quinta-feira, 30 de maio de 2013

3199) Dicionário Aldebarã V (30.5.2013)




O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Erconnys”: restaurantes onde os comensais sentam-se junto a outros escolhidos por sorteio à entrada, para que assim possam conhecer novas pessoas e fazer amizades. “Immerblum”: sistema de rodízio pelo qual as mães de uma rua se organizam para cuidar dos filhos das que estão trabalhando fora. “Amburil”: vegetal psicossensível que, num ambiente qualquer, indica pela coloração e viço de suas folhas se há energias negativas circulando entre as pessoas presentes. “Roudembol”: pessoa que concorda em acompanhar, durante algum tempo, alguém que segue pela estrada, apenas para fazer-lhe companhia e trocar idéias.

“Leiquim”: adesivos cor-da-pele com tatuagens simbólicas, usados por moças e rapazes durante as festas onde vão paquerar, e que sugerem suas preferências eróticas. “Eddanongys”: pessoas que com poucas horas de conversa descobrem terem tantas coisas em comum que não conseguem entender como ainda não se conheciam. “Lemmiant”: sistema de canaletas e cisternas que recolhe e filtra a água da chuva, reduzindo o alagamento das ruas durante os temporais. “Huydeswin”: estudantes não-regulares nas turmas das escolas; na verdade, qualquer pessoa que se interesse em ver aulas sem estar matriculada nos colégios.

“Orduwir”: a esperança entusiasmada que sentimos ao iniciar um trabalho cujo resultado final ainda não foi posto à prova. “Lattys”: cerâmica muito usada em pisos de residências, que muda de cor continuamente ao longo dos anos. “Andcondy”: a cerimônia de, após um sepultamento, a família escolher um certo número de objetos pessoais do morto para serem guardados e periodicamente expostos, quando cada um conta suas recordações relativas àquele objeto. “Kodras-min”: a sensação de cansaço de quem depois de muito esforço conseguiu concluir uma pesada tarefa. “Kodras-anan”: a sensação de cansaço de quem, durante de uma tarefa, percebe que já despendeu todas as suas forças e não vai poder continuar. “Sonverney”: a sensação, diante de uma porta fechada, de que há alguém de pé do outro lado dela, tentando escutar o ruído que fazemos. “Yank”: espada cujo cabo, com molas internas, cede e resiste à empunhadura, permitindo maior firmeza no manuseio. “Trells-tulls”: fósforos aromáticos que, depois de usados para acender o fogo, podem ser jogados nas chamas para perfumar o ambiente.


quarta-feira, 29 de maio de 2013

3198) O livro digital (29.5.2013)




Não vou voltar à lenga-lenga costumeira sobre a luta darwinista entre o livro digital e o livro de papel. Como gosto dos dois, tento me adaptar aos dois, mas também exijo que os dois se adaptem a mim, ou seja, ao leitor. Cada leitor tem suas manias e suas conveniências. Imagino que as minhas sejam suficientemente coletivas para que a indústria as considere. O que eu espero, então, do livro digital? (Não entendo como livro digital a simples obra literária, embora, por extensão, ele possa ser chamado assim. Entendo como o “leitor eletrônico”, seja Kindle, iPad, ebook, qualquer formato.)

1) Portabilidade. A possibilidade de levar na mochila três enciclopédias, as obras completas de 20 autores, dicionários, bancos de imagens, de músicas. O leitor eletrônico deveria poder armazenar todas essas coisas numa estrutura leve, prática. A portabilidade, aliás, inclui uma bateria que dure muitas horas. Ficar preso umbilicalmente a uma parede deve ser a exceção, não a regra. 2) Resistência. Me lembro da propaganda dos livros de bolso da TecnoPrint, lá por 1960, que dizia: “Você pode ler na cama, levar no bolso, jogar no chão: são resistentes e belos...”. O livro eletrônico está longe desse grau de resiliência. Não que eu vá jogar no chão, mas livro é algo que de vez em quando cai sozinho.

3) Busca. Seria bom termos não apenas a busca por palavra ou frase no livro que está aberto na tela, mas, se necessário, no material armazenado no próprio leitor eletrônico, ou no pendraive que estamos acessando. Já tem? Que bom.  4) Aparência visual. Alguns amigos meus discordam, mas eu gosto que o texto eletrônico reproduza (se quisermos) a aparência visual da folha de papel de um livro, levemente amarelecida, com uma mancha gráfica semelhante, diagramação, pequenos detalhes (posição do número de página, etc.). Não acho que seja pedir muito.  5) Mudança de visual. Uma das maiores conquistas do texto eletrônico é a possibilidade de mudar a letra (a fonte) de tamanho, de cor, etc.; de explorar o contraste entre a cor da fonte e a cor da página; etc. Isso descansa a vista (pelo menos pra mim) e renova o interesse.

6) Acesso à Web. Eu gostaria de, no meio da leitura de um livro, poder acessar um Google ou Wikipédia para conferir um detalhe. Alguns leitores eletrônicos já proporcionam isto. Para mim, é um ponto importantíssimo. 7) Interatividade. O direito de sublinhar, anotar, fazer vínculos entre algo que há na página 25 com outro trecho da página 310. Para quem lê estudando, isto é essencial. O livro deveria ter um caderno de notas superposto, meio invisível, revelado e pronto apenas quando nos convenha.


terça-feira, 28 de maio de 2013

3197) Os Tronos do Sertão (28.5.2013)






A série Game of Thrones (canal HBO) exprime uma tendência atual da Fantasia Heróica de língua inglesa, que surgiu como uma resposta moderna às Novelas de Cavalaria que mostram heróis imaculados e vilões sórdidos, e a luta metafísica entre um Bem idealizado e um Mal pouco sedutor. 

Aos poucos, a Fantasia foi absorvendo o realismo psicológico do Romance Histórico. Um gênero menos moralista e mais pragmático, onde os personagens não têm ideais e sim interesses, e onde tanto um herói quanto um vilão são, no dizer de Olavo Bilac, “capazes de horrores e de ações sublimes”.

O paralelismo com a política moderna emerge a cada passo. Quando Tyrion Lannister examina as contas dos Sete Reinos e descobre o seu gigantesco endividamento, ele se queixa da imprudência do ex-chefe da Casa da Moeda, Lord Baelish: “O ouro dos Lannister vem das nossas minas, mas o ouro dos Reinos é criado por ele simplesmente estalando os dedos”. 

Quem escreveu isto sabe que a bolha financeira, muito maior que o planeta Terra, em cuja superfície estamos construindo nossa economia de superconsumo e superdesperdício, foi criada exatamente assim.

Em sua trama para tornar-se rainha, Margaery Tyrell promove “trabalhos assistenciais” junto aos descamisados de King’s Landing, alimentando os pobres. 

Na cena magnífica em que ela convence seu noivo, o Rei Joffrey (odiado e desprezado por todos) a chegar à sacada, o Rei fica desnorteado ao receber uma gigantesca ovação, e mais ainda ao perceber que a ovação não é para ele, é para ela, que a multidão adora. “Don’t cry for me, King’s Landing”: faz tempo que eu não vejo a história de Evita Perón sintetizada com tanta nitidez.

Quem é heróico ali? Ninguém. Todos são como nós. Os personagens mais éticos (Ned e Robb Stark, p. ex.) são forçados pelas circunstâncias a atitudes suicidamente ingênuas ou a decisões cruéis. Os mais divertidos e cheios de recursos, como Tyrion, estão mais próximos da crueldade de Cancão de Fogo do que da pureza de Sir Galahad. 

É uma história de clãs sertanejos, de famílias em luta pela terra, de alianças e rompimentos, de ódios que se incendeiam ao som de um sobrenome. Uma história de “potentes chefias”, como dizia Guimarães Rosa, e que tem uma ressonância especial a quem leu ou folheou uma obra como o colossal estudo de Linda Lewin, Política e Parentela na Paraíba (Ed. Record, 1993). 

Porque nosso belo e sofrido Estado tem sido criado e destruído, sucessivamente, pelas guerras ancestrais, pelas alianças traiçoeiras e os matrimônios turbulentos entre os Lannister, os Stark, os Targaryen, os Greyjoy, os Baratheon, os Tyrell, os Frey, os Tully...






domingo, 26 de maio de 2013

3196) Escrever às cegas (26.5.2013)






Não se deve tentar fazer literatura utilizando apenas a metade racional do cérebro. (O cérebro tem uma metade racional?  Tô maluco. Pode abater pra 20%.)  

Eu me acho um sujeito razoavelmente racional, tudo meu é pensado, é planejado antes de ser colocado no papel.  Muitas vezes, redigindo um artigo ou escrevendo um conto, eu penso: “Aqui, tenho que botar mais tarde um adjetivo, ou um verbo, mas tem que ter 3 sílabas”. Quem pensa que contagem de sílabas só existe em poesia não sabe da missa um terço. 

Alguns contos meus foram “escaletados” (situação básica + personagens + ambiente + evolução até o desfecho) e depois foram ruminados durante 10 ou 12 anos, até que pensei: “Chega, vou escrever logo isso antes que comece a se desmanchar”.  Porque muitos, muitos mesmos, a grande maioria, se desmancharam antes de chegar ao papel.

O que não impede que no mesmo escritor, eu ou qualquer outro, convivam técnicas diferentes para textos específicos. 

Escrever é um pouco como jogar futebol. Por mais que você planeje, a maioria das coisas vai ter que ser improvisada, porque do lado oposto há um Adversário com quem é impossível combinar as coisas com antecedência. (Lembrem-se de Garrincha, antes de Brasil x Rússia, perguntando ao técnico que explicou como a Seleção iria jogar: “Mas já combinaram com os russos?”).  

No caso da escrita, o Jogador Adversário é o Inconsciente, a mente que é ativada pelo ato físico de escrever, de imaginar ativamente falas, gestos, ações, cenas inteiras. Por isso é bom planejar. Porque planejar é criar as regras do jogo, mesmo que seja para desobedecê-las. 

E ninguém desobedece o tempo todo; uma grande parte do que se planeja acaba acontecendo. Não se pode determinar tudo com antecedência; e também não se pode esperar que o engalfinhamento improvisado com o inconsciente resolva todos os problemas, produza todos os efeitos.

Keith Ridgway, que não sei quem é, comentou, num artigo no The New Yorker: http://nyr.kr/RqA8sO): 

“Todas as decisões que eu aparentemente tomei, sobre enredo, personagens, onde começar, onde parar, na verdade não foram decisões. Foram soluções conciliatórias. Um livro é algo esculpido num bloco de esperança, e quando começo a cortar meus dedos eu o afasto para longe, para tentar descobrir como é que os outros o veem. E espero, com terror, o julgamento dos outros, julgamento que me parece injusto, seja positivo ou negativo, porque estão julgando algo que na realidade eu não fiz. Estão julgando algo que me aconteceu. É como sair me arrastando de dentro do carro após um acidente na estrada e ser saudado por um corpo de jurados erguendo painéis com suas notas de avaliação.”







sábado, 25 de maio de 2013

3195) O nome da cidade (25.5.2013)



(Bombaim)


Volta e meia estão mudando o nome de alguma coisa. Nomear é tomar posse, dizem as doutrinas cabalísticas. Então, existe um frenesi constante, por parte de quaisquer poderes, para dar um novo nome a algo que já existia. Quando a Revolução Francesa triunfou, mudou os nomes dos meses do ano, que passaram a se chamar: Brumário, Floreal, Germinal, Termidor... A população ficou atarantada com isso, e os legisladores danaram-se a promulgar o que bem entendiam.

Na Paraíba existe um movimento permanente para trocar o nome da capital João Pessoa por outro, que para alguns seria o antigo nome de Parahyba, inclusive grafado assim. (Se a Bahia pode manter seu “h”, por que não podemos recuperar nosso “hy”, que inclusive remete ao mito atlântico de Hy-Brasil?). Drummond ironizou, em seu livro Brejo das Almas, os que queriam mudar o nome dessa cidade, alegando que nada significava (conseguiram: o lugar chama-se hoje Francisco Sá). Muitas dessas mudanças se pretendem modernizadoras (trocar um nome cafona por uma denominação ligada ao “mundo de hoje”) ou restauradoras (trazer de volta um nome tradicional).

Vale anotar as reflexões de Suketu Mehta em seu livro Bombaim, cidade máxima (Cia. Das Letras, 2011), a respeito da mudança (de natureza política) de Bombaim para Mumbai, em 1995:

“A mudança de nome está em voga em toda a Índia: Madras chama-se Chennai; Calcutá, essa cidade construída pelos britânicos, mudou de nome para Kolkata. Um parlamentar do BIP exigiu que o nome da Índia seja trocado para Bharat. É um processo não apenas de descolonização, mas de desislamização. (...) Um nome tem tal natureza que, se crescemos com ele, a ele nos apegamos, seja qual for sua origem. Fui criado em Nepean Sea Road, atualmente Lady Laxmibai Jagmohandas Marg. Não tenho idéia de quem foi Sir Ernest Nepean, assim como não sei quem foi Lady Laxmibai Jagmohandas, mas me apeguei ao nome original, e não entendo a razão da mudança. O nome adquirira uma ressonância, com o passar do tempo, distinto de sua origem. (...) Acostumei-me ao som do nome. Está incorporado no meu endereço, na minha vida sonhada”.

Independente da justeza ou não das homenagens, os nomes se tornam referenciais da história pessoal de cada um. É preciso uma razão muito forte, e coletiva, para a mudança de um nome comunitário. “Vila Nova da Rainha” pode ser (eu acho que é) mais bonito e mais poético do que “Campina Grande”, mas eu cresci dentro deste nome e a ele me afeiçoei. Só admitiria a volta ao nome antigo se se tratasse de uma necessidade coletiva, que viesse a fortificar nossa unidade, nosso sentido de compartilhamento de uma História que pertence a todos.



sexta-feira, 24 de maio de 2013

3194) Troféu Gonzagão (24.5.2012)



(Antonio Barros & Cecéu)


Estive em Campina para assistir a cerimônia do V Troféu Gonzagão, que o pessoal chama “o Oscar do forró”. Os homenageados principais deste ano foram Sivuca (in memoriam), Genival Lacerda e a dupla Antonio Barros & Cecéu. Houve também a entrega de troféus para o cineasta Breno Silveira (Gonzaga – de pai pra filho), Chico César, Assis Ângelo, Fred Ozanam e Onaldo Rocha (autor de Baião em Crônicas). Durante mais de quatro horas, passaram pelo palco (acompanhados por uma firmíssima banda de apoio, com o maestro Adelson Viana) cantores como Alcimar Monteiro, Pinto do Acordeon, Fagner, Cezinha, Flávio José, Biliu de Campina, Josildo Sá, Trio Nordestino, Ton Oliveira, Capilé, Elba Ramalho... Lamento, a lista completa iria preencher sozinha esta coluna. O prêmio é uma iniciativa de Ajalmar Maia e Rilávia Cardoso, realização do Centro de Ortodontia Integrado e FIEP/SESI, com apoio dos governos estadual e municipal, UEPB, Sandálias Havaianas e Duraplast.

Essa ficha técnica aí em cima é importante para dar uma medida não apenas do evento em si, mas da força e vitalidade do forró pé-de-serra, cujo “estado terminal” vive sendo anunciado há muitos anos, tanto pelo pessimismo de alguns dos seus defensores quanto pelo otimismo de seus inimigos. Cada vez que o mundo dá uma volta aparecem manchetes dizendo que o forró está morrendo, mas na volta seguinte o forró aparece de novo, vivinho da silva. Me lembra a situação do cordel, descrita uma vez por Ariano Suassuna: “Aqui no Recife tinha um sujeito que dizia o tempo todo que o cordel tinha morrido. Quando ele morreu, escreveram um cordel em homenagem a ele”.

Não faltam talentos ao forró: milhares de músicos, compositores e cantores vivem dele. Não lhe faltam história nem tradição. Sua principal concorrente, a Lambada, se auto-intitula “forró eletrônico” – um duplo equívoco, pois nem é forró nem explora a fundo os recursos eletrônicos (que, aliás, qualquer gênero musical usa hoje em dia, com exceção talvez do Canto Gregoriano). Quais as maiores qualidades desse adversário? A Lambada é uma música alegre, sensual, boa de dançar? Pois o forró é tudo isso e muito mais.

O forró tem diante de si um grande futuro, pelo fato de ter um grande passado. Por mais que as tempestades do mercado fustiguem seus galhos e seu tronco, ele tem raízes  profundas que o fazem renascer depois de cada seca ou cada enchente. Hoje, no Nordeste, brotam fábricas de sanfona, escolas de fole-de-8-baixos, novos cantores e novas bandas rejuvenescendo o cancioneiro clássico e trazendo um repertório novo e atual. O mundo dá muitas voltas, e não tem verão tão longo que não desemboque num inverno.



quinta-feira, 23 de maio de 2013

3193) O normal literário (23.5.2013)





Certas discussões parecem aqueles intermináveis bate-bocas de bêbado em mesa de bar em que, quinze minutos depois, todo mundo passa de novo pelo mesmo assunto e ninguém se lembra de que tudo aquilo acabou de ser falado.  É o que acontece com o debate entre literatura de gênero e literatura “mainstream”. Gênero a maioria das pessoas entende o que é: é o romance policial, de terror, de faroeste, de capa-e-espada, de ficção científica... Mas o que é literatura “mainstream”?

Me vem à mente aquele camelô de DVDs na Rua da Carioca, que anunciava sua variedade de produtos: “Tem erótico, ação, suspense e normal!...”. Ou então aquelas duas donas de casa no supermercado, à minha frente, uma delas mexendo nos detergentes e dizendo à outra: “Tem esse aqui que é limão, esse outro é maçã, e esse aqui é normal”. Percebi que por “normal” ela queria dizer “neutro”, ou seja, aquele Limpol translúcido, sem um perfume artificial específico.

Quando classificamos os gêneros, o que chamamos de “mainstream” acaba sendo aquele tipo de literatura neutra, sem nenhuma característica especial, sem nada de muito específico: isso é o normal. Não haveria nenhum problema, talvez, se num mundo tão controlador como o nosso a palavra “anormal” não tivesse uma conotação tão criminalizante, tão ameaçadora. “Que tipo de literatura você faz?” “Faço literatura anormal”. A primeira coisa que o entrevistador pensa é que você escreve sobre deformações psíquicas ou sobre monstruosidades morais.

“Normal”, em nossa língua (ou pelo menos na língua da imprensa, na qual vivo mergulhado) é uma coisa cujo gráfico é uma linha horizontal sem grandes sobressaltos. Algo que não se afasta muito da medianidade, da mediocridade. Sem nenhum atributo que chame a atenção. Uma média aritmética, sem pontos muito altos e sem pontos muito baixos, sem defeitos que a prejudiquem e sem qualidades que incomodem os demais. Ser normal, na literatura, é ser incolor, inodoro e insípido como um copo dágua.

De 100 em 100 anos esse conceito muda. Em 1880 ser normal na literatura brasileira era ser melodramático, sentimental e romântico; hoje é escrever romances urbanos violentos ou introspectivos. Herdamos de outras literaturas esse modelo do romance realista, e qualquer desvio dessa receita é considerado uma anormalidade. Os novos escritores enveredam todos nessa raia, porque o “normal” equivale à Série A do campeonato literário; é aquela onde jogam ou jogaram os grandes campeões. (Notem que não falo dos “best-sellers”, que criam suas próprias regras, e sim da literatura valorizada pela crítica e pela academia. São elas que definem os parâmetros do que é normal.)







quarta-feira, 22 de maio de 2013

3192) Um lipo-experimento (22.5.2013)




Certos experimentos científicos se veem no limite de serem confundidos com testes de ilusionismo: seu objetivo é perceber se é possível superpor visões dissímiles num só conceito, descrito por dois diferentes conjuntos numéricos.  

Heisenberg é um dos físicos que veem o Incerto como sendo um tipo enriquecido do Visível.  O Incerto é o que pode ser visto de dois focos, todos os dois com pleno direito de serem definidos como o único que preenche os requisitos previstos no conceito.  

Observe-se, por exemplo, o estudo de Einstein sobre o efeito fotoelétrico. Se um pouco de luz incide sobre um corpo sólido,  este emite certo número de elétrons.  Podemos inquirir se esse fenômeno deve ser entendido como um exemplo de choque físico ou como um simples efeito indireto de núcleos energéticos que se interferem. 

Todo empreendimento científico produz novos conceitos sobre os meios de que se servem os prótons, elétrons, nêutrons, etc. em seu esforço de constituir “blocos sólidos”, feixes energéticos.

Pode-se dirigir um fenômeno de modo que ele reforce conceitos pré-definidos.  Tudo ocorre como se os testes fossem meros exercícios de determinismo: sempre que certos procedimentos se veem repetidos, repetem-se do mesmo modo os desfechos.  

Pode-se, em processos desse tipo, prever o futuro, pois desse modo define-se de modo preciso todo um conjunto de funções convergentes, que sempre se concluem de um mesmo modo.

Outro ponto de profundo interesse no exercício dos processos científicos é o que podemos definir como “o Momento Crítico”.  É o ponto em que todo o experimento pode ser desfeito sob o influxo de um Erro. 

O método científico tem que prever todos os incidentes possíveis de suceder no decurso dos testes.  Entre o primeiro e o último momento, tudo deve ser conduzido de modo que o Erro cesse de ser um evento possível.  

Em certos momentos, o Erro pode ser pressentido e retido em xeque, sem se imiscuir no conjunto dos eventos propostos.  Nenhum deslize é definitivo, nenhum mistério é insolúvel se o condutor do experimento souber ter em mente o Erro e propor soluções, mesmo que se servindo de previsíveis (e pouco sutis) truques técnicos.  

O Erro vive sempre pronto: surge no próximo minuto, no gesto seguinte.  Cumpre tê-lo em foco e impedi-lo de emergir.  Produzir experimentos desse tipo impõe um minucioso estudo do Erro e dos seus processos.

O Erro, se é definido desde o início, pode ser posto sob controle. Seu domínio é o do imprevisto, e se o tivermos em mente desde o começo  é possível deter seu fluxo, como num texto em que fosse interdito o emprego de um simples “A”.



terça-feira, 21 de maio de 2013

3191) Pobre de novela (21.5.2013)





O Realismo Socialista era uma literatura que se propunha a reproduzir “personagens típicos em situações típicas”. Para evitar o individualismo burguês (a ficção centrada em heróis individuais) e a alienação das vanguardas (cujas obras falavam de um mundo que só o autor entendia) o Realismo Socialista pretendia ser um retrato cru e sincero da sociedade. Queria mostrar “a vida como ela é”. Ora, a vida é mais complexa do que qualquer fórmula. O Realismo Socialista produzia tipos e lhes dava nomes; os tipos nunca pareciam com gente de verdade, e sim com caricaturas ideológicas.

Lembro sempre disto quando vejo essas novelas de TV onde os autores, geralmente sujeitos que ganham 100 mil reais por mês e moram num condomínio da Barra da Tijuca, tentam reproduzir o modo de ser, de vestir, de falar e de agir dos pobres, ou, mais precisamente, da classe C+, C-, D+ e demais tabulações alfabéticas baseadas no número de eletrodomésticos existente em cada lar.

A obrigação de mostrar como se comportam os pobres produz uma novela em que o pobre tem que ser um Símbolo de Pobre em cada diálogo, em cada gesto, em cada peça de roupa. Tudo tem que convergir para essa idéia. Se Fulano pertence ao “núcleo pobre” da novela, tem que usar somente palavras e expressões de pobre, ter idéias de pobre, emoções de pobre. Cada personagem vira um cabide de atributos. Não se comporta como uma pessoa, e sim como um aglomerado de clichês que de tão redundantes acabam sendo contraditórios, como se aquela pessoa tivesse a idéia fixa de ser pobre 24 horas por dia.

Não há dois pobres iguais. Os ricos tendem a ser parecidos, porque têm medo de ser considerados pobres, então se imitam uns aos outros o tempo todo. (Sim, sei que não é assim; estou dizendo isso apenas para incomodar certas figuras.) Pobre de Novela tem que ser típico, viver em situações sempre típicas, beber cachaça, pender cigarro na boca, mostrar a sandália vagabunda à câmara, e olhar ansioso para a platéia: “E aí, chefia? Sacou quem sou eu?” Qualquer casinha de subúrbio onde aquela novela é assistida tem mais complexidade sociológica do que todas as novelas juntas. Um pobre (ou um rico) não é um conceito, é o produto sempre em-processo de mil fatores aleatórios. Tatuá-los assim com um adjetivo é uma maneira negligente de ignorar o que têm de único e trabalhoso. A novela formata todos numa formulazinha que pode ser repassada à equipe. A intenção é não correr o risco de que a novela se torne algo como a vida: imprevisível, com dinâmica própria, podendo a todo instante fazer algo que não estava nos planos de quem a administra.




domingo, 19 de maio de 2013

3190) Mitologia dos pés (19.5.2013)



("Pés de um Apóstolo", Albrecht Durer)



Mario Quintana dizia que os fiéis beijam os pés de um santo por saberem que são eles a sua parte mais santificada, a que o levou pelo mundo afora. Os pés o conduziram pelas estradas, o levaram ao encontro do mundo, dos pobres, dos pecadores. 

Se não botasse os pés pra trabalhar, o pretendente a santo teria se deixado ficar eternamente no bem-bom da própria casa, teorizando sobre o mundo e a graça divina. Nunca seria santo; seria um desses pecadores anódinos que não fedem nem cheiram, incapazes de fazer mal a um corpo e de salvar uma alma.

Vejam aquela antiga maldição dos contos populares, da moça que era condenada a sair andando pelo mundo até gastar dez pares de sapatos de ferro. Primeiro pelo peso e o desconforto, é óbvio; depois pela terrível perspectiva temporal dessa caminhada, um castigo de muitos séculos, até que os solados de metal fossem desgastados pela caminhada incessante. 

Era o castigo da soberba, da indiferença pelo mundo. Vai ter que caminhar, minha filha; “caia na estrada e perigas ver”. Tua maldade é a da ignorância, a de quem se fecha para a existência. Dez sapatos de ferro. Quando puderes finalmente tocar no chão com a planta lisa do pé terás aprendido o que é o mundo.

Castigo parecido ao que recebeu a Sereiazinha do conto de Andersen, que queria ser uma moça normal, queria sair do mar para a terra e namorar um príncipe. Seu pedido é atendido, ela perde o rabo de peixe, ganha um par de pernas; mas para que não esqueça sua condição vai ter que sentir agulhadas dolorosas na sola dos pés cada vez que os pousa no chão. 

Para lembrar sempre que não é dali, que escolheu vir à terra sabendo que ela a faria sofrer. Para lembrar que é estrangeira, que é de um mundo diferente. “Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho; alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho”. Quem vem de longe vem pra sofrer, quem pisa em terra alheia pisa chapa quente.

Os torturadores da Inquisição mandavam o indivíduo suspeito caminhar dez metros, descalço, por cima de brasas; se não se queimasse seria absolvido. 

Talvez porque estivessem à procura de líderes espírituais, aqueles já tão calejados que andariam na brasa ardente como se fosse uma grama orvalhada. Uma maneira prática de distinguir os espíritos evoluídos, os mais perigosos, os que valeria a pena executar ou seduzir.

A marca da sola dos nossos pés é a nossa verdadeira impressão digital. A que traz, não a herança com que nascemos, mas o acumulado da nossa experiência, dos nossos caminhos, dos ferimentos que recebemos e curamos. Quanto mais castigados os nossos pés, mais alto teremos subido e mais marcas teremos deixado no mundo que ficou para trás.