quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

3988) Os Depravados e os Puritanos (4.12.2015)




(ilustração: flickrhivemind.net)


Um Depravado é um cara para quem a humanidade se divide em dois grupos: os normais (como ele) e os puritanos.  Um Puritano é um cara que acha que ela se divide em normais (como ele) e depravados. 

Esta fórmula serve para a maioria das oposições desse tipo, desde que os indivíduos em questão sejam do tipo que consideram a si próprios o zero-cartesiano do mundo. É um pessoal numeroso, infelizmente. Tudo que pensam está contaminado por essa força muda que os encarcera em uma única dimensão mental.  Dentro do escaninho estreito dessa idéia fundadora devem caber todas as suas idéias, seus raciocínios, suas justificações, suas concepções abstratas sobre o bom e o ruim, o certo e o errado, o permissível e o intolerável, o que deve ser proibido e o que deve ser obrigatório.

Não me refiro aos sujeitos que pensam e agem de má fé, aos crápulas, aos espertalhões. Estes, geralmente, sabem que estão errados, mas como o erro ético lhes traz benefícios materiais a curto prazo, então o mundo que se dane.  As pessoas a que me refiro são, muitas vezes, gente bem intencionada, mas que desde cedo foi condicionada a ver as coisas apenas de um ponto-de-vista. E não admite a possibilidade de que haja pontos-de-vista diferentes do seu.

São pessoas sofridas; sua vida é uma sucessão de erros, de fracassos, de catástrofes que não podem ser explicadas senão pela existência de uma maneira de ver as coisas diferente da deles. E isto eles não admitem. O que existe (dizem) é uma maneira certa de fazer as coisas, e alguns desses detalhes não estão sendo cumpridos direito. Quando isso acontecer, tudo se encaixa. São aquelas pessoas capazes de passar duzentos anos batendo com a cabeça numa parede de mármore, acreditando que com isso acabarão por abrir uma passagem no meio dela.

Um rótulo é como um crachá. Desde que nos dê acesso, pouco importa a função que está anunciada nele. Compromisso zero. Problema é que acabamos sendo fotografados com um deles (“Apologista da Cultura Popular”) e termos que explicar o por quê disso tudo. Os armoriais e os tropicalistas têm sem dúvida numerosas e importantes diferenças entre si, mas para um admirador distante, um islandês, digamos, os dois talvez não passem de fases ou faces diferentes de um mesmo movimento. Talvez fossem os dois um só movimento do comportamento e das idéias de seu tempo.

Para o Puritano, quem não concorda com seu modo de ser é depravado, reacionário, e é por isso que o chamam de puritano, logo ele, um sujeito absolutamente normal. E assim por diante. Existe algo de errado com uma pessoa que pensa: “O mundo seria um lugar perfeito se todo mundo pensasse igual a mim”.




3987) A civilização do olho (3.12.2015)




Num artigo de 1931 sobre fotografia, Walter Benjamin dizia: 

“Sob o efeito dos deslocamentos de poder, como os que hoje estão iminentes, aperfeiçoar e tornar mais exato o processo de captar traços fisionômicos pode converter-se numa necessidade vital. Quer sejamos de direita ou de esquerda, temos que nos habituar a ser vistos, venhamos de onde viermos. Por outro lado, temos também que olhar os outros”. 

É de certa forma a extrapolação sensata dos esboços de “Big Brother” que já surgiam na época do texto. 

É a época da foto, do documento, do passaporte, do salvo-conduto, do nada consta. E a das impressões digitais, e depois a do chip biométrico, do exame de fundo de retina, do DNA.

Isto é surpreendente? Não para quem se torna capaz de extrapolar situações sociais futuras com alguma verossimilhança, como alguns escritores conseguem. A Benjamin basta observar meia dúzia de elos de uma corrente para intuir até onde essa corrente pode se estender no futuro. 

Com a fotografia, não só a arte avançava, mas também a ciência. No mesmo espírito estava o físico Arago, citado pelo próprio Benjamin, que discursava assim em 1839: 

“Quando os inventores de um novo instrumento o aplicam à observação da natureza, o que eles esperavam da descoberta é sempre uma pequena fração das descobertas sucessivas, em cuja origem está o instrumento.”

A frase de Benjamin sobre ser visto e olhar os outros lembra esses quarteirões residenciais onde praticamente toda a calçada e todo o asfalto estão na área de cobertura de alguma câmara em algum ponto dali. 

Não sei se é ballardiano demais imaginar um condomínio onde qualquer morador, da TV de sua sala, pudesse sintonizar o que estava sendo transmitido por todas as câmeras de segurança do seu prédio, ou da vizinhança (com autorização). 

Daria um bom gancho para um romance policial, se todos os suspeitos dispusessem desse acesso; para checar álibis, etc.

Uma reação “romântica” a essa vigilância dos flashes é o filme “noir”, onde os rostos estão sempre semiocultos e os ambientes sempre na penumbra ou então são uma treva cortada por uma lâmina de luz. Ninguém vê nada com clareza. 

Falei no cinema mas o romance policial equivalente também tem esse clima meio expressionista, de coisas vistas apenas pela metade, ou pela sombra, ou pelo reflexo. Cornell Woolrich tem uma série de romances com as palavras “Black” ou “Dark”. Um levantamento das descrições dos personagens dos romances “noir” talvez revelasse a incidência reiterada de expressões como “com o rosto oculto pela sombra”, etc. 

Um mundo de incerteza e de matéria escura, o contrário do mundo de hoje, berrante, narcísico, escrachado, e onde todos querem ser reconhecidos.




terça-feira, 1 de dezembro de 2015

3986) O espírito do texto (2.12.2015)




Traduzir não é apenas encontrar palavras equivalentes às que estão escritas em outra língua. É produzir na mente do leitor um efeito semelhante ao da leitura do original. Ou melhor, um conjunto de efeitos, porque a experiência literária tem várias dimensões. Um diálogo literário, p. ex., não consiste apenas no que é dito, mas revela também a intenção com que foi dito, sugere algo que deveria ter sido dito também e não foi, e assim por diante. 

O leitor tem que perceber essas nuances, essas intenções que estão presentes mas não são visíveis. O leitor experimentado faz isso quase sem perceber, porque já leu tantos diálogos parecidos que quando um aspecto qualquer está faltando ele percebe essa falta e a completa mentalmente, assim como nosso olho completa desenhos onde faltam certos elementos.

Para além desses elementos que pertencem a história propriamente dita, existe outro que nem sempre é percebido. Um livro tem muitas vezes um clima peculiar, uma afinação, uma tonalidade de pensamento ou de emoção que perpassa todo o texto, algo que tem a ver com enredo e com estilo mas que está também além e em volta de ambos. É produzido por ambos, mas não parece estar presente em nenhum elemento isolado. 

Chamamos a isso clima, atmosfera, espírito – buscando símiles que traduzam essa impressão de algo que está por toda parte mas não pode ser dividido em unidades menores, nem apontado com o dedo numa frase específica. 

São exemplos disso a sensação de absurdo que se tem lendo Franz Kafka ou Philip K. Dick, a sensação de exaltação aventureira que produz a leitura de Alexandre Dumas ou de Maurice Leblanc, a sensação do peso opressor de um passado sombrio que vem da leitura de Lúcio Cardoso ou de Dostoiévski.

Jorge Luís Borges (em suas Norton Conferences) cita uma observação de Matthew Arnold segundo a qual existem na poesia de Homero numerosas qualidades (clareza, nobreza, simplicidade, etc.), e que um tradutor deveria sempre reproduzir essas qualidades, mesmo quando o texto não as exibe de maneira explicita.

Este princípio pode ficar mais claro usando como exemplo a ironia. Como sabemos quando um personagem, ou o próprio romancista, está sendo irônico? A ironia é um anti-texto, com sentido em sinal trocado, e só pode ser entendida se o leitor estiver com acesso a um contexto muito mais amplo de valores e de intenções. (Não vale recorrer a informações biográficas ou a entrevistas do autor: o texto deve valer pelo que está escrito.) 

Um texto irônico torna-se inteligível por ter seu sentido literal negado por um conjunto inteiro de alusões, indicações, etc. que se estende ao longo de toda a obra.





3985) Os livros inacabados (1.12.2015)



Umberto Eco propôs num livro homônimo e famoso o conceito de “Obra Aberta” para falar dessas obras que criam espaços a serem preenchidos, ou elementos a serem re-arranjados, pelo leitor. Obra que “chama o leitor pra dentro”, com poderes para interferir. Uma obra interativa, diríamos hoje, quando o conceito se expandiu a ponto de termos obras de arte – como os videogames – em que a interatividade é estrutural, essencial, não pode ser retirada sem que a obra inteira desmorone.

Um tipo particular de obra aberta, na literatura, é o livro deixado incompleto por um autor falecido. Há muitas obras assim, e acabam sendo publicadas sem o final (caso mais frequente) ou sem o meio, caso de O Processo (1925) de Kafka, do qual ele chegou a escrever o último capítulo, mas ficaram faltando muitos trechos intermediários. Um passatempo de autores sem assunto é propor “finais” para clássicos inacabados como O Mistério de Edwin Drood (1870) de Charles Dickens, que tem o charme adicional de ser um romance policial, o que convida todo mundo a descobrir o verdadeiro criminoso (que Dickens morreu sem revelar).

Também foram deixados inacabados As Confissões do Impostor Felix Krull (1954) de Thomas Mann, O Último Magnata (1941) de F. Scott Fitzgerald, The Pale King de David Foster Wallace (2011). Isso não os impede de terem sido publicados, depois de um trabalho de ordenação de todo o material deixado pelo autor. Ou de serem concluídos por alguém, como é o caso the The Poodle Springs Story, que Raymond Chandler deixou incompleto ao morrer. Eram 3 ou 4 capítulos muito ruinzinhos, que foram complementados e publicados em 1989 por Robert B. Parker (ainda não tive coragem de checar o resultado).

Um que me fascina é outro romance policial, o 53 Jours de Georges Perec (1989). A edição da Folio traz doze capítulos (o último deles apenas iniciado), em 128 páginas, e as 176 páginas restantes transcrevem as anotações deixadas pelo autor (que era meticuloso e detalhista), organizadas por seus amigos Harry Matthews e Jacques Roubaud. Note-se que Perec trabalhou na era pré-computador e todas suas notas estavam em cadernos manuscritos e folhas soltas. Não pode haver obra mais aberta do que essa, cuja primeira metade consiste num texto mais-ou-menos amarrado (o câncer levou Perec antes de uma revisão final) e a segunda metade numa babel-babilônia de pistas, hipóteses, possibilidades, questionamentos, preparativos, subtextos inspiracionais, todo o tumulto criativo que o escritor ferve e destila no alambique da mente para fazer gotejar, palavra por palavra, no manuscrito final.




segunda-feira, 30 de novembro de 2015

3984) Os enganos da memória (29.11.2015)



Há uma história sobre um rapaz distraído que quando foi à Alemanha lhe pediram que levasse uma encomenda para uma tal de Dona Erda. Um mês depois, ele bateu à porta do chalé e perguntou por Dona Osta. 

Nossa memória é vulnerável a esses pequenos atos falhos, que segundo algumas teorias são todos propositais. Embora não sejam propriamente nossos. São das criaturas trancafiadas que existem em nós, invisíveis para nós, e que somos nós. Toda vez que a gente erra, um desses avatares está querendo nos dizer alguma coisa.

O Padre Massote, diretor e professor da escola de cinema da UCMG, era jesuíta, muito falador, discorria muito bem sobre tudo, porque lia muito e adorava cinema. Pertencia, a certa distância, àquela corrente mista de cineclubismo e igreja católica que no Nordeste teve também um papel tão importante. 

Massote exibiu para nós, seus alunos, Un Chien Andalou e L’Âge d’Or, dizendo: “Vocês têm que ver isso, porque Buñuel é um dos maiores do mundo, apesar do infantilismo ateu dele. Mas não amarra a chuteira de Antonioni”.

Uma vez ele estava falando, provavelmente sobre economia de linguagem, sobre sintetizar uma cena inteira numa imagem, e disse: “Você pode dizer tudo em uma simples frase. Drummond fez um poema para a cidade de Nova Friburgo que diz apenas: ‘Um cravo na lapela’”. 

Anos depois me caiu sob os olhos esse poema. O poema diz, na verdade: “Esqueci um ramo de flores no sobretudo”. É Nova Friburgo também. A memória emotiva de Massote não lhe faltou, nem a visual, porque ele apenas reduziu o que lembrava; e o que disse está essencialmente certo, poeticamente certo.

Quantas vezes já me pediram para contar a história de um filme que eu vi dez anos atrás e eu contei, mas pintando um filme novo por cima do que eu não lembrava? Era uma mentira? Talvez, mas não pelo prazer de mentir, e sim pela vertigem de inventar, e nem quem dela é capaz pode definir o mistério que tem.

O pensamento abomina o esquecimento, tal como se diz que a Natureza “tem horror ao vácuo”. É preciso preencher aquele não-espaço. E cada vez que a gente pensa num verso, numa melodia, num diálogo, numa lembrança da vida real, a gente está na verdade abrindo um arquivo, mexendo nele, e salvando, com alterações. Nossa memória pode até ter o Ur-documento de tudo, a memória-prima de cada recordação, um filminho total para cada momento “x, y, z” guardado até hoje num Fort Knox de segurança máxima nos subterrâneos da mente. Mas está soterrado por décadas de reedições dele mesmo, revistas e melhoradas. Toda lembrança é uma história de ficção baseada numa história real da qual se perdeu o registro.




domingo, 29 de novembro de 2015

3983) O inimigo de fora (28.11.2015)



No sábado era festa de São Gedeão, no domingo as cavalhadas; as festas mais populares ali em Aramoabe, no coração do Curimataú. Pois foi nesse sábado que a notícia caiu como um raio num trono de ferro. Epitacinho do Hotel anunciou ter recebido uma reserva para vinte pessoas, mais equipamentos e bagagens, a partir “de primeiro de março do ano que vem”. Como ainda estavam em junho, o assunto deu o que falar, rendeu mais do que as cavalhadas propriamente ditas, de onde era difícil tirar uma conversa nova. Nem Epitacinho tinha jamais recebido tanta gente numa carrada só como também nem sabia que era possível alguém reservar um hotel com semelhante antecedência.

No domingo, um hóspede atendeu por acaso o telefone do balcão (era de casa, morava no hotel há anos, sem pagar) e chamou Epitacinho: “Ei, Pita, é do Rio de Janeiro, os rapazes que vêm fazer o filme sobre São Gedeão”. Ele talvez tivesse esquecido tudo se Epitacinho não se precipitasse estrepitosamente de lá de dentro, esbarrando em móveis, para arrebatar o fone da mão dele. Bem feito. No outro dia, do renque da cavalhada à roda-gigante não se falava noutra coisa.

Um surto de patriotismo ofendido tomou conta de Aramoabe. Os cariocas estão pensando o que? Que o santo é deles? Na manhã da segunda, câmara de vereadores, clube de diretores lojistas, lideranças religiosas e sindicais, todos se deram as mãos. Epitacinho foi forçado a fornecer o fone de contato que recebera. Ligaram e quem disse estar do outro lado foi um tal de Douglas. Sim, era produtor de cinema. Sim, um filme sobre o santo. O melhor filme brasileiro do ano que vem. Vamos botar Aramoabe no mapa do mundo, das grandes produções internacionais.

Era no viva-voz; Simas de Seu Nô pulou mais para perto e bradou que Aramoabe era citada em duas enciclopédias brasileiras e uma fora, tinha seis agências bancárias e merecia mais respeito. Seguiu-se o que um jornal local, “A Trombeta”, chamou no dia seguinte de “balbúrdia” e o editorialista de “charivari”. Autoridades que usaram do receptor garantiram terem sido ofendidas em sua honra “pelo carioca ixperto”.

Telefonemas febris, um projeto arquivado na secretaria é trazido à luz e assoprado (“só preciso atualizar os valores”, garantiu o jovem e assustado diretor), verba liberada do fundo de perdidos e achados, o poço mais sem fundo da contabilidade. Vetos enérgicos foram telegrafados ao tal Douglas. Em poucos meses, o elenco começava a decorar os papéis, a equipe estava a postos, e Epitacinho, co-produtor-executivo, mandava uma caixa de uísque para o ator carioca que contratara para essa boa ação em nome do cinema brasileiro.




quinta-feira, 26 de novembro de 2015

3982) "Outro" de Augusto de Campos (27.11.2015)



Outro (Ed. Perspectiva, 2015), o novo livro de poemas de Augusto de Campos, é um dos mais visuais do autor, trazendo em cada folha dupla uma experiência de dissolução e recombinação do texto em efeitos de cores, formas, estruturas, desmontagens, paralelismos, alternâncias de imagem e função. Augusto foi um dos primeiros poetas que vi usar a antiga letra-set para compor cada poema numa fonte gráfica com letras diferentes. Agora, são efeitos visuais mais sofisticados, de textos que se entrelaçam, que giram em espiral. Tem muita gente que não gosta, mas eu acho bonita essa concretude que se dá à palavra, à letra, cravando-a com peso em cima da página. Como Paulo Leminski, que fazia fotografar e ampliar letras datilografadas até ficarem com 2 ou 3 cm de altura na página. Às vezes a fonte é tão rebuscada que ler as palavras vira uma decifração vagarosa e (im)paciente.

Muita gente aproveitou alguns efeitos do concretismo para fazer suas próprias experiências de desmontar e remontar os Legos das palavras, discípulos formais ou informais de Augusto, como Glauco Mattoso, André Vallias, Paulo de Toledo, Arnaldo Antunes, Tom Zé etc. Eu faço uma poesia completamente diferente da de Augusto de Campos mas ainda bem que isso não me impede de ver nessa poesia um caminho possível, entre tantos outros. Um dia podemos vir a ter uma prosa concretista no dia-a-dia, projetada em 3D à nossa volta, com blocos de textos surgindo soltos no ar como hologramas de lojas.

Há uma subdivisão do livro apenas com efeitos de imagens, trocadilhos ou rimas visuais comentadas. Um muito simples, mas eloquente, foi o que mostra andando lado a lado na rua dois homens de terno preto, em duas fotos muito conhecidas dos leitores de cada um. As fotos são emolduradas acima e abaixo pelas palavras: “passos em lisboa / anjos em pessoa”. Isso é um poema? Tanto faz se é poema ou não, para mim é um fragmento literário de impacto tão simpático quanto o de um cartum ou de uma foto artística ou qualquer outra forma pseudo-instantânea de arte.

A poesia de Augusto e dos seus colegas concretistas é um cabo-de-guerra permanente entre fragmentação e discursividade. Comparado ao seu irmão Haroldo, já falecido, Augusto é de um laconismo extraordinário. As Galáxias de Haroldo têm os mesmos jogos de sonoridade do Concretismo, só que diluídos numa prosa caudalosa e aliterada, de onde Caetano Veloso tirou a letra de “Circuladô de Fulô”.  Augusto só é loquaz quando senta-se à mesa de tradutor, de investigador cheio de teorias, de defensor ardoroso do talento alheio. O tradutor seria capaz de recriar um livro inteiro da Bíblia, mas o poeta escreve um hexagrama e pronto.




quarta-feira, 25 de novembro de 2015

3981) A cegueira do expert (26.11.2015)





Um especialista vê certas coisas com uma nitidez absoluta, à custa de não enxergar outras que estão até mais próximas. São como as câmeras fotográficas que focam num detalhe e deixam todo o resto do ambiente num borrão de contornos difusos. 

A mente do especialista funciona como certos exames clínicos. Você pega uma amostra de sangue e quer saber se o paciente tem a doença X. Coloca alguns reagentes, etc., e tem o resultado. O paciente pode até ter as doenças Y e Z, mas como o exame não estava buscando essas duas ele “passa batido”, sem percebê-las. A busca é específica, direcionada, cega para todo o resto.

Na coletânea Blackwood’s Tales of Treasure, um capítulo fala de garimpeiros de ouro que acham minério de prata mas não o reconhecem, pois não era o que estavam buscando. Eles largam tudo e vão embora. 

Do mesmo modo, muitas descobertas científicas são feitas meio por acaso em cima de dados ou materiais já recolhidos por outras pessoas, que, no entanto, foram incapazes de olhar aquilo com o olhar correto. 

Thomas S. Kuhn, em A Estrutura das Revoluções Científicas (Ed. Perspectiva, 1982) exemplifica com o caso do átomo de hélio visto por um químico e um físico eminentes. “Para o químico, o átomo de hélio era uma molécula, porque se comportava como tal desde o ponto de vista da teoria cinética dos gases. Para o físico, o hélio não era uma molécula porque não apresentava um espectro molecular”.

Einstein dizia que a ciência do seu tempo precisava mais de perguntas novas do que de respostas certas. As perguntas velhas eram sempre respondidas corretamente. O que fazia falta era uma maneira nova de olhar os fenômenos – justamente o que Einstein fez, com menos de trinta anos. 

Jacob Bronowski, em seu ótimo Ciência e Valores Humanos (Ed. Itatiaia/EDUSP, 1979, trad. Alceu Letal) refere o caso de um alpinista que resolveu escalar o Everest não pelo lado que mais conhecia, o norte, mas pelo lado sul, que era familiar ao seu guia.

Diz ele: 

– À medida que subíamos o vale, vimos no topo a linha divisória principal de águas. Reconheci imediatamente os picos e as depressões que nos são tão familiares do lado norte. (...) É curioso que Angtarcai, que conhecia essas características do outro lado tão bem como eu, e tinha passado muitos anos da sua infância a pastorear bois selvagens neste vale, nunca os tenha reconhecido como tais; nem mesmo hoje, salvo quando os indiquei a ele. 

É como uma moeda, que parece algo totalmente diferente olhada por um lado e pelo outro. Quando estamos condicionados para reconhecer ou para procurar somente uma coisa, corremos o risco de não achá-la se a imagem avistada não for a que esperávamos ver.












3980) "Número Zero" (25.11.2015)



Este romance mais recente de Umberto Eco é quase uma continuação de O Pêndulo de Foucault (1988), livro que achei muitíssimo saboroso mas que decepcionou muitos leitores, os quais, ao que parece, esperavam algum tipo de continuação de O Nome da Rosa (1980). O Pêndulo mostrava um grupo de editores pouco escrupulosos envolvidos com conspirações esotéricas: o romance deste ano mostra um grupo de jornalistas pouco escrupulosos envolvidos numa conspiração política. Eco está com 83 anos. Enquanto o livro mais antigo tinha (na edição em inglês que possuo, tradução de William Weeaver) 533 páginas, o mais recente (na edição da Record, tradução de Ivone Benedetti) tem 207. É menos divertido, menos barroco, menos delirante, mas o bom-humor, a ironia e a enciclopédica prosa do autor estão lá.

Os personagens de Número Zero são aqueles jornalistas calejados, cínicos, meio fracassados, que topam escrever qualquer coisa desde que descolem a grana do aluguel, da gasolina e da geladeira. O jornaleco é financiado por um comendador de interesses onipresentes e de envolvimentos escusos, que monta o pasquim para servir de instrumento de pressão e chantagem contra seus adversários políticos. Colonna, o narrador, é um desses teclado-de-aluguel, tão conhecidos por quem é do ramo, ansiosos para que alguém lhes faça uma proposta indecente. Ao entrar na redação acaba tendo um caso com Maia, uma redatora jovem e meio perdidona. Juntos, os dois acompanham a investigação de um terceiro personagem, Bragadoccio, que está aos poucos levantando uma concatenação meio fantasiosa de fatos históricos poucos relevantes mas que podem resultar na mais sensacional revelação política da Europa pós-II Guerra Mundial.

Eco trabalha, nesses romances, no subgênero das  “Fantasias da História”, em que fatos universalmente conhecidos recebem novo contexto através da invenção ficcional. Autores como Tim Powers, Kim Newman, Thomas Pynchon, Salman Rushdie, Stephen King, Don DeLillo e outros usam extensivamente, cada um com suas fórmulas, essa mistura de fatos documentados e interpretações imaginárias. É o terreno da paranóia e das “teorias da conspiração”. Bertolt Brecht (cit. por Ernest Mandel, Delícias do Crime) descreveu assim o processo: “Por trás dos acontecimentos que nos são narrados, suspeitamos de outras ocorrências sobre as quais não fomos informados. Estas são as verdadeiras ocorrências. Somente se soubéssemos poderíamos entendê-las. Somente a História pode nos informar sobre essas ocorrências verdadeiras – pelo menos até o ponto em que os atores não conseguiram mantê-las em total segredo. A História é escrita após as catástrofes”.




segunda-feira, 23 de novembro de 2015

3979) Eu me lembro 7 - BH (24.11.2015)



(Edf. Niemeyer, Belo Horizonte)

Eu me lembro dos doces de leite cortados em forma de losango que a gente comprava no balcão dos botequins. Eu me lembro de quando tiraram as cabeças dos políticos que ornavam a Praça Sete e as colocaram no Parque, junto a uma quadra, onde o pessoal chutava e a bola rebatia nas cabeças das estátuas. Eu me lembro que numa sala da Escola de Cinema havia rolos e mais rolos do copião de “Terra em Transe”, de onde cansei de cortar fotogramas, e vinte anos depois a imprensa do Rio ficou sabendo desse material e celebrou a descoberta.

Eu me lembro que havia um consenso entre os estudantes da Católica que o melhor bandejão era o da escola de Arquitetura da Federal, que ficava numa esquina da rua Paraíba. Eu me lembro dos militantes da TFP andando pela cidade, erguendo seus estandartes vermelhos com leões dourados e bradando nos megafones. Eu me lembro da placa onde está escrito: “Da vida social / na porfiada liça / ao lado do dever / e ao lado da justiça.”

Eu me lembro do dia em que Chacrinha foi fazer uma palestra no diretório dos estudantes e disse que as chacretes eram “escolhidas a dedo”. Eu me lembro da sala de projeção da Escola de Cinema, que ficava no subsolo do edifício e era chamada A Cinematoca. Eu me lembro do meu desnorteamento inicial quando eu pensava que as ruas do centro eram paralelas, e às vezes as ruas iam se distanciando à medida que a gente avançava numa delas.

Eu me lembro das estátuas na prefeitura, na Av. Afonso Pena, dos três homens suportando colunas sobre os ombros, às quais dediquei um poema (ainda estão lá). Eu me lembro que o primeiro filme que vi na cidade foi “Romeu e Julieta” de Zeffirelli, no Cine Acaiaca. Eu me lembro que antes de ir morar em BH eu vi na Enciclopédia Barsa uma foto do Edifício Niemeyer, e ao chegar lá descobri que a Escola de Cinema ficava bem em frente dele. Eu me lembro da minha confusão ao descobrir que os mineiros chamam mungunzá de canjica.

Eu me lembro das linhas de ônibus Circular 1 e Circular 2, que faziam percursos inversos, e quebravam o maior galho. Eu me lembro de quando comi a primeira feijoada no Maletta e achei estranhíssimo colocarem laranja dentro do feijão. Eu me lembro da Rádio Cultura, cuja vinheta (“Cul-tura!”) se erguia no meio da música quando a gente menos esperava. Eu me lembro de uma viagem no inverno, quando o ônibus fez uma parada em Itabirito e eu vi pela primeira vez minha respiração produzir uma fumacinha como no cinema. Eu me lembro de Darlan Richard, um hippie cabeludo que vivia pelas ruas, cantando: “Cara ou coroa, palitinho ou par-ou-ímpar... Meus pés ‘tão sujos, mas a consciência limpa!”