sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

3700) O quadro perdido (2.1.2015)



(foto do leilão do quadro)

Em 2014 aconteceu uma curiosa descoberta no mundo das artes.  O quadro Dama Adormecida com um Vaso Negro, do artista húngaro Robert Bereny (1888-1953), estava desaparecido há décadas. A última vez que tinha sido exibido publicamente fora em 1928.  Ninguém sabia do seu paradeiro, e supunha-se que tivesse sido destruído durante a II Guerra, como aconteceu com tantas outras obras. Ora, aconteceu que o pesquisador húngaro Gergely Barki, que escrevia na época uma biografia de Bereny, estava um dia assistindo o filme Stuart Little com a filhinha quando viu o quadro, na parede de uma casa no filme!

A história completa está aqui (http://tinyurl.com/q5frtkc).  Barki passou dois anos mandando cartas e mensagens para o estúdio, o diretor, os produtores do filme.  Acabou recebendo resposta da cenógrafa.  O quadro não era uma cópia; tinha sido comprado por ela num antiquário da Califórnia por 500 dólares. Foi revendido por um preço muito maior, recambiado para Budapeste e, agora em dezembro, foi vendido em leilão por cerca de 229 mil euros, cerca de 732 mil reais.

A história acaba aí para quem vê as artes plásticas como um possível investimento, mas ela tem outras ramificações.  A primeira que me ocorre é uma releitura da famosa frase de Paulo Coelho, de que “quando você tem um sonho pessoal tudo no universo conspira a seu favor.” O filme é de 1999, portanto passaram-se quinze anos sem que ninguém notasse o bendito quadro, que aparece, por trás dos atores, em várias cenas do filme.  Eu, por exemplo, jamais percebi sua presença ali, quanto mais seu potencial de mercado. Mas quando você é crítico de arte e está escrevendo a biografia de um artista, examinando foto por foto de quadro por quadro, todo aquele material está vivo e aceso em sua memória.  Não precisa muito para aquele estalo de “oxente, olha lá aquele quadro...”

No mais, é a lei dos grandes números.  O filme estreou em 2.878 salas nos EUA, e chegou a um pico de exibição em 3.151 salas simultâneas.  Depois, foi para a TV a cabo e o DVD doméstico, canal que o levou à Hungria e ao sofá onde Gergely Barki estava comendo pipoca com a filhinha pequena. O nome disso é fatalidade estatística. Se um evento excepcional só tem 0,1 de chance de acontecer, mas a quantidade de reiterações é multiplicada por cem milhões, algo me diz que vai acabar acontecendo.  É a varinha de condão dos milagres capitalistas e dos milagres estatais, dois sistemas que lidam com grandes orçamentos, grandes massas de informação, grandes públicos...  Quando a regra se conta em centenas de milhões, você acaba esbarrando numa exceção em cada esquina.




quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

3699) Quem sou eu? (1.1.2015)



Eu sou aquele cara preguiçoso que, numa noite de inverno, está lendo na cama, todo enrolado nos edredons.  Na hora de dormir, ele precisa levantar e ir até a parede do quarto para desligar a luz, mas o frio o impede. Uma noite ele joga o chinelo e acerta o interruptor, apagando a luz. E desse dia em diante a hora de dormir se transforma num campeonato-contra-si-mesmo, em que ele arremessa chinelos, livros, travesseiros, tudo que tiver à mão, até que lá pela décima-quinta tentativa consegue acertar o interruptor e apagar a luz.

Eu sou aquele velhinho que no sábado manda comprar um saco de milho e no domingo pede para ser levado à praça pela manhã, para dar milho aos pombos; e que no domingo em que por algum motivo não pode ir, fica tendo palpitações porque acha que os pombos vão sentir sua falta.

Eu sou aquele troll rancoroso que passa o dia inteiro pulando de saite em saite e insultando pessoas que não conhece, a respeito de assuntos que não entende, e quando sai do computador começa a chutar a mobília, machuca o dedo do pé e fica pulando num pé só e gemendo de dor no meio da sala e berrando “vocês vão ver uma coisa, vocês vão ver!”.

Eu sou aquela noivinha cansada de pensar no futuro, e que acha que a penúltima coisa da vida dela vai ser o casamento e a última vai ser a viagem de lua de mel, e que depois disso vai ser uma imagem congelada de um beijo e uma música de violinos tocando em loop até o final dos tempos.

Eu sou o taxista que pega um passageiro à noite para uma corrida longa, pergunta a ele de onde é aquele sotaque, recebe a resposta, diz que já morou lá, o passageiro pergunta o que ele fazia, ele diz que jogava futebol, o passageiro manda acender a luz interna do táxi, ele acende, o passageiro olha a cara dele e diz: “Adroaldo, lateral-esquerdo do Juventus!”, e ele grita: “Está paga a corrida!”.

Eu sou aquele cara que acorda no meio da noite silenciosa, aterrorizado, lembrando que pediu emprestado a um amigo um captador de violão caríssimo, 28 anos atrás, e agora não lembra mais se devolveu ou não.

Eu sou a dona de casa que desenvolveu um sistema memorizador de todas as coisas da casa, por ordem alfabética, e antes de dormir vai repassando todas, uma por uma, enquanto discute com o marido fleumático que fala, “minha filha, vem te deitar, aproveita que eu tou novo ainda”.

Eu sou o cara que um dia toma um pileque e vai bater na porta da casa onde morou quando menino, e não consegue explicar à família assustada que quer apenas saber se o carrinho que enterrou no quintal continua a salvo dos ladrões, dos meninos invejosos, da chuva, da ferrugem, do moinho implacável do Tempo.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

3698) Outros adeuses do ano (31.12.2014)



Tive poucos papos com Eduardo Coutinho, um dos maiores documentaristas brasileiros, mas um ficou na História. Eu estava em Campina Grande e me liga Rômulo Azevedo avisando que Coutinho estava na cidade, com equipe. Estavam filmando na Paraíba, o dia era de folga, e queriam saber “o quê que rola”. Eu anunciei: “Show de Braulio Tavares no Buracão, o bar de Noaldo Nery, Campina inteira conhece, atrás da AABB.” Vai a equipe (Edgar Moura é testemunha), eu canto as lorotas de sempre, toma-se a cerveja de sempre, conversa-se o que se conversa entre cinéfilos meio de-fogo e embalados pela música.  Nem Coutinho nem ninguém quis revelar o que estavam filmando. Dois anos depois, eu soube: era Cabra Marcado para Morrer.

O tempo silenciou André Carneiro, mas só metaforicamente.  Ele, que publicou aos 85 anos um volume de contos inéditos com mais 600 páginas, deixou também inéditos, aos 92, textos suficientes para mais uma coletânea.  André foi poeta, fotógrafo, editor, hipnotizador, artista plástico, e um dos grandes autores da Primeira Onda da ficção científica brasileira, nos anos 1960. Até o fim, esteve produtivo e lúcido. Via a ficção científica como uma parte especialmente brilhante de um vitral muito grande, muito complexo, feito de imagens e de histórias. Tinha razão.

Hermano José foi o primeiro diretor que montou na Paraíba minhas primeiras peças de teatro, escritas quando eu morava em Salvador: Quinze Anos Depois” (com Ranulpho Cardoso Jr. e Socorro Brito, ou Numa Ciro) e Trupizupe, o Raio da Silibrina, também chamada O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei.  Eu e Hermano tínhamos um senso de humor e de sátira muito parecido.  Ele era sempre um gentleman, e defendia um teatro devastadoramente sarcástico, cheio de raiva e de riso.  Alguém que sempre me dizia: escreva mais, todo mundo gosta do que você escreve. 

André Setaro foi o primeiro cinéfilo com quem engatei um diálogo ao botar os pés em Salvador em 1973, para assistir a II Jornada Nordestina de Curta Metragem.  Poucos anos depois eu já estava morando lá, escrevia sobre cinema do Jornal da Bahia, e André na Tribuna da Bahia.  Ditávamos cátedra um para o outro bebendo e pontificando, sem levar nada muito a sério, a não ser os filmes propriamente ditos. Fui embora da Bahia, sei lá mais por quê.  Depois do Facebook, nos reencontramos.  Conversávamos sobre Hitchcock e Buñuel, sobre Brigitte, sobre cigarro. André era um cineclubista de causas impossíveis.  Saiu a notícia de sua morte. Depois, a página do Facebook continuou a ser alimentada, com posts que pareciam dele.  Para mim, André Setaro é o primeiro habitante da Singularidade.




terça-feira, 30 de dezembro de 2014

3697) Mais adeuses do ano (30.12.2014)



Moacy Cirne foi um dos nossos grandes estudiosos das Histórias em Quadrinhos, e ajudou a dar respeitabilidade ao gênero no meio acadêmico. Cinéfilo, foi também o criador, na UFF de Niterói, do primeiro curso acadêmico de ficção científica em nossa universidade. Foi um dos meus vizinhos nordestinos no Flamengo, primeiro, e depois em Laranjeiras. Redigia uma folha-volante “jomardiana”, o Balaio Incomum, que distribuía com os alunos, cheia de poemas, provocações políticas, versos fesceninos do lendário Chico Doido de Caicó. Vou rever A Aventura de Antonioni, seu filme favorito, e pensar para onde vão as pessoas que não vemos mais.

No Curso Clássico, no turno da noite no Estadual da Prata em 1969, um dos colegas mais bem-falantes da turma era um “cabôco” moreno, magro, de testa enorme, sorriso confiante e voz metálica. Anos depois, quando me aproximei dos cantadores que frequentavam o Bar de Seu Manu, lá estava ele, agora com uma viola do lado.  Apolônio Cardoso formou-se em Direito, mas para mim foi sempre o poeta. Voltamos a nos cruzar na redação do Diário da Borborema, onde ele tinha uma coluna periódica sobre cultura popular.  Faleceu nas vésperas do Natal; eu não o via há anos. Em alguma caixa de fitas cassete em minha casa, a voz metálica ainda canta sextilhas.

Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos o mundo parava para a gente ouvir a radionovela As Aventuras do Flama. Eu e minha irmã Clotilde colecionávamos rótulos do Drops Dulcora (“quadradinhos, embrulhadinhos um a um”) para entrarmos no clube do Agente Secreto. O Flama era uma espécie de Batman que combatia tanto gangsters quanto monstros-robôs, acompanhado por Zito, Eliana, o Raposa, o Comissário Lawrence, Bolão...  Era tudo criação de Deodato Borges, que também criou uma revista em quadrinhos com as aventuras dele. Deodato, tal como Péricles Leal (criador do Falcão Negro), foi um pioneiro paraibano de quadrinhos e de novelas num mundo de pulp fiction. As últimas imagens que vi dele foram desenhadas por seu filho Mike Deodato, retratista de heróis.

Como tantos craques do futebol paraibano, Zezinho Ibiapino brilhou tanto no Treze quanto no Campinense. Era um meio-campista atarracado, com um domínio de bola impressionante, especialista nas cobranças de falta com folha-seca e naqueles lançamentos de 40 ou 50 metros que geralmente associamos a Gérson ou Rivelino. Uma vez brigou com a diretoria do Campinense, foi a julgamento, meu pai foi o advogado dele e conseguiu absolvê-lo e trazê-lo para o Treze, onde ele acabou sendo campeão em 1966.  Onde quer que eu o encontrasse pelas ruas de Campina Grande, ele me cumprimentava: “Diz, fí de Nilo”.


domingo, 28 de dezembro de 2014

3696) Reescrever (28.12.2014)



(manuscrito de George Orwell para 1984)

John Casey é um romancista com alguns livros premiados, e reuniu num volume (Beyond the First Draft: The Art of Fiction) reflexões a partir de suas palestras nos Encontros de Escritores de Sewanee, dos quais ele participa.  Que me perdoem os colegas críticos e teóricos da literatura, mas em termos de discussão do ato da escrita eu prefiro dar atenção ao que dizem os escritores. É mais perto da experiência real de quem escreve.  Crítico literário é muito bom para avaliar o que já está publicado.  Pra ajudar a enfrentar a página em branco e o arquivo zero byte, só escritor.

Casey diz, logo no começo: “Não posso ensinar uma pessoa a escrever, mas às vezes posso ensiná-la a reescrever”.  Isso me lembrou outra sugestão que não sei se é de Hemingway ou de Faulkner, mas poderia ser uma colaboração de ambos: “Escreva bêbado, reescreva sóbrio”.  A escrita envolve dois tipos de ação, cada um suprindo as limitações do outro.  Há um primeiro movimento que é o Despejo, onde o sujeito derrama em cima da página toda a confusão mental de que fica possuído no momento em que inventa de contar uma história.  É um momento de liberação do inconsciente, como se diz; um momento em que ele precisa remexer bem no fundo de um baú de coisas nunca-ditas e dizê-las pela primeira vez.

Depois vem o segundo momento, em que uma mente mais racional e crítica vai capinar esse matagal de rascunhos, arrancando o que não se aproveita. É nessa parte que (segundo Casey) um olhar externo pode ajudar.  O olhar de alguém capaz de perceber o que estava acontecendo na mente do autor e dizer-lhe: isto está longo, isto está curto, isto é repetição, isto é imitação, isto está muito verde ainda, isto é clichê.  Sempre (acho eu) pedindo para que o autor mude, mas refreando a vontade de sugerir a mudança.  Quem passa pente-fino em texto alheio tem o direito de criticar e sugerir mudanças, mas não de impor frases suas.

Um problema que se vê muito por aí é texto que não foi revisado. (Não falo em manuscritos: falo em livro publicado em editora profissional.)  Houve uma revisão ortográfica, mas às vezes penso que o que está ali é o primeiro rascunho, a primeira versão, com todas as suas repetições, redundâncias, imprecisões, incoerências, quebras involuntárias de fluxo narrativo. Revisar um texto não é passar corretor ortográfico.  Vários destes meus artigos são enviados sem uma revisão decente, devido à pressa.  Mas livro não tem a desculpa-esfarrapada da pressa.  Livro fica meses nos corredores da editora.  Dá tempo de reescrever, sim. Às vezes a pressa em publicar é tanta que o autor publica aquilo do jeito que jogou no papel, e se queima para sempre.





sábado, 27 de dezembro de 2014

3695) O tiro no rosto (27.12.2014)



Caminhando devagar, o homem de blusão negro chegou à esquina de uma ruazinha estreita, calçada de pedras, iluminada por um poste. Casas estreitas se sucediam, como livros numa estante. Na luz arroxeada do anoitecer, janelas projetavam retângulos amarelos até a calçada oposta. Algumas crianças brincavam em torno de um carro estacionado.  Diante do batente de uma casa de janelas fechadas, um velho de pijama cochilava com a cabeça abaixada, numa cadeira de balanço. O homem tirou do bolso um papelzinho, enquanto caminhava, e conferiu o número que tinha anotado.

Bateu à porta, pediu para ver o dono da casa. Uma criada de roupa amarfanhada o fez entrar e pediu-lhe que esperasse. A sala tinha um cheiro úmido como se há muito tempo as janelas não fossem abertas para o vento e o sol. Farelos de comida pelo chão indicavam que não tinha sido varrida na véspera. Ele sentou no sofá, que cedeu mais do que era de se esperar. A parede onde estava encostado o sofá vibrava: no quarto contíguo havia uma TV ligada, bradando o ruído irritante de um filme de mercenários em guerra.

Há dez anos ele tentava localizar aquele homem. Viajou o país inteiro, remexeu arquivos, consultou cartórios, rastreou os indícios de sua passagem. Uma pista o trouxe àquela cidade de um milhão de habitantes, onde parecia fácil desaparecer.  Era fácil esconder-se ali, dissolver-se para sempre num subúrbio, numa ruazinha remota, cercado por gente que não dava atenção a nada.  De posse do endereço anotado, ele voltou ao hotel, almoçou, deu alguns telefonemas, e ao anoitecer pegou o ônibus que o trouxera ali.

“Quem lhe deu meu endereço me ligou em seguida,” disse a voz à janela, sobressaltando-o. Olhou: era o velhinho que estivera cochilando na calçada, e o revólver em sua mão não tremia. “Não pense que me caçou. Fui eu que o pesquei.”

A escolha do filme e o volume alto tinham sido propositais. O estalo do .22 passou despercebido. O velho e a criada arrastaram o corpo para o buraco retangular cavado às pressas. Para eles era um ritual longamente aguardado, que se cumpria em alguns minutos e sinalizava o início de uma nova espera. Pás de uma terra escura, empapada de chuva, foram jogadas sobre o cadáver e sobre os ossos carcomidos que despontavam no fundo, de mistura com roupas apodrecidas.  Dentro da casa, o tiroteio do filme continuava, e não deixava ninguém escutar aquele outro tiroteio esparso, que de ano em ano reduzia o número dos herdeiros de um segredo mortal, um tesouro escondido, uma fórmula secreta, um manuscrito raro, alguma dessas coisas pelas quais os homens matam e morrem ao fim de uma longa busca e de uma longa espera.





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

3694) Alguns adeuses do ano (26.12.2014)



Foi o cinema paraibano que me levou pela primeira vez à casa na Rua do Chacon, na tarde em que fui apresentado a Ariano Suassuna.  Fui com a esperança de poder, nos intervalos da filmagem, conversar com ele sobre cantoria de viola.  Acabamos conversando sobre romances policiais.  O filme era realizado por Marcus Vilar, Torquato Joel e Durval Leal, sendo que Idelette Muzart e eu éramos convidados.  Ariano estava numa fase meio fora dos holofotes; a imagem que eu guardava dele era a da foto na Pedra do Reino, cabelo preto, tirando a vista, com aquele sorriso sorrateiro e oblíquo.  Nessa primeira vez, tive um susto com sua aparência idosa.  Era 1993, ainda. Mesmo sendo poucas vezes, deu tempo de conversar até sobre ficção científica.

Que filme estaria passando na mente de Manoel Monteiro, na poltrona do ônibus, rumo a um lugar distante e diferente, de onde ele sabia que não ia mais voltar?  O cordelista sumiu no trajeto de Campina a Recife, como quem foi abduzido.  Gente se alvoroçou, buscas foram feitas.  Dias depois ligam de um hotel do Pará, onde ele fechou sozinho os próprios olhos.  Certos poetas, mesmo quando falam de Bagdá ou do Sertão, estão falando é de si, estão dando os filmes de sua alma para todo mundo ver também.  O formato de uma sextilha é ver uma tela de cinema, não é mesmo?  E não saberemos qual foi o último filme que viu Manoel.

Sérgio Valença, o famoso Pezão, era diretor de palco dos grandes shows no Marco Zero, no Carnaval de Recife, onde eu ia quase todo ano  Ele fazia isso o ano inteiro, e dava cursos sobre palco, luz e som, produção, essas coisas.  Era um Seu Lunga. Tinha uns dois metros de altura e poderia ser dois caras, se quisesse.  Sensato, pôpêiro, opinioso, reivindicador de dedo em riste, polemizador sincero e rude, um romântico que se dizia um falso canalha.  Tínhamos em comum Obama, o Sport, muita coisa de música.  Era um gigante com o corpo todo bombardeado, precisava de remédios caríssimos, lutava contra burocracias.  Conversamos ao vivo poucas vezes; foi nas redes sociais que vim a ver como ele era.  Tinha 48 anos.

Quando José Marcolino morreu num acidente de estrada criaram o mote: “Uma vaca matou Zé Marcolino / e eu não dava José numa boiada.”  João Paraibano morreu atropelado, morreu pela coincidência (que ninguém previu, nem estabeleceu, nem desejou) entre duas trajetórias regidas pelo acaso e sabe-se lá pelo que mais.  Morreu nosso grande poeta do sertão, aquele rapaz gentil de olhos tristes que eu conheci no Congresso de Campina. Na Web circulou uma imagem final durante seu enterro. Um miolo de multidão improvisando sextilhas, passando na carne viva da perda o mertiolate do verso.




quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

3693) Natal 2014 (25.12.2014)



(foto: Andrei Tarkovsky)

1.
...range-range, engatada, a engrenagem
das esferas concêntricas do espaço,
de um continuum mais tênue do que o aço
onde giram os cosmos-rolimãs.
Brabeja o sol a esturricar manhãs.
Assopra a noite a cinza vã do dia.
Dói-me hoje um pensar que não doía
e o gargalo se estreita onde sufoco.
Cada dia é a tecla, a tal que eu toco,
a compor o melódico desenho

2.
em que o mundo a girar nem franze o cenho
espalhando espirais nos horizontes...
Mas não me mostres, mundo. Não me contes         
mais histórias de ti, já sei de tantas!
Já basta o sonho de que me levantas
toda manhã, embrutecido e lasso,
e cambaleio e tombo, passo a passo,
buscando o espelho pra que se confirme
a minha identidade, e despedir-me
do sono aconchegante em que capoto.

3.
Acordar de manhã é terremoto.
Abrir caixa de emails é tsunami.
E o dia inteiro é tempo de desmame
me tirando do turbilhão onírico.
E eu salto assim de um mundo de De Chirico
aos talk-shows da Globo matutina,
onde já ferve a escuma natalina
da busca do consumo a qualquer preço,
e tomo, com o estômago ao avesso,
o café fraco deste fim de vida.

4.
Quanto pinheiro e bola colorida,
ouro de tolo, neve de algodão!
Fumega ainda o resto da eleição
que devastou da pátria a auto-estima.
Quebra-o-pau pra valer no andar de cima
e a gente aqui, pensando em crediário.
Por que o espelho me sussurra: “Otário!”
e eu torço tanto pra que acabe logo?
Dezembro é o velho poço em que me afogo
tendo somente o sol por testemunha.

5.
Mas este ano foi de arrancar unha,
e eu nem sei se me escapuli inteiro,
com vergonha de ser um brasileiro
que se acha melhor do que o Brasil.
O povo à rua sai, com-mais-de-mil,
e tudo volta ao que já estava antes;
última-forma no quartel de Abrantes,
“plus ça change, plus c’est la même chose”,
nossa democracia é mera pose
e no fundo quem manda é o Grande Irmão.

6.
Sigo em busca do derradeiro Não
pelas curvas da estrada do Talvez.
Resta pouco a cumprir, menos de um mês,
de sorriso e champanhe obrigatórios.
Os Natais se parecem aos velórios
em tensão, em teatro coletivo.
Cada qual se contenta de estar vivo
o resto é lucro, mesmo sem ter resto.
Basta tocar a musiquinha, e, “presto!”:
o milagre acontece novamente.

7.
O que vai ser de nós, daqui pra frente?
Os dados, como sempre, estão girando,
como o planeta, e não se sabe quando
(e se) vão colapsar, dizendo “fim”.
Enquanto isto, o que restar de mim
vai batucar as letras do teclado,
saborear a cerva, olhar de lado,
rir em silêncio da comédia humana...
Feliz Natal, galera. A vida engana,
e o melhor de um deserto é a miragem...





quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

3692) "A Festa de Randolfo" (24.12.2014)



O texto "Randolf's Party" foi o primeiro texto em prosa de John Lennon que eu li na vida, quando "O Pasquim" o publicou em 1969, numa tradução, se não me falha a memória, de Rebeca Nauslauski. 

É do livro “In His Own Write”, que Lennon publicou em 1964, no auge da Beatlemania, e que lhe valeu comparações com James Joyce (que ele nunca tinha lido, e que provavelmente morreu sem ler). Explica-se. O inglês brincalhão de Lennon é todo salpicado de palavras inventadas ou destoantes que substituem a palavra normal que esperaríamos na frase. Os trocadilhos dele não tentam misturar os significados, mas apenas confundir os sons.  Sua prosa na maioria desses contos é uma distorção sonora das palavras habituais: “Christmas” vira Chrisbus, Chrispbut; Randolph vira Rangolf, Randoff, Randoob... 

É como se um texto normal estivesse sendo lido em voz alta por um liverpudliano bêbado, com voz pastosa; por causa disto, tudo que ele diz fica semi-ininteligível e sujeito a confusões.


A FESTA DE RANDOLFO 
(John Lennon) (tradução BT, 1981)         

Era época de Nemtal, mas Randolfo estava só.  Onde estariam seus velhos amigos Bernie, Dave, Nicky, Alice, Beddy, Freba, Viggy, Nigel, Alfred, Clive, Stan, Frenk, Tom, Harry, George, Harold?  Onde estariam nesse dia? Ruindolfo olhou, chorumbático, para o único Cartão-de-Napalm que recebera: um de seu pai, que morava muito equidistante dali.

“Não posso nemtender isso de estar assim tão souzinho no único dia do ano em que todo joão-alguém pode expirar receber um amígado ou dois?” pensou Randófilo. Em todo catso, ele continuou penduricalhando os enfeites naftalinos, bem como o seu pede-meia.  Repentintinamente tocaram na sineta da torta da frente.  Oras, mas quem poderá estar me tilintando a estas horas?  Ele abril a porta e quem viu alívio? Senão seus amínguos Bernie, Dave, Nicky, Alice, Beddy, Freba, Viggy, Nigel, Alfred, Clive, Stan, Frenk, Tom, Harry, George, Harold - pois eram.

“Entrem tanto, velhos ambigos, meus bem-armados, meus comparseiros!”  Com um grande sou-riso em sua face, Rindolfo os anfitriou benvindamente.  E eles invadiram a cela-de-visitas, a gargralhar e sorrir dentes, com exclamaçons de “Boas Fezes, Randótimo” e deram-lhe tapas nas costas e assaltaram-lhe em cima e o derroubaram no chão e lhe repisaram na cabeça: “Nós nunca lhe gostamos, esses ânus todos em que o conhecemos.  Você nunca hipertenceu mesmo à nossa turma, tá sabendo, seu moribundamole?”

E os sacanas é claro que o assassinaram, assim, sacas?  Mas no final das contras ele não morreu sonzinho, não é?  Bobas Festas e Feroz Ano Novo, Randoido, meu amigo de fel, meu irmão caramarrada.




terça-feira, 23 de dezembro de 2014

3691) A felicidade é chata (23.12.2014)




Há uma frase muito citada de Balzac, acho que do Esplendor e Miséria das Cortesãs (1838-47), em que o autor diz: “A história da felicidade é entediante, de modo que podemos pular os cinco anos seguintes”.  

Tem muita gente que não gostaria de ir pro Céu: para eles, seria um grave problema, porque o Céu é monótono. (Eu mesmo já dei minha contribuição, com um poema intitulado “Quero ir pro Inferno”) 

O Paraíso seria como o desses filmes espíritas: uma espécie de clínica, com gramados verdinhos estilo Windows XP, todo mundo de branco, passeando de mãos dadas, tomando suco de groselha e escutando “Because”.


Pra mim tudo isso decorre de uma indefinível sensação subconsciente, em nossa cultura, de que trabalho é uma coisa ruim, esforço é uma coisa ruim, e que um lugar ideal (=um paraíso) teria que ser um lugar sem esforço, conflito, incerteza, choque de vontades e de opiniões...  

É a mesma regressão infantil que nos fez inventar geringonças mecânicas e eletrônicas para nos poupar de esforços físicos. Acabamos inventando mil-e-uma outras geringonças (esteiras, academias) para fazer esforços desnecessários. Ninguém percebe, claro, porque somos O País dos Cegos.

Mas no próprio momento de imaginar isso alguma coisa no subconsciente do imaginador se rebela, mete os pés.  Sabe que essa idealização é falsa, e que no fundo ele não quer viver nessa pasmaceira.  

Os cinco anos de felicidade imaginados por Balzac (suponho que sejam cinco anos de felicidade de um casal) não foram passados, certamente, deitados na relva, num ano de 365 feriados-com-rivotril. A vida real, mesmo feliz, não é entediante.  

Entediantes são essas fantasias toscas e kitsch de repouso-a-perder-de-vista que a cabeça da gente imagina quando a gente está no fundo do poço do cronograma estourado, do relógio que galopa, das contas que não batem, dos planos que vão por água abaixo, das picuinhas domésticas, do azedume da fadiga, do rancor mal dormido entre os fracassos.

É compreensível que pessoas com décadas de exaustão e dívidas sonhem com jardins tecnicolor à beira de regatos murmurejantes.  É uma fantasia compensatória, mas que não pode se sustentar como definição de felicidade. 

Data vênia, amigos que vivem no sufoco (e eu sei tanto o que é isso!), mas só existe felicidade se for uma “felicidade guerreira”, uma felicidade em que o corpo e a alma (ou só a alma, se se trata do Além) tenham coisas relevantes para cuidar.  

É compreensível, em nossa cultura do trabalho escravo, que os paraísos tenham tinturas de ócio, mas os cinco anos que Balzac pulou devem ter sido animadíssimos, e dariam outro livro tão bom quanto.