terça-feira, 18 de novembro de 2014

3661) A Vida e os Tempos de Valdemar Pompéia (18.11.2014)



Cap. 1 – De como Valdemar ficou devendo dinheiro à galera da sinuca, e eles o ameaçaram de uma surra. Cap. 2 – De como ele e dois amigos emboscaram o líder dos marginais e deram a surra nele próprio. Cap. 3 – De como no dia seguinte ele se gabou na cidade inteira. Cap. 4 – De como na terceira noite o sujeito retornou na companhia de mais cinco, todos armados, deu uma surra nele, amarrou-o na linha do trem, pela qual deveria passar um trem daí a meia hora, e se afastaram, e ele ficou atado sobre os dormentes, pensando: “É, agora fudeu.”

Cap. 5 – De como ele, com tempo para pensar, lembrou suas leituras de ocultismo e encantações mágicas.  Cap. 6 - De como ele ficou endividado com a galera da sinuca justamente por ter tentado clonagem alquímica de alguns cordões de ouro e relógios Rolex, que acabaram virando alumínio. Cap. 7 – De como no meio daquela babel de irrelevâncias havia fórmulas que funcionavam mesmo, e não é que Valdemar pronunciou uma delas, em autêntico desespero de causa, seis minutos antes que o trem apontasse no horizonte visível.

Cap. 8 -  De como esse encantamento é um string de sensações, palavras, imagens visuais, cheiros, etc., uma espécie de sistema numérico de Funes, só que sinestésico, incluindo como “números” (que ele deve receber e reproduzir mentalmente) notas musicais, frases inteiras, aromas, cores, padrões geométricos... Enfim.  Cap. 9 - De como, mercê desse recurso, ele conseguiu concentrar sua mente-de-baixo (liberada da vigilância da mente-de-cima, que está entretida com o ping-pong sinestésico) concentrou suas forças e retardou o trem. Mesmo. 

Cap. 10 – De como anos devem ter se passado, porque onde havia um gramado ao longo da ferrovia existem agora árvores totalmente crescidas, ele vê a uma certa distância uma agora estrada por onde agora passam automóveis, e, do lado oposto dos trilhos, o muro alto de uma casa; ele não entende; sabe apenas que está detendo o trem, está impedindo que ele se aproxime; que na linha férrea o Tempo está parado, ou pelo menos avança a passo de caracol, enquanto em redor dela o tempo flui normalmente.  Cap. 11 – De como um dia dois operários estão consertando um dormente perto dos pés dele (sem vê-lo, claro) e um deles menciona: “o Natal é na semana que vem”; e vão embora e ele se pergunta: “Sim... mas Natal de que ano?”  Nunca terá resposta.  Cap. 12 –  De como Valdemar, atado aos dormentes, vê passar minuto a minuto, ano após ano, o filme do futuro alheio, e resolve se consolar com isso da impossibilidade de um futuro seu, porque sendo invisível não há quem o liberte, mas quando encher o saco é só liberar o trem.


domingo, 16 de novembro de 2014

3660) Ser antologista (16.11.2014)


Ser antologista é viver a Escolha de Sofia de ter em mãos três ou quatro contos parecidos, de autores igualmente importantes e/ou simpáticos (às vezes amigos pessoais do antologista), e saber que só vai caber um no livro, porque se incluísse todos o fato de terem tantos elementos em comum iria apenas empobrecê-los mutuamente aos olhos do leitor.


Ser antologista é planejar um volume gigantesco de 700 páginas, trabalhar nele durante um ano, e depois ver que os problemas burocráticos, financeiros e jurídicos reduziram essa “antologia definitiva do gênero” a umas meras 210 páginas e olhe lá.


Ser antologista é, depois do livro lançado e elogiado, descobrir por acaso um conto que se descoberto antes teria virado a cereja-do-bolo, mas agora é tarde, o bolo já foi ao forno e de lá à mesa.


Ser antologista é ter a obscura honra de ter sido o responsável pela primeira publicação no Brasil de um cara que será grande no futuro, e achar que isso é uma pequena glória que compensa algum pequeno fracasso.


Ser antologista é conceber uma antologia temática em torno de quatro contos “essenciais”, passar meses escolhendo as dez ou doze histórias “acessórias”, e terminar fazendo o livro somente com as acessórias, porque uma das essenciais o autor não pôde liberar, outra a tradução ficou horrível e não dava tempo refazer tudo, outra os herdeiros estavam em conflito e não liberaram e outra, relida agora 40 anos depois da primeira leitura, revelou-se não tão essencial assim.


Ser antologista é escolher e republicar uma história escrita há mais de um século, e descobrir que esta é a primeira vez em que ela foi incluída numa antologia.


Ser antologista é passar meses à procura de uma história que use uma abordagem qualquer do tema, não encontrá-la, e depois de jogar-a-toalha nessa busca achar uma história perfeita, de um desconhecido, lida por acaso numa revista quando você pernoitou na casa de amigos e aquela revista era a única coisa pra ler antes de dormir.


Ser antologista é ter a sua mente e sua visão do mundo modificadas aos 10 anos de idade, pela leitura de um conto, e aos 50 anos incluir esse conto numa antologia, e ver a cara de espanto do editor, quando este sugere tirar esse conto porque o livro “já está muito grosso”, e você responde, com a brusquidão de um menino de 10 anos: “Só passando por cima do meu cadáver”.

Ser antologista é ouvir seu editor dizer que finalmente localizou os herdeiros de um autor obscuro, descobriu que ele ainda está vivo, e que na sua última semana de vida, aos 100 anos de idade, ele recebeu a notícia de que um conto dele ia ser publicado por uma editora do Rio de Janeiro.









sábado, 15 de novembro de 2014

3659) Ele será (15.11.2014)


Ele será parido e paparicado por uma sacerdotisa ou princesa de não-sei-que clã. Será a promessa messiânica da futura ponta de um iceberg heráldico. Vai brotar num mar de lama e esqualos, onde os brasões se empurram disputando espaço à luz da História. Ele nascerá infante, vermelho, franzido, berrante, friorento e finalmente aconchegado. Nada o distingue dos outros, afora o sobrenome, e por causa deste será visto como um prodígio.

 

Ele será treinado nas artes, nas ciências, nas linguagens, nas cerimônias. Será o ponto focal da herança de mil técnicas remotas que não se pode permitir que se percam, e que têm que ser transmitidas a cada herdeiro, a cada delfim, a cada primogênito que um dia se assentará no trono e despachará com os ministros da corte. Quando se formar nele a noção do “Eu”, formar-se-á conjuntamente a de cumprir uma Missão, a de desempenhar um Papel.

 

Ele será festejado, ao chegar, com girândolas e orquestras. Será coroado, condecorado, benzido, aspergido, aclamado por entre batalhões em trajes de gala e dignitários de cinco continentes, comparecerá a missas e cultos, descerrará placas comemorativas, partirá fitas simbólicas, comandará banquetes e coquetéis.  É como se o mundo ocidental inteiro estivesse vendo, estivesse acompanhando, estivesse sabendo em tempo real o que ele realiza.  Voltará para o hotel cercado de seguranças. A luz se apagará.  Depois que a luz se apaga, todos os travesseiros são iguais.

 

Ele reinará com uma mão de ferro e uma mão de ouro.  Empunhará a caneta que prende e que solta, a cruz que profere bênçãos e excomunhões, a espada que sagra cavaleiros e decapita traidores.  E se transformará  (foi este o mundo que nos coube, por castigo ou prêmio) num especialista nas artes de vender e de comprar. O poder é isto, pensará ele, ser capaz de examinar vidas alheias, deslizes alheios, e ser capaz de condená-los sem nada sentir. O Poder é poder estar do lado de fora de tudo: “sei o que vai acontecer mas não tenho nada a ver com o fato de que uma coisa assim aconteça.”

 
Ele será venerado, mas como o mero portador do anel mágico, o mero detentor do gene certo, o mero realizador da profecia alheia.  Como todo ator, será amado ou odiado pelo personagem que recebeu, e o terá vivido com tal verdade que aceitará com equanimidade tanto a idolatria quanto o repúdio alheio. Ele será ungido e canonizado após a morte, sofrerá calúnias benignas inspiradas pelo ardor dos seus seguidores, será objeto de um culto que desprezaria quando vivo, e receberá a duvidosa imortalidade das páginas da História, das lendas apócrifas, dos prodígios sem comprovação.

3658) grandesertão.br (14.11.2014)


Na bibliografia enorme sobre Guimarães Rosa, tem muita coisa preciosa e muita coisa irrelevante.  A maldição de um grande autor é virar um cômodo pretexto para trabalhos de estudiosos meio indolentes, que têm preguiça de ter idéias originais, e estudam os autores mais famosos porque sabem que o tema é nobre e conta pontos, a bibliografia é vasta, e a esta altura ninguém espera grandes novidades a respeito.

 

Willi Bolle é o autor de grandesertão.br, assim mesmo em minúsculas como num nome de saite (Editoras Duas Cidades / 7Letras, 2004).  É uma dessas investigações minuciosas que dão gosto, porque é como se o autor relesse o livro inteiro para nós, descobrindo, destacando, reinterpretando.  A tese principal de Bolle é de que o romance de Rosa é um romance de formação do Brasil.  A história de Riobaldo vale como uma alegoria ou uma ilustração prática, rica, variada, minuciosa e nítida, da formação da nação brasileira que temos, com suas qualidades e defeitos. 

 

É uma tese detalhadamente exemplificada e argumentada.  O sistema jagunço (o exercício da força das armas, para afirmar e legitimar o poder político e econômico) está no cerne da nossa formação. Riobaldo, um homem velho que no fim da vida reconta sua história, tenta entender seu próprio percurso, justificar suas ações, e livrar-se um pouco das culpas que carrega, das muitas mortes que praticou e da cegueira que o afastou de Diadorim.

 

Bolle examina o conflito entre discurso erudito e linguagem popular, e contrasta as abordagens de Euclides em Os Sertões (o intelectual que glorifica o povo, mas não lhe dá voz) e de Rosa, que dá voz ao povo procurando a síntese entre a sabedoria tradicional e a cultura livresca. Bolle observa que o pacto com o Diabo nas Veredas Mortas é “uma representação criptografada da modernização do Brasil”.  Quando Riobaldo diz, referindo-se ao seu trato com o Demônio: “Trato? Mas trato de iguais com iguais. Primeiro, era eu que dava a ordem”, isso reflete os pactos sociais brasileiros, uma “retórica do faz de conta”, em que as duas partes (elites e povo) são supostamente iguais em direitos, mas é uma delas que manda.  Ecoando a famosa frase de Orwell na Revolução dos Bichos: “Todos os bichos são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”.

 
Riobaldo é sempre visto como o jagunço vivendo aventuras guerreiras e uma história de amor, mas Bolle o recoloca com clareza na sua posição final de fazendeiro, dono de terras herdadas do pai biológico, alguém que fez carreira dentro do sistema jagunço e de empregado tornou-se patrão. Para isso, ele faz um sacrifício: ele é “um homem que deixou morrer o grande amor de sua vida”.
 

3657) O balão de Dumont (13.11.2014)


Li numa matéria sobre Santos Dumont que o seu quarto balão, chamado (numa contagem descontraidamente brasileira) “no 3” se destacou pelo fato de ter sido o primeiro que se elevou com gás de iluminação, e o primeiro para o qual foi construído um hangar.   O gás de iluminação substituía o hidrogênio, que até então era o gás mais utilizado para inflar os balões da época.   O vôo foi realizado no dia 13 de novembro de 1899 – o dia exato em que, segundo os videntes do "fim do século", o mundo iria se acabar. 

 

Não sei por que motivo nostradâmico se previa o fim do mundo para esta data, e não para 31 de dezembro, o que pelo menos teria alguma lógica cronológica. Vai ver que assim como 13 é 31 ao contrário, novembro é dezembro ao contrário – para essa turma pêndulo-de-foucault, qualquer coisa pode ser demonstrada verbalmente.

 

Santos Dumont, ao que parece, não tinha problemas com o número 13, pois além de desafiar o Apocalipse anunciado, construiu e pilotou um balão com este número, mesmo vindo de duas tentativas abortadas com os números 11 e 12.  O no 13, ao que parece, sofreu algum tipo de sabotagem, mas logo em seguida veio o 14 e seu upgrade 14-Bis, e o resto é história. 

 

Não imagino que Santos Dumont fosse imune a superstições. Ao que parece foi por superstição que ele pulou o número 8, e na prática isso equivale a recear o 13, o 7 ou qualquer outro.  Mas, como temos o hábito mental de tirar lições de fatos aleatórios, aproveitemos para lembrar a reação de Santos Dumont, que foi provavelmente a de dizer: "Não, não tenho medo de que o mundo vá acabar hoje.  Para falar a verdade, acabei de construir um troço complicadíssimo que nem eu mesmo tenho certeza se vai voar ou não, e não tenho tempo de pensar em fim do mundo."

 

O mundo não acabou: o balão de Santos Dumont foi quem acabou voando.  Podemos aproveitar a outra informação (foi para este balão que ele construiu o primeiro hangar) como uma prova de seu otimismo, de sua certeza de que não apenas o mundo não ia acabar, mas talvez chovesse daí a alguns dias, e era preciso guardar o balão num lugar coberto.  Era um sujeito cheio de manias, e quase todas eram de ordem prática.

 
Mas, e o número 8?  Terá sido a prudência de Santos Dumont, evitando este número tão evidentemente perigoso, que salvou o Universo em que vivemos hoje?  Bem, tudo é possível.  Mas o melhor complemento da lição será, talvez, pensar que não comemoramos a data em que Fulano deixou de voar: comemoramos aquela em que ele de fato voou, sem se preocupar com milênios, cabalismos, superstições, e catástrofes anunciadas que afinal só interessam a quem vive passando cheque pré-datado.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

3656) Os dois eleitores (12.11.2014)


Dizem que por onde se olhar existem dois Brasis: o pobre e o rico, o branco e o preto, o tropical e o serrano, e por aí vai.  Prestando atenção em todo esse bulício das eleições recentes, pensei em dividir em dois os eleitores brasileiros.  De um lado os eleitores conscientes, de outro os eleitores meramente arrastados por algum tipo de propaganda, coação ou vaga promessa de alguma coisa. 

Vejamos o grupo dos eleitores conscientes, no qual me incluo, por hipótese de trabalho.  Por que eu sou mais consciente?  Bem, eu sou um escritor, um intelectual, tive direito a alguns anos de universidade, leio sobre tudo e escrevo sobre isso e mais alguma coisa.  Então devo saber distinguir entre dois projetos de candidatura à – digamos, pra facilitar – Presidência da República. O “pobrema” é que se eu fosse um intelectual sério teria de ler e comparar os projetos em campanha, mas a verdade é que eu nunca li um projeto de candidato.  No máximo, li em jornais a opinião de quem leu (ou dizia que).  Sou eleitor consciente?  Acho que não.

Ler projeto de governo? É como ouvir um candidato em cima de um caminhão, no engarrafamento da carreata, com um megafone, lendo em voz alta a ata da reunião do condomínio.  Não, preferimos votar num rosto, preferimos votar em alguém onde se ajustam nossos personagens, preferimos votar numa fantasia de desafio ou de exemplo.

O que eu sei da política, da economia brasileira?  Sei o que sai na imprensa, confiabilíssima que é.  E o que vaza para a Internet (ou cresce direto de lá, cópia sem original): sempre experiências de segunda mão. O Brasil é grande: todo dia há eventos públicos, entrevistas, pronunciamentos, transações, compras e vendas, leis promulgadas, tudo público e legal, mas que o “Brasil” não sabe, nem vai saber nunca, porque todo mundo está como eu, ocupado em cuidar da própria vida.  Acompanhar a economia nacional é um negócio muito chato. Ninguém tem saco. (E o que é secreto? Não sabemos nada do que acontece a portas fechadas. Nenhum político, nenhum jornalista pode afirmar em público a maioria das coisas que sabe. Seria um suicídio.)

Quantos eleitores sabem de fato o que acontece no país e conhecem as intenções secretas dos candidatos?  Não sei, só sei que certamente não sou um deles. Somos induzidos a votar, manipulados por notícias, bombardeado por memes, combatendo preconceitos de um lado com preconceitos do outro. Votamos em fantasias movidas pelo oportunismo, ou pela afetividade, ou por um interesse específico de grupo. Votamos até por mero diletantismo, como o de eleitores que se envolvem com política porque é um futebol a mais, uma religião a mais, uma droga a mais.



terça-feira, 11 de novembro de 2014

3655) Paris, Argentina (11.11.2014)



(Cortázar, por Petros V.)

A literatura de Julio Cortázar é uma literatura da grande metrópole, dos labirintos da grande cidade, que no seu caso é geralmente Paris, com uma ou outra incursão por Buenos Aires.  Em O Jogo da Amarelinha, o protagonista Horácio Oliveira percorre as ruas de Paris como uma agulha de vitrola percorre os sulcos de um disco, e do atrito entre os dois brota uma sinfonia de paixões, desencontros, crises existenciais, mortes, bebedeiras, cigarros, mates, esbarrões com o absurdo e o surreal.  

Cortázar era leitor profundo e concentrado dos surrealistas. Uma das epígrafes do livro é uma carta de Jacques Vaché a André Breton: “Nada acaba tanto com um homem como a obrigação de representar um país”.  Coisas que passam pela cabeça de todo migrante em metrópole alheia, vendo o olhar dos donos da cidade voltados para ele e aquele enorme balloon de pensamento por cima de suas cabeças: “Ah... então é assim que os paraibanos são.”

Oliveira percorre Paris à procura da Maga, a mulher que o fascina, mesmo que ele negue estar apaixonado, mas, fiel ao impulso anárquico dela, ele não marca encontros.  Sai vagando pelas ruas, indo visitar um sebo, ouvir música num clube de jazz, tomar um café num “arrondissement” mais distante, e sabendo que ao chegar lá pode encontrá-la sorrindo, como se estivesse à sua espera.  Os dois habitam (diz ele) “um mundo onde você se movia como um cavalo de xadrez que se movesse como uma torre que se movesse como um bispo”.  “Encontraria a Maga?” é a frase de abertura do livro, e que cristaliza essa atitude.  Acontecerá um milagre, somente pelo fato de eu ter saído andando ao acaso pelas ruas da cidade?

O encontro casual dos amantes, deliberadamente não-combinado, faz brotar a fagulha surrealista (o amor louco e o acaso criativo) nessa Paris minuciosamente inventariada. (A edição da Cátedra, Madrid, 1992, é bem anotada por Andrés Amorós, e cheia de fotos das esquinas e cafés citados pelo autor).  A andarilhagem do intelectual argentino sem-tostão, à procura da estudante uruguaia que tem “um passarinho na cabeça”  e um filho pequeno, mostra o quanto essa cidade era para ele um tesouro de surpresas e de fatalidades:

“Em plena satisfação precária, em plena falsa trégua, estendi a mão e toquei no novelo de Paris, com a sua infinita matéria enrolando-se sobre si mesma, toquei no magma do ar e de tudo o que se desenhava na janela, nuvens e águas-furtadas; nesse então, não havia desordens; nesse então, o mundo continuava sendo algo petrificado e estabelecido, um jogo de elementos girando nos seus gonzos, uma madeixa de ruas e árvores e nomes e meses.”



domingo, 9 de novembro de 2014

3654) Os dentes e os ossos (9.11.2014)



Foi altamente constrangedor aquele fim de semana, um mês após a morte do Dr. Medeiros, em que fomos todos convidados para a casa da família em Mury, para a leitura do testamento.  Por que não faziam aquilo no apartamento do Leblon, meu Deus? Eu era genro tinha que ir, até porque havia uns primos velhos que só estavam ali porque (segundo meu concunhado Anchieta, casado com a irmã de minha mulher) queriam pegar nem que fosse uma raspa do tacho, e achavam que estando presentes à abertura do testamento poderiam influenciar o modo como ele tinha sido redigido há pelo menos dois anos. 



Pudessem ou não, não conseguiram. No dia e hora aprazados, a família inteira coreografou sua chegada em Mury, foram as instruções obedecidas, foi o cofre aberto, foi  o testamento lido pelos advogados, com gravação em HD e testemunhas juramentadas. O grupo de causídicos direcionou o óbvio na direção do inevitável. Talvez seja medida do meu “ennui” registrar que duas ou três famílias fizeram naquela breve tarde de sábado sua independência financeira com a merreca herdada, mas eu nem pensava nisso. Só pensava em quem teria assassinado o velho.



Todos podiam e gostariam de tê-lo feito. Faço parte desta família há catorze anos. O pior não é que fossem hipócritas. Não eram. Não é que dissessem que amavam o paizinho quando na verdade mal podiam esperar que ele batesse-o-trinta-e-um e deixasse para eles todas as escrituras, as ações e os rendimentos que tinha. De fato o tinham amado, mas quando a morte se prenunciou todos pensaram rapidamente no equilíbrio de suas contas bancárias, na pá-de-cal em velhos compromissos, no cala-a-boca em certo nível de credor que começava a ficar inconveniente. Ninguém deve tanto dinheiro quanto os ricos. E de repente tudo estava possível, ao alcance de uma assinatura.


A fatia-de-espólio da minha digníssima consorte resultou tão suculenta que até meu cinismo vacilou um pouco, mas me recompus a tempo e pensei que subornar depois de morto é uma dupla covardia.  Quando só restava uma página impressa na mão do advogado, começou a me dar um calor, um sufocamento, uma vontade de estar longe dali, rápido. Mal percebi quando ele leu, hesitante, as últimas linhas daquele documento cujo lacre rompera minutos atrás: “A abertura do cofre determina a ignição dos pontos iniciais do processo, que a esta altura (o advogado hesitou, voltou a ler) já está em pleno andamento. Não tentem fugir.  Se abrirem a porta da frente, o vento irromperá com tudo, inflamando as labaredas, consumindo esta maldita casa e vocês, malditos também, até o derradeiro osso.”  E foi exatamente o que aconteceu.




sábado, 8 de novembro de 2014

3653) As Ruritânias (8.11.2014)





As Ruritânias são aqueles países imaginários em que muitos escritores gostam de ambientar seus livros sem a obrigação de verossimilhança, exatidão, pesquisa, etc., que seria exigida por uma ambientação num país de verdade como Hungria ou Romênia.  Quem propôs essa nação fictícia foi Anthony Hope numa série de romances de aventuras iniciada com O Prisioneiro de Zenda (1894), uma clássica história do cara que é sósia de um príncipe, serve de dublê e substituto para ele, e acaba sendo confundido de verdade com ele.  (É uma história já filmada várias vezes, inclusive com Peter Sellers em vários papéis.) A Ruritânia é um país vagamente situado entre a República Tcheca e a Alemanha, e suas histórias transcorrem entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do 20.



O cinema nos deu um exemplo recente com Zubrowka, país imaginário do filme O Grande Hotel Budapeste de Wes Anderson.  Ali está todo o clima ruritano: os hotéis de luxos cheios de aristocratas, políticos, militares; as intrigas e conspirações de gabinete; a ameaça permanente da guerra, numa Europa Central sempre inquieta e belicosa.



Além de seus numerosos livros de FC e fantasia, Avram Davidson (1923-1993) tem uma excelente série de contos com uma espécie de detetive, Dr. Eszterhazy, que se situam numa nação híbrida conhecida como Scythia-Panonia-Transbalkania, e que guarda todo aquele clima de lampiões a gás, trens, carruagens, arquiduques, intrigas diplomáticas e tecnologia virada-do-século.  Ursula LeGuin também produziu sua Ruritânia pessoal com a coletânea Orsinian Tales (1976), situados em Orsinia, também uma nação de perfil austro-húngaro, situada na Europa Central. No universo dos Role-Playing Games (RPGs) temos o exemplo de Castelo Falkenstein, jogo ambientado numa região imaginária nos Alpes da Bavária por volta de 1870.


Mesmo com toda essa diversidade, o termo “Ruritânia” tornou-se o mais típico dessas nações imaginárias.  Hoje pode ser encontrado não só na ficção, mas no jornalismo e em ensaios acadêmicos, toda vez que alguém precisa dar um exemplo situado num país hipotético.  Alegorias políticas, questões jurídicas complicadas, ilustrações de teorias econômicas, para tudo isto os redatores recorrem à Ruritânia como um país-experimento, um país-laboratório, que serve para ilustrar uma hipótese sem atrair as inevitáveis ressalvas que um leitor poderia fazer caso o exemplo sugerido ocorresse num país de verdade: “Ah, mas isso jamais poderia ocorrer na Polônia, pois sabe-se que o PIB da Polônia é em torno de tanto por cento, etc. etc.”  Falar em Ruritânia deixa o redator à vontade para compor seus exemplos da maneira mais conveniente.




sexta-feira, 7 de novembro de 2014

3652) André Carneiro (7.11.2014)




(foto: Sophia Pedro / Editora Três)


Devo ter lido André Carneiro pela primeira vez por volta de 1965, ano da publicação da antologia Além do Tempo e do Espaço (editora Edart, SP), talvez a primeira antologia de FC brasileira que li.  Incluía, curiosamente, um elenco de autores que ninguém identificaria com o gênero: Domingos Carvalho da Silva, Lygia Fagundes Telles, Álvaro Malheiros, Nelson Leirner e outros.  Não lembro muito do conto dele; o conto marcante, para mim, foi “Da Mayor Speriencia” de Nilson Martello. Depois ele foi reaparecendo em revistas e antologias, e assim formou-se na minha memória a trinca dos grandes autores da chamada Geração GRD: André Carneiro, Fausto Cunha e Rubens Teixeira Scavone.



André foi poeta da Geração de 45 antes de escrever FC.  Foi editor de um importante jornal literário, Tentativa, sobre o qual já falei nesta coluna (aqui: http://tinyurl.com/m5p3puc). Foi fotógrafo, cineasta, artista plástico.  A FC era apenas uma das suas muitas atividades, um aspecto dele com que sempre me identifiquei, porque o escritor típico de FC não apenas não faz outra coisa, ele nem sequer escreve outra coisa.



Tinha um estilo fluente, fácil, e parecia produzir sem muito esforço. Aos 75 anos publicou um encorpado volume de contos, A Máquina de Hieronymus, e aos 85 outra coletânea, Confissões do Inexplicável, com mais de 600 páginas (fez também as ilustrações, uma série de colagens). Nos anos mais recentes, encontramo-nos algumas vezes no Fantasticon, o evento de literatura fantástica em São Paulo.  E nos falamos por telefone quando incluí contos dele em duas antologias minhas: “A escuridão”, talvez sua obra-prima, em Páginas de Sombra, e “Do outro lado da janela”, em Páginas do Futuro.



Depois dos 80 anos a vista piorou; ele saiu de São Paulo e foi morar com o filho, em Curitiba.  Ao telefone, comentava com entusiasmo este ou aquele livro que estava lendo. Eu perguntava: “Mas André, você não disse que a vista estava ruim?” “E está, mas eu pluguei a câmera digital na TV grande da sala, fico filmando a página e vendo as letras bem grandes na TV, passo o dia lendo.”


André Carneiro faleceu esta semana, aos 92 anos.  É o nosso escritor de FC mais publicado fora do Brasil: tenho textos dele numa revista uruguaia, numa antologia inglesa.  Sua presença constante, publicando com regularidade ao longo da vida inteira, o aproximou das sucessivas gerações de escritores e críticos mais jovens.  O fanzine Somnium publicou por anos as “Crônicas do André”, relatos memorialísticos e de circunstância, que bem poderiam ser compilados e republicados num saite.  Um brinde para o grande André, que viveu o futuro até o fim.