por Robin Campillo. Algumas são idosas, e seu alheamento nos dá uma arrepiante impressão de Alzheimer. Casais jovens, sem filhos, sentam numa sala de visitas olhando um para o outro, e em certos momentos a gente não sabe se quem retornou da morte foi ele ou foi ela.



Alguns erguem-se no meio da noite, vestem a roupa e saem caminhando devagar de volta à repartição onde trabalhavam, aparentemente sem perceber que são três horas da madrugada. Reúnem-se. Manuseiam mapas, falam em voz baixa, como se tentassem se lembrar coletivamente; são rituais ominosos e patéticos. Parecem com a Ilha do Dr. Moreau de Wells: os conciliábulos dos bichos-homens repetindo ladainhas e tentando convencer-se de que são pessoas normais.
 
E ao que parece ninguém toca no assunto. Os familiares procuram poupá-los (e a si próprios) de perguntas terríveis tipo “como é estar morto?”. Tratam-nos como em tantos lugares se tratam os soldados que voltam da guerra traumatizados. Procuram facilitar tudo para eles, e ninguém toca jamais naquele assunto.
 
As matérias sobre o filme lembram de Invasion of the Body Snatchers, filmado em 1956 por Don Siegel e em 1978 por Philip Kaufman. A única semelhança é a atitude meio sonâmbula que nestes dois filmes acomete as pessoas que foram “invadidas” pelos alienígenas; no mais, semelhança nenhuma.
 
O saite IMDB cita o nosso Incidente em Antares de Érico Verissimo, por esse retorno dos mortos; mas, mais uma vez, a semelhança se esgota no ponto inicial. No filme francês, os mortos estão limpos e intactos, mas têm um comportamento passivo e ausente; no livro de Érico, apresentam uma leve decomposição, mas falam, riem, discutem, têm muito mais iniciativa, estão até mais “vivos” do que muitos outros personagens.
 
O filme tem alguns desdobramentos meio inexplicados, e me passa impressão de um sintoma muito comum nas narrativas da literatura e do cinema. São as histórias de Começo e as histórias de Fim. Às vezes a gente tem uma idéia sensacional para o começo de uma história, mas não sabe onde aquilo vai dar. Outras vezes, a gente imagina um desfecho arrasador, mas precisa inventar um começo que conduza até aquele ponto.
 
Les Revenantes é claramente uma História de Começo; “E se os mortos voltassem?...”, etc etc.  O final do filme sugere dois ou três desenvolvimentos, nenhum deles conclusivo – não é um filme com desfecho, é um filme que se esvai aos poucos. (Li por aí que foi adaptado para uma série de TV que já vai com duas temporadas; não creio que uma idéia tão tênue possa render muito, esticada a esse ponto).
 
O mais interessante do filme é esse clima de indecisão, de imprecisão, de perguntas não respondidas. Que lembra as palavras de Arthur Rimbaud em Uma Estadia no Inferno:
 
“Fraqueza ou força: repara bem, é a força. Não sabes aonde vai nem por que vais, mas entra em toda parte, aberto a tudo. Não te matarão mais do que se já fosses cadáver.”  Pela manhã, meu olhar era tão vago e minha aparência tão morta, que as pessoas que encontrei talvez nem me tenham visto.
(trad. Ivo Barroso)
 
 
 
 
 







domingo, 4 de outubro de 2020

4627) Falando paraibês (4.10.2020)

 


Digo paraibês por comodidade, mas muitas das falas listadas aqui são patrimônio vocabular de todo o Nordeste, e se brincar de outros Estados do Brasil. (Este “se brincar”, por exemplo, me parece paraibês puro, mas certamente não nos é exclusivo.)
 
Gosto de anotar essas frases, que me trazem o sabor de uma linguagem regional com muito mais força do que palavras isoladas.
 
AÍ É QUE O CANCÃO PIA -- Equivale aproximadamente a “aí é que a porca torce o rabo”.
 
NA LAPA DO MUNDO – De mundo afora; pela vastidão do mundo.  “Pois é, cantador de viola é como caminhoneiro, tem que viver na lapa do mundo”.
 
No mundo das mudernage
Não parava de sonhá
Só sonhava com fartura
Riqueza, luxo e gozá
Foi premêro sem segundo
Ganhou a lapa dos mundo
E nós fiquemo pro cá.

(Jessier Quirino, “Cumpadre Zé de Cirila foi morrê em Boi nos Are”, em Paisagem de Interior, pag. 49)
 
E BOTE FORÇA --  Um aditivo de quantidade, em expressões como: “Ela já é meio coroa... deve ter uns 40 e bote força”.   “Fulano ficou de passar lá em casa onze horas, mas quando apareceu já era meio-dia e bote força”. 
 
PARADA FEDERAL -- Expressão elogiosa: “Fulano é parada federal!  Entrou faltando dez minutos, fez dois gols e virou o placar!”  Frequentemente se abrevia para “Fulano é parada!”.  Também se usa: “Não provoque Fulano não, que a parada ali é federal”. “Parada”, curiosamente, se usa no mesmo sentido de agora, de qualquer situação ou circunstância com que a gente se envolve; os jovens dizem: “Vou numa parada ali e volto já”.
 
EMENDAR OS BIGODES -- Brigar; ir às vias de fato.  “Eles nunca tinham simpatizado um com o outro, mas ontem no bar emendaram os bigodes de verdade.”
 
BOTA POR CIMA! – Desafio furioso que se grita quando um motorista "tira um fino" na gente.  Subentende-se o sentido de « Passa por cima de mim ! »  "Eita, fila da puta!   Bota por cima!  Se é pra matar a gente, mata logo!" 
 
UMAS-E-OUTRAS -- A acepção principal (esta generalizada em todo o Brasil) é de “uns tragos de bebida”: “Vamos tomar umas-e-outras ali no bar da esquina”.  Esta acepção tem também uma forma intensificada, quando se fala de bêbados inveterados: “Fulano não toma mais umas-e-outras: toma algumas-e-muitas.”
 
O segundo uso deste termo é um tratamento meio distraído, meio desdenhoso, que se dá a uma pessoa pouco importante (um criado, um moleque, um estranho ao grupo), por desinteresse de perguntar-lhe o nome: “Ô umas-e-outras, pega esse dinheiro aqui e me compra uma carteira de cigarros”.  “Mas Fulano, isso é hora de chegar!   Só não lhe dou um esporro porque você trouxe o umas-e-outras aí com você e eu não quero dar má impressão.”   É omo se dissesse: “esse Fulano aí”.
 
SE EU CAIR POR CIMA DE TU, SÓ FICA O PROJETO -- Ameaça brincalhona que se faz a alguém, geralmente para destacar a diferença de estatura física entre os dois.
 
GARÇONETE NA CEIA LARGA -- Usa-se para dizer ironicamente que uma mulher é muito mais velha do que aparenta, ou do que afirma ser.  “Quem?  Fulana,  tem 25 anos?  Rapaz, aquela ali foi garçonete na Ceia Larga!”  A Ceia Larga é a “Última Ceia” de Cristo com os apóstolos.
 
MAIS DIFÍCIL DO QUE TANGER UMA CORDA DE CARANGUEJOS -- Comparação brincalhona, usada geralmente num contexto semelhante: "Andar com cinco meninos por dentro dum Parque de Diversões é mais difícil do que tanger uma corda de caranguejos."   Uma "corda" é o modo como os caranguejos são comercializados, amarrados em conjunto num arranjo circular com um "pegador" vertical por onde se segura (não se compram caranguejos isolados, e sim “cordas”). 
 
No caso, subentende-se que a "corda" foi desfeita e alguém está tentando fazer com que os caranguejos soltos corram todos numa só direção.
 
"POEIRA EM ALTO MAR" -- Quando alguém pergunta: "Qual é o filme de hoje?", recebe como resposta um título imaginário e cheio de nonsense.  “Poeira em alto mar” é o mais frequente; outros são: “As Tranças Louras do Rei Careca”, “Judas Cagando no Deserto e Limpando o Cu com Areia”, e “A Volta dos que Não Foram”.  Uma versão mais sacana é o filme “Centelha Vermelha no Escuro” (=sentei-lhe a vermelha no escuro).
 
CAPAR O GATO -- Sair de fininho; ir embora de um lugar sem maiores delongas.  “A festa estava boa, mas quando deu meia noite, a gente capou o gato e foi beber no bar.”   Mudar de planos: “Ele disse que ia pra aula, mas quando chegou na rua capou o gato e foi pro cinema.”
 
TIRA O DEDO! -- Frase brincalhona que se grita, à distância ou às escondidas, quando se vê um casal de namorados trocando carícias muito íntimas em público.  Há uma piada antiga onde, ao ouvir o grito, o namorado, que é um sujeito musculoso, se dirige a um cara magrinho que estava meio distante, e o agarra pela gola: “Foi você que mandou tirar o dedo, cabra safado?”, e o magrinho responde: “Eu mesmo não!  Por mim o senhor pode ficar com o dedo lá o tempo que quiser!”
 
QUEM DISSO USA, DISSO CUIDA -- Pessoas acostumadas a certas práticas desonestas são as primeiras a se prevenirem contra elas.  “--Disseram que o Campinense vai pedir exame anti-doping pro jogo de domingo que vem.  -- Só pode!  Quem disso usa disso cuida!”   R. Magalhães Jr. registra: “Gato ruivo, do que usa, disso cuida”, e cita os últimos versos da estância IX do Canto II de Os Lusíadas: “Que onde reina a malícia, está o receio / Que a faz imaginar no peito alheio.”
 
COSTURO VOCÊ MAS NÃO COSTURO SUA SORTE -- Frase que se pronuncia enquanto, por uma razão qualquer, se costura a roupa de alguém sobre o próprio corpo (para fazer um remendo, ou para experimentar uma roupa nova ainda em acabamento, etc.).  Com isto, afasta-se a possibilidade de trazer azar para a pessoa.
 
COÇANDO A ORELHA DO VALETE -- Diz-se de alguém viciado em baralho.  “O pai dela é muito metido a moralista, mas no fim-de-semana ele vai pro clube e passa a noite coçando a orelha do valete”.  É uma alusão visual ao cacoete repetitivo do jogador que fica puxando a pontinha da última carta que tem na mão.  Uma variante: “Puxando a orelha do valete”.
 
MIL NOVECENTOS E COCADA --  Expressão para designar uma data remota no passado, da qual não se quer nem tentar lembrar com exatidão.  “Esse vestido deve ter estado na moda um dia, mas foi em mil novecentos e cocada”.  Também se diz: “Mil novecentos e lá-vai-fumaça”.
 
DAR UMA GUARIBADA – 1) Examinar superficialmente; fazer uma avaliação rápida de um objeto ou uma situação.  “Eu nem entrei na festa: dei uma guaribada de longe, mas achei que estava muito cheia, e resolvi não entrar”.  “A revista está ótima, eu dei uma guaribada na banca, e comprei na mesma hora”.  2) Fazer uma revisão geral em algo, consertando os defeitos e aproveitando para fazer pequenos melhoramentos. "Vou dar uma guaribada no carro, porque estou pensando em viajar neste fim de semana".  Neste sentido, equivale a "dar uma geral".
 








quinta-feira, 1 de outubro de 2020

4626) A aventura e a morte (1.10.2020)




O que é uma aventura? Gosto da definição de Ariano Suassuna: “Aventura é uma coisa que é muito ruim na hora que está acontecendo, mas, depois, é boa de contar que é danada!”.
 
A palavra definidora, nesse caso, é “depois”. A aventura só presta depois do final, e mais: do final feliz.
 
Enquanto a gente ainda não sabe se vai escapar das flechas dos índios, dos morteiros alemães, das investidas do conde vampiresco, dos raios desintegradores dos alienígenas, a aventura é uma coisa danada de incômoda.
 
Depois de concluída, toda aventura não passa de um episódio da vida sobre o qual não pairam dúvidas, e do qual não emanam perigos. A vida se torna Estória. Um semicírculo de poltronas em volta de uma lareira, noite de inverno, bebidas na mesinha, e a gente dá uma baforada no cachimbo e diz: “Tudo começou no inverno de 1844...”
 
Existe portanto uma contradição essencial entre aventura e estória. Entre vida real e literatura.
 
A aventura vira estória quando passa, e fica congelada no âmbar da memória, onde nada mais pode nos acontecer. Essa aventura é, neste sentido específico, o contrário da vida – a vida real é justamente esse espaço angustioso onde, como disse o poeta Gilberto Gil, “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”. A vida é esta coisa horrorosa onde a gente pode morrer.
 
Na hora que acontece, a aventura envolve perigo. Se não tiver perigo real não é aventura, é passeio, é passatempo.


Nas minhas leituras formativas, nunca esqueci este trecho de A Casa sem Chaves (1925), de Earl Derr Biggers, a primeira aventura do detetive havaiano Charlie Chan. O protagonista da história é o jovem bostoniano John Quincy Winterslip, de 29 anos, família tradicional, formado em Harvard, filho modelo, um rapaz-de-bem e genro ideal, a quem nunca uma aventura aconteceu. É aquilo que hoje em dia se diz: “um rapazinho de camisa pólo e sapatênis”.
 
Ele está batendo papo com um cara mais velho e mais sambado, que ironiza seus modos de bom-rapaz:
 
(...) -- Você nunca soube o que é emoção. Será que soube? Já perdeu a hora de ir para a cama por algum motivo totalmente bobo, como, por exemplo, porque você é jovem e a lua está brilhando sobre uma praia banhada pelos mares do Sul? Já disse uma mentira cavalheiresca para proteger uma mulher que não valia a pena? Já fez amor com a garota errada?
– É claro que não – disse John Quincy, todo empertigado.
– Já fugiu para salvar a própria vida, em becos escuros, num bairro de má-fama de uma cidade desconhecida? Já brigou pra valer com um marinheiro, aquelas brigas à moda antiga, onde as armas são punhos deste tamanho? Já partiu à caça de um sujeito e quando o encurralou saltou em cima dele sem outra arma senão as mãos nuas?


É claro que John Quincy responde que nunca fez nada disso, e é claro que no final do livro (este diálogo é no capítulo 3) ele terá passado por todas essas aventuras, terá trocado uma careta noiva bostoniana por uma namorada do Havaí, e terá descoberto detetivescamente quem matou o morador da “casa sem chaves”.
 
Para o garoto de dez anos que leu esse livro, a lista de aventuras acima era um sonho. (Mal sabia, o garoto, que acabaria beirando os 70 anos e dessa lista inteira só teria praticado um item.)
 
Aventura e perigo estão entrelaçados, e oito anos depois de conhecer Charlie Chan eu já tinha outras leituras.
 
Por exemplo: em A Náusea (1938), Jean-Paul Sartre mostra o diálogo do protagonista, o escritor Antoine Roquentin, com o personagem meio patético que ele chama O Autodidata, um rapaz interiorano, pacato, meio abestado, quase um Winterslip, que passa os dias na biblioteca local, lendo todos os livros disponíveis por ordem alfabética, porque seu projeto pessoal é “saber tudo”.


Roquentin está, nesse início do livro, começando a experimentar “a Náusea”, a sensação de vazio existencial. Isto o transforma numa espécie de Seu Lunga cheio de irritação com a humanidade e desconfiança com o universo. Os dois estão batendo papo, e o Autodidata diz:
 
– (...) Para falar com franqueza, eu gostaria também que alguma coisa inesperada me acontecesse, alguma coisa nova, aventuras... – Ele abaixa a voz e seu rosto adquire uma expressão malandra.
– Que espécie de aventuras? – indago, atônito.
– De toda espécie, senhor. Pegar o trem errado. Descer numa cidade que não conheço. Perder a mala, ser preso por engano, passar a noite na prisão. Senhor, eu acho que a palavra aventura pode ser definida assim: Um acontecimento fora do ordinário mas sem ser necessariamente extraordinário. As pessoas falam sobre a magia das aventuras. Esta expressão lhe parece correta?
 
Roquentin acha o rapaz um rematado idiota, mas depois que o outro vai embora o diálogo não lhe sai da cabeça e ele fica rememorando seu passado; ele já viajou pelo mundo, conhece a Europa, o Oriente, morou na Indochina, atravessou o Norte da África... Ele começa a rememorar fatos de sua vida:
 
Encho o cachimbo, acendo, estiro-me na cama, jogo uma manta sobre as pernas. O que me espanta é estar me sentindo tão triste e esgotado. Mesmo que fosse verdade – que eu nunca tive aventuras – que diferença faria? Primeiro, parece ser uma simples questão de vocabulário. Aquele episódio em Meknes, por exemplo, eu estava pensando nele pouco tempo atrás: um marroquino pulou em cima de mim e quis me apunhalar com uma faca enorme, mas eu o acertei bem embaixo da têmpora... e ele começou a gritar em árabe e uma horda de mendigos sujos apareceu e começou a perseguir nós dois até Souk Attarin. Bem, você pode chamar isso pelo nome que quiser, mas em todo caso, foi uma coisa que aconteceu comigo.
 
Esse episódio de Sartre me chamou a atenção hoje porque vejo nele talvez o gérmen do episódio crucial de O Estrangeiro (1942) de Albert Camus. O estrangeiro é Meursault, que encontra numa praia um árabe que tivera uma briga com um amigo seu; quando o árabe exibe uma faca, Meursault puxa o revólver e o mata com cinco tiros.


Albert Camus sempre confessou ser um leitor de romances policiais noir norte-americanos, e que escreveu sob a influência (também, junto a outras) desses autores. Tem tudo a ver. Indivíduos sem grana, sem perspectivas, sem famílias importantes para lhes atribuir um futuro, sem voos intelectuais, sujeitos a impulsos básicos de sobrevivência, sexo, bebida, trabalho alienadão...
 
O personagem de Sartre é um intelectual (é escritor e historiador), e se questiona, meio angustiado, se os fatos banais que viveu foram aventuras ou não. O personagem de Camus é um cara rigorosamente banal, e a comparação entre a prosa dos dois livros (ambos narrados na primeira pessoa) mostra a distância entre um e outro.
 
No livro de Sartre, Roquentin sente-se esmagado, moído, triturado pela falta de sentido da existência e pela hipocrisia, mesquinhez, banalidade do mundo que vê à sua volta; acaba se resignando à vida ouvindo numa vitrola de ficha uma negra americana cantar um jazz. Mas a prosa do autor mostra, ao longo do livro inteiro, uma assustadora vitalidade verbal. Os ódios de Roquentin são eloquentes. Sua percepção da realidade é vívida, quase dolorosa. Suas metáforas, suas comparações são surpreendentes. Roquentin é intenso.
 
No livro de Camus, a vida de Meursault é uma linha horizontal com leves tremores: nada o excita, nada o inquieta, nada o enraivece, até mesmo o homicídio que comete é meio sem saber por quê. Em momento algum ele se pergunta (como Roquentin) se sua vida teve ou não aventuras. Sua temperatura emocional é a de um personagem de videogame.
 
Por curiosidade, baixei uma cópia em PDF de L’Étranger e procurei a palavra “aventura”. Ela só ocorre uma vez no livro inteiro, no capítulo 2 da primeira parte. É quando Meursault anda pela cidade no começo da noite e descreve o que vê nas avenidas:
 
Por sobre os tetos, o céu se avermelhou e, com o cair da noite, as ruas começaram a se animar. Os transeuntes retornaram; reconheci aquele cavalheiro distinto no meio dos outros. As crianças choravam ou se deixavam arrastar. Daí a pouco os cinemas começaram a despejar na rua uma horda da espectadores. Entre eles, vários jovens que tinham atitudes mais firmes do que o normal e eu pensei que eles tinham acabado de ver um filme de aventuras.
 
Esses jovens estão sob o domínio da Estória, da vida real transformada em inofensiva Narrativa onde nada mais pode acontecer. Aqui, fora, na vida real, não há aventuras; só existem tragédias sem emoção que terminam em morte.
 
Meursault não sabe o que é aventura, e quando ele aperta o gatilho cinco vezes não é em busca de excitação, de perigo, de adrenalina, como talvez tivesse sido o caso daqueles rapazes. É com aquela sensação fatalista que no Nordeste o pessoal exprime com: “Fecha a tampa a bate o prego”. Com esses tiros ele quebra o cristal da própria vida morna e aceita a tragédia.
 
O Estrangeiro é o diagnóstico da falta de sentido. A Náusea, comparado com ele, é um livro quase de auto-ajuda, um livro de entusiasmada entrega à intensidade de vida.
 






segunda-feira, 28 de setembro de 2020

4625) O primeiro filme de zumbis (28.9.2020)




O “filme de zumbi” virou um dos gêneros mais conhecidos do cinema de hoje. Meio século atrás, era um subconjunto minúsculo do “filme de terror”, ocupando um nicho bem menor do que o “filme de vampiro”, e competindo mais ou menos com “filme de múmia”.
 
Graças a George Romero e seus seguidores, o filme de zumbi tornou-se de certa forma um videoclip de nossa época. Multidões manipuladas, extermínios gratuitos, pandemias mal explicadas, retirantes famélicos invadindo cidades, migrações forçadas, cidades fantasmas entregues a gente que mal sabe de si...
 
Romero é creditado como o desencadeador do gênero, mas muitos historiadores apontam como primeiro filme de zumbi o White Zombie (1932) de Victor Halperin, baseado num romance do excêntrico William Seabrook, tendo Bela Lugosi à frente do elenco.



Vi agora esse filme, que pode ser visto, com legendas em inglês, no YouTube, numa cópia de qualidade surpreendente:
 
https://www.youtube.com/watch?v=NV3B2z0HkKA&ab_channel=PizzaFlix
 
Há vários aspectos curiosos neste filme precursor. A história se passa no Haiti, na propriedade rural de um tal Charles Beaumont (Robert Frazer), personagem que por coincidência tem o mesmo nome de um dos grandes escritores e roteiristas de FC e terror de sua geração. (Beaumont é o roteirista de filmes como As Sete Faces do Dr. Lao, Castelo Assombrado, A Máscara da Morte Rubra e outros, além de numerosos episódios de Twilight Zone.)



O Beaumont do filme é dono de plantações de cana-de-açúcar e em suas terras funciona o engenho de um feiticeiro local, em cujas engrenagens rústicas trabalham negros macambúzios, de olhar fixo e vidrado, movimentos robotizados. Chega a sua casa um jovem casal, Neil e Madeleine, e o fazendeiro se apaixona pela moça. Com o auxílio do feiticeiro, Murder Legendre (Bela Lugosi), ele impede o casamento dos dois, e transforma a moça em zumbi para tê-la em sua mansão como escrava sexual. O noivo descobre tudo e, com o auxílio de um missionário, tenta impedir a consumação do feitiço.


É um filme “B”, de produção paupérrima – foram usados cenários abandonados por outros filmes do estúdio (O Corcunda de Notre Dame, Frankenstein, etc.), num sistema de reaproveitamento cenográfico que Roger Corman iria empregar com mais habilidade duas ou três décadas depois. O diálogo é descartável; é o tipo do filme que se pode ver dublado em dinamarquês sem grande prejuízo. A ação é mecânica, as poucas cenas de luta ou perseguição são banais. O elenco é fraquinho, e Bela Lugosi, com um disfarce que lhe dá ares meio de Fu-Man-Chu, meio de Charlie Chan, diverte-se fazendo caras e bocas ameaçadoras.



Ainda assim, é um filme notável, que se vê com certo proveito. Um aspecto interessante nesses filmes de baixo orçamento é que a deficiência técnica os impede de produzir uma impressão de realidade muito grande. O som ora é alto ora baixo, a iluminação oscila de maneira inexplicável, os cenários não batem uns com os outros num simples atravessar de uma porta, o ator fala para um lado e parece estar olhando para outro...



Esse tipo de non sequitur, de justaposição de coisas aparentemente não-relacionadas, acaba produzindo uma impressão onírica, de incerteza, de insegurança perceptiva, que é um dos encantos do cinema mudo e que se prolongou, no cinema sonoro e colorido, pelo universo do filme “B” feito com um gosto e seis vinténs.

(a moenda)

Os primeiros zumbis que vemos são os negros haitianos que fazem moer o engenho de açúcar rústico, de engrenagens de madeira empurrados à mão. Não deixa de lembrar aqueles filmes bíblicos em que vemos Sansão, cego, escravizado, ajudando outros cativos a empurrar aquelas enormes pedras de moinho para os filisteus.
 
A certa altura, Bela Lugosi apresenta ao fazendeiro seu exército particular de escravos, que ele zumbificou através de uma poção da qual basta uma gota para transformar a pessoa num morto-vivo. E todos são brancos, e pessoas ilustres:


São os meus ex-inimigos. Ledot, o feiticeiro... Já foi o meu mestre. Entregou-me seus segredos sob tortura. Von Gelder, esse porco estufado de riquezas... Lutou até o último instante contra meus encantamentos. É o tipo do guerreiro. Sua Excelência, Richard, ex-Ministro do Interior... Scarpia, chefe dos salteadores locais... Marcquis, capitão da polícia... E este é Chauvin, o carrasco-mor, o que quase me executou!...
 
São os símbolos do poder político e militar, escravizados pelo vudu, agindo mecanicamente sob as ordens mentais de Murder Legendre.


Marina Warner, em seu livro Phantasmagoria (2006), um vasto ensaio sobre as representações tecnológicas do sobrenatural e do espiritual, analisa a figura do zumbi, como mais uma projeção do não-humano sobre o humano ou vice-versa. Ao comentar a sedução hipnótica sofrida pela jovem noiva, neste filme, ela diz:
 
Uma espécie de arraigado interesse próprio leva os realizadores de White Zombie a meditar sobre a escravidão e seus desdobramentos, ao mesmo tempo em que evitam os fatos históricos propriamente ditos desse fenômeno. No entanto, embora no nível mais superficial do enredo a noiva enfeitiçada seja a vítima inocente de uma sinistra magia negra, num nível latente ela cai em desgraça quando entra em contato com as forças que governam as atividades daquela ilha; ela perde a lucidez mas não percebe nem admite tomar conhecimento da opressão. É como se o filme dissesse: “Não olhe. Não pergunte de onde vem seu dinheiro. Você não vai suportar a resposta.”
(p. 363, trad. BT)
 
Os filmes de zumbi são muitas vezes alegorias sobre algo que vemos à distância na TV: multidões massacradas, escravizadas, desumanizadas, reduzidas a farrapos humanos. Sem nome, sem memória pessoal, sem memória coletiva, algum tipo de espírito primordial de vingança as levanta da tumba e as conduz à destruição cega de quem se atravessar na sua frente. George Romero e os demais que vieram depois dele (de Lucio Fulci a Wes Craven, de Dan O’Bannon a Jim Jarmusch) ramificaram essa idéia básica em numerosos sub-temas.
 
Bela Lugosi interpretou o vilão deste filme pouco tempo depois de ter criado seu Conde Drácula (em 1931). Se o vampiro é o morto-vivo típico da aristocracia européia, bebendo o sangue dos camponeses das montanhas e dos bosques da Europa Oriental, o feiticeiro vudu, criador dos zumbis, é o seu equivalente nas florestas tropicais e nos canaviais dos engenhos de açúcar.
 
É curioso que a ambientação do Nordeste açucareiro de Gilberto Freyre e José Lins do Rego, tão pródiga em escravos e em histórias de maus tratos, de mandingas e feitiços, não tenha produzido uma literatura de terror apreciável, na linha do que sucedeu com os zumbis haitianos. Talvez porque aqui não tenha acontecido uma revolta sangrenta como a do Haiti na virada do século 18 para o 19, quando foram passados “no fio da faca” os europeus locais, principalmente os franceses. Alejo Carpentier contou um pouco dessa história em O Reino deste Mundo (1949).
 


 
 
 
 





sexta-feira, 25 de setembro de 2020

4624) As listas de Raymond Chandler (25.9.2020)




Eu sempre aconselho a quem escreve ficção o uso de cadernos (ou arquivos, tanto faz) com listas de detalhes que podem ser convocados sempre que necessário.
 
Nome de personagem, por exemplo. É uma coisa que até hoje me dá problema. Quando estou fazendo o resumo de um conto, eu saio tacando X ou Y, ou A ou B, o tempo todo – para não perder tempo pensando. O resumo fica mais ou menos assim:
 
“Plot: um cara, X, pega um voo e já dentro do avião escuta uma conversa de dois caras em assentos próximos, A e B. Essa conversa é sobre um crime planejado, e desperta a curiosidade dele. Ele resolve seguir os dois quando descerem. Digamos que descem em Congonhas. Lá, ele percebe que A e B se separam. Segue um deles, A, e a certa altura das peripécias descobre que o perigoso era o outro, B.”
 
Quando você tem uma idéia ainda tão nebulosa, nome da pessoa é o que menos importa. Nome, descrição física, idade, profissão, até mesmo o sexo do personagem, tudo isso pode ser definido depois. Nesse momento inicial, são as funções dramáticas que importam.
 
Na hora de escrever de verdade, aí você tem que definir: X pode ser uma mulher, A pode ser um padre, B pode ser um turista chinês... É outro momento, são outras decisões.
 
Somente quando a gente entra na escrita propriamente dita o nome precisa ter um peso sonoro, um peso de significado.
 
Ao se acomodar na poltrona junto à janela e colocar o cinto, ela não deu muita atenção aos dois passageiros que sentaram ao seu lado. Ela sempre ia na janela; sempre fingia dormir, para que ninguém se animasse a puxar conversa, fazer perguntas. Tanto é assim que chegou mesmo a cochilar, acordou de leve na decolagem, cochilou de novo. A certa altura despertou e de olhos fechados ouviu o murmúrio de vozes masculinas ao seu lado, vozes contidas, tensas, sussurrantes. E o que diziam a despertou por completo em dois segundos.
 
A curiosidade era o grande problema na vida de...
 
É aqui que o carro estanca e o motor morre. Como vai se chamar minha protagonista? Maria? Josefa? Sandra? Karen? Juliette? Bernadete? Wyslawa? Tábata Cylene?
 
Cada nome desses tem ressonâncias inconscientes. Nome de personagem precisa ser bem pensado, e muitas histórias minhas (e alheias, estou seguro) morrem na primeira esquina porque a gente parou pra pensar num nome, acendeu um cigarro, resolveu passear nas redes sociais em busca de inspiração, e aquele avião está gastando gasolina mental e não pousou até hoje.



Raymond Chandler era um cara metódico, tinha uma certa cabeça de escriturário, o que lhe valeu a salvação em muitas fases da vida. The Notebooks of Raymond Chandler (New York: Ecco Press, 1976) é um livro que transcreve parte do seu material de anotações que se salvou. Após a morte da esposa Cissy em 1954, Chandler entrou em depressão, passou a beber desbragadamente, e destruiu a maior parte dos seus papéis pessoais, inclusive correspondência.
 
Apenas dois dos seus numerosos cadernos de anotações sobreviveram, e foram organizados por seu biógrafo Frank MacShane nesse livro citado acima.
 
Chandler fazia listas dos seus famosos símiles ou comparações, e os inseria na narrativa quando eram necessários:
 
Silencioso como um dedo entrando numa luva.
Tão sistemático quanto uma madame contando o apurado.
Seu rosto era longo o bastante para dar duas voltas em torno do pescoço.
Tinha tanto sex-appeal quanto uma tartaruga.
Limpo como o pescoço de um anjo.
Um rosto que parecia um pulmão murcho.
 
Ele anotava gírias e expressões de grupos específicos, o que é sempre muito útil, porque nem sempre se tem a chance de convivência contínua com essas pessoas.
 
Gírias da prisão de San Quentin:
 
Beak = juiz
Buried = mantido incomunicável
Broom = desaparecer às pressas
Bonarue (francês) = bom
Box = cofre, fonógrafo
Bank = injeção de droga
Back door parole = morrer na prisão
 
Gírias de Hollywood:
 
Baggage-smasher = pessoa desajeitada
Blinker = câmera
Duchess = garota com grana
Fluff = baby-doll
Footfever = pressa
Garbo = granfino
 
Gírias de marginais:
 
Chicago lighting = tiroteio
Dip the bill = tomar um drinque
Lip = advogado
Kick the joint = entrar na marra
Under glass = na prisão


Há duas páginas somente de anotações sobre jogo de dados, o modo de jogar, de contar pontos, as probabilidades, etc. Há alguns textos longos também, contos que só foram publicados postumamente, como “English Summer: a Gothic Romance”, uma história de amor, ou “A Routine To Shock The Neighbors”, um divertido diálogo de um casal durante uma longa relação sexual.
 
Chandler listava possíveis títulos:
 
The Man with the Shredded Year
All Guns Are Loaded
Choice of Dessert
Uncle Watson Wants To Think
Twenty Minutes’ Sleep
They Only Murdered Him Once
Island in the Sky (para uma coletânea de contos fantásticos que ele nunca chegou a preparar)
Deceased When Last Seen
The Black-Eyed Blonde – usado por Benjamin Black (pseudônimo de John Banville) para uma aventura póstuma de Philip Marlowe
 
Já vi autores profissionais de longas trilogias épicas explicando que é melhor criar os nomes em primeiro lugar, e depois ir extraindo de cada um deles as conotações.
 
É bom ter listas com nomes e sobrenomes de homens, de mulheres, de famílias, de castelos, etc.  Num romance contemporâneo, nomes de lojas, de colégios, de jornais, de tudo que for aparecer na narrativa e que é melhor atribuir a uma entidade fictícia.
 
Chandler escrevia e arquivava itens como “Moda masculina”, “Descrições de mulher” e assim por diante. Lendo os romances, é possível adivinhar quando esse itens entram, porque são parágrafos inteiros, escritos no mesmo tom, no mesmo estilo dos anteriores – a escrita de Chandler, embora idiossincrática, extremamente pessoal, é bastante homogênea – mas a gente percebe que ele já tinha aquele personagem ou aquele ambiente visualizado e posto no papel, antes mesmo de começar a escrever aquela cena.
 
Isso é obrigatório? Isso é proibido? De jeito nenhum. É a técnica de cada um, o processo criativo de cada um. Já vi escritores afirmarem que se o texto não é totalmente espontâneo, não é totalmente improvisado “no calor da batalha”, ou seja, no enfrentamento com o teclado, então não presta. Boa sorte para cada um.
 






terça-feira, 22 de setembro de 2020

4623) Cinco crimes insolúveis (22.9.2020)


(Gahan Wilson)

1 – Os Quatro Prisioneiros
Este é o nome, inadequado, mas que acabou “pegando”, dado ao caso misterioso de quatro homens encontrados mortos numa cova rasa em Wilmington Island (Georgia) em 1994. Os quatro (que nunca foram identificados) eram brancos, idades aproximadamente entre 25 e 60 anos, e de acordo com os exames médicos morreram de causas não determinadas e não-violentas. Todos os corpos vestiam apenas calças jeans, de marcas comuns, sem cuecas, camisas, calçados ou alguma outra peça. Dois dos mortos vestiam calças que visivelmente não eram do tamanho adequado. Nenhum documento; o que foi possível reunir de impressões digitais e material de DNA não bateu com nenhum registro estadual ou federal. O nome do caso, dado pela imprensa, deve-se ao fato de que estavam presos uns aos outros, pela cintura, por correntes finas de metal, novas, de um tipo bastante comum para prender animais, cercas, portões, etc. Foram descobertos por um morador local, que estranhou a terra revolvida no meio do mato e ao cavar um pouco, por curiosidade, encontrou um pé humano. A polícia cercou a área e exumou os corpos, que aparentavam ter morrido, todos ao mesmo tempo, há cerca de uma semana. As investigações não revelaram nenhum movimento estranho naquela área (residencial, pacata, de bom nível aquisitivo) nos últimos tempos. O local era oculto por barrancos e árvores. Havia rastos de pneus nas proximidades. De acordo com o Tenente Paulson, da polícia local: “Era como se quatro indivíduos sem registro civil de qualquer espécie estivessem nus, numa prisão ou coisa parecida, tivessem sido vestidos às pressas, acorrentados, levados para ali, e então morressem todos de parada cardíaca e fossem enterrados sem muita preocupação de ocultá-los. Não faz sentido.” O único outro possível indício, igualmente inexplicável, presente no local, foi um monte de exemplares de diferentes jornais, todos do dia presumível do “crime”, das principais cidades norte-americanas, num total de 22 jornais de 14 cidades diferentes, jogados no chão, no meio do mato, a cerca de dez metros da cova rasa.
 
2 – O Cofre Voador
Outro título dado pela imprensa, desta vez com certa ironia. Em novembro de 2005, em Florianópolis, um cofre com dinheiro, jóias e documentos foi roubado de um escritório de advocacia no centro de Florianópolis. O cofre, um móvel de ferro com mais de 150kg, foi retirado do escritório sem que fossem forçadas a porta da sala interna, onde ele se achava, e a porta que dava para o corredor, sem falar na porta de saída do prédio, onde ficava o escritório, no 4º. andar. O cofre pertencia ao pai de um dos advogados, e estava ali há mais de quarenta anos. O prejuízo foi avaliado na época em mais de 50 mil reais, mas o que intrigou a polícia foi a aparente impossibilidade de retirar um objeto daquelas dimensões sem deixar sinais. A única pista encontrada tornou tudo ainda mais enigmático: uma câmara de segurança registrou, naquela madrugada, a presença do cofre durante cerca de cinco minutos, no corredor, entre a porta do escritório e a escada dos fundos. A certa altura da gravação o cofre aparece de repente, sem a presença de ninguém, e minutos depois desaparece. Para sempre.
 
3 – As Cinco Cabeças
Ao longo de três meses, em 2003, apareceram, na cidade de Madrid, cabeças decepadas de diferentes pessoas, descobertas em lugares públicos, e nenhuma delas jamais foi identificada. Pela ordem, foram: cabeça de um homem de cerca de 40 anos, encontrada na lixeira de um super-mercado. Cabeça de uma menina de cinco anos, no pátio dos fundos de um prédio de escritórios. Cabeça de um homem de seus 70 anos, na mala de um carro abandonado na estrada, roubado meses antes. Cabeça de um rapaz de cerca de 18 anos, no estacionamento de um condomínio residencial. Cabeça de uma mulher de 30 anos, no gramado de um clube social. Todos estavam envoltas em panos semelhantes, e foram cortadas de modo semelhante, tudo levando a crer que pela(s) mesma(s) pessoa(s). Exames de DNA, fotografias, nada adiantou para a identificação. Os corpos não foram encontrados. O caso permanece em aberto.
 
4 – Morte na Estratosfera
Alguns investigadores consideram apócrifo o livro com este nome, atribuído a um tal I. Zulkov, e publicado em edição pirata em Moscou, em 1973, tendo recebido nos anos seguintes traduções para várias línguas e tornando-se uma espécie de “best-seller cult”. O livro relata a morte misteriosa do cosmonauta Vassili V. Kamonov, em 1965, num voo orbital que aparentemente estava indo bem até que o piloto (sozinho na cápsula) perdeu o contato com a base. Quando a cápsula voltou e foi recolhida no Mar Negro, constatou-se que Kamonov tinha sido morto por um tiro de revólver calibre 38, disparado à queima-roupa, que perfurou o traje espacial e varou seu coração. A arma não foi encontrada na cabine, nem poderia ter sido ejetada da cápsula. Várias teorias fantasiosas foram propostas, mas nenhuma das que aparecerem no livro de Zulkov, ou que foram sugeridas depois, explica satisfatoriamente todos os fatos.
 
5 – O Matador das Gertrudes
Uma onda de envenenamentos misteriosos percorreu a região da Bavária ao longo de dois anos e meio. Esforços conjuntos de várias forças policiais foram incapazes de descobrir o(s) autor(es) dos crimes ou os motivos por trás deles, sendo que a tese do homicídio aleatório (em que a identidade da vítima não influi) continua sendo aceita. O mais estranho de tudo é que as nove vítimas (quatro delas fatais) eram mulheres chamadas Gertrud, Gertrudes ou Gertrude. Todas foram envenenadas após consumir produtos industrializados: carne em conserva, refrigerante, açúcar, etc., sendo que em cada caso o veneno encontrado nas amostras era de natureza diferente. Em nenhum dos casos houve envenenamento de outra pessoa; a comida ou bebida afetada foi consumida apenas pela vítima. O primeiro caso ocorreu em Augsburg, em maio de 2003, quando Gertrud Kotzwinkler, 41 anos, morreu após consumir uma lata de sardinhas; o último deu-se em Bayreuth, em outubro de 2005, quando Gertrudes Kuttner, 11 anos, ficou gravemente doente após tomar um refrigerante. Após o quinto caso a imprensa insistiu pesadamente na necessidade de precauções por parte das mulheres com esse nome, embora para as autoridades nada garantisse que esse padrão era obrigatório. A onda de se encerrou tão bruscamente quanto começara.
 
 
 






sábado, 19 de setembro de 2020

4622) A ficção e o entulho de informação (19.9.2020)




(manuscrito de Immanuel Kant)

Que quantidade de informação um romancista deve dar, ao leitor, sobre o mundo que está descrevendo?
 
Depende. Escritores de romances históricos geralmente respondem: “A maior quantidade possível!”. E eu entendo. Passaram anos estudando as Guerras Púnicas, ou o Ciclo da Borracha na Amazônia, ou os reis leoninos da Alta Mesopotâmia.  Leram centenas de livros, fizeram milhares de anotações, e isso tudo vai se perder? De jeito nenhum. O leitor vai ter que pagar com seu tempo o tempo que o escritor consumiu pesquisando.
 
Outros dizem: “Informação nenhuma; não precisa”. Há centenas de romances pós-modernos onde não sabemos sequer em que país se passa a narrativa. Tudo é abstrato. Não sabemos sequer os nomes dos personagens, que são indicados por iniciais.
 
No outro extremo, existem os autores que se acham na obrigação de informar tudo, ou que têm um prazer enorme em informar tudo. Entre os escritores de língua inglesa circula o termo “infodump”, que significa mais ou menos “entulho de informação”. Acontece muito no romance histórico, em que não basta dizer o resultado de uma reunião do Imperador Napoleão com seus generais: é preciso dizer cada plano que foi proposto, debatido, contestado, apoiado, decidido, executado. O autor estudou o tema. Precisa mostrar serviço.
 
Os chamados techno-thrillers de autores como Tom Clancy ou Alastair Reynolds não se limitam a dizer “Fulano puxou a pistola”. Tem que dizer a marca, o calibre, o modelo, o ano, as adaptações feitas pelo personagem, as peculiaridades do mecanismo...
 
Se é um romance de Fantasia Medieval, e alguém mata um porco para uma festa, é preciso explicar (e tome duas ou três páginas falando apenas disso) com que tipo de faca se matava o porco na Escócia de 1450, quantas pessoas eram necessárias para segurar o bruto, como se pelava, como se tratava, com que ervas se temperava, como era preparado cada pedaço...
 
O infodump é a delícia de uns e o pesadelo de outros.


Numa resenha de um livro na revista Locus, Gary K. Wolfe chama a atenção para essa mania de Neal Stephenson (autor que eu muito admiro, aliás):
 
Na reta final do thriller Reamde, a jovem geóloga que é um dos personagens centrais está fugindo desesperadamente de terroristas islâmicos numa floresta do Canadá quando se vê escalando a inclinação de um talude e faz uma pausa para pensar sobre “o ângulo de repouso, que é a inclinação que um determinado monte de material pulverizado adota naturalmente ao longo do tempo, e que explica o formato externo de um formigueiro, de um monte de açúcar, uma pilha de cascalho ou de seixos.” Não é o tipo de coisa em que eu estaria pensando se estivesse sendo perseguido a tiros por terroristas, mas o fato é que eu não sou um personagem de Neal Stephenson.
(“Locus”, # 608, setembro 2011, trad. BT)
 
Stephenson é, dentro da FC norte-americana, um dos campeões indiscutíveis em entender e explicar como a tecnologia do mundo de hoje funciona. Ele estuda e pratica compulsivamente todo tipo de gadget tecnológico que inclui nos seus livros, e são muitos. Eu não diria que ele faz essas coisas “para se amostrar”. Não: ele apenas é um cara que pensa assim, funciona assim, e quando escreve reproduz em sua ficção seus processos espontâneos de pensamento.
 
Só li dois livros dele, ambos excelentes. Um é Snowcrash (1992), publicado no Brasil pela Editora Aleph, com tradução de Fábio Fernandes, lançado numa edição com o título de Nevasca e em outra com o título original. O outro é The Diamond Age (1995), um futuro de ultra-tecnologia onde os chineses reproduzem a Era Vitoriana inglesa nos menores detalhes.
 
O problema com Stephenson é que poucos livros dele têm menos de 900 páginas, e romances de 1.200 páginas não são nenhuma surpresa. É como uma viagem de navio – é agradável, mas você sabe que é um projeto a longo prazo.


Em outro momento, o mesmo Gary K. Wolfe explica, comentando outro romance de Stephenson (Anathem, 2008), sobre uma civilização de eruditos num planeta distante (uma espécie de O Nome da Rosa interplanetário):
 
Em seu aspecto mais ambicioso, ele nos convida para examinar por inteiro o corpo principal da filosofia do Ocidente através do prisma de um mundo inventado; e, embora exista nisso um indiscutível charme de estudante universitário, ficamos pensando se uma parte do entusiástico público leitor de Stephenson não se verá em breve atribuindo a ele a invenção de muitas das idéias que ele recapitula em seu fabuloso “Syntopicon”.
(“Locus”, # 572, setembro 2008).
 
Diga-se desde logo que esses romances de mil páginas não são feitos apenas de digressões enciclopédicas. Stephenson é um narrador compulsivo de aventuras, mestre dos episódios de perseguição, fuga, invasão, conflito, brigas de socos, guerras de exércitos; pode-se dizer que seus romances são videogames de ação e aventura para intelectuais. Personagens com quem a gente se identifica, diálogos espertos, sutilezas psicológicas...
 
Mas o problema continua de pé. É preciso mesmo explicar tantos detalhes assim?
 
A resposta tem que levar em conta que existem pessoas que adoram essas explicações, e outras que não as suportam. Se eu tivesse mais tempo e menos afazeres, leria com imenso prazer, por exemplo, o famoso “Ciclo Barroco” dele, formado por Quicksilver (2003, 944 páginas), The Confusion (2004, 815 páginas) e The System of the World (2004, 915 páginas). 

Mas a vida é curta. O que me aguarda na minha estante, no momento, e de cenho franzido, é o premiado Cryptonomicon (1999, 1.140 páginas).


Lembro-me das aulas do mestre Damon Knight, quando ele dizia às vezes: “Não precisa descrever a espaçonave. Todo mundo já sabe como é uma espaçonave. Mostre somente o detalhe que vai ter importância na história”. É um conselho útil, mas acontece que muitos escritores (e leitores) de FC são engenheiros, sejam profissionais, estudantes, diletantes ou curiosos, e para esses leitores é um pouco frustrante pegar um romance, saber que a espaçonave está indo da Terra para Alfa do Centauro, e não receber um vintém de informação sobre o meio de propulsão utilizado ali.
 
Outra coisa:
 
Não se trata apenas da ficção científica. Vamos dar uma passada nos infodumps dos clássicos brasileiros. Podemos começar com os tratados de geologia e botânica que Euclides da Cunha inseriu em Os Sertões. Ou então pensemos no Romance da Pedra do Reino: basta alguém citar o nome de uma família sertaneja para Ariano Suassuna pegar o leitor e dar uma volta inteira ao quarteirão explicando genealogias e cavalgadas.


Autores regionalistas são usuários aplicados do infodump, porque grande parte do romance regionalista está imbuído de uma missão de retratar, registrar, conservar usos e costumes através da palavra escrita.
 
Daí que nossa ficção rural se dedique a longas digressões sobre cuidados com o gado, sobre novenas e festas tradicionais, sobre o trabalho do vaqueiro ou do agricultor, sobre batuques e festejos... Páginas e páginas onde o autor oitocentista preservou o ambiente que conhecia – e eu, pelo menos, sou agradecido por isto. O livro pode até não ser grande coisa como romance. Ironicamente, é o infodump etnográfico que hoje o torna precioso para nós.