sexta-feira, 8 de junho de 2018

4355) O amor, o cinema e a revolução (8.6.2018)




Nem tudo que diz respeito aos anos 1960 pode ser carimbado com a fórmula “sexo, drogas e rock-and-roll”.

O livro de memórias de Anne Wiazemsky, Um Ano Depois (Ed. Todavia, 2018, trad. Julia de Rosa Simões) poderia se chamar O amor, o cinema e a revolução, porque era mais ou menos este o lema em vigor na época que ela viveu tão de perto e descreve tão bem.

Anne foi casada com Jean-Luc Godard e aparece nos seus filmes A Chinesa, Week End, One Plus One, além do Teorema (1968) de Pier Paolo Pasolini e A Grande Testemunha (1966) de Robert Bresson. Era uma atriz discreta, mas muito fotogênica, e correspondia (tal como Anna Karina, a esposa-musa anterior de Godard) ao tipo mediano das garotas daquele tempo.

Alguém dirá que nem todas as garotas daquele tempo eram tão bonitas; mas atrizes como estas duas reproduzem modos de andar, de vestir, de sentar, de discutir, de dançar, de cantar, nos quais rapazes e moças se reconheciam sem esforço. Essas atrizes de cinema que a gente chama de “musas de uma geração” nem sempre são bonitas. Elas são  um conjunto de atitudes, inflexões de voz, movimentos, olhares, que dão a sensação imediata de uma verdade de dentro para fora.

Anna Wiazemsky relata as agitações de 1968 com o olho de quem, quando deu fé, estava no centro do furacão, coitada. E ao lado de Godard, no ano crucial da vida do diretor – quando este parou de fazer filmes sobre garotas como ela e começou a fazer filmes de esquerdismo militante e radical. Com quase 40 anos, Godard estava se fascinando cada vez mais com o ardor combativo dos jovens radicais do movimento estudantil.

Era principalmente Jean-Jock quem falava, os silêncios de Jean-Luc me surpreendiam: ficar calado na presença de outra pessoa não era um dos seus hábitos, ele sempre precisava ter a última palavra. (p. 21)

Há um episódio pitoresco logo no início, quando Godard é convidado para dirigir o filme O Assassinato de Trotsky tendo John Lennon no papel-título. Ele e Anne viajam a Londres, se reúnem com os Beatles na Apple, mas os “santos” de Godard e Lennon não se harmonizam em momento algum (o que não é de admirar), e a reunião termina com Paul McCartney convidando Anne para tomar chá embaixo da mesa.

O projeto não foi à frente; mas como Godard já estava em Londres, com um pré-contrato assinado, acabou aceitando dirigir os Rolling Stones em One Plus One, que não passa de uma longa maratona de ensaios da canção “Sympathy for the Devil”, intercalado com discursos marxistas-leninistas.

No pinga-fogo das passeatas estudantis, com as ruas de Paris sendo desparalelepipedadas pelos estudantes para combater a polícia, a cidade parou. Diz Anne: “em pouco tempo os estoques de rádios de pilha pela primeira vez se esgotaram no país”. Godard vai para as passeatas cheio de perplexidade e entusiasmo, tropeça, quebra os óculos...

O bom de livros assim é trazer esses olimpianos (como os chamava Edgar Morin) ao plano banal e nada heróico de nós mesmos. É romântico, mas também dá um certo consolo financeiro, saber que de manhã Godard levava para Anne uma bandeja com “uma xícara de Nescafé e um pão com manteiga”. E lendo relatos do dia a dia de pessoas tão famosas (aparecem Bernardo Bertolucci, Gilles Deleuze, Pier Paolo Pasolini, etc.) a gente vê como o pessoal daquele tempo vivia modestamente. Comparados a eles, nós brasileiros de hoje somos uns xeiques sauditas.

Maio 1968 ficou de certa forma como um modelo de estudo para manifestações de rua por muito tempo. Não há como não reconhecer Junho 2013 em trechos como:

Às vezes, exaustos, parávamos num café para descansar ou beber alguma coisa. Todos os cafés estavam abertos, nenhuma porta fechada. Os comerciantes e moradores do bairro se diziam indignados com a violência policial e não deixavam de ajudar os jovens que buscavam abrigo. (p. 35)

Os confrontos tinham começado sem que ninguém soubesse por quem. Os estudantes acusavam as forças de segurança, que por sua vez acusavam os estudantes. Pela primeira vez, ouvimos falar em “elementos incontroláveis” que teriam se infiltrado na passeata para semear a discórdia. Estudantes entrevistados falavam em “provocadores manipulados pela polícia”. (p. 44)

Somente alguns estudantes, que ele julgava pertenceram à UNEF e que portavam megafones, pediam sem cessar: “Voltem para casa, não se deixem manipular... A manifestação de luto terminou há muito tempo... Voltem para suas casas.” (...)  Um grupo de uma centena de jovens, rostos cobertos por lenços, muitas vezes com capacetes e armados de coquetéis Molotov, lhe parecia particularmente perigoso porque estava visivelmente determinado a lutar. (p. 116)


Não é um livro de análises, é um livro de lembranças e comentários. Engana-se quem pensa que Jean-Luc Godard era diferente de qualquer um de nós no que diz respeito à comédia conjugal. Anne Wiazemsky tinha 21 anos então, Jean-Luc tinha 37 e além do mais era o que o pessoal chama “uma lenda viva”, “uma pessoa pública, um oráculo, uma estrela, uma espécie de deus” (p. 114)

O que não o impedia de, no dia seguinte a um bate-boca feroz com Anne, pedir desculpas nestes termos: “Lamento o que disse antes, falei sem pensar, e, se você acreditou, é uma imbecil.

Um livro de memórias é sempre um livro onde o autor demonstra que quem tinha razão era ele. O livro de Anne Wiazemsky é uma série de flashes breves na vida de uma garota que, por caminhos de família e de profissão, estava no epicentro da crise ideológica de sua época. Muita tinta filosófica e política já correu sobre Maio 1968, mas a tinta de Anne, se não traz nenhum “raio ordenador” sobre aquela balbúrdia, relata com clareza o que era estar no meio dela.


(A Grande Testemunha)




quarta-feira, 6 de junho de 2018

4354) Dez álbuns: 7 - Erik Satie (6.6.2018)




Há diferentes maneiras de ouvir discos. Pode ser numa sala cheia de amigos, todos conversando e bebendo, com o som em toda altura. Ou sozinho em casa, trancado no quarto de adolescente, com o som infelizmente baixo para não atrair a ira parental. Na casa dos amigos, em mudez reverente, absorvendo com avidez aquele vinil importado que talvez seja a única cópia existente no país. Na cama com a namorada, curtindo aquele som.

E outra: a música que a gente ouve enquanto escreve.

Romances contemporâneos trazem muitas vezes uma lista do tipo: “Este livro foi escrito ao som de New Order, Cocteau Twins, Electric Light Orchestra, Joe Zawinul e Nina Simone”. Tipo isso.

Escrever ao som de música é produzir artificialmente em si mesmo um estado de espírito previsível e controlável. Cada música injeta um sentimento diferente em nossa maneira de compor as frases, ajeitar as idéias, formular um ritmo. Ou então simplesmente fornece “um astral”, “um clima”, uma energia informe que ferve nos neurônios; é possível escutar Iron Maiden e usar essa energia para escrever haikais zen-budistas, desde que você tenha um transformador.

Uma coisa é escrever ouvindo Rolling Stones, outra coisa é ouvindo Tom Jobim.

E outra coisa é escutar Erik Satie, cujas peças curtas para piano estão entre as coisas mais “exquisitamente” agradáveis que conheço. Como essas peças têm centenas de interpretações pianísticas em centenas de coletâneas, fica difícil citar “um álbum” específico. Mas eu considero para o presente efeito qualquer álbum que contenha as Gymnopédies, as Gnossiennes, as Sarabandes, os Sports et Divertissements e por aí vai.

São a trilha sonora de muita coisa que escrevi de madrugada.

Gymnopédies:

Gnossiennes:



Meu primeiro contato com essa música foi através do “Blood, Sweat & Tears”, que no seu disco de 1968 gravou uma faixa das "Gymnopédies" de Satie. Depois, quando fui morar em Salvador, trabalhando no Clube de Cinema da Bahia, que funcionava nas instalações do ICBA, acompanhei a montagem de uma exposição de Bené Fonteles que tinha Satie na trilha sonora. Por força do expediente eu passava a tarde e a noite escutando aquilo, fragmentariamente, e pensando, armaria, que coisa linda.

Satie (1866-1925) é um miniaturista musical, criando pequenos bonsais de harmonia levemente dissonante que (dizem os estudiosos) influenciaram grandemente a geração de Debussy, com o qual ele teve uma amizade de idas e vindas. Satie era um excêntrico, um amalucado, um sujeito fora-de-esquadro cujas atitudes absurdistas e declarações inexplicáveis acabaram muitas vezes dificultando sua aceitação no pomposo e solene meio musical francês da virada do século.



Ele costumava acompanhar suas peças para piano com pequenos textos poéticos. No conjunto Sports et Divertissements (1914), cada faixa tem um poeminha:

O FOGO DE ARTIFÍCIO
Como está escuro!
Oh! Um rojão! Um rojão todo azul!
Todos se admiram.
Um velho enlouquece.
O buquê!

***

O POLVO
O polvo está dentro de sua toca.
Brinca com um caranguejo.
Engole-o e engasga.
Apavorado, pisoteia seus próprios pés.
Bebe um copo de água salgada.
Isso faz-lhe grande bem, e clareia suas idéias.

***

O BANHO DE MAR
O mar é imenso, senhora.
Em todo caso, é bem profundo.
Não sente no fundo. É muito úmido.
Eis que chegam minhas velhas amigas, as ondas. Estão cheia de água.
– A senhora está toda molhada!
Sim, senhor.

Há um vinil da pianista Cordélia Canabrava Arruda com estas peças (Fermata, 1981), além de La Piège de la Meduse (1913), Sonneries de la Rose+Croix (1892), com uma bela capa dupla trazendo todos estes poeminhas, ilustrados.



Não se pode compreender a obra musical de Satie sem pensar no contexto geral da Paris de sua época, onde a cada cinco anos uma revolução estética abalava o mundo: o impressionismo, o fauvismo, o cubismo, o dadaísmo, o surrealismo... Satie (segundo a boa biografia de Rollo Myers) foi um precursor disso tudo. Suas inovações musicais foram retomadas depois por compositores mais populares ou mais respeitados do que ele.



O filme Entr’Acte (1924) de René Clair mostra Satie (com seu obrigatório terno, chapéu coco e guarda-chuva) e o pintor Francis Picabia, na abertura, dando enormes saltos em câmera lenta e preparando um canhão para disparar sobre Paris.

Entr’Acte, abertura:

O tom anarco-surrealista deste clássico do cinema mudo (depois sonorizado com a música dele) tem tudo a ver com os pequenos happenings que o compositor apreciava. A noite de estréia de seu balé Folga (“Rêlache”) fez o público dar de cara com o teatro fechado e uma placa indicando que o teatro estava mesmo de folga.

Tristan Tzara, Jean Cocteau, Man Ray, Picabia e outros faziam parte do seu círculo de amizades, e para eles deviam parecer muito naturais textos como as Memórias de Um Amnésico, fragmentos meio surrealistas e satíricos que ele publicava de vez em quando nas revistas literárias.

Satie era maluco, era um autista, era um desorientado? Há um caso famoso em que propuseram a Stravinsky um trabalho remunerado, mas o compositor cobrou um preço muito  alto. O produtor pensou então em Satie, e fez-lhe a proposta, só que num valor bem menor. Satie ficou ofendidíssimo por alguém lhe oferecer tanto dinheiro para compor uma peça, e só aceitou o trabalho quando o pagamento foi reduzido a uma soma insignificante.


(Satie, por Santiago Rossignol)

Quando Satie morreu, seu amigo Darius Milhaud foi uma das primeiras pessoas a entrar no quarto onde ele vivia, num subúrbio distante. Encontraram ali dois pianos (um em cima do outro), sem molas e sem cordas; oito ternos não-usados, intactos, ainda na caixa; duzentos guarda-chuvas; o chão coberto de camisas que ele usava uma vez e jogava fora. Não havia água corrente nem aquecimento. Os lençóis da cama estavam enegrecidos porque não haviam sido trocados em vinte anos. Estavam costurados às cobertas num complicado arranjo cheio de garrafas vazias, que ele enchia de água quente à noite.

Não sei analisar musicalmente a obra de Satie, mas as palavras que associo a ela são delicadeza, miniatura, perfeição, dissonância, imprevisibilidade, distanciamento. Já ouvi um maestro dizer que Chopin é o “Roberto Carlos” da música para piano. Se for assim, então Satie é o Tom Zé.

“Quando eu era jovem, me diziam: Você vai ver, quando tiver cinquenta anos. Pois bem: estou com cinquenta anos, e não vi nada ainda.” (Satie)





domingo, 3 de junho de 2018

4353) A space-opera mitológica de Samuel R. Delany (3.6.2018)



A chamada “space opera” (leia-se Flash Gordon, Star Wars, Star Trek etc.) é um dos subgêneros mais populares e mais esnobados da ficção científica. Aventuras de espaçonaves se comportando como bombardeiros ou caças das nossas Guerras Mundiais: perseguições emocionantes, desembarque em planetas de fauna exótica e civilizações belicosas. Narrativas cheias de wham!, bang!, booom! E tudo o mais.

É curioso que tenha sido a fórmula explorada em sua fase inicial da carreira por Samuel R. Delany (1942-), um dos autores mais eruditos da New Wave dos anos 1960 na FC norte-americana; talvez o cara que popularizou o uso da palavra “semiótica” no vocabulário do gênero.

Nova (1968) é o nono romance escrito por Delany num espaço de seis anos, começando com The Jewels of Aptor (1962). É uma space opera com os mesmos elementos de aventura, suspense e melodrama-sob-controle que a gente encontra nos livros de Alfred Bester, que ele aponta como um dos criadores do gênero.

Nova se abre, inesquecivelmente, num “bar de astronautas”, onde o pessoal bebe, conta aventuras e mente desbragadamente. O Bar dos Astronautas é o equivalente moderno do “bar dos marinheiros” da ficção tradicional. E em Nova o capitão Lorq Von Ray sai catando uma equipagem heterogênea entre a turma que está naquele cais-do-porto espacial.

Como nas histórias tradicionais de piratarias e de aventuras, o capitão “pega no laço” meia dúzia de cyborg studs, como são chamados os impulsionadores das naves. Eles pilotam com a mente; plugam-se a cabos grossos ligados a um controle. Todos têm algo como enormes portas-USB na face interna dos pulsos e na base da coluna vertebral. Plugam-se nos transmissores e mandam ver.

A idéia de pilotagem com a mente aparece no conto clássico “The Game of Rat and Dragon” (como resultado de uma simbiose entre seres humanos e gatos), de Cordwainer Smith, grande contista meio esquecido. E outros, certamente. A idéia não era nova mas era ousada, era mais um passo na direção da realidade virtual dos cyberpunks que surgiriam quinze anos depois.



Numa entrevista a Charles Platt, em 1979 (em Dream Makers, 1980) Delany explicava seu gosto pelas velhas fórmulas da space-opera, mesmo sendo tão sofisticadamente teórico na análise dos textos.

Não vejo isso como uma contradição em termos. Se fosse, eu não conseguiria fazer. Gosto de verdade da estrutura básica da space opera, esse território básico onde ela acontece, um território que contém inúmeros mundos e que existe como um conjunto de centros que se relacionam uns aos outros. Nosso pensamento já sofre uma organização pesada para ser gravítico, linear. Basta essa imagem básica de diferentes mundos inter-relacionados para cancelar toda aquela coisa metafórica de em cima & em baixo, superior & inferior. Deste modo existe um aspecto bom no perfil básico da space opera, e eu gosto de liberdade que isso nos permite.

O capitão Lorq Von Ray tem menos de 30 anos e foi criado numa colônia chamada New Brazillia. Ele explica a sua equipe pegada na rua que a missão deles é bem simples: aguardar a explosão de uma estrela prestes a tornar-se “nova” (explodir) e mergulhar nela, pois só nas condições especiais desse momento é possível recolher uma quantidade milionária de illyrium, o metal mais raro do universo.

Falei antes em Alfred Bester, o autor de O Homem Demolido (1953) e The Stars My Destination, ou Tiger! Tiger! (1956). Delany tem a mesma vivacidade de escrita, a vividez da sugestão visual ao leitor, e tem uma certa facilidade para misturar cultura alta e cultura baixa.

O Tiger! de Bester era uma variante FC da vingança do Conde de Monte Cristo, mas havia muito mais coisas; a narrativa saltava de um vasto painel para outro. É essa a lição dele que Delany traz para esse livro.

Em Nova, temos o mito de Prometeu (de ir “buscar o fogo celeste”), que Ray Bradbury abordou em “Os frutos dourados do sol” (1953); mas depois de dez páginas o leitor está tão mergulhado na história que não precisa ficar traçando paralelos. Não é um paralelo: é um mero pretexto mitológico para que a misão-impossível pareça fazer sentido.

Nova foi escrito entre Atenas e Nova York, durante umas férias-carregando-pedra do jovem autor (tinha 26 anos então). Logo nos primeiros diálogos os personagens falam em turco e logo mudam para o grego, e por isso suas frases estão todas umas com as outras se parecendo. “These gentlemen their lunch you give.” O estilo Yoda de jogar o verbo para o fim pode neste livro não ter sido inventado, mas ele certamente popularizado foi. “Not to good going to be is. Out of practice am.” (Nova).

É também na entrevista a Charles Platt que ele faz esta advertência, sobre o perigo de um neófito qualquer se meter a escrever dentro de um gênero que nem aprecia nem conhece.

Você tem que saber o que são aquela histórias antigas, e o que significam, para poder dizer algo que seja realmente novo, porque, se você não as conhece, o que você vai acabar dizendo são as coisas antigas, sem perceber.

E ele tem outra proposta bastante clara:

Toda ficção é propaganda, e a ficção que a gente gosta é a propaganda na qual a gente acredita, e a que a gente não gosta é a propaganda em que a gente não crê.

Enquanto não chega o mergulho na “nova”, Lorq conta a um e a outra episódios de sua vida e delineia aos poucos a gigantesca competição de sua família (que é do sistema das Plêiades) e a de um casal de irmãos zilionários, do sistema de Draco.


(The Mouse toca "syrynx" para a tripulação de Lorq Von Ray)
(ilustração: sky hndx: 
  
A ação é interestelar, mas tem até uma festa a fantasia em Paris e um resgate nas montanhas nevadas de Katmandu. É uma civilização pós-terrestre, onde tripulantes de nave jogam xadrez, botam Tarô, e alguém se queixa de que a Terra inventou o Tarô mas ficou para trás, não acredita nele.

Tem um personagem, Katin, que está escrevendo um livro e a toda hora liga um pequeno gravador-de-mão para teorizar (mas sempre dizendo algo que faz sentido). Tem o Mouse, o típico personagem delanyano que é meio clown, meio marginal, meio andarilho ou, para permanecer na alusão aos romances de piratas, o grumete esperto. Ele toca a syrynx, um instrumento que é uma mistura de gaita de foles com sintetizador eletrônico e projetor holográfico.

Neste livro a prosa de Delany está mais aventuresca e mais fluente do que em outro livros seus igualmente bons. A linguagem é brusca, precisa, tem gírias e wisecracks quando os personagens pedem, fala de ciência, fala do formato das sociedades.

Eu sempre acho que quando uma sociedade começa a se fazer em pedaços você tem um vislumbre melhor de como ela realmente funciona, quando as coisas não estão em céu de brigadeiro, porque grande parte dessa superfície está ali para esconder o modo como as coisas de fato acontecem (entrevista a C. P.).

Delany, Bester, Cordwainer Smith são alguns autores em cujas mãos a space opera deixa de parecer um desenho de Hanna Barbera para pré-adultos e vira um gênero literário tão interessante quanto os romances de terror de Stephen King: a situação pode ser clichê, mas as pessoas a quem ela acontece são pessoas interessantes, e por causa delas a gente compra o pacote completo.

Não só eles: entre os mais recentes eu citaria David Zindell (Neverness) e Dan Simmons (Hyperion). São praticantes hábeis do que Brian Aldiss chamava “o Barroco em Cinemascope” (“widescreen baroque”).

Fica ainda melhor se além disso o autor tiver uma imaginação descontraída para inventar gadgets tecnológicos e teorias científicas. Digo “descontraída” no sentido de não precisar de 40 páginas tentando empilhar argumentos pra fazer a gente acreditar que aquela nave viaja mais rápido que a luz. Não precisa. Sabemos que é impossível, queremos é ouvir a história.









quarta-feira, 30 de maio de 2018

4352) Traduzindo títulos (30.5.2018)





De vez em quando a gente acaba se pondo no lugar de um tradutor que recebe a tarefa de traduzir o título de um filme estrangeiro.

“Tradutor”, claro, no sentido mais amplo do termo. Imagino que quem toma essa decisão final é um funcionário graduado da distribuidora. Não é o mesmo pobre-diabo a quem cabe criar as legendas em português com os diálogos do filme. (Uma das tarefas mais ingratas e mal remuneradas do Museu de Horrores que é a indústria cultural.)

Penso, por exemplo, no cara que ia distribuir um filme intitulado Some Like it Hot. Ele não precisava de dicionário para entender. A frase é boa, mas servia para título? Não servia. Ele deve ter feito um esforço para imaginar (o filme é de 1959) a fachada iluminada de um cinema de rua brasileiro, e o título: “Alguns gostam disso quente”.

Ele pensou, remexeu a frase, trocou palavras, procurou manter-se próximo do sentido, e produziu: Quanto Mais Quente Melhor. Um nome com mais ritmo, terminando numa sílaba forte, contendo uma fórmula comparativa de fácil entendimento. Nota dez para ele.

Costumamos mangar dos títulos nada-a-ver, como traduzir Blow Up por Depois Daquele Beijo, ou traduzir Persona por Quando Duas Mulheres Pecam. Mas algumas mudanças são obrigatórias.

Vi uma vez um distribuidor comentando um filme de Sidney Pollack. É a história de um rapaz que trabalha como voluntário num centro de ajuda telefônica. Uma mulher liga dizendo que tomou pílulas para se matar. Ele fica conversando com ela, mantendo-a lúcida, enquanto a equipe rastreia a ligação e corre para salvar a vida dela.

O filme se chama The Slender Thread. “Quem vai sair de casa para ver um filme chamado A Linha Fina?”, dizia o distribuidor. A linha fina é o fio telefônico, claro. O filme se chamou no Brasil Uma Vida em Suspense. Nada original – mas muito mais sensato.

A maior parte dessas traduções tenta, visivelmente, se manter próxima da intenção do original, mas produzindo uma fórmula diferente, mais chamativa.

O filme de Jean-Luc Godard Pierrot Le Fou poderia ser traduzido aqui como Pierrot o Louco, ou Pedrinho o Louco como ficou em Portugal. Alguma alma caridosa resolveu chamá-lo, sei lá por quê, de O Demônio das Onze Horas, um desses casos de invenção nada-a-ver que acaba sendo bem-vinda.

O título tem que ter-a-ver com o filme, e tem que atrair o público, mesmo que seja apenas pelo inusitado de sua forma.

Nos anos 1960 apareceu uma moda efêmera de títulos longos, como o da comédia maluca de Ken Annakin, Esses Homens Maravilhosos e Suas Máquinas Voadoras, ou Como Voei de Londres a Paris em 25 Horas e 11 Minutos (“Those Magnificent Men in Their Flying Machines, or How I Flew from London to Paris in 25 Hours 11 Minutes”), a comédia de humor negro apocalíptico de Stanley Kubrick Dr. Fantástico, ou Como Aprendi a Não me Preocupar e a Amar a Bomba (“Dr. Strangelove, or How I Learned To Stop Worrying and Love the Bomb”), etc.

Foi  uma década engraçada essa, em termos de nomes compridos. Isso pipocou no cinema, na literatura, nos nomes de bandas de rock.

Digressão: o mesmo ocorreu na ficção científica. Isaac Asimov queixava-se, nos editoriais do seu Magazine, de que no tempo dele os contos de FC se intitulavam “Homecoming” ou “Nightfall” – e agora estavam aparecendo histórias com nomes tipo “The Doors of His Face, The Lamps of His Mouth” ou “Repent, Harlequin! Said the Ticktockman”.

No caso de um filme estrangeiro, é preciso manter em português algo do charme do título original, mas numa linguagem acessível ao público daqui, e de preferência sem apelar.

Um belo western de Anthony Mann, The Man From Laramie, tinha um título pouco chamativo (Laramie é uma cidade). Alguém resolveu chamá-lo de Um certo capitão Lockhart, o nome do personagem principal. Anos depois, uma adaptação de Érico Verissimo para o cinema acabou se chamando Um certo capitão Rodrigo, em função do personagem Rodrigo Cambará, e fiquei imaginando se este formato de título não teria sido extraído do livro de Érico, que até hoje imperdoavelmente não li.

Um filme de crime, por exemplo, precisa deixar claro esse apelo, o que não é o caso de um título como “Dupla Indenização”, Double Indemnity, o clássico escrito por Raymond Chandler e dirigido por Billy Wilder. No Brasil o filme se chamou “Pacto de Sangue”, que reproduz com fidelidade o elemento básico do enredo e tem o melodrama necessário ao gênero.

Em outros casos, isso se perde. Um grande filme-de-assalto é O Segredo das Jóias, dirigido por John Huston, mas eu preferiria muito mais que ele se chamasse A Selva do Asfalto, “The Asphalt Jungle” no original.

Filmes que no original trazem apenas um nome próprio pedem algo mais animado na tradução. Se você vê um cartaz de um ótimo thriller de Don Siegel, com Walter Matthau, sob o título de Charley Varrick talvez não fique muito entusiasmado, mas O Homem Que Burlou a Máfia certamente fez mais ingressos serem vendidos.

Deve ter sido esse raciocínio que inspirou uma famosa manobra de Expedito, o escolado distribuidor de filmes de Campina Grande, que funcionava ali perto da Feirinha de Frutas, na rua Peregrino de Carvalho. Ele levou Édipo Rei de Pasolini para exibir no sertão paraibano, e o filme naufragou na bilheteria. Expedito não contou conversa: refez os cartazes com o título Édipo, o Homem Que Matou o Rei, e o cinema num instante encheu.

Questionado, ele levava as mãos à cabeça:

– Mas eu estou mentindo, por acaso?! Ele matou o rei, minha gente, esse é o detalhe mais importante da história! 







domingo, 27 de maio de 2018

4351) Dez álbuns: 6 - "Violas de Ouro" (27.5.2018)




Vou dar continuidade ao desafio que me foi feito via Facebook por Toinho Castro e Mario Bag: postar dez discos que a gente ouviu até a agulha furar o vinil, e continua ouvindo até hoje.

Para ouvir o disco inteiro:

Este elepê não é apenas um dos discos que eu mais escutei: é o primeiro disco profissional em cuja criação e produção eu estive envolvido, com 26 anos de idade. Só não assisti à gravação, que foi feita no Recife. Mas trabalhei com Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio durante o período de criação das faixas de Violas de Ouro (1976), em Campina Grande, dando palpites no repertório, sugerindo rimas ou versos em duas ou três faixas escritas por último.

Aqui, cabe uma explicação. É um disco de repentistas. Mas os discos dos repentistas raramente são gravados com versos de improviso. Todo mundo prefere escrever antes e decorar, o que transforma o disco num álbum de canções comuns. O ambiente frio e isolado de um estúdio não é favorável ao improviso; por outro lado, gravar ao vivo num ambiente real faria cair a qualidade sonora da gravação, coisa que nenhum produtor fonográfico admite.

Em disco, é muito melhor um verso ruim “bem gravado” do que um verso bom “mal gravado”. Esta é a lógica do mercado fonográfico.

Os discos de cantadores acabam valendo como um testemunho do seu talento poético em geral, não do seu talento como improvisadores.

Eu morava num pequeno apartamento ao lado da Rodoviária Velha, e encontrava com Ivanildo quase todos os dias. Geraldo morava no Ceará. As faixas foram combinadas pelos dois poetas via carta e telefone. Eles me pediram para fazer uma assessoria e para escrever o texto da contracapa.

Em algum lugar das minhas pastas, devo ter ainda os manuscritos originais de faixas que até hoje sei de cor, como o martelo magnífico que abre o Lado 2, “O Sertão em Carne e Alma”:

Ivanildo:
Uma tarde de inverno no sertão
é um grande espetác’lo pra quem passa
serra envolta nos tufos de fumaça
água forte rolando pelo chão;
o estrondo da máq’na do trovão
entre as nuvens do céu arroxeado;
o raio caindo assombra o gado
atolado por entre as lamas pretas,
rosna o vento fazendo piruetas
nas espigas de milho do roçado.

Geraldo:
No sertão quando o chão está molhado
corre água nas veias de um regato
pula a onça da furna, corre o gato,
um cavalo galopa estropiado;
um garrote atravessa o rio a nado
uma cobra se acoa com cancão;
a cantiga saudosa do carão
faz lembrar o lugar que eu fui nascido,
entre as telas do filme colorido
que Deus fez pro cinema do sertão.

Geraldo Amâncio chegou a Campina poucos dias antes da gravação, e foi lá no meu apartamento que ele preparou seus versos para as últimas faixas a ficarem prontas. Como Ivanildo já tinha escrito as suas, ele teria que escrever seus próprios versos intercalados ao do parceiro, obrigatoriamente seguindo as rimas já existentes.

É uma coisa engraçada o repente. Você vê um sujeito que é capaz de cantar em vinte segundos uma estrofe formidável, que acabou de inventar. E sentado na mesa, de caneta Bic em punho, o mesmo poeta leva cinco ou dez minutos (o mesmo tempo que eu levo) para redigir uma estrofe do mesmo tamanho. Por que?

– Em grande parte é a viola, – comentava Geraldo rabiscando um pouco, tomando um gole de suco, rabiscando um pouco mais. – A vibração musical da viola, de encontro ao peito, nos deixa também vibrando, é uma coisa que se reflete no corpo e na alma. E a platéia, também. Cantar de viola numa sala vazia também não é a mesma coisa. Tem que ter o povo olhando, esperando.


Violas de Ouro se abre com uma bela faixa em sextilhas filosóficas, “Deus, o Homem e a Natureza”:

Geraldo:
Deus a ninguém deu a chave
desse edifício perfeito:
mar gigante, terra enorme,
céu infindo, bosque estreito,
fez tudo e não veio ainda
dizer por que tinha feito.

Ivanildo:
Do rio, estuário e leito
da fruta, o tempo e a vez;
ano longo, dia curto,
semana, estação e mês;
ele fez tudo, mas pode
desfazer tudo que fez.

Segue-se uma série de glosas homenageando “O mensageiro da fé / o nosso Frei Damião”, depois um galope beira-mar percorrendo os Estados brasileiros, e depois “A Vida de Cada Um”, um quadrão mineiro, cujo assunto eu havia sugerido: “Já que é obrigatório rimar em ...EIRO toda vez, por causa do refrão, vocês podiam fazer uns versos comparando as profissões que terminam assim: pedreiro, toureiro, engenheiro, carpinteiro...”.

Ivanildo escreveu primeiro sua parte, e depois Geraldo encaixou seus versos nos versos dele.

O Lado 2 tem o martelo agalopado que já citei, e em seguida vem “Deu Tudo Ao Contrário”, um Mourão Voltado cheio de episódios cômicos, com um personagem meio trapalhão. O Mourão Voltado, para quem não conhece, é um dos gêneros dialogados da cantoria, em que cada poeta diz uma linha, alternadamente, o que exige (quando é feito de improviso) rapidez e pontaria.

Vem em seguida uma faixa sobre história do Brasil, “Revoltas Brasileiras”. Era uma faixa meio destinada ao público estudantil. Em plena ditadura militar, sempre valia a pena lembrar episódios em que alguém se revoltava contra uma autoridade qualquer.

No texto da contracapa eu digo, erradamente, que o estilo usado, “Pai Tomás, Preto Velho e Pai Vicente”, foi criado pela dupla. Na verdade, me parece hoje que o criador desse gênero foi José Alves Sobrinho, e o que a dupla fez (se não me engano de novo) foi registrá-lo em disco pela primeira vez.

“Revoltas Brasileiras” foi uma das últimas faixas a ficarem prontas, na véspera da gravação, e me recordo de ter ajudado nas estrofes relativas à Revolta de Quebra-Quilos e à Revolução Praieira (eu tinha acabado de ver o filme O Casal, de Daniel Filho, onde o personagem de José Wilker é fã de Pedro Ivo.)

O disco se fecha com um “gabinete” com o tema “Giro Pelo Mundo” enumerando países e culturas, seguindo o modelo do galope beira-mar “Turismo Pelo Brasil”. Enumeração de nomes de lugares e de paisagens é uma tradição na poesia popular. Nas culturas orais, versos rimados e metrificados sempre serviram de truque mnemônico para decorar mapas inteiros, atlas inteiros, quando não se podia desenhar em papel.

Um livro brilhante sobre isto é O Rastro dos Cantos (“Songlines”) de Bruce Chatwin, onde o viajante inglês descobre os “mapas cantados” dos aborígenes australianos. Veja aqui:


O Gabinete é um dos muitos gêneros antigos da cantoria que na década de 1970 foram resgatados e revividos pela geração de Ivanildo Vila Nova e seus companheiros. Lembro de Ivanildo comentando, naquela época:

– Cantador tá ficando preguiçoso. Se deixar, eles passam a noite toda cantando sextilha, que dá menos trabalho. Só cantam outra coisa se o povo pedir, e o povo não pede porque não conhece. A gente tem quarenta, cinquenta gêneros maravilhosos que os cantadores usavam e faziam coisas impressionantes. Por que não trazer isso de volta?

Quando Ivanildo e Geraldo gravaram Violas de Ouro, estávamos em plena efervescência dos Congressos de Violeiros de Campina Grande, uma época que descrevi em meu romance Bandeira Sobrinho – Uma Vidas e Alguns Versos (Ed. Imeph, Fortaleza, 2017). 



Havia poucos LPs de cantadores: lembro de um de José Gonçalves (não lembro com quem), um de Moacir Laurentino e Sebastião da Silva. Se não me engano, um LP famoso de Otacílio Batista e Diniz Vitorino é contemporâneo de Violas de Ouro.

É o primeiro disco na carreira dos poetas, que depois disso lançaram uma grande quantidade de elepês, livros, folhetos, CDs. Para os admiradores da dupla, mostra ambos em plena decolagem para se tornarem dois dos maiores nomes da Cantoria em todos os tempos. Para mim, lembra uma época de muito verso e muita boemia, e lembra o carinho e a paciência de dois poetas de verdade com as perguntas constantes de um cabeludo que gostava de verso mais do que qualquer outra coisa.









sexta-feira, 25 de maio de 2018

4350) O cosmos absurdista de Robert Sheckley (25.5.2018)



Já escrevi neste blog (principalmente aqui) sobre os momentos philipkdickianos, aqueles quando a gente tem a impressão de que a película a que chamamos realidade se rompeu, e o Mundo Como Ele Verdadeiramente É revelou-se através da fenda, da luminosa rachadura.

Em Philip K. Dick, o sujeito vê uma barraca de refrigerantes sumir à sua frente e ser substituída por um papelzinho onde está registrado: barraca de refrigerantes. Ou então pega num objeto e o contato deste o transporta fugazmente para um universo paralelo onde quem ganhou a guerra foi outro país.

Falando no jargão atual: os momentos philipkdickianos são o que hoje chamamos de “erros da Matrix”, com sua imensa variedade.

Algumas décadas atrás eu ainda tinha lido pouca coisa de P. K. Dick, e a nossa turma chamava esses momentos de momentos sheckleyanos. O universo de Robert Sheckley (1928-2005) é assim, afeito a essas rupturas.

Dimension of Miracles, seu livro publicado em 1968, é um romance curto, episódico, que não lembra um romance denso de FC levada a sério, e sim aquelas novelas de peripécias sucessivas como as Viagens de Gulliver ou o Cândido de Voltaire ou o Asno de Ouro de Apuleio.

Um norte-americano médio chamado Carmody é abduzido por alienígenas de seu apartamento em Nova York e transportado para um ambiente futurista e megalomaníaco, repleto de estruturas vertiginosas. Carmody é uma espécie de James Stewart filosofante, um "Average Joe"qualquer, longe de ser um sujeito brilhante ou um erudito, mas com certa fluência conceitual. E esse sujeito de repente é jogado numa situação que exige o máximo de seu raio racionalizante.


O Mensageiro que o arrebatou pergunta-lhe, quando chegam o local de destino:

– Gostou do nosso Centro Galáctico?
– É bem impressionante – disse Carmody.
– Imagino que sim, – disse o Mensageiro, desdenhosamente. – Foi construído de propósito para ser impressionante. Pelo meu gosto pessoal, é parecido demais com qualquer outro centro galáctico. A arquitetura, observe bem, é exatamente o mais previsível: neo-ciclopeano, um estilo preferido por governos em geral, despido de imperativos estéticos, planejado unicamente para impressionar o contribuinte.

Carmody foi trazido ali para receber um prêmio. Uma espécie de Loteria Galáctica que ele (depois de muito debate filosófico consigo mesmo) resolve aceitar. Dão-lhe o prêmio, que resulta ser um objeto falante. Carmody pede para voltar para a Terra. Os funcionários da loteria galáctica começam um jogo de empurra meio teatro-do-absurdo húngaro, cada um dizendo que o traslado de retorno dos premiados não compete ao seu departamento.

Carmody percebe que ninguém vai levá-lo de volta para a Terra muito facilmente, e talvez pela primeira vez na vida ele crie coragem para tomar uma série de decisões.


(Sheckley)

Sheckley é um entre muitos autores que conseguem fazer um humor absurdista porque em tese não se sentem obrigados a obedecer a nenhuma regra da ficção tradicional. A diversão deles todos é usar o banco-de-dados da grande cultura com a mesma sem-cerimônia e intimidade afetiva com que a grande cultura usa as mitologias de outros povos, por exemplo.

Carmody, como qualquer personagem sheckleyano, é jogado nas situações mais absurdistas e de algum modo consegue convencer a si mesmo que não está doido, e de que aquilo que acabou de acontecer não é impossível.

Como em quadrinhos de ficção científica, Moebius, por exemplo, para a gente ver que aquilo passa longe de um romance que quer ser “levado a sério”. Seu rigor é o da fábula, não o dos enredos aristotélicos. Se o personagem está numa cidade estranha e sofre a perseguição de um inimigo implacável, que importa o formato do planeta, a língua que se fala?


Carmody sai de universo afora, recorrendo a “agenciadores” cósmicos que prometem-lhe um retorno seguro através de algum mecanismo claudicante. Carmody negocia, paga, perde, ganha, salta de universo em universo buscando sua Terra de origem. Tem algo de Métal Hurlant essa sucessão de aventuras, que nos induz a imaginar uma sucessão de ilustradores diferentes, a cada novo universo onde vai parar o instável herói.

Carmody é um herói sheckleyano típico, tanto quando são heróis dickianos típicos Joe Chip ou Ragle Gumm. Aquele sujeito rigorosamente mediano, mas com certa leitura, que de repente se flagra catapultado para o absurdo e o caos...

Carmody é um personagem dos anos 1960 no quanto que fala, questiona, propõe, desmente, conserta, confirma. É um bom argumentador quando está falando consigo mesmo e sopesando hipóteses, mas o Prêmio lhe responde à altura, e se revela uma criatura morfomutante, e de uma maneira bem quadrinhesca. Num capítulo é um guarda-chuva, em outro é uma cobra enroscada no pescoço de Carmody.

O Prêmio debate filosoficamente com Carmody, chamando-o de mon vieux. É um avatarzinho que mais adiante revela-se um pouco Google, um pouco Robô Simpático, um pouco avatar cibernético capaz de um bom nível de replicação verbal. (Poderiam ser chamados de Treplicantes, porque tudo com eles tem réplica e tréplica.)

Se alguém está achando esse universo parecido não apenas com Philip K. Dick mas também com Douglas Adams, tem toda razão. Numa entrevista à revista Locus (setembro 2003) Sheckley disse que Douglas Adams (que veio bem depois) sempre citava a obra dele como uma referência. De fato, se Sheckley é primo de Dick, é uma espécie de tio de Adams, que tem seu humor próprio e soube dar sua versão britânica ao gênero Peripécias Rocambolescas Em Estranhos Habitats. (Com discussão filosófica, seja em que nível for.)

O livro de Sheckley pode ser comparado de modo interessante com The Star Kings (Guerra na Galáxia, em Portugal) de Edmond Hamilton. Em ambos um barnabé novaiorquino é arrebatado para viagens estonteantes e perigosas por outros planetas. No livro de Hamilton (também traduzido como O Rei das Estrelas, Ed. Sabiá) ele ganha a batalha contra um império galáctico e retorna para seu escritoriozinho onde aguarda ser promovido a chefe de seção.


The Star Kings, com seu protagonista sheckleyano John Gordon, é de 1949. Uma daquelas aventuras entusiasmantes de arregalar os olhos do leitor adolescente, com algum mumbo-jumbo para explicar como funciona a maquinaria extraterrestre, inclusive o Disruptor, a arma proibida, o Canhão do Fim do Mundo. É uma space-opera de vinte anos atrás contada com uma imaginação visual e uma segurança literária que os autores de 1929 estavam começando a desenvolver. O filme parece um sonho com final doce-amargo.

Dimension of Miracles (1968) não parece um sonho, e sim uma viagem de LSD onde no primeiro umbral transposto o Viajante percebe que o Mundo Real no qual acreditara até então era uma mera contrafação, um simulacro grotesco, apenas um entre milhões de mundos possíveis, e nem de longe o mais interessante.


Sheckley já teve algumas obras traduzidas no Brasil. A que li na época em que foi lançada é esta, Inalterado Por Mãos Humanas, da Brasiliense (1970). É seu livro de estréia, de 1954. Tem ótimas histórias, inclusive “Seventh Victim”, que foi filmada por Elio Petri como A Décima Vítima.