sábado, 12 de dezembro de 2015

3996) O eu lírico (13.12.2015)




(ilustração: Mana Neyestani)


Existe uma discussão em curso, Brasil afora, sobre as pessoas de origem humilde que conseguem cursar uma universidade, mesmo sendo o que se chama de analfabetos funcionais. Sabem ler, sim. Mas aprenderam apenas a tarefa mecânica de identificar palavras. Não sabem o que aquilo quer dizer. Podem, se estimuladas, dar uma definição passável de cada uma daquelas palavras que rabiscam. Mas se alguém lhes perguntar o que significa um mero parágrafo de jornal sobre assunto que não dominam, terão balbuciantes dificuldades. Diante de um parágrafo da literatura ou da ensaística, naufragarão.

Isso é uma vergonha? De jeito nenhum. É apenas uma erro de programação (ou uma programação propositalmente defeituosa, dirão os mais paranóicos). Nossa civilização precisa de gente assim, que sabe copiar coisas escritas sem entendê-las. Isso deve ter começado desde os tempos cuneiformes, um poeta analfabeto ditando, e um escriba bronco mas competente cravando as runas na argila. Exatidão no registro era mais importante do que entendimento próprio. Hoje não. Exatidão de registro existe a três por dois. O que falta são mentes com mais do que os dois neurônios necessários à alfabetização.

Isso não implica em zombar de quem não sabe ler, mesmo os supostos leitores sofisticados. Há gente com graduação universitária que atribui a Shakespeare ou a Nelson Rodrigues os sentimentos de uma frase dita por um personagem: porque não têm hábito de ir ao teatro, não entendem o jogo de idéias do teatro, e acham que toda frase escrita por um dramaturgo é como um editorial de jornal, um documento partidário, uma carta de intenções registrada em cartório.

As pessoas atacam uma atriz no supermercado porque não gostam da personagem dela na novela do horário nobre. As pessoas entendem mal o que leem. As pessoas têm a mais tênue percepção possível do mundo de teias-de-aranha narrativas em que vivem enredadas - pela TV, pelas revistas, pelos websaites de fofocas. As pessoas comuns (acho eu) têm uma idéia ainda mais esgarçada do que é o mundo real do que um adepto da Teoria Quântica.

As pessoas muitas vezes não percebem que um texto de um desconhecido (mesmo um desconhecido que seja famoso para milhões de pessoas) está ligado a outros contextos e envolve outros sentidos e comenta outros comentários. Enfim. É difícil pegar um jornalista finlandês recém-chegado ao Brasil e tentar explicar para ele nossos 500 anos de história, e a influência que eles têm na atual conjuntura política. Pois bem, o jornalista finlandês é cada um de nós, brasileiros. Não sabemos da missa um terço. O fato de a gente achar que sabe ler não significa que a gente entenda.




sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

3995) Noite de reencontro (12.12.2015)



As portas do bar se abrem para o frio da calçada, o asfalto molhado, as rajadas de água que os táxis projetam quando passam rasgando por cima das poças. Meu grupo sai pela porta aos empurrões, aos apertões, ao cambaleios, estamos eufóricos por estar juntos, quase todos falando ao mesmo tempo. Esse aqui, por exemplo, é Anexarzinho. É marceneiro, e não dirige carro. Tem pernas curtas; é aquilo que chamam de fração imprópria, vai ver que isso pesou. Não sabe ligar um Fusca. Por isso pra onde a rapaziada vai ele tem que arrumar lugar no carro de alguém.

O que é esse grupo falador com quem saio abraçado e meio ébrio? Somos uma turma da terceira idade, gostamos da confraternização e da boa música. Em nosso tempo, fazíamos um samba moderno. Nossa linha era o samba intimista, o samba existencial, com laivos de Cartola e de Nelson Cavaquinho, só que composto na estrutura de um samba-enredo, quer dizer, com uma estrutura de muitas partes, cada qual com letra e melodia próprias, como aqueles velhos sambas primordiais. Várias partes, um refrão recorrente. Em sambas-enredos, mesmo os fakes como os nossos, o material tem que ser variado. Samba de rua tem que ser feito pensando que aquele troço vai ser cantado durante horas, por alguém a pé, no meio da rua, à frente de cinco mil pessoas cantando junto.

Começam as despedidas, os abraços, as trocas de cartões, as admoestações finais, as gargalhadas cheias de bonomia. Uma banda onde a gente tocou por dez anos, trinta anos atrás. É como uma visita que chegou, tornou-se insuportável, mas voltou a ser do-coração depois que foi embora. Aí está Babosa, o vocalista, astro maior das quarentonas ainda no páreo. Agora usa colete. Vilto da Lanternagem é aquele, o do sete-cordas. O pandeiro, o gordinho, é o Gordo Eliézer, dublê de serralheiro e filho de santo.

Como sempre, os dois mais velhos estão afastados dos demais, mergulhados em altas discussões em voz baixa. Dinaldo Granja, o batera mais confiável do lado de cá do Beco das Garrafas, e o cavaquinho Diélson, irmão dele. Dois quengos finos, finos. Músicos de mão cheia, faziam direção musical, faziam tudo, cuidavam das finanças da banda. Ainda hoje, todos os direitos autorais e conexos nos chegam pelas mãos deles dois, pela razão-social que eles criaram. Ninguém guarda mágoas de ninguém, certo? A banda acabou, a vida continua, cada qual hoje tem seu ganha-pão. Podemos considerar uma vitória dos bons sentimentos o fato de ainda estarmos fazendo esse teatro de que somos amigos só porque estes paparazzi daqui desta rua, que Deus os conserve, são os únicos que continuam acreditando em nós.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

3994) "Crítica Syllyrica" (11.12.2015)



Alguém já disse que a melhor maneira de criticar, digamos, uma pintura a óleo seria produzir uma segunda pintura a óleo que fosse uma crítica da primeira. Professores de belas-artes pegam o desenho de um aluno e o copiam, mostrando como corrigir cada pequeno erro. Glauco Mattoso, em sua nova coletânea de sonetos, Critica Syllyrica (São Paulo: Lumme Editor, 2015) usa um método parecido. Ele pega sonetos famosos ou obscuros da poesia brasileira, e produz um soneto paralelo que lhe serve de crítica. Não que ele corrija o soneto do outro, não que tente refazê-lo “certo”: o soneto mattosiano é um comentário, geralmente sarcástico, ridicularizando aqueles modismos insuportáveis, o linguajar pomposo, as imagens clichê, etc.

A metalinguagem já faz parte dos métodos mattosianos desde o Jornal Dobrabil (1977-1981), a primeira publicação gay-concretista-anarquista-sadomasoquista-coprofágica da poesia brasileira. Paródia, pastiche, imitação, avacalhação, todos esses métodos desconstrutivos já estavam presentes naquela folha datilografada que acompanhei ao longo dos anos. Depois que o glaucoma reduziu drasticamente suas atividades datilografistas, Glauco dedicou-se à composição de sonetos, sendo provavelmente o recordista mundial do gênero.

Critica Syllyrica está todo vazado na “ortographia antiga”, uma opção radical do poeta, a quem parece não agradar essa sucessão de reformas mexendo em coisas sagradas como o hífen e o trema. Comentando o soneto “Risonhas Flores” de Sylva Alvarenga, ele diz: “Das epochas tentou Sylva Alvarenga / os themas amorosos por na flor. / Tentou, pois todos tentam, mas amor / não vive só de flores: há pendenga”. O livro reproduz, face a face, o soneto original e o soneto-crítica, onde Glauco, fiel ao personagem, reclama com frequência da hipocrisia dos poetas ao se dirigirem às “amadas”, e explicita as perversões sexuais que provavelmente jaziam encobertas nos versos castos dirigidos às “virgens puras” daquele tempo.

Crítica metalinguística como esta o poeta já tinha produzido ao reescrever o romance A Pata da Gazela (1870) de José de Alencar como A Planta da Donzela (Rio, Lamparina Editora, 2006), onde as sutilezas fetichistas e sadomasoquistas do original são exibidas e ampliadas. O mesmo que faz agora, com sonetos de poetas consagrados e poetas menores. Definição que ele contesta, ao comentar Amaral Ornellas: “Questiono si ‘menores’ elles são, / talvez um tanto obscuros. Mas fallar / pretendo, tambem, delles. Exemplar / é o caso deste Ornellas, de encheção.” Não escapam sequer os maiores, como Bandeira, Drummond, Bilac, Augusto dos Anjos ou Vinicius. A verdadeira sátira não perdoa ninguém.




3993) "Rubber Soul" (10.12.2015)



Estamos celebrando os 50 anos do lançamento de Rubber Soul, o disco que tornou-se uma esquina na carreira dos Beatles. Foi quando eles pararam de fazer shows e se fecharam nos estúdios, cujos recursos estavam começando a descobrir. Há versões diferentes do álbum na Grã-Bretanha e nos EUA. No Brasil, a versão que foi lançada (a que ouvi até furar) era a que abria no lado 1 com “Drive My Car” e fechava com “Michelle”, enquanto o lado B abria com “What Goes On” e fechava com “Run For Your Life”. É a essa edição que me refiro quando falo no disco.

Foi neste disco que os Beatles lançaram sua cítara indiana (“Norwegian Wood”) e sua própria versão da guitarra com distorção (“Think For Yourself”, gravada em novembro), logo depois que os Rolling Stones lançaram “Satisfaction” em outubro, com o famoso riff de Keith Richards.

Aqui no Brasil uma coisa que deve ter contribuído para a popularidade do álbum são as versões brasileiras que tiveram muito sucesso, como as de Ronnie Von para “Girl”, de Renato e Seus Blue Caps para “You Won’t See Me” e “Run For Your Life”, dos Golden Boys e de Agnaldo Timóteo para “Michelle”.

Em termos de letra, de imageria poética, “In My Life” é o primeiro elo de uma corrente nostálgica que se prolongaria tanto na “Penny Lane” de McCartney quanto no “Strawberry Fields” de Lennon. Ian McDonald diz que a psicodelia britânica era acima de tudo um retorno à infância. Uma infância talvez imaginária, mas feliz.

Lennon já disse detestar canções como “Run For Your Life”, e não sei como seria recebida hoje em dia uma canção dizendo “Olhe aqui, garota, prefiro ver você morta do que lhe ver com outro cara”. Lennon, como qualquer teddyboy de sua geração, era metade machista metade inocente. Depois, na sua fase feminista em Manhattan, ele depreciava a letra, a canção inteira. Mas a mente ciumenta daqui é a mesma de “Jealous Guy” anos depois, o que muda é o tratamento que o ciúme recebe. E só um sujeito reconhecidamente famoso por seu sarcasmo e cara-de-pau, como Lennon, teria crédito para dizer anos depois: “Eu estava inseguro, pensei que você talvez não me amasse mais”. “Run For Your Life” é um rockinho bobo mas seu refrão é muito bom, e ela já foi explorada em desenhos animados, etc.

E de fato essa música não é a cara dele, a cara dele é “Nowhere Man”. Talvez a gente nunca saiba com certeza, mas Lennon afirmava que essa música era uma espécie de estalo-de-Vieira ou maçã-de-Newton dele, quando ele descobriu que podia transformar numa canção uma coisa real que estava sentindo. Foi quando ele começou a considerar a letra algo mais do que uma roupa para que a música não saísse desfilando nua por aí.




quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

3992) Cinco eufemismos (9.12.2015)



Correu como fogo em pólvora, naquela manhã, na vizinhança, a notícia de que Doutor Hercílio tinha uma rapariga. Alguém ia passando e o viu saindo da casa dela às 7 da manhã, despedindo-se com um beijinho, e veio de táxi trazer a notícia para Dona Iolanda. Minha mãe soube, foi na casa da pobre vizinha oferecer os préstimos. Na hora do almoço meu pai perguntou: “Que zum-zum-zum é esse na calçada, essa risadaria, todo mundo falando em Hercílio?”  Minha mãe, muito dignidade-ofendida, trouxe a terrina de feijão e informou: “Descobriram que ele tem um contróle lá no bairro do Jeremias”.

Insone e com a cabeleira em desalinho, o cantor irrompeu no apartamento do seu empresário, brandindo demonstrativos bancários quentinhos do forno. Onde estavam suas economias, seus investimentos, suas poupanças? Onde estava a confiança que tinha depositado no amigo? Onde estava a grana dele, afinal? O outro engoliu e seco e disse: “Tua grana está dando a volta ao mundo, qualquer dia ela volta pra casa.”

O delegado ouviu dos envolvidos e de testemunhas o relato de que Chico de Janjão chegou em casa e flagrou a mulher conversando com dois evangélicos de Bíblia em punho, caiu de pau enxotando a dupla, que se escafedeu com escoriações leves, e descontou o resto em cima da pobre da dona Do Carmo, que exibiu às autoridades os três dentes partidos, olho roxo, boca lascada, braço destroncado, chumaço de cabelo arrancado à força. O delegado lavrou auto de infração acusando Chico de Janjão de “atitude inconveniente”.

Da súmula do jogo Hamburguense x Laranjal, pelo árbitro Moziael Ribeiro Júnior: “Aos trinta minutos da etapa complementar, seguindo-se a uma altercação entre os atletas Mariano Paulo de Amorim e Salim Raia, houve a invasão de campo por dirigentes e reservas de ambas as equipes, e no alvoroço subsequente o presidente do clube local, o deputado Anastácio Baruque, aplicou as mãos espalmadas de encontro ao meu peito, nas quais esbarrei e acabei perdendo o equilíbrio e caindo para trás, o que pode inclusive ter dado ensejo a versões tendenciosas que podem querer me indispor com a supracitada autoridade.” 

Nininha Dez-Reais estava na calçada de sempre, de minissaia, checando o zapzap sob a luz do poste, quando parou um carro novinho com um senhor grisalho ao volante. Ela encostou na janela, os dois trocaram sorrisos calejados, num flerte protocolar de trinta segundos. O cliente explicitou sua intenção de que o ato amoroso fosse praticado, por assim dizer, por vias diversas das convencionais. Ao que Nininha se empertigou, receosa, e mandou essa: “Doutor, o senhor me desculpe, mas comigo é só no organismo.”




segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

3991) "Partido Alto - Samba de Bamba" (8.12.2015)



Nei Lopes, sambista de talento, é também um pesquisador de tudo que diz respeito ao samba, à história da cultura negra do Rio de Janeiro. Anos atrás encontrei seu livro O Negro no Rio de Janeiro e sua Tradição Musical (Pallas, 1992), onde ele compara certas formas e estruturas do samba de partido alto com outros gêneros de improviso popular. Essa obra saiu depois, muito aumentada e enriquecida, como Partido Alto – Samba de Bamba (Pallas, 2005).

O partido alto é o grande território do repente no Rio de Janeiro, uma cidade onde cantoria de viola e coco de embolada são praticados quase exclusivamente por nordestinos. Há diferentes tipos de estrofe, de refrões, etc., que não são catalogados tão rigidamente quanto os gêneros da cantoria do Nordeste. Uma forma frequente, p. ex., é, após todo mundo cantar o estribilho, alguém cantar uma quadra, e outro produzir uma quadra que sirva de resposta, após o que cantam todos o estribilho e tudo recomeça.

No livro de 2005, Anescarzinho do Salgueiro comenta para o autor: “Partido alto, hoje, o tema do partido é um e o verso é outro, quando não era isso, o partido-alto exatamente era partido do tema, o tema em si é o quê? Era o estribilho. Se o estribilho fala de amor, os versos é tirar partido do amor nos versos. Partido-alto é tirar partido do tema.” 

Olha o parentesco de espírito. Porque essa noção de “tirar partido do tema” corresponde a vários preceitos da cantoria, como pagar o verso bom do companheiro dizendo outro no mesmo “sentido”; ou glosar um mote (submeter-se a um tema imposto), ou pegar na deixa (fazer uma menção sonora, com a rima, ao verso deixado pelo outro). Tirar partido, sempre, do que foi proposto, às vezes com pouquíssimo tempo para pensar.

Um verso que gostei foi “Como letra na cabeça / como letra no jorná... / Você pra cantar imagina / eu canto sem imaginar.”  O que quer dizer isso?  Talvez alguns cantadores tenham memória visual, como eu, e quando estão cantando um trabalho decorado lembrem (como eu lembro) a imagem do caderno ou da folha impressa. Isso explica o olhar meio vidrado e inexpressivo de alguns cantores. Estão vendo na cabeça a letra impressa como num jornal. É como se ele dissesse: Você inventa o verso à medida que canta, eu não, o verso me vem inteiro e eu canto, é só ler como se fosse uma lauda escrita.

Pode-se, por exemplo, fazer um estudo comparativo dos truques criativos (e mnemônicos) usados por cantadores do NE, partideiros do RJ, calangueiros de MG, emboladores, poetas improvisadores de diferentes regiões e culturas. Veríamos como certos truques de memorização são mais universais, ou mais únicos, do que se pensa.


sábado, 5 de dezembro de 2015

3990) Memórias Revenantes (6.12.2015)




Às vezes eu gostaria que caísse sobre o mundo uma daquelas misteriosas barreiras transdimensionais da ficção científica. Talvez até já seja hora de encontrar uma terminologia equivalente, que também seja vaga, e usável a torto e a direito. 

Enfim: um truque mediante o qual o mundo ficasse imobilizado, esvaziado de gente, e eu pudesse caminhar de noite ou de madrugada por Campina toda acesa, Campina deserta sem vivalma, tipo quinta dimensão, além da imaginação.

Aquele friozinho de mei-de-ano e eu andando por Campina. Tudo aceso, vitrines, iluminação pública, luzes dos terraços e jardins. Mas tudo fechado, portas, janelas, grades, embora, como em games tipo GTA, eu possa se quiser sair testando de porta em porta em cada rua... 

Numa das vezes em que fantasiei essa peripécia eu batia nas casas da Rua Miguel Couto e em todas havia alguém para me receber e me convidar para um cafezinho e água gelada na poltrona, onde me davam de graça uma história sobre minha infância (não propriamente sobre mim – sobre meus pais, sobre a rua, a vivência comum). 

Senti algo estranho. Todas aquelas pessoas tinham morado ali há quase 60 anos e todas continuavam lá, nas respectivas casas. Meu pai e minha mãe, no entanto, depois de alguns anos ali, tiveram que se mudar para a Vila dos Motoristas. Era na Rua Castro Pinto, por trás do campo do Treze. Quando havia jogo noturno no PV a gente aproveitava os refletores e jogava pelada no meio da rua. E aí minha cabeça já não estava mais pensando em quando a gente de mudou da Miguel Couto para a Vila dos Motoristas (acho que foi 1960).

Agora estou em pleno modo Stephen King ou Philip K. Dick. 

Um cara volta ao lugar onde morou até os 10 anos, quando sua família mudou-se às pressas para outra cidade. Conto na primeira pessoa. O cara está precisando de alguma informação sobre os pais, falecidos, e volta, com 40 anos, à cidade natal e à rua onde morou. 

Sai batendo de porta em porta, a começar pelas duas que ladeavam seu antigo endereço. E descobre que todos, absolutamente todos os personagens de sua infância, continuam vivos e morando ali. Alguns estão com mais de 120 anos de idade. Eles abrem a porta com estranheza, ouvem com pasmo e alívio quando ele diz quem é, recebem-no. 

Dizem que já o esperavam há muito. Porque desde que os pais dele se mudaram dali ninguém naquela rua morria. E, já que ele estava ali, quem sabe (dizem os moradores de Willoughby Street), se ele faria questão de executar para eles a tarefa que meus pais executaram enquanto puderam suportar, antes de largar tudo e sumir?... Pensei comigo mesmo que teria muito prazer em ajudá-los.









sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

3989) Histórias que se passam numa noite (5.12.2015)




Não sei se nesses saites com glossários de figuras narrativas ou clichês da dramaturgia este subgrupo está registrado. Se não, registro eu: são as “Histórias Que Transcorrem ao Longo de Uma Única Noite”, numa narrativa que às vezes dá a sensação de que está acontecendo em tempo real. Sem ser o exemplo mais famoso (estes vêm abaixo), o que mais tipicamente de lembra esse gênero é The Night of the Jabberwock (1950) de Fredric Brown. É uma história de crimes praticados e investigados numa cidadezinha do interior, numa única noite. O romance dá a impressão de ter sido escrito ao longo de uma noite, e eu o li numa noite, entre o jantar e a hora em que fui dormir.

Colateral (2004), o filme com o pistoleiro Tom Cruise e o taxista Jamie Foxx, pertence ao gênero com louvor, pela narrativa tensa e bem encadeada. Não lembro se Fuga em Nova York (1981), com Kurt Russell, também transcorre numa noite única, mas é o que a lembrança me sugere. (Poderia ir consultar no Imdb, mas daria a impressão de saber tudo de cor, o que não vem ao caso.) Alguns filmes dão a impressão de acontecerem numa noite só porque acontecem em ambiente fechado com ação incessante; é o caso de Rocky Horror Picture Show (1975).

No romance policial, outro favorito meu é Deadline at Dawn (1944) de William Irish (pseudônimo de Cornell Woolrich). Um rapaz e uma moça se conhecem de noite. Apaixonam-se. Descobrem que odeiam a cidade grande. Decidem ir embora juntos dali, mas justo nesse instante se envolvem num crime. Têm até o amanhecer para descobrir o criminoso antes que a polícia os prenda.

Um ótimo livro de fantasia tenebrosa (dark fantasy) é After Dark (1980), de Manly Wade Wellman. É bem verdade que os primeiros capítulos têm outra cronologia, mas mais da metade do livro é a narrativa tensa de uma noite interminável passada por um grupo de pessoas numa casa, cercadas por entes sobrenaturais que tentam penetrar suas barreiras psíquicas, ansiosas para que o sol nasça e venha em seu socorro.

Histórias assim nos trazem um pouco aquele sensação vertiginosa e asfixiante de tempo real, que experimentamos em filmes como Matar ou Morrer (Fred Zinnemann), Cléo das 5 às 7 (Agnes Varda) e outros. A impressão de que tudo está acontecendo diante dos nossos olhos, de que não existem hiatos, pausas, saltos para a frente do tipo “Alguns dias depois...”. A aventura contada torna-se uma “longa jornada noite adentro”, como a jornada sofrida de Os Selvagens da Noite (“The Warriors”, 1979) tentando voltar para casa durante uma noite que parece que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim.




quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

3988) Os Depravados e os Puritanos (4.12.2015)




(ilustração: flickrhivemind.net)


Um Depravado é um cara para quem a humanidade se divide em dois grupos: os normais (como ele) e os puritanos.  Um Puritano é um cara que acha que ela se divide em normais (como ele) e depravados. 

Esta fórmula serve para a maioria das oposições desse tipo, desde que os indivíduos em questão sejam do tipo que consideram a si próprios o zero-cartesiano do mundo. É um pessoal numeroso, infelizmente. Tudo que pensam está contaminado por essa força muda que os encarcera em uma única dimensão mental.  Dentro do escaninho estreito dessa idéia fundadora devem caber todas as suas idéias, seus raciocínios, suas justificações, suas concepções abstratas sobre o bom e o ruim, o certo e o errado, o permissível e o intolerável, o que deve ser proibido e o que deve ser obrigatório.

Não me refiro aos sujeitos que pensam e agem de má fé, aos crápulas, aos espertalhões. Estes, geralmente, sabem que estão errados, mas como o erro ético lhes traz benefícios materiais a curto prazo, então o mundo que se dane.  As pessoas a que me refiro são, muitas vezes, gente bem intencionada, mas que desde cedo foi condicionada a ver as coisas apenas de um ponto-de-vista. E não admite a possibilidade de que haja pontos-de-vista diferentes do seu.

São pessoas sofridas; sua vida é uma sucessão de erros, de fracassos, de catástrofes que não podem ser explicadas senão pela existência de uma maneira de ver as coisas diferente da deles. E isto eles não admitem. O que existe (dizem) é uma maneira certa de fazer as coisas, e alguns desses detalhes não estão sendo cumpridos direito. Quando isso acontecer, tudo se encaixa. São aquelas pessoas capazes de passar duzentos anos batendo com a cabeça numa parede de mármore, acreditando que com isso acabarão por abrir uma passagem no meio dela.

Um rótulo é como um crachá. Desde que nos dê acesso, pouco importa a função que está anunciada nele. Compromisso zero. Problema é que acabamos sendo fotografados com um deles (“Apologista da Cultura Popular”) e termos que explicar o por quê disso tudo. Os armoriais e os tropicalistas têm sem dúvida numerosas e importantes diferenças entre si, mas para um admirador distante, um islandês, digamos, os dois talvez não passem de fases ou faces diferentes de um mesmo movimento. Talvez fossem os dois um só movimento do comportamento e das idéias de seu tempo.

Para o Puritano, quem não concorda com seu modo de ser é depravado, reacionário, e é por isso que o chamam de puritano, logo ele, um sujeito absolutamente normal. E assim por diante. Existe algo de errado com uma pessoa que pensa: “O mundo seria um lugar perfeito se todo mundo pensasse igual a mim”.




3987) A civilização do olho (3.12.2015)




Num artigo de 1931 sobre fotografia, Walter Benjamin dizia: 

“Sob o efeito dos deslocamentos de poder, como os que hoje estão iminentes, aperfeiçoar e tornar mais exato o processo de captar traços fisionômicos pode converter-se numa necessidade vital. Quer sejamos de direita ou de esquerda, temos que nos habituar a ser vistos, venhamos de onde viermos. Por outro lado, temos também que olhar os outros”. 

É de certa forma a extrapolação sensata dos esboços de “Big Brother” que já surgiam na época do texto. 

É a época da foto, do documento, do passaporte, do salvo-conduto, do nada consta. E a das impressões digitais, e depois a do chip biométrico, do exame de fundo de retina, do DNA.

Isto é surpreendente? Não para quem se torna capaz de extrapolar situações sociais futuras com alguma verossimilhança, como alguns escritores conseguem. A Benjamin basta observar meia dúzia de elos de uma corrente para intuir até onde essa corrente pode se estender no futuro. 

Com a fotografia, não só a arte avançava, mas também a ciência. No mesmo espírito estava o físico Arago, citado pelo próprio Benjamin, que discursava assim em 1839: 

“Quando os inventores de um novo instrumento o aplicam à observação da natureza, o que eles esperavam da descoberta é sempre uma pequena fração das descobertas sucessivas, em cuja origem está o instrumento.”

A frase de Benjamin sobre ser visto e olhar os outros lembra esses quarteirões residenciais onde praticamente toda a calçada e todo o asfalto estão na área de cobertura de alguma câmara em algum ponto dali. 

Não sei se é ballardiano demais imaginar um condomínio onde qualquer morador, da TV de sua sala, pudesse sintonizar o que estava sendo transmitido por todas as câmeras de segurança do seu prédio, ou da vizinhança (com autorização). 

Daria um bom gancho para um romance policial, se todos os suspeitos dispusessem desse acesso; para checar álibis, etc.

Uma reação “romântica” a essa vigilância dos flashes é o filme “noir”, onde os rostos estão sempre semiocultos e os ambientes sempre na penumbra ou então são uma treva cortada por uma lâmina de luz. Ninguém vê nada com clareza. 

Falei no cinema mas o romance policial equivalente também tem esse clima meio expressionista, de coisas vistas apenas pela metade, ou pela sombra, ou pelo reflexo. Cornell Woolrich tem uma série de romances com as palavras “Black” ou “Dark”. Um levantamento das descrições dos personagens dos romances “noir” talvez revelasse a incidência reiterada de expressões como “com o rosto oculto pela sombra”, etc. 

Um mundo de incerteza e de matéria escura, o contrário do mundo de hoje, berrante, narcísico, escrachado, e onde todos querem ser reconhecidos.