sábado, 31 de agosto de 2013

3279) Seu Deca (31.8.2013)






Ontem estive me lembrando de Dona Zefinha de Seu Deca. Isso foi num desses lugares pras bandas de Tabira ou de Água Branca. Seu Deca vivia duma aposentadoria, de um gadozinho guardado nas terras dum genro, e de farra. Todo dia vinha almoçar em casa e depois ia freqüentar a rapariga, Fátima, uma moça que tinha uma perna maior do que a outra. Levantava da cama às 4 da tarde, hora do carteado na pracinha, onde se reunia com os amigos para deliberar onde iriam beber naquela noite. Dona Zefinha lavava os pratos e chorava, amaldiçoando Seu Deca e todos os homens do mundo, mas morria de medo dele, e com razão, porque Seu Deca apesar de generoso com o próprio dinheiro e escrupulosamente correto em todo procedimento, como ele mesmo dizia, era um sujeito com sangue no olho e de instinto ruim.

Todo dia era essa a história, o almoço de Dona Zefinha, a sesta com Fátima, e Dona Zefinha carregando essa cruz à vista da rua inteira. Ela confidenciou a Ceiça de Antão Procópio que ainda era nova (estava longe dos quarenta) e que o marido era um homem bom, mas que por ser muito bom tinha se deixado enfeitiçar por quem não prestava. Ela guardava umas economias e comprou roupas novas. Passou a fazer ela mesma o almoço. (Que até então eram obra de Tonela, a mucama que trabalhava com eles desde que era uma adolescente.)

Talvez nunca se saiba o que Seu Deca notou primeiro, se era a mulher que estava mais bonita ou a comida que estava mais farta. Mesmo no entra e sai da sala para a cozinha Dona Zefinha estava sempre com um vestidinho caprichado. E cada dia espalhava sobre a mesa a bandeja farta com dobradinha, mão-de-vaca, tripa torrada, galinha de capoeira, costela, chambaril, pirão. Era ele comendo e ela atochando comida no prato dele. Ela comia limpando a barba, arrotando, controlando o relógio.

Um dia, por fim, Dona Zefinha estava lavando os pratos quando ouviu um alarido na frente de casa, eram uns meninos à janela da sala, falando todos ao mesmo tempo, um deles dizendo “Seu Deca morreu!”, e outro corrigindo, “Morreu, não, está morrendo!” Daí a pouco o trouxeram, duro, morto, desengonçado. Ela cuidou de tudo, participou do enterro, recebeu calada o que os enteados lhe deram na partilha e foi embora para a casa de uma prima que tinha no Cariri. Chorou com sinceridade, porque nos últimos tempos voltara a gostar dele. Mas também foi a última vez na vida em que ela chorou.

Quanto a Fátima, ficou muito tempo impressionada com essa história de um homem ter morrido dentro dela. Mudou-se para Sergipe depois de alguns meses e nunca mais ninguém ali se lembrou dela, mas mora hoje em São Cristóvão, onde tem o apelido de Meio Fio.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

3278) Histórias de horror (30.8.2013)




O saite BuzzFeed publicou os resultados de um concurso (http://bit.ly/11sZaxp) feito com leitores do Reddit, para escolher as melhores histórias de horror em apenas duas frases. (Se bem que, dependendo da sintaxe adotada, duas frases podem ocupar duas páginas; basta pensar em Proust ou em D. F. Wallace). Como tudo que envolve micronarrativas, não se deve exigir dessas histórias muita coisa em termos de descrição, caracterização de personagens, desenvolvimento, etc. É vapt-vupt. Um pequeno trecho que sugere personagens, ambiente e ação, contando com a colaboração imaginativa do leitor. Aqui vão algumas das vencedoras (sem nenhuma ordem especial).

1) “Você chega em casa, cansado, depois de um dia duro de trabalho. Estende a mão para o interruptor para acender a luz, mas encontra outra mão em cima dele.”

2) “Meu reflexo no espelho piscou para mim”.

3) “Você ouve sua mãe chamando-o, na cozinha. Quando se dirige para a escada ouve um sussurro vindo do armário dizendo: “Não desça, meu filho, eu também ouvi”.

4) “Os médicos disseram ao amputado que ele poderia sentir a presença de um membro fantasma. Mas ninguém o preparou para aquele instante em que ele sentiu sua mão fantasma sendo tocada por dedos muito frios.”

5) “Fui botar meu filhinho para dormir, e ele pediu: Pai, veja se embaixo da cama tem algum monstro. Olhei embaixo da cama, para agradá-lo, e lá estava ele, trêmulo de medo, sussurrando: Pai, tem alguém na minha cama!”

6) “Minha filha não para de chorar e de gritar, a noite inteira. Visito seu túmulo e peço que pare, mas não adianta”.

7) “Depois de um dia duro no trabalho, cheguei em casa e vi minha namorada com nosso bebê nos braços. Não sei o que me deu mais terror, se ver minha namorada morta segurando nosso bebê morto, ou saber que alguém tinha arrombado meu apartamento e colocado os dois ali”.

8) “Cara... pra onde foi aquela aranha?!”

A maioria dessas micro-histórias lida com os temas “família” e “morte”. Um elemento de fragilidade (algo delicado e precioso a ser protegido do Mal) e um elemento de ameaça. Com isto, os autores vão “direto ao nervo”, já que o formato proposto não dá espaço para caracterização de personagens. “Mãe”, “filho”, “namorada”, não são descritos além de sua função. O terror vem com a presença de “duplos”, do prolongamento maligno da vida após a morte, da presença invisível de algo estranho e ameaçador. O curioso é que algumas destas “histórias” já estão em seu tamanho ideal; aumentá-las só faria diluir seu impacto. A micro-história tem sua estética própria, é quase um episódio estático em que o tempo conta pouco. É menos narrativa do que cartum ou fotografia.


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

3277) "Phantom Lady" (29.8.2013)




Em algumas histórias de mistério, a grande questão é: Quem matou o milionário? Em outras, a questão é menor, mais modesta e mais grave: Qual o sentido da existência humana?  Um grande ponto de partida para um mistério é quando alguém tem sua vida virada de pernas para o ar, e não consegue convencer ninguém da sua inocência. Um mistério do tipo: “E se um dia algo me acontecesse, e todos os testemunhos em volta dissessem que aquilo não tinha acontecido?” Essa situação básica pode inspirar milhares de variantes. O turista que perde tudo num piscar de olhos em terra perigosa e estranha, p. ex.

Uma variante dessa situação é A Mensagem Misteriosa, ou O Cartão Misterioso. Uma pessoa recebe um cartão em língua desconhecida, e, sempre que pergunta a alguém o que tem ali, tudo que consegue é provocar escândalo, fúria, repulsa... ser vítima de preconceitos, fobias e perseguições... e ninguém lhe explica o que há escrito ali.

Outra variante é O Álibi Fantasma. O Álibi Fantasma consiste na história em que um indivíduo qualquer, para livrar-se de uma acusação, precisa comprovar coisas banais: quem é, o que faz, o que fez, o que lhe ocorreu de anormal. Parece simples... até o dia em que ele precisa de livrar da acusação de um crime e descobre horrorizado que ninguém confirma seu álibi, por variadas razões.

A Dama Fantasma (Phantom Lady, 1942), de William Irish, é um romance onde Scott Henderson, após uma briga com a esposa, sai à noite com uma desconhecida que encontra no bar, leva-a ao restaurante, depois a um show, despede-se sem perguntar seu nome ou seu endereço ... E descobre que alguém matou sua esposa durante a noite, e que seu álibi depende do testemunho dessa mulher, que ele não sabe quem é nem como localizar. 

Tudo é assim. A Dama Fantasma de William Irish (na verdade um pseudônimo de Cornell Woolrich, o autor da história original de Janela Indiscreta de Hitchcock ou A Sereia do Mississipi,  de Truffaut) é uma história clássica de “Ninguém Acredita Em Mim”. Toda a obra de Woolrich/Irish é cheia de armadilhas, identidades suprimidas do dia para a noite, corridas contra o relógio... São pesadelos kafkeanos numa Nova York do pós-guerra, com um senso de clima “noir” inigualável. Seus argumentos parecem aquelas histórias de Philip K. Dick em que o sujeito acorda de manhã e descobre que não existe.

Phantom Lady (filmado por Robert Siodmak em 1944) tem o melodrama sentimental típico de Woolrich, seus heróis quixotescos, seus lances mirabolantes, seu abuso das coincidências, mas esses romances têm um tal clima alucinatório, de pesadelo cósmico, que é mais fácil compará-los a um sonho do que a um livro. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

3276) O robô apaixonado (28.8.2013)




É uma dessas pegadinhas da Internet. Me lembra a história de São Tomás de Aquino no mosteiro. Os jovens monges, para zoar com ele, começaram a gritar, olhando pela janela: “Vinde ver, irmão Tomás! Vinde ver um boi voando!”. O santo veio à janela e pôs a cabeça para fora, procurando o boi. Os rapazes riram e disseram: “Acreditastes mesmo que um boi pode voar?” E ele respondeu: “Achei mais fácil um boi voar do que um religioso mentir.”

A história é provavelmente apócrifa, mas como a li no livro de leitura do colégio, aí vai ela, para não ficar por perdida. Algumas pegadinhas manipulam nossa tendência a acreditar em algo que, mesmo impossível, faz sentido dentro da nossa cultura. Por exemplo: um robô apaixonado. Acreditei piamente na notícia quando vi isto aqui: http://bit.ly/16BCgE8), só para vê-la desmentida minutos depois. Kenji é o robô desenvolvido nos laboratórios da Toshiba, programado para emular (imitar) emoções humanas. Ele desenvolveu comportamentos afetivos e protetores para com uma boneca, com a qual passava o dia abraçado. Quando a boneca lhe era retirada, ele perguntava por ela, insistentemente. O problema principal surgiu quanto Kenji passou a agir do mesmo jeito com uma estagiária que todo dia atualizava seus softwares. Querendo reproduzir com ela o que fazia com a boneca, Kenji recusou-se a deixar a moça sair do cubículo, e foi preciso desligá-lo.

Tudo mentira, claro. A “notícia” já foi desmentida desde 2009 (ver aqui: http://bit.ly/10sf1b5). Por que motivo eu acreditei, então? Acho que porque a história do robô me lembrou a história de Bispo do Rosário. Bispo era um doido, o que não é muito diferente de ser um robô. É um ser a quem se pode atribuir pensamentos e intenções, mas tem limitações evidentes que para nós são mais visíveis do que as nossas, e é imprevisível. Bispo apaixonou-se pela psicóloga que tratou dele na Colônia Juliano Moreira. Tratava-a como se ela fosse Nossa Senhora. No seu mundo delirante, ela era uma representação de beleza, de pureza, de amor desinteressado.

Quer dizer – isso é uma “viagem” minha em cima dos relatos feitos sobre Bispo. Sei tão pouco dos pensamentos de Bispo quanto sei do robô Kenji, mas nunca duvidei da possibilidade de algum deles se apaixonar. Se a história de Kenji é inventada, tanto faz; estamos na contagem regressiva para a produção do primeiro robô capaz de se comportar como uma pessoa apaixonada. E como saberemos se a paixão é verdadeira? Aí, amigos, ninguém sabe. Dependemos sempre da decisão de acreditar, porque jamais saberemos o que se passa noutra pessoa. Quanto a isto, estamos tão desamparados quanto um robô ou um doido.


terça-feira, 27 de agosto de 2013

3275) A Cena do Diretor (27.8.2013)


(Polanski em Chinatown)

Nos filmes de Alfred Hitchcock tem sempre a cena em que ele aparece ao fundo, entre os figurantes. Quando menos se espera, ou quando já se está cansado de esperar, lá está Hitchcock, sentado num ônibus ao lado do herói (O Homem que Sabia Demais, 1956) ou vendo a porta de um ônibus se fechar na sua cara (Intriga Internacional, 1959). 

O escritor Tim Powers desdenhava esse macete. Achava um exibicionismo meio infantil, que atrapalhava a credibilidade emocional do filme: “Você está assistindo uma cena que se supõe séria e tensa, e aí, de repente começa a apontar: '- Lá está Alfred!'  Estraga tudo.”

A Aparição do Diretor virou cacoete, já utilizado de toda maneira por todo o mundo. Mas o que eu acho mais interessante são aquelas aparições meta-hitchcockianas, que vão além do que o que o gordinho fez. 

São cenas com sua própria dramaturgia, seu próprio impacto, e o diretor não está ali apenas dando adeusinhos para o eleitorado. Está carregando em si um papel, numa cena forte, e com a obrigação de defendê-lo bem diante de sua própria equipe técnica. 

Caso emblemático de “Cena do Diretor”: Roman Polanski em Chinatown (1974), no papel do gangster janota que pega um canivete e abre a narina de Jack Nicholson.

Não me refiro àqueles filmes em que o diretor é de certa forma o protagonista, como F for Fake (1974) de Orson Welles ou A Noite Americana (1973) de François Truffaut.  Em casos assim o filme já é concebido em torno da imagem do diretor-ator, o filme todo é a presença dele.  

A Cena do Diretor é quando ele dirige a si mesmo e aparece nesse momento específico, e praticamente não mais; uma cena curta, mas de peso. Marca presença, tanto quanto Hitchcock; mas seu aparecimento não é um “gimmick” meramente publicitário, como o do mestre, é um produto estético. Afinal, é uma cena de filme! Uma coisa tão obra-de-arte quanto uma sextilha.

John Huston é uma das poucas coisas boas que houve em seu A Bíblia (1966), aquele Noé grandalhão, apocalíptico, desbocado. 

Luís Buñuel só apareceu na tela na primeira e demolidora cena de Um cão andaluz (1928), como o homem que empunha e navalha e nos ensina a “ver com outro olho que o habitual”, como disse Jean Vigo. 

Martin Scorsese faz um passageiro patético e surtado numa das melhores cenas de Taxi Driver (1976). 

Quentin Tarantino é literalmente mandado pelos ares na cena em que aparece em Django Livre (2012), realizando com ironia sádica tanto uma fantasia dos seus fãs quanto a dos seus desafetos. 

A Cena do Diretor é uma figura de linguagem do cinema que pode até ter sido incrementada pela brincadeira de Hitchcock, mas virou algo muito mais interessante.





domingo, 25 de agosto de 2013

3274) Memória de cantador (25.8.2013)





(José Gonçalves, foto Roberto Coura)



“Cantar repente é como mentir, o cara precisa ter boa memória. O repentista precisa tanto de uma memória farta quanto precisa de ligeireza no repente. Como ele pode ter ligeireza se a memória dele não for bem organizada, e bem cheia de coisas? 

"O cara precisa lembrar, na hora que lhe vem uma idéia de um verso, no instante das palmas, e quando as palmas diminuírem ele tem que entrar cantando, ele tem que saber se aquele verso é dele mesmo ou é um dos milhares de versos dos outros que ele sabe de cor. Muitas vezes o cara canta um verso alheio sem perceber e nunca teve essa intenção, mas passa a ser tido como aproveitador. Melhor evitar.

“Precisa ter boa memória para os nomes das coisas: dos lugares, das pessoas, de todo mundo que está presente naquela noitada, naquela viagem, naquele acontecimento. 

"Tem que saber também as informações dos livros, e aí o céu é o limite, mas ele tem que ter. Não adianta estar cantando sobre o Papa ou sobre um craque do futebol se não hora H errar ou não souber o nome do Papa ou o apelido do craque.

“Precisa ter boa memória também porque às vezes acontece de você ir fazer um verso e o verso não sair muito bom, por umas escolhas erradas de rima, ou qualquer besteira assim. Aí, não sei quantos anos depois, acontece uma chance de você poder voltar àquele verso, você improvisar aquele verso de novo, e o fato de já ter pensado nos problemas dele ajuda você agora a organizar as palavras de uma maneira melhor. O nome disso também é improviso.

“Precisa ter boa memória também para reconhecer o verso alheio que está sendo imitado ou repetido pelo companheiro, para ficar alerta e usar essa informação do modo que lhe convier. Porque acontece de, sem ser combinado, alguém se pegar com um decorado e você ficar queimando óleo pra inventar versos do nada. Pra depois dividirem a bandeja por igual.

“Quando se canta decorado é preciso ter boa memória para não se atrapalhar no que já sabe e já fez. Quando se está improvisando é preciso ter memória para não repetir, e para achar rápido o nome, a data, o detalhe de cada um. 

"Um cara uma vez pagou na bandeja com um cordão de ouro dessa grossura, só porque eu lembrei o nome do sítio onde ele tinha nascido, e das pessoas com quem ele passou a infância. 

"Ficar a vida toda brincando mentalmente com nomes de lugares e de pessoas, agrupando esses nomes pelo tamanho, pela rima, pela cadência, escolhendo rimas por afinidade e deixando-as próximas. Às vezes bastam duas linhas perfeitas para fechar uma sextilha; o resto pode ser deixado para resolver na hora, no calor do momento, às vezes sai até melhor do que o que já veio preparado.”




sábado, 24 de agosto de 2013

3273) A visita do Conde (24.8.2013)




(by Ralph Eugene Meatyard)

A morte repentina do Conde d’Aureville, em 1897, emocionou a Bretanha inteira, e ao seu funeral compareceram autoridades de oito países. Era autor de romances, de crônicas da corte, e de uma vasta correspondência com fidalgos e damas de toda a Europa. Sua coleção de documentos políticos foi doada ao Vaticano, mas sua biblioteca pessoal era o deleite dos pesquisadores de muitos países. Uma noite, no salão octogonal da biblioteca, estavam pesquisando documentos e fichários dois biógrafos (o húngaro Besolz e o alemão Scarblitz) e uma estagiária (a canadense Strumm). Os três trabalhavam a uma distância mediana entre si, por entre as estantes e arquivos. Naquela noite, foi como se uma mão gigantesca tivesse girado num botão. Houve como que uma ionização na atmosfera, o ar estralejou de energia, como se um toque de ponta de dedo emitisse um raio.

Eles se refugiram correndo junto à mesa central do aposento, onde a turbulência parecia ser menos intensa. No centroda sala, numa cascata de tremulações coloridas, apareceu o Conde d’Aureville. Sobranceiro, fornido, o chapéu de pluma arrogante, os copos da espada pronta para o desembainhar. Mas estava sereno, e olhou nos olhos cada um dos três intrusos. Sua voz era calma. Deu a cada um o direito a uma pergunta.

Besolz ergueu o braço. “Sire, estou consultando vossa correspondência, mas não sei quem é a tal Sereia que vos escrevia tanto.”  O Conde o encarou e disse: “Se és pesquisador mesmo basta dizer: é a mesma que um dia dirá sob outro nome que aprendeu comigo a amar a noite.”  Besolz assentiu devagar, com uma cara de quem já conseguiu metade do que queria.

“E tu?”, perguntou o Conde. “Mais de mil cartas militares,” queixou-se Scarblitz. “Tenho estudado muito mas não entendo tantas manobras, tantos armamentos, tantas combinações.” “Nem eu,” disse o Conde. “Limitei-me a copiar as cartas de uns generais para os outros, e dos outros para os uns. Ser político é ter uma dedução correta sobre o que acontece, com dados colhidos pelos outros.” O homem ficou calado. O Conde continuou: “Esquece isso. Procura minhas cartas com os ministros da Polônia e da Transbalcânia. Todo o resto é consequência dessas.”

Virou-se para a moça de rabo-de-cavalo louro. Ela lhe disse: “Senhor, há um código, não é verdade? Não o decifrei ainda mas percebi uma intercalação de letras sem sentido. É um código?” A imagem do Conde tremulou e, com um relâmpago cegante, desapareceu. Os três mal acreditaram no que tinham ouvido. Na manhã seguinte, a canadense apareceu morta durante o sono, com uma expressão de triunfo no rosto claro.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

3272) David Foster Wallace e o navio (23.8.2013)



Em seu volume de ensaios
Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (Cia. Das Letras, 2012), David Foster Wallace relata a empreitada que recebeu da revista Harper’s: fazer uma semana de cruzeiro pelo Caribe num navio de luxo, e relatar suas impressões. 

O texto resultante, “Uma Coisa Supostamente Divertida Que Eu Nunca Mais Vou Fazer”, é alternadamente fantástico, engraçado, assustador, intrigante. Como sou um escritor profissional e Wallace também o era, recorro ao senso ético da profissão para supor que ele não inventou nada daquilo. Sua interpretação dos fatos é a mais subjetiva e distorcida possível (ele mesmo o admite várias vezes), mas se os fatos forem mesmo aqueles o mundo é um lugar muito fantástico. Comparado a ele, Salvador Dali é um Mondrian.

As 125 páginas do ensaio são uma mistura do jornalismo gonzo de Hunter Thompson e da nostalgia claustrofóbica de E La Nave Va.  

Documenta a hipertrofia das glândulas consumistas que Henry Miller já tinha diagnosticado em Pesadelo Refrigerado e a cafonice endinheirada de True Stories de David Byrne ou de Heaven de Diane Keaton. 

Tem a voltagem de algumas das reportagens de Bruce Sterling ou William Gibson (só que com humor). E nos faz sentir o tempo inteiro a flutuação escheriana entre um corredor na Ilha de Caras e uma escada num filme de David Lynch. A terrível revelação de que o Sonho Americano é, e sempre foi, uma “bad trip” gerada por um LSD com defeito de fábrica.

Wallace observa, interage, recorda e escreve ora como um filósofo pessimista, ora como um adolescente travesso, ora como um intelectual mergulhando em espirais vertiginosas de associações de idéias dentro de idéias num torvelinho que se exprime por meio de suas famosas notas gigantescas de pé de página que se desdobram diante dos olhos do leitor como bonecas russas contendo outras bonecas, numa construção-em-abismo sem fim. 

Curiosamente, é um olhar tipicamente masculino, embora não machista, pelo tom do seu discurso, a empáfia das descrições técnicas, a auto-ironia peculiar, o prazer infantil das sugestões escatológicas, a camaradagem rude com os serviçais... 

Um grande livro, mas não consigo imaginar uma mulher gostando dele, pelo menos as mulheres para as quais se destina a chamada “literatura do olhar feminino”. Se isso de fato existe, o olhar de Wallace é um olhar masculino, mesmo que ele não dê muita importância aos aspectos de gênero. Ele tem uma irreverência e uma fascinação de rapaz adolescente pelos aspectos numéricos, verbais e técnicos do mundo que está descrevendo. E desenvolveu um estilo que é ao mesmo tempo produto desse mundo e caricatura crítica dele.







quinta-feira, 22 de agosto de 2013

3271) TV Vigilância (22.8.2013)



(Videodrome, de David Cronenberg)

As discussões a respeito do uso da TV daqui pra frente têm que considerar que a TV está deixando de ser apenas espetáculo. Continuamos vivendo na tal “Sociedade do Espetáculo”, mas quando tudo vira espetáculo, o poder magnético do espetáculo se dilui, se redistribui ao longo de toda a cadeia. A TV Espetáculo tenta se manter como pode, mas cresce uma coisa nova: a TV Vigilância, produzida pelos milhares de câmeras espalhadas pelas autoridades nas ruas, praças, prédios, etc.  Agora surgiu sua contrapartida: uma TV Vigilância da população. Com os novos meios de transmissão individual, cada pessoa pode se transformar numa TV ao vivo.

As transmissões recentes da Mídia Ninja varam o dia, a noite, a madrugada, transmitindo ao vivo manifestações ou reuniões, mas sofrem uma crítica constante: “Quem diabo tem tempo para acompanhar uma manifestação em tempo real? Quem pode ficar a noite toda em casa sentado, assistindo uma passeata?” Amigos já me disseram: “Acho simpático, mas prefiro o compacto de 3 minutos sobre a passeata, feito pelas TVs convencionais”.

Eu vejo essas manifestações. Como? Abro uma aba no TwitCasting, solto ali a transmissão da Mídia Ninja, abaixo o som, troco de tela e fico trabalhando, ou então maximizo a imagem e fico lendo numa poltrona próxima. Quando a voz do narrador sobe de tom, olho para a tela. (É assim que vejo futebol, aliás. Não fico grudado no futebol os 90 minutos. Eu deixo ligado – e leio, escrevo, trabalho, toco violão, e só presto atenção “quando o bicho pega”.) Não é espetáculo, é uma parte do ambiente, algo que está sempre ali, como o rádio que acalenta as fantasias das donas-de-casa que cozinham, ou como a muzak que atenua a promiscuidade demográfica dos elevadores.

A TV Vigilância, aliás, não é nada de novo. Darei um exemplo: a TV Câmara e TV Senado. Quem assiste aquelas tediosas transmissões dos bate-bocas e dos bate-papos dos nossos bravos congressistas? Resposta: muito pouca gente, mas é bom saber que votações de leis e defesas de projetos podem ser acompanhados por alguns milhares de indivíduos interessados no que vai ser discutido naquela tarde ou noite. Aliás, a transmissão de algumas CPIs tem dado índices de audiência sensacionais para uma TV “chapa branca”. Esse tipo de vigilância não é para dar Ibope nem para ser assistido no dia-a-dia – mas precisa estar presente no dia-a-dia, para que grupos diferentes de pessoas assistam, de acordo com o interesse de cada um. É o contrário da TV espetáculo, em que “o Brasil para pra assistir o capítulo da novela”. E volto ao meu bordão: se o Governo vigia o Povo, o Povo deve usar a mesma tecnologia para vigiar o Governo.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

3270) Escrever e cortar (21.8.2013)





Parece que foi Hemingway, ou Graciliano Ramos, ou Carlos Drummond, ou John Ruskin, ou Armando Nogueira, quem disse: “Escrever é cortar palavras”. 

Um conselho útil, uma boa frase de efeito. Mas tem um porém. Cortar o que? Para cortar, é preciso ter escrito alguma coisa. E se alguma coisa foi escrita e precisa ser cortada, é porque foi escrita em excesso. De modo que o conselho tem duas partes, com a primeira subentendida; o conselho completo seria: “Escrever muito, e depois sair cortando”. 

O que aliás tem sintonia com outra frase famosa, esta sim, de Hemingway: “Escreva bêbado. Revise sóbrio”. Conselho que pode incomodar os abstêmios, de modo que podemos substituí-lo por: “Escreva com entusiasmo, corte sem piedade”.

Não vale para todo mundo, é claro. Acho que James Joyce, Balzac, cortavam muito pouco. Cada vez que recebiam as provas da gráfica, enchiam as margens com novas frases, novos parágrafos inteiros. E os tipógrafos ficavam malucos. (Refazer essas coisas, naquele tempo, dava um trabalho insano.) 

Guimarães Rosa cortava muito, mas o texto não se reduzia, porque tudo que ele cortava substituía por outra coisa. (As antigas edições de seus livros, pela José Olympio, reproduziam páginas inteiras de provas revisadas por ele em letra desenhadinha, meticulosa, legível demais, como se pedisse desculpas aos tipógrafos.)

Escreva entusiasmado (se for esse o seu temperamento como escritor), escreva com exuberância, com exaltação, jogando no papel tudo que lhe passar pela cabeça. Descreva com detalhes, prolongue os diálogos, tente cobrir com palavras tudo que sua imaginação lhe sugerir. Naquele momento de escrever, abre-se uma janela em nossa mente, que depois se fecha. O que você está acessando naqueles minutos já não acessará na manhã seguinte; então, despeje tudo na página, antes que o portal se feche.

No dia seguinte, pegue uma caneta e vá cortando, sem pena. Veja entre essas frases qual delas merece ficar; veja qual delas já contém (ou sugere) as que estão indo para o lixo. 

Em geral, quando escrevemos, repetimos muito. Em diálogos principalmente. Dizemos a mesma coisa de duas ou três maneiras diferentes. Estamos ainda no processo de descoberta, por aproximações sucessivas. No dia seguinte, começa o processo seguinte, o de cristalização. O que estava ali só para ajudar, só para servir de veículo, pode desaparecer. 

Como um copo de água com sal, onde a água se evapora e deixa o sal no fundo. O sal é o texto que vai para o livro. Mas se esse texto for realmente bom, será possível sentir nele a presença da água que o trouxe até ali. 

Corte sem piedade. Cada palavra que você corta aumenta o valor das que ficam.