domingo, 9 de novembro de 2014

3654) Os dentes e os ossos (9.11.2014)



Foi altamente constrangedor aquele fim de semana, um mês após a morte do Dr. Medeiros, em que fomos todos convidados para a casa da família em Mury, para a leitura do testamento.  Por que não faziam aquilo no apartamento do Leblon, meu Deus? Eu era genro tinha que ir, até porque havia uns primos velhos que só estavam ali porque (segundo meu concunhado Anchieta, casado com a irmã de minha mulher) queriam pegar nem que fosse uma raspa do tacho, e achavam que estando presentes à abertura do testamento poderiam influenciar o modo como ele tinha sido redigido há pelo menos dois anos. 



Pudessem ou não, não conseguiram. No dia e hora aprazados, a família inteira coreografou sua chegada em Mury, foram as instruções obedecidas, foi o cofre aberto, foi  o testamento lido pelos advogados, com gravação em HD e testemunhas juramentadas. O grupo de causídicos direcionou o óbvio na direção do inevitável. Talvez seja medida do meu “ennui” registrar que duas ou três famílias fizeram naquela breve tarde de sábado sua independência financeira com a merreca herdada, mas eu nem pensava nisso. Só pensava em quem teria assassinado o velho.



Todos podiam e gostariam de tê-lo feito. Faço parte desta família há catorze anos. O pior não é que fossem hipócritas. Não eram. Não é que dissessem que amavam o paizinho quando na verdade mal podiam esperar que ele batesse-o-trinta-e-um e deixasse para eles todas as escrituras, as ações e os rendimentos que tinha. De fato o tinham amado, mas quando a morte se prenunciou todos pensaram rapidamente no equilíbrio de suas contas bancárias, na pá-de-cal em velhos compromissos, no cala-a-boca em certo nível de credor que começava a ficar inconveniente. Ninguém deve tanto dinheiro quanto os ricos. E de repente tudo estava possível, ao alcance de uma assinatura.


A fatia-de-espólio da minha digníssima consorte resultou tão suculenta que até meu cinismo vacilou um pouco, mas me recompus a tempo e pensei que subornar depois de morto é uma dupla covardia.  Quando só restava uma página impressa na mão do advogado, começou a me dar um calor, um sufocamento, uma vontade de estar longe dali, rápido. Mal percebi quando ele leu, hesitante, as últimas linhas daquele documento cujo lacre rompera minutos atrás: “A abertura do cofre determina a ignição dos pontos iniciais do processo, que a esta altura (o advogado hesitou, voltou a ler) já está em pleno andamento. Não tentem fugir.  Se abrirem a porta da frente, o vento irromperá com tudo, inflamando as labaredas, consumindo esta maldita casa e vocês, malditos também, até o derradeiro osso.”  E foi exatamente o que aconteceu.




sábado, 8 de novembro de 2014

3653) As Ruritânias (8.11.2014)





As Ruritânias são aqueles países imaginários em que muitos escritores gostam de ambientar seus livros sem a obrigação de verossimilhança, exatidão, pesquisa, etc., que seria exigida por uma ambientação num país de verdade como Hungria ou Romênia.  Quem propôs essa nação fictícia foi Anthony Hope numa série de romances de aventuras iniciada com O Prisioneiro de Zenda (1894), uma clássica história do cara que é sósia de um príncipe, serve de dublê e substituto para ele, e acaba sendo confundido de verdade com ele.  (É uma história já filmada várias vezes, inclusive com Peter Sellers em vários papéis.) A Ruritânia é um país vagamente situado entre a República Tcheca e a Alemanha, e suas histórias transcorrem entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do 20.



O cinema nos deu um exemplo recente com Zubrowka, país imaginário do filme O Grande Hotel Budapeste de Wes Anderson.  Ali está todo o clima ruritano: os hotéis de luxos cheios de aristocratas, políticos, militares; as intrigas e conspirações de gabinete; a ameaça permanente da guerra, numa Europa Central sempre inquieta e belicosa.



Além de seus numerosos livros de FC e fantasia, Avram Davidson (1923-1993) tem uma excelente série de contos com uma espécie de detetive, Dr. Eszterhazy, que se situam numa nação híbrida conhecida como Scythia-Panonia-Transbalkania, e que guarda todo aquele clima de lampiões a gás, trens, carruagens, arquiduques, intrigas diplomáticas e tecnologia virada-do-século.  Ursula LeGuin também produziu sua Ruritânia pessoal com a coletânea Orsinian Tales (1976), situados em Orsinia, também uma nação de perfil austro-húngaro, situada na Europa Central. No universo dos Role-Playing Games (RPGs) temos o exemplo de Castelo Falkenstein, jogo ambientado numa região imaginária nos Alpes da Bavária por volta de 1870.


Mesmo com toda essa diversidade, o termo “Ruritânia” tornou-se o mais típico dessas nações imaginárias.  Hoje pode ser encontrado não só na ficção, mas no jornalismo e em ensaios acadêmicos, toda vez que alguém precisa dar um exemplo situado num país hipotético.  Alegorias políticas, questões jurídicas complicadas, ilustrações de teorias econômicas, para tudo isto os redatores recorrem à Ruritânia como um país-experimento, um país-laboratório, que serve para ilustrar uma hipótese sem atrair as inevitáveis ressalvas que um leitor poderia fazer caso o exemplo sugerido ocorresse num país de verdade: “Ah, mas isso jamais poderia ocorrer na Polônia, pois sabe-se que o PIB da Polônia é em torno de tanto por cento, etc. etc.”  Falar em Ruritânia deixa o redator à vontade para compor seus exemplos da maneira mais conveniente.




sexta-feira, 7 de novembro de 2014

3652) André Carneiro (7.11.2014)




(foto: Sophia Pedro / Editora Três)


Devo ter lido André Carneiro pela primeira vez por volta de 1965, ano da publicação da antologia Além do Tempo e do Espaço (editora Edart, SP), talvez a primeira antologia de FC brasileira que li.  Incluía, curiosamente, um elenco de autores que ninguém identificaria com o gênero: Domingos Carvalho da Silva, Lygia Fagundes Telles, Álvaro Malheiros, Nelson Leirner e outros.  Não lembro muito do conto dele; o conto marcante, para mim, foi “Da Mayor Speriencia” de Nilson Martello. Depois ele foi reaparecendo em revistas e antologias, e assim formou-se na minha memória a trinca dos grandes autores da chamada Geração GRD: André Carneiro, Fausto Cunha e Rubens Teixeira Scavone.



André foi poeta da Geração de 45 antes de escrever FC.  Foi editor de um importante jornal literário, Tentativa, sobre o qual já falei nesta coluna (aqui: http://tinyurl.com/m5p3puc). Foi fotógrafo, cineasta, artista plástico.  A FC era apenas uma das suas muitas atividades, um aspecto dele com que sempre me identifiquei, porque o escritor típico de FC não apenas não faz outra coisa, ele nem sequer escreve outra coisa.



Tinha um estilo fluente, fácil, e parecia produzir sem muito esforço. Aos 75 anos publicou um encorpado volume de contos, A Máquina de Hieronymus, e aos 85 outra coletânea, Confissões do Inexplicável, com mais de 600 páginas (fez também as ilustrações, uma série de colagens). Nos anos mais recentes, encontramo-nos algumas vezes no Fantasticon, o evento de literatura fantástica em São Paulo.  E nos falamos por telefone quando incluí contos dele em duas antologias minhas: “A escuridão”, talvez sua obra-prima, em Páginas de Sombra, e “Do outro lado da janela”, em Páginas do Futuro.



Depois dos 80 anos a vista piorou; ele saiu de São Paulo e foi morar com o filho, em Curitiba.  Ao telefone, comentava com entusiasmo este ou aquele livro que estava lendo. Eu perguntava: “Mas André, você não disse que a vista estava ruim?” “E está, mas eu pluguei a câmera digital na TV grande da sala, fico filmando a página e vendo as letras bem grandes na TV, passo o dia lendo.”


André Carneiro faleceu esta semana, aos 92 anos.  É o nosso escritor de FC mais publicado fora do Brasil: tenho textos dele numa revista uruguaia, numa antologia inglesa.  Sua presença constante, publicando com regularidade ao longo da vida inteira, o aproximou das sucessivas gerações de escritores e críticos mais jovens.  O fanzine Somnium publicou por anos as “Crônicas do André”, relatos memorialísticos e de circunstância, que bem poderiam ser compilados e republicados num saite.  Um brinde para o grande André, que viveu o futuro até o fim.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

3651) Os cinco sentidos (6.11.2014)



“Audição, visão e tato / mais olfato e paladar”: são os nossos cinco sentidos, que conhecemos desde a infância.  A audição é o mais abrangente deles (a vista alcança mais longe, mas só vemos o que está à nossa frente, e não como ouvimos, em 360 graus à nossa volta).  Nosso olfato tem pouca utilidade, e nos serve mais para o prazer do que para o trabalho.  A boa cozinha é uma homenagem simultânea ao olfato e ao paladar.  O tato é, como os dois anteriores, sujeito à contiguidade física: só funciona ao termos contato físico com o outro objeto.  Visão e audição (e olfato, um pouquinho) nos mostram o mundo à nossa volta; tato, paladar e olfato nos dão informações sobre algo físico com que fazemos contato.



Daí que a expressão “sexto sentido” seja tão usada, porque volta e meia estamos percebendo algo, ou tendo a sensação de algo, e não sabemos como encaixar aquilo nesse repertório tão limitado.  Li agora um oportuno post de Mark Lorch (aqui: http://tinyurl.com/kn2ghdv) sobre noções científicas superficiais que aprendemos na escola e nunca mais nos livramos. Uma delas, diz ele, é essa limitação de “cinco sentidos”.  Na verdade, temos mais do que isso.



Sentimos o movimento com acelerômetros localizados no vestíbulo, uma região do ouvido interno.  Nosso sentido de equilíbrio se deve ao movimento de fluidos através de canais muito finos, também nos ouvidos: se você ficar tonto, vai sentir um perturbação desse sentido, que usamos o tempo inteiro. O autor também diz: “Quando prendemos a respiração, sentimos nosso sangue se tornando mais ácido à medida que o dióxido de carbono se dissolve nele formando o gás carbônico”.  Bem, eu nunca senti isso, mas quem sou eu para questionar os sentidos alheios; vai ver que sou daltônico nesse aspecto. 



Lorch argumenta: “Não estou sugerindo que comecemos a ensinar a crianças de seis anos coisas estudadas em laboratórios ganhadores do Nobel, nem que o currículo deles seja soterrado de detalhes a respeito de dezenas de sentidos. Mas podíamos parar de contar lorotas.  Podíamos dizer, por exemplo, numa aula de biologia: Nós temos muitos sentidos, e estes aqui são os cinco que vamos estudar.” 


O texto de Lorch questiona estas e outras simplificações, que têm função didática mas acabam se transformando em Tábuas da Lei. Os três estados da matéria, por exemplo (sólido, líquido e gasoso): ele mostra que existem vários outros inclusive o plasma, que é o estado da matéria que compõe o sol.  Dizemos três estados como dizemos cinco sentidos: para facilitar, para poder concentrar o foco em algo mais presente na nossa experiência diária.  Mas a realidade sempre vai muito além disso.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

3650) O café de Balzac (5.11.2014)


Ainda vou escrever um conto futurista sobre uma sociedade onde várias drogas são proibidas a-ferro-e-fogo pelo Estado, entre elas café e açúcar.  Não existe estimulante mais poderoso, não é verdade?  Vai que de uma hora para outra a gente acaba votando (por motivos totalmente outros) num Congresso Nacional cuja maioria é composta de pessoas para quem nada pode haver de mais terrível e imoral do que a absorção dessa infusão negra e tenebrosa (dirão eles), demoníaca (dirão seus teólogos), viciante (dirão seus médicos).



Vôte!  Ainda bem que vivemos numa democracia.  Posso todo dia encher minha caneca fumegante e sentar aqui folheando Balzac, um adicto famoso.  Em seu texto de 1838 “Tratado dos Estimulantes Modernos” (aqui, em francês: http://tinyurl.com/7acapw2) ele fala das cinco substâncias de excitação artificial: o álcool, o açúcar, o café, o chá e o tabaco.  É um texto que antecipa o texto famoso de Baudelaire, Os Paraísos Artificiais (1860), onde o poeta fala do vinho, do ópio e do haxixe. 



Balzac era um cafezeiro hardcore, e sugere variadas maneiras de preparar a beberagem (ele é um dos que consideram uma heresia você jogar água fervendo em cima do pó – a água deve estar apenas quente).  E depois de comparar várias maneiras de administração do café ele diz: “Por fim, descobri um método horrível e brutal que recomendo apenas a homens de excessivo vigor. (...)  É o uso de café pulverizado muito fino, concentrado, frio e com pouca água ou nenhuma, consumido de estômago vazio.”  Ele explica que nessas circunstâncias o café é total e rapidamente absorvido pelo estômago, e a consequência imediata é o aumento da atividade cerebral, que ele descreve com metáforas militares:



“Logo as idéias se põem em marcha, como esquadrões de um exército se espalhando no campo de batalha, e a guerra principia. As lembranças fazem sua carga, com os estandartes tremulando; a cavalaria das metáforas se apresenta com seu magnífico galope; a artilharia da lógica avança com um clangor de máquinas e de munições; a uma ordem da imaginação, os atiradores de elite fazem mira e disparam; formas e silhuetas e personagens ficam prontos; o papel se cobre de tinta, porque essa vigília se abre e se fecha com torrentes dessa água negra, tal como uma batalha se inaugura e se encerra com o negror da pólvora.”


Poder discutir abertamente as vantagens e as desvantagens do café, do chá, do açúcar, etc.  é uma conquista cultural que não devemos desprezar.  Acho que isso tudo faz um pouco de mal, principalmente o açúcar branco, mas acho que proibi-los iria aumentar, e não diminuir, o número de suas vítimas.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

3649) Os Reptilianos (4.11.2014)


Tenho uma má e uma boa notícia.  Primeiro a má: os Reptilianos existem. (São aqueles seres possivelmente alienígenas, que se metamorfoseiam de humanos para conviver na sociedade humana, mas nos momentos mais sutis se desmascaram, mostram sua natureza iguana, sua vocação serpente, sua frieza réptil.)  Para compensar, digo logo a boa notícia: somos nós mesmos.  Ou, como dizia um personagem da tirinha de Al Capp, “they is us”.  Eles é nóis.

Minha teoria é de que os Reptilianos não são uma espécie biológica, algo que se distingue da nossa pela diferença genética.  Os Reptilianos são um estado de espírito.  São um software mental, um conjunto de ações, reações, estímulos, reflexos, impulsos, tudo executado por humanos biologicamente iguais a nós.  Por nós mesmos, na verdade. Eles não têm o corpo diferente do nosso, eles têm o corpo da gente, a mente deles é que é outra linguagem, outro volapuque, outro Fortran.

Eles têm uma moral binária; só enxergam sim ou não, preto ou branco.  (Isso vale para os répteis, mas não para ao mamíferos, que é o que somos por “default”. Só viramos reptilianos quando começamos a ver TV.)  Eles dominam um conjunto de algoritmos super complicados que lhes permitem, em fração de segundo, criar diante de qualquer massa de dados duas categorias nítidas (sim/não, on/off, etc.) e despejar tudo nesses dois pratos da balança.  No mundo mental deles, tudo deve ser dividido binariamente, porque na verdade eles são comandados por um cérebro primordial que divide tudo em “a favor / contra”.  O que é a meu favor deve ser preservado; o que é contra mim precisa ser destruído.

Os Reptilianos derivam com facilidade para o esporte e a política, duas atividades onde, por mais que haja “áreas cinzentas”, tudo se decide com resultados numéricos: sim/não, ganhou/perdeu, campeão/vice, governo/oposição.  Uma das frases preferidas dos Reptilianos, ao discutir, é: “Você tem que optar por um dos dois, não pode ficar em cima do muro”, porque para eles é imprescindível estar contra ou a favor deles.  Se eles dizem que a humanidade se divide entre os que gostam de hamburger e os que gostam de pão francês com bife, você tem (pra eles) a obrigação moral de optar por um dos dois. Não pode simplesmente dizer que essa divisão lhe parece irrelevante ou capciosa.

Estamos sendo treinados (pela imprensa, pela TV, pela Internet) para raciocinar sempre nesses termos, “meu lado / o outro lado”, “comigo / contra mim”.  Por que? Não sei, pode ser que os Reptilianos estejam se preparando para uma batalha e precisem de soldados assim, que dividam conceitos com presteza, obedeçam com eficiência, destruam sem remorsos.


domingo, 2 de novembro de 2014

3648) O cientista louco (2.11.2014)



Ele queria destruir o mundo.  Ele queria ser um deus no altar.  Ele enxergava em cada descoberta uma outra porta aberta a o desafiar.  

Ele trabalhava nos subterrâneos-do-vaticano da fortaleza-da-solidão, agitava o-inferno-de-wall-street enquanto tentava mobilizar os-dragões-do-éden e ao mesmo tempo transformar a porra toda numa supernova onde ele finalmente reinaria em paz, sem ter que explicar nada, que justificar nada, que planejar nada, que carregar ladeira acima nada, que despencar orçamento abaixo nada, sem ter que recuar, sem precisar transigir.

O cientista louco é uma função mental à solta na cidade, com a mente em questão correndo atrás.  Ele não quer destruir, para ele basta imobilizar.  Como Goldfinger, que não queria roubar o depósito de ouro dos Estados Unidos, queria torná-lo radioativo e inaproximável, para que o valor de suas reservas pessoais subisse como um foguete.  

O cientista louco não é grotesco, canibalesco e mau. Seria como achar que um louco é quem tem falta de asseio.  Não.  Às vezes um louco é quem tem falta de concatenação consigo mesmo.  Às vezes é quem não tem a menor empatia com o outro.  E às vezes é alguém sem rumo, quem não sabe ao certo quem é, nem o que está fazendo.



Cientista louco é um sujeito do olhar fixo.  A loucura do cientista louco não é caricatural como os das revistas de Hugo Gernsback, nem aquela coisa circense-espectral de Gene Wilder em P&B.  

O cientista louco é o dr. Jekyll de O Médico e o Monstro.  É danado teorizar em cima de um spoiler, mas esse já está mais desgastado do que os de Roger Ackroyd e de Diadorim, então vamos em frente.  O dr. Jekyll é o Bem, e Mr. Hyde, “o monstro”, é o Mal.  Correto?  Correto nada.  



No livro, o doutor comenta várias vezes que ser Mr. Hyde e fazer o que Mr. Hyde fazia lhe dava consternação, mas também um prazer culposo.  Ele gosta, toma a droga que o transforma no espancador de crianças e idosos, e mantém tudo sob controle.  

A cena crucial da história é quando o doutor, muito cotidiano e respeitável, está sentado no banco de um parque, e de repente tem um escurecimento de vista.  Quando torna, ele se  sente diferente.  Vendo, ouvindo, sentindo, tudo diferente. Então ele olha para os pulsos e os pés.  A roupa está amontoada, sobrando, porque Mr. Hyde é de estatura menor que o doutor.


O cientista louco não é o que dá gargalhadas megalô-histéricas, o que ronca e babuja, o que brande o punho contra o crepúsculo e apostrofa uma civilização.  Basta ser o que perde o controle do experimento.  

O experimento começou sendo um eco dele, e ele agora é um eco do experimento.




sábado, 1 de novembro de 2014

3647) O dono da tese (1.11.2014)



Quando dirigi a fugaz Coleção Rama, de ficção científica, para a Editora 34, um dos primeiros títulos que mandei traduzir foi Dying Inside (1972) de Robert Silverberg, que foi traduzido por Ivanir Calado com o título Uma Pequena Morte (1993).  Este livro é uma espécie de A Náusea da new-wave da FC dessa época.  É a história de um telepata que pode entrar na mente de qualquer pessoa, num certo raio de alcance, e acessar tudo que ela está pensando, como quem captura um wi-fi alheio. Tal como Antoine Roquentin acessava a existência da raiz de uma árvore, no livro de Sartre. David Selig é um cara solteiro, solitário, sozinho, morando numa pensão mais-ou-menos, e parasitando as emoções alheias sem fazer muito esforço.

Mas mesmo um paranormal tem que pagar contas, e Selig precisa descolar grana de algum modo.  O que faz ele?  Como é um cara meio ocioso e que gosta de ler, ele ganha a vida falsificando trabalhos acadêmicos para alunos que têm muita grana ou pouco tempo, redigindo teses, “papers”, resenhas, artigos acadêmicos, etc., por um preço mais do que módico. (O pagante só enxerga o trabalho necessário para fazer seu artigo, que é sobre Surrealismo, ou sobre Churchill, ou sobre o Teorema de Fermat; esquece da amplitude de conhecimentos necessária para alguém se mover à vontade de um para o outro.)

Selig escreve sobre tudo, e hoje, por sincronicidade, abri um exemplar da revista Piauí (ano 1, no. 7, abril -- http://tinyurl.com/l3sfuxp) onde reencontrei um texto, tão saboroso quanto uma ficção, intitulado “Um trabalho de pontos, vírgulas e interrogações”, assinado por Maria Lopes, uma mulher que em São Paulo faz exatamente isso: recebe encomendas para escrever textos de nível universitário ou jornalístico, cobra X, entrega, recebe.  Tem gente que tem dinheiro e precisa de um diploma o mais rápido possível.  São uma clientela estável, e, quem sabe, em expansão.

A história de Maria Lopes mostra, mesmo com o que tem de específico, a vida do freelancer das letras ou do mercado editorial, porque isso inclui não somente o ghost writer, como é o caso dela, mas também redatores, tradutores, revisores, ilustradores, e vários outros que influem na forma final do livro. 

O Selig de Silverberg encarna bem a condição da mente de aluguel, que de tão embriagada de si mesma deixa-se no fim prender com facilidade numa grade tão elementar quanto a do dinheiro. O dono da tese é o “quarterback” que diz: “É sobre aquele livro, O Julgamento, de Kafka.”  E você mostra que entendeu, e corrige tudo muito diplomaticamente, porque você lê o que precisar na mente dele, e ele lê na sua cara que a sua carteira está vazia.


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

3646) Os candidatos (31.10.2014)


Nem sempre o melhor candidato é o melhor executivo.  Acho graça no modo como a democracia eletrônica, onde o objetivo é impor uma idéia a dezenas de milhões de pessoas desinformadas, deforma todo esse processo.  Deveríamos eleger o melhor administrador, o mais competente, o mais correto, o mais íntegro, o mais líder.  Ao invés disso, elegemos em geral o que tem sorriso mais aconchegante, o que tem rasgos oratórios que fazem explodir aplausos, os que pelas feições ou pelo traje se parecem com algum vago ideal de autoridade que trazemos adormecido em nossa subconsciência de classe. Votamos num ator.  Mesmo os bons administradores (que felizmente existem) descobriram muito cedo que para poder administrar em paz tinham que desenvolver, mesmo a contragosto, esse lado televisivo, histriônico, fotogênico.

Esse jogo foi zerado por Ronald Reagan.  Deve haver precedentes, mas eu diria que Reagan foi o primeiro caso de robô biológico na história da política moderna.  Um robô biológico é um ser humano incapaz de pensar por conta própria mas dotado de uma sólida capacidade de dizer e fazer o que lhe dizem para ser dito e feito.  Reagan tornou-se assim, para o neo-liberalismo republicano, o candidato perfeito e depois o administrador perfeito.  Foi treinado durante a campanha, e depois de eleito continuou recebendo os textos das mãos da mesma equipe.  Não sabia a diferença entre o Brasil e a Bolívia, tinha um “personal astrólogo” para lhe dizer como seria o seu dia, era um javali de terno, mas recebia os textos e aplicava a eles todo o seu charme de galã rústico de Hollywood.

A direita norte-americana trouxe mais atores à política: Schwarzenegger, Clint Eastwood...  Livro um pouco a cara deste último, que é reacionário mas parece ser capaz de pensar sozinho.  Mas o bom Arnold é um exemplo cristalino de como o mundo do espetáculo, a cada década que passa, é sugado para o interior da política.  Mais fácil do que transformar um político em ator é transformar um ator em político, afinal de contas ele vai precisar apenas ler coisas no teleprompter, porque todas as discussões já lhe chegarão brifadas e dirigidas.

Lembro de uma longínqua eleição nos EUA em que um comentarista falou: “O melhor presidente seria o senador Fulano, porque é honesto, competente, sabe costurar apoios.  Mas nunca seria eleito, porque é feioso, mau orador, gagueja.  Candidato tem que ser galã.”  A democracia eletrônica facilita a discussão e participação (via redes sociais), mas é toda voltada para a construção de uma imagem e desconstrução das demais.  Vota-se numa imagem cuidadosamente concebida e orquestrada, que não corresponde a uma pessoa real.



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

3645) Lovecraft datilógrafo (30.10.2014)





A literatura pode ser uma só, mas suas portas são legião. Todo caminho na sua Babel é único: só pode ser concebido e trilhado por aquela pessoa. É sempre bom tentar entender como o escritor trabalhava, fisicamente, porque isso pode ter alguma influência sobre seu modo de produção.  Sempre presto atenção à opinião dos autores que trabalharam durante as primeiras décadas da datilografia, no final do século 19 e começo do 20. 



Datilografar, para mim, é um prazer, hoje, no meu confortável desktop de teclado amplo e macio, cheio de recursos.  Como é ou era para os outros?  H. P. Lovecraft talvez tivesse um estilo menos ornamental e pomposo se o enfrentamento físico com o ato da escrita lhe fosse menos trabalhoso.  Numa carta de 1926 para August Derleth, ele diz: “Tenho tanto horror à tarefa de datilografar que não vou fazer isso sem antes ler tudo em voz alta para dois ou três bons avaliadores, e saber se vale a pena ser preservado ou não.”



Lovecraft era um compulsivo escrevedor de cartas, tanto à mão quanto à máquina. Também em 1926, escrevendo para Wilfred Blanch Talman, ele comentava: “O papel de formato longo que estou usando me foi dado pelo nosso companheiro e fã George Kirk, que você deverá conhecer em breve, o qual insistiu em me dar depois que não teve mais utilidade comercial para ele.  Se minha correspondência não fosse tão devastadoramente gigantesca, eu diria que o estoque de que disponho agora duraria para o restante de uma vida mediana.”



O papel podia ser muito, mas a energia era escassa. Lovecraft precisava fazer uma primeira versão à mão, corrigi-la, e depois datilografá-la, fazendo novos adendos e correções ao longo da versão passada a limpo, como a maioria dos autores.  De vez em quando conseguia alguém que fizesse isso para ele, mas a penúria financeira o impedia de contratar datilógrafos profissionais.  E o cansaço o impedia de fazer as sucessivas revisões que nós, hoje, fazemos com um pé nas costas.  Ironicamente, ele próprio faturava alguma grana, para completar o orçamento, com tarefas pagas de revisão de textos alheios, o que provavelmente o deixava, depois de um dia de trabalho, sem o menor saco para revisar seus próprios textos. (Pelo menos é o que aconteceria comigo, nessas circunstâncias.)


Em 1927 ele se queixa ao amigo Frank Belknap Long: “...a datilografia de manuscritos com essa extensão está totalmente além da capacidade de um cavalheiro idoso e cansado que costuma perder o interesse numa história no momento em que a completa...”  HPL dizia que era um homem do século 18 perdido no moderno e insuportável século 20.  Provavelmente era mesmo.