quinta-feira, 24 de março de 2016

4084) Dona Fiorina (25.3.2016)



Posso explicar como fiquei amigo de Dona Fiorina, logo eu. Eu morava num prédio do Catete e mudei para Laranjeiras. Registrei a mudança no correio do Largo do Machado, mas, macaco velho, mandei também uma cartinha muito gentil aos próximos inquilinos do meu cafofo, pedindo que se chegasse correspondência em meu nome me ligassem no fone tal e tal. De vez em quando ela ligava avisando que chegara alguma coisa. Eu passava lá num horário combinado, tomava um cafezinho e pegava o que havia.

Dona Fiorina brilhava numa raia distante do espectro político, mas era ex-professora, culta, adorava cinema de arte. Aprendi, nesses cafés que às vezes se prolongavam à custa de biscoitos e croissants, que nosso objetivo final era o mesmo. Um Brasil justo, democrático, cheio de liberdades, de abundância... Ela erguia o dedo no ar: “Uma TV na sala, e uma no quarto de cada filho! Somos ou não somos um país democrático?!”  E olha que naquela época a gente já questionava os limites da Internet discada e a existência-ou-não da mítica Deep Web.

Dona Fiorina era uma democrata radical, em termos de liberdade de expressão. Todo brasileiro (“até os índios,” dizia ela, “porque eles não têm culpa de estarem aqui quando nós chegamos”) tinha direito de assistir o Jornal Nacional – e o Jornal do SBT. “É preciso ouvir os dois lados de cada questão,” sentenciava ela, alisando a manta sobre os joelhos. Eu perguntava pela Band, pela TV-Rio, pela TV Manchete e outros dinossauros daquela época., Ela abanava a cabeça, incrédula: “Só existem dois lados do muro. Ou a pessoa está conosco, ou está com Eles.”  E ficava coquete e irresistível, em seus 80-e-bote-força, quando piscava o olho para mim, sorrindo: “Não me pergunte de que lado do muro eu estou. Eu estou do lado da vida!!”

Vou polemizar com Dona Fiorina? Nem doido. Se brincar era mais cinéfila do que eu. Quando falávamos do futuro do Brasil ela dizia: “Eu quero um Brasil grande, um Brasil resolvido, onde todo mundo tenha o que fazer, onde o governo fique ali, servindo, contribuindo, ajudando, mas como os escravos faziam, discretos, sem se intrometer, sem atrapalhar a vida das pessoas! Um Brasil onde em toda casa exista um DVD bem moderno, como este meu, olhe mesmo, e onde todo mundo possa ver os filmes de Marcel Carné, de Jean Vigo! O senhor já pensou, “seu” Braulio, cada barraco de operário ou de favelado passando um filme de Marcel L’Herbier ou de René Clair, o bem que isto ia fazer à nossa cultura?! O quanto ia iluminar a mente dos nossos pobres favelados, dos pobres paraibanos como o senhor, que vêm tentar a vida aqui, que vêm descobrir o Mundo?!”




4083) A gíria inglesa (24.3.2016)



A gíria é uma forma de literatura. Literatura oral, claro. Palavras e expressões inventadas em voz alta no calor do momento, com empatia imediata, rápida propagação (“viralização”, diríamos hoje) e, algumas décadas depois, a consagração nos compêndios. Muitas gírias são intraduzíveis, por serem invenções sonoras, onomatopéias, neologismos absurdistas. Outras, porém, produzem imagens visuais ou descrições vívidas, incríveis. 

O saite The Art of Manliness transcreve um pequeno glossário de gírias masculinas da Inglaterra do século 19, e muitas são pequenos achados de criação verbal.

“Blind Monkeys” (macacos cegos). Expressão usada para sublinhar a incompetência de alguém, supondo a existência, num zoológico, de uma jaula de macacos cegos. “Fulano só serve mesmo pra levar os macacos cegos pra fazer cocô”. 

“Month of Sundays” (um mês de domingos). Um longo espaço de tempo, equivalente a trinta domingos. “Acho que faz um mês de domingos que eu não vou ao bar”. Em português, temos uma expressão equivalente no futebol: “Esse jogador é muito velho, só de minuto de silêncio ele já deve ter uns dez anos”.

“Perpendicular” (idem). Refeição feita em pé num restaurante popular. 

“Half Mourning” (meio luto). Um olho roxo em consequência de uma briga. Quando são os dois olhos dizia-se “whole mourning”, luto completo. 

“Earth Bath” (banho de terra). Uma sepultura. 

“Firing a gun” (atirando de pistola). Uma técnica freqüente de forçar a barra ao contar uma história, num grupo. O sujeito diz: “Escuta! Isso foi um tiro?! (silêncio atento) Bem... Por falar em tiro...”

“Smeller” (cheirante). O nariz. Muito usado no mundo do boxe: “Ele levou dois socos seguidos no cheirante.” 

“Honor bright! (honra brilhante). Expressão semelhante a “juro por Deus!”, contração de “I swear by my honor, which is bright and unsullied!”, “juro pela minha honra, que é brilhante e imaculada”. 

“Shake the elbow” (balançar o cotovelo). Jogar dados. 

“Fart catcher” (apanhador de peidos). Um criado ou criada que caminha atrás do patrão ou patroa.

“Hole in a ladder” (buraco numa escada). Diz-se, de um sujeito muito bêbado, que ele não consegue enxergar um buraco numa escada (escada de mão, da que se encosta num muro, creio eu). 

“Lay down the knife and fork” (largar o garfo e a faca). Morrer. 

“Rib” (costela). Esposa. “Tenho que ir agora, a costela está esperando.” 

“Pot Hunter” (caçador de canecos). Esportista que entra em disputas desiguais, onde todos os adversários são mais fracos e ele tem a vitória como certa, apenas para colecionar troféus. 

“Scandal water” (água de escândalo). Chá; a bebida das senhoras de idade enquanto fofocam sobre os escândalos locais.







quarta-feira, 23 de março de 2016

4082) Cinco pirados (23.3.2016)



(ilustração: Piotr Przypadek)


Marquinho Bonsai, 28 anos, percussionista da banda new age carioca Os Outros.  Foi demitido da banda porque, na hora de entrar no palco para o show de estréia da temporada no Canecão, fumou um baseado tão radical que errou a porta do camarim e em lugar de ir para o palco saiu para a rua, pegou um táxi e foi para o Baixo Leblon, onde comeu cinco lasanhas verdes.  Os companheiros de banda o demitiram, não por isso, mas por considerá-lo dispensável, pelo simples fato de terem conseguido fazer o show inteiro sem dar pela sua falta.

Ahmed ul-Tahili, topógrafo marroquino, 46 anos. Dedicou sua vida a uma coleção de milhares de peixinhos tropicais nos quais implantava chips transmissores de sinais codificados. Cada vez que dois deles (nos imensos tanques mantidos num galpão de sua fazenda) se cruzavam a uma distância mínima pré-fixada, um pulso era captado por um computador central, que selecionava uma palavra e a adicionava ao imenso poema com que ul-Tahili pretendia concorrer ao Prêmio Nobel, para o qual chegou a ser indicado três vezes.

Henri Derouard, poeta decadentista francês (1833-1902). Durante décadas, sua vida consistiu em beber vinho, fumar ópio e escrever um volumoso diário íntimo onde documentou exaustivamente sua época. Nele, dedicou milhares de páginas a suas aventuras e fantasias eróticas, e ao seu relacionamento com pessoas do seu círculo literário, que incluía de Charles Baudelaire a Stéphane Mallarmé.  Em seu leito de morte, pediu ao sobrinho (que era também seu secretário particular e confidente) que queimasse tudo – e o idiota obedeceu.

Adam Altamont, texano, herdou e vendeu a indústria de pré-moldados do pai, e dedicou-se a mapear alfabeticamente ao EUA, entrevistando em Austin a dona de casa Alberta Allen, depois em Boston o pastor Bernard Bachman, em Chanute o garoto Clive Cornhill, em Detroit o policial David Donahue, em Evansville a florista Esther Edison. Indo em sua camionete rumo a Fort Worth para entrevistar o ator Frank Fullerton, colidiu de frente com a picape dirigida pelo aposentado míope de origem polonesa Zbigniew Zebrinski.

Casimiro López, 44 anos, mexicano, decidiu inventar um motor de automóvel que não precisasse de gasolina. Ao longo de 25 anos, experimentou suco de laranja, água com gás, querosene, água de coco, café, chás variados, vodka, tinta a óleo, leite de cabra, vinho tinto. Comparando dados, percebeu que uma mistura de todos esses ingredientes era o composto ideal: barato, eficiente e abundante. Quando comparava percentagens buscando a proporção ideal de cada um, foi vitimado por uma explosão que sua viúva até hoje atribui à maquinação dos gigantes petrolíferos.





terça-feira, 22 de março de 2016

4081) Tragédias e vinganças (22.3.2016)



Uma vez, entre amigos, alguém contou uma história terrível a respeito dos seus antepassados. Não era ninguém famoso, nenhum fato “exarado nas efemérides”, como diria Guimarães Rosa, mas ao que parece havia cavernas ocultas na história da família dele, e o que ele nos ofereceu só fez aumentar a nossa ânsia por mais. Sem entrar no mérito das paixões e dos parâmetros da época, deixemos que a História se conte a si mesma. Que as histórias guardadas sejam trazidas à luz, desempoeiradas, e postas a funcionar diante de todo mundo. Nada faz mais a festa nossa do que a vida alheia, principalmente quando essa vida dá uma bela história para contar depois, para quem é como eu, daquele tipo que tudo recorda.

Era uma história que envolvia violência e vingança entre famílias que se tinham em alto conceito, aquelas famílias de sobrenome imponente e impoluto, que consideram sua própria história uma mitologia, uma religião. Mortes daqui, mortes dali. A vida real é um filme terrível, do qual não se acorda nunca. A cruz da história é uma decisão que o personagem toma, entre a catástrofe A ou a catástrofe B. A gente sempre sai do cinema achando que a melhor solução teria sido a outra, tal é o poder da catarse trágica de um filme. Mas não adianta. Filmes de tragédia, mesmo os de final acautelatório, precisam confirmar que a catástrofe já acabou, já foi concluída, registrada, analisada, conceituada, ressignificada. O filme acaba, e estamos agora em boas mãos.

O que acontece (disse aquele amigo nosso) é que ele agora se via num dilema com que Shakespeare não sonhou. Estava a ponto de assinar um contrato de sociedade de não sei quantos dígitos, numa situação jurídico-financeira onde (segundo ele próprio) era preciso existir confiança cega e absoluta entre ambas as partes, porque se uma delas quisesse poderia afundar a outra com um mero documento. E a outra parte pertencia à família envolvida na bendita tragédia-familiar citada acima. Ele erguia olhos insones e dizia: “Como posso confiar nessas pessoas?!”.

Pois é, nem Shakespeare seria cruel a esse ponto. Deu-nos apenas a versão “diet”, envolvendo Montecchios, Capuletos e um casalzinho de jovens rebeldes.  Inimizades históricas (entre famílias; entre povos; entre vizinhos) não são algo que possa ser varrido do mapa por um decreto. Decretos não detergem manchas de sangue, quando houve sangue. O que meu amigo me perguntava, era, de certo modo: “Como posso saber se em pleno voo eles não cederão ao impulso atávico de destruir os meus? Como posso saber se eu mesmo resistirei ao impulso, à tentação, à missão, ao dever, ao prazer silencioso de destruir um deles?”.





sábado, 19 de março de 2016

4080) A arte de recitar (20.3.2016)




(Dante Gabriel Rossetti: Mnemosyne, a deusa da memória)


Algum tempo atrás, numa festa de cantadores em São José do Egito, subi ao palco para recitar uns versinhos. Macaco velho que sou, tinha no bolso um dos meus cordéis, pra não me perder. Mal o puxei do bolso, vi a platéia se desinflar da própria expectativa. 

O Vale do Pajeú não é apenas um lugar onde se venera a deusa Poesia. Venera-se igualmente a deusa Memória, as duas uma ao lado da outra, em dois altares igualmente enfeitados de fitas, ex-votos e velas. Ali, não basta saber fazer versos; não basta entender o que é um verso bem feito; não basta ter o tutano e a medula necessários para subir num palco e enfrentar o Monstro de Mil Rostos. Tudo isso não é nada quando o cara escreve um poema e sobe para declamá-lo com um ridículo papel na mão. Com uma “cola” na mão, na frente de todo mundo.

O camarada que precisa ler um poema é porque não gravou o poema em si mesmo, não fez do poema uma parte de si, ao preço de minutos ou horas de um ritual mnemônico que não está muito distante da prece religiosa. 

Por outro lado, essa peculiar dramaturgia pajeuzeira mostra o quanto está verde e viçoso o ramo da oralidade entre nós. Os recitadores são às vezes jovens, rápidos, precisos, verdadeiras metralhadoras, de carga inesgotável e transbordante. Outras vezes são anciãos compassados capazes de falar lentamente, sem nunca alterar o passo, seja rememorando, seja reproduzindo o verso, e dali passar por associação de idéias para outro parecido, e deste para um terceiro porque tocou no nome de Fulano, e daí brota mais um episódio semelhante... e as horas se passam e aquela fita não para de rodar.

A memória da gente, eita oceano profundo. Mas é um oceano generoso, porque se você tiver cuidado você vai ver que tudo que esse oceano engole ele devolve inteiro, depende só de você. E às vezes você já está tomando umas e outras há umas dez ou doze horas, o bar está meio fora de foco, mas alguém pede pra você dizer aquele verso de Fulano. Você vira um gole e procura no oceano de dentro de si. Como danado é esse verso? Começa como?... 

E de pouquinho, daquelas águas escuras e profundas, daquela nossa cisterna cheia de ecos, começa a brotar um pedaço, um cotoco de verso aqui, um frangalho de rima ali, uma redondilha rasgada acolá, e outras palavras vêm surgindo luminosas, dão um pequeno pulinho ao chegar à superfície, ficam boiando ali, e como por um milagre da matéria essas palavras vão se alinhando, ganhando forma e sentido, como se tivessem vindo todas soltas e misturadas mas com a ordem de se recompor quando chegassem à tona, e você cofia o rosto grisalho ou imberbe, ergue o indicador e começa a recitar.




4079) Querer sempre o melhor (19.3.2016)



Esta expressão vive na moda, e nunca deixa de me irritar um pouco. Pessoas dizem: “Ah, eu exijo sempre o melhor.” À primeira vista, parece birra minha com quem é muito rico. Pela lógica vigente, o melhor é sempre o mais caro. Se o vinho A custa 30 reais e o vinho B custa 40, B é melhor do que A. Um carro que custa 100 mil reais, então, é necessariamente melhor do que um carro que custa 50 mil, e se o seu carro custou 50 você deveria se esforçar mais, trabalhar mais, produzir mais, ganhar mais, para poder ter o que realmente importa, o carro de 100 mil. (Depois vai entrar em cena o carro de 200 mil, e tudo recomeça. É uma extorsão fractal expansiva.)

A neurose consumista é sem cura. Quando a conversa chega aí, eu me faço de doido e mudo de assunto. Mas o mesmo sintoma reaparece quando alguém me pede dicas de leitura. Quem pede dica de leitura muitas vezes o faz porque tem pouco tempo para ler, quer ir direto ao filé. Eu vivo cercado por pessoas que trabalham mais do que eu, trabalham 10, 12, 14 horas por dia. (Eu também; mas metade desse tempo é lendo. Não sei se devo considerar minha leitura como trabalho, até porque tenho prazer nela, e diz o catecismo puritano que trabalho que dá prazer não é trabalho e não deveria ser remunerado.)

“BT, eu não conheço muito a literatura policial. Quem é o melhor autor policial?” Eu respondo: “Bem, você poderia ler Raymond Chandler. Ou Ruth Rendell. Ou Cornell Woolrich.” Mas aí a pessoa diz: “Mas quem é o melhor de todos?” Eu respondo: “Olha, em literatura não existe isso de ‘o melhor’. Tudo é muito subjetivo.”  E aí vem a frase definitiva, que já ouvi tantas vezes: “Ah, sinto muito, eu não tenho tempo pra ficar testando. Quero conhecer o melhor. Se não sabem quem é o melhor, não pode prestar”.

A pessoa que “quer somente o melhor de algo” não está interessada nesse algo. Você só conhece algo de verdade se experimentar o melhor, o bom, o médio, o ruim e o pior que existe naquele âmbito. É uma espécie de lei da vida. Imagine alguém que quisesse entender de futebol mas não tivesse paciência de assistir os 90 minutos de um jogo, quisesse ver apenas os “melhores momentos” – e depois saísse cagando regra sobre o que foi aquela partida, e sobre o futebol em si. Para conhecer FC, por exemplo, não basta ler os melhores (LeGuin, Dick, Gibson, Clarke, Lem, Ballard...). É preciso ler algumas centenas de romances e de contos de todos os tipos, em todo o espectro de qualidade literária possível. Só se conhece algo quando se conhece esse algo em todas as direções, em toda a variedade de sua experiência, uma experiência que o “melhor” nunca consegue abarcar sozinho.





quinta-feira, 17 de março de 2016

4078) O crime de Raskólnikov (18.3.2016)



Numa entrevista ao Brasil de Fato, o paraibano Paulo Bezerra, um dos nossos principais tradutores do russo, foi perguntado sobre o melhor livro para iniciar a leitura de Dostoiévski.  Ele respondeu: “Sempre sugiro Crime e Castigo, que tem como personagem central Raskólnikov, um jovem excluído que pensa como jovem, filosofa como jovem, e como jovem tem um amor verdadeiro pela vida, pelo ser humano (especialmente as crianças) e acaba amando Sônia de verdade.”

Ora, Raskólnikov ficou para muita gente como símbolo do assassino frio e cruel que, depois de praticado o crime, começa a se roer de remorsos. (O “castigo” do título é o tormento mental do personagem; o desfecho jurídico se dá apenas nas 20 últimas páginas.) Paulo Bezerra está descrevendo apenas o lado bom de Raskólnikov, um jovem brilhante e arrogante que foi atraído pelo lado negro da Força. Ou seja: pela húbris, pela crença de que é superior aos demais, pela crença de que a satisfação de um desejo seu é mais importante do que a vida de alguém.

A raiz das ações dele está no artigo “A respeito do crime” que Raskólnikov publicara, meses antes, num jornal. Nele, o rapaz explica que há dois tipos de indivíduos, os ordinários e os extraordinários; e que estes últimos têm direitos morais mais amplos do que os primeiros. Isso não significa (diz ele) que Isaac Newton, um extraordinário, tivesse o direito de sair matando ou roubando qualquer um que encontrasse na rua.  Mas Newton, tendo feito descobertas cruciais que trariam um enorme benefício à humanidade, se visse essas descobertas sendo bloqueadas ou impedidas por “um, dez, cem ou mais homens”, teria todo o direito de eliminar esses homens, para levar sua descoberta a toda a humanidade.

Dostoiévski incrusta essa teoria, no romance, através de um artigo publicado pelo personagem. Raskólnikov na verdade não sabia que o artigo (enviado para um jornal que acabou falindo) tinha sido publicado. Só depois do crime alguém o avisa de que essa justificação teórica tinha sido dada a público. Raskólnikov, assim, trai a si mesmo, chama atenção da polícia sobre si mesmo, como se o “demônio da perversidade”, de Edgar Allan Poe, tivesse baixado sobre ele.

Esse mesmo efeito de imprevisto se dá na cena do crime. Ele entra, mata a velha usurária que guardava jóias e dinheiro em casa, mas esquece a porta aberta ao entrar. A irmã da velha entra, vê tudo, e ele a mata. Não importa se o primeiro crime era filosoficamente justificável. No segundo, prevaleceu apenas a necessidade fatal de não deixar testemunhas. O crime se ampliou, como sempre se amplia, numa direção que ele jamais imaginara.



4077) Grandes Objetos Mudos (17.3.2016)



(Rama, de Arthur C. Clarke)

Peter Nicholls, crítico australiano que viveu no Reino Unidos por dezoito anos, é um dos editores de The Encyclopedia of Science Fiction, uma das obras de referência essenciais sobre FC (http://www.sf-encyclopedia.com/).  Na segunda edição da obra (1993) Nicholls, autor de grande parte dos verbetes temáticos, sugeriu como um dos temas notáveis da FC aquilo que ele chamou de Grandes Objetos Mudos, “Big Dumb Objects”. Em inglês há uma sutileza maior porque “dumb” tanto pode ser “mudo” como “estúpido”. São aquelas construções gigantescas que a Humanidade vai encontrando ao percorrer a galáxia.  Voltamos a lembrar deles há poucos meses, quando a astronomia constatou uma estrela que parecia ter sua luz periodicamente eclipsada, em parte, por algo que, visto assim, poderia ser uma gigantesca estrutura artificial em volta da estrela, como uma grade, imóvel ou não.

Vieram aos jornais Grandes Objetos Mudos como o Ringworld de Larry Niven (um anel-de-saturno artificial abrigando um mundo inteiro), a Orbitville de Bob Shaw (o mesmo conceito, só que em vez de um anel era uma esfera oca, tendo a estrela ao centro), e outros. É algo típico de uma FC “hard” como a de Arthur C. Clarke, Gregory Benford, Greg Bear, John Varley e outros autores capazes de descrever um mundo assim de modo acreditável. O termo preferido pelos críticos é “Macroestrutura”, até porque alguns desses grandes objetos artificiais não são nem mudos bem bobos (http://www.sf-encyclopedia.com/entry/macrostructures).

Nicholls vê nisso um resíduo poderoso do elemento Romântico (no sentido literário) numa literatura que, pela força da verossimilhança científica, tende a ir justamente para o lado oposto, o do Classicismo. Naquelas obras, a humanidade descobre maquinismos gigantescos que ela em geral não sabe para que servem nem como podem ser postos a funcionar. Em geral a aventura se encerra sem que esse mistério maior tenha sido respondido.

Para o crítico, isso revela um lado lunar, sombrio, misterioso da FC. Em princípio se pensa no gênero como apenas uma literatura triunfalista, racional, impecavelmente exata e escrupulosamente realista. Nicholls lembra que Brian Aldiss (Billion Year Spree, 1973) já lançava essa premissa, situando o começo da FC em 1818 com o Frankenstein de Mary Shelley, e dizendo que era uma literatura caracteristicamente moldada numa chave gótica ou pós-gótica. E Nicholls pergunta: “O que é mais gótico do que o movimento Romântico, que sempre se focou mais no mistério do que no conhecimento?”.  O Grande Objeto Mudo nos diz existir uma ciência que transcende a nossa, e nos avisa que jamais conseguiremos acessá-la.



terça-feira, 15 de março de 2016

4076) O passeio de Joãozinho (16.3.2016)



É uma rotina antiga, confortável. Como toda rotina, é uma tentativa de volta a um passado onde tudo correu bem. Quando D. Helena pega Joãozinho e desce pelo elevador de serviço, ao lusco-fusco do entardecer, todos os dias, religiosamente, ela, aos 72 anos, está fazendo na verdade uma viagem no Tempo. Na cabeça dela, descer para o passeio diário de Joãozinho não é apenas uma ida até a pracinha, é uma visita ao dia de ontem. O que ela espera é voltar ao dia de ontem, a tudo que ontem ocorreu de confortável, de reconfortante, o diálogo com as empregadas domésticas e as babás, com os donos de pets, com o pessoal de short e tênis acenando um boa-noite arquejante nas subidas e descidas do quarteirão. Ela quer voltar às coisas boas do dia de ontem, quer que aquilo-bom que já aconteceu venha e aconteça  de novo, com alguma variante ou interferência, tanto faz, desde que o dia-de-ontem-revisitado-hoje seja tão pacífico, pacato, cordeiro, manso, quanto o dia de ontem original.

Ela vai portanto à área de serviço, onde Joãozinho já a espera, olhos brilhantes, cheio de expectativa. Recolhe os jornais sujos que forram o chão, espalha jornais limpos, troca a água. Prende a correntinha à coleira e Joãozinho já se agita feliz. Em momentos assim ela lembra às vezes o dia em que o conheceu e o escolheu, no meio de tantos outros, todos tão abandonadinhos, todos tão carentes. Acompanhada por dois funcionários ela se debruçou na mureta, ficou olhando aquelas criaturinhas, coitadas, tão sem ninguém. E viu os olhinhos pretos dele fitos no dela, e exclamou: “Aquele! Vai ser aquele ali! Olha como ele me olha! Parece até que está me reconhecendo!”  Foram poucos dias de assinatura de documentos, exames médicos, termos de responsabilidade, e Joãozinho veio e se instalou no centro da vida dela. Como um pequenino imperador, alguém que foi feito só para dar amor, dar gratidão.

Ela caminha pela calçada, mantém corrente curta para Joãozinho não se chegar demais ao meio fio, não atrapalhar a passagem dos transeuntes. Ele tem algumas vitrinas favoritas onde se detém fascinado vendo aquelas cores e luzes que decerto não compreende. Ela segue até a praça, onde há um vasto quadrilátero cercado onde ele pode ser solto, correr um pouco, brincar com os outros, enquanto os donos se cumprimentam, conversam amenidades, trocam conselhos sobre alimentação, remédios antipiolhos e tudo o mais. Hora de voltar, Joãozinho! As primeiras estrelas já brilham no céu. Ele volta, meio relutante, meio satisfeito, mas essa meia-horinha é tão importante para o coitado, olha só a felicidade nos olhos dele, parece gente.




segunda-feira, 14 de março de 2016

4075) A infância e a FC (15.3.2016)



(ilustração: Flights of Fancy, de James Gurney)

A New York Review of Science Fiction (May 2010,  # 261) publicou uma espécie de enquete feita por Barbara Bengels com alguns escritores de FC norte-americanos para avaliar que tipo de incentivo, inspiração ou iniciação eles receberam quando garotos, algo que de certa forma os encaminhou para a literatura e/ou a FC. 

Bem, se eu me perguntasse qual seria a resposta “típica” dos autores dos EUA que eu leio, que acompanho, já li a respeito, etc., eu diria que são meninos e meninas filhos de profissionais liberais não muito ricos, mas vivendo com conforto, e criando em volta dos filhos uma nuvem informal de livros, músicas, desenhos, filmes, estimulando sua imaginação; e ao mesmo tempo fazendo-o estudar sério, mesmo que rebocando-o pela orelha. 

O típico escritor de FC leu muito. Um escritor de FC é um cara capaz de considerar a possibilidade de um dragão, de explicar reator nuclear, de consertar um rádio, de achar uma constelação no céu e de explicar o mito que nela se projetou.

Não; cada caso é um caso. Theodore Sturgeon (More Than Human) diz que tinha uma relação conflituosa com o padrasto, que não o deixava ler pulp magazines. Ele guardava tudo num armário grande, e lia às escondidas. Um dia o padrasto achou a coleção de revistas de FC e rasgou tudo. Nesse instante, Sturgeon decidiu que tornar-se escritor de FC seria a vingança mais completa.

Melodrama, mas a FC de Sturgeon é puro melodrama, é o desvio da média, a exacerbação meio caricatural disto às expensas daquilo. Cada jogo de baralho inventa sua regra, e na literatura é assim também. 

Situações assim são frequentes na vida real, mas dificilmente serão o mais mediano ou o mais típico. Para muita gente a pulp fiction foi uma iniciação pecaminosa. Acho legal um autor épico dizer que um dia uma revista de FC entrou na casa dos pais dele, ele leu duas histórias que “scared the daylights out of me”, e o casal Saberhagen proibiu o pequeno Fred (Berserker) de voltar a fazer tais leituras.

Não tem como não admirar a singeleza cowboy com que o veterano Jack Williamson (Legião do Espaço) conta seu estalo-de-Vieira. Com 5 ou 6 anos ele ouviu dizer que Mark Twain ganhava um dólar por palavra. Saiu perguntando se isso valia também para palavras bem curtinhas como “to” e “the”, e quando lhe disseram que sim ele decidiu ser escritor. 

Joanna Russ (The Female Man) talvez seja mais mediana pelo meu critério acima. O pai era professor de artes industriais e construiu um telescópio para ele e ela olharem as estrelas. A mãe era professora, lia muito, e comprava antologias de FC e de horror, que ela leu e aprendeu a gostar.  Começo mais plácido não poderia haver.