sexta-feira, 22 de junho de 2012

2903) Zédantas (22.6.2012)




Estou lendo Zédantas segundo a letra I, publicado pelo Memorial Luiz Gonzaga (Recife, 2010), com a longa entrevista da D. Iolanda Dantas, viúva do grande parceiro do Rei do Baião. 

Zédantas (ele gostava que seu nome fosse escrito assim) é autor de dezenas de canções eternas da música nordestina, como “A Volta da Asa Branca”, “Sabiá”, “Vem Morena”, “Forró de Mané Vito”, “Imbalança”, “Xote das Meninas”, “Acauã”, “Noites Brasileiras”,”Siri jogando bola”, “Derramaro o gai”, “ABC do Sertão”, “Samarica parteira”, “Riacho do Navio”... bem, são dezenas. 

Era sertanejo de Carnaíba (PE), e o Riacho do Navio cortava a fazenda de seu pai. Estudou medicina e clinicou no Rio de Janeiro, mas nunca deixou de pensar no sertão o tempo inteiro. Era extrovertido, contador de piadas, imitador de tipos, além de elegante e vaidoso – tinha mais de cem gravatinhas-borboleta. 

No Rio, foi muito amigo de Péricles (criador do “Amigo da Onça”), e de políticos como José Aparecido e José Joffily (que lhe deu de presente um violão).  Era considerado “a alma da festa” onde chegava, com suas piadas e suas músicas.

Quando viajava a Pernambuco, levava um gravador de rolo de 14 kg e trazia de volta para o Rio dezenas de fitas com cantorias, aboios, toadas e forrós, que usava como base para suas composições em seu apartamento na Av. Pasteur, onde acordava cedinho e ficava compondo, olhando a Baía da Guanabara. 

Tocava bem o violão, e o piano com dois dedos, mas tocava de ouvido e a esposa, que tinha estudado, passava as melodias para a partitura, para que ele não as esquecesse. 

O sucesso do baião o colocou em contato com políticos influentes; “Algodão”, p. ex., foi composta  por sugestão do então Ministro da Agricultura, João Cleofas (PE). Uma canção gravada por Marlene, “Piririm”, marca sua única parceria com o outro grande parceiro de Gonzaga, Humberto Teixeira. “Vozes da Seca” foi feito em resposta à campanha popular “Ajuda teu irmão”, para as vítimas da seca de 1953 no Nordeste.

Era médico obstetra, e por causa de dores nas costas tomou muitos remédios à base de cortisona (um medicamento novo na época), que prejudicaram sua saúde. 

Sofreu um ferimento no tendão de Aquiles em 1961, quando passava uns dias no sítio de Luiz Gonzaga em Miguel Pereira (RJ). Fez uma cirurgia que não resolveu o problema, e morreu um ano depois de insuficiência renal, no Hospital dos Servidores do Rio, no mesmo quarto onde tinha morrido José Lins do Rego. 

Foi enterrado no Recife, e seu último pedido foi ser sepultado “com uma cruz de madeira num pé de mororó e um bode lambendo a cruz”. Compositor de imenso talento, e sertanejo até o talo.






quinta-feira, 21 de junho de 2012

2902) O Manifesto Krashnavik (21.6.2012)




“Este manifesto é escrito em nome de Istvar Morisev, tecelão de ofício, aldeão de nascimento, alfabetizado aos 71 anos, famoso por seu livro de memórias aos 75, rico aos 80, morto e reconciliado com o mundo aos 90. 
Em nome da luz do verde das encostas de Krashnavik na derradeira tarde do seu tempo de paz, quando um regimento inteiro de ‘kalliks’ em retirada devastou o vale, ateando fogo às cabanas depois de saqueá-las e martirizar seus moradores. 
Em nome da bacia de porcelana em que uma criança era banhada quando foi atropelada por um corcel de guerra pesando trezentas libras e coberto de armadura em couro, bacia que escapou milagrosamente intacta a esse perigo, tendo a criança, por outro lado, não resistido. 
Em nome do oficial que deteve o sabre que se erguia sobre o pescoço curvado daquele homem de bigode negro que tinha sido dado como morto por entre as ruínas fumegantes de sua casa, e mandou acorrentá-lo.
Em nome dos vizinhos de Morisev a quem coube sepultar sua família e guardar como relíquia a bacia de porcelana que pertencera aos seus avós. 
Em nome das marretas de ferro com que ele foi obrigado a quebrar pedras durante anos, longe do vale de Krashnavik, crendo que cada dia seria o seu último.
Em nome da chuva que o refrescou, do sol que o aqueceu, da comida insípida que o manteve vivo, das mulheres que nunca teve, do sono que o trazia de volta à existência, das trinta e oito voltas que o mundo deu em torno do sol e que um dia lhe trouxeram a liberdade.
Em nome do sargento subornado que uma madrugada o libertou às escondidas, dando-lhe sem explicações um cavalo, uma sacola de mantimentos e um papel com um nome e um endereço.
Em nome de Olenka, a professora de álgebra que, depois de anos de busca, assim o libertou e o acolheu em sua casa num subúrbio de Varna, e nos anos seguintes tornou-se sua filha adotiva, mestra e secretária.
Em nome do artesão anônimo que gravou a história da família Morisev na bacia de porcelana que Olenka comprara num antiquário, e cujas inscrições releu para ele, ao longo de muitas noites, fazendo-o chorar pela perda do filho e pela salvação da história.
Em nome dos dias de estudo e das noites em claro à luz de lâmpadas fracas, desenhando letras negras em papel branco e repetindo palavras em voz alta.
Em nome do livro em que contou sua história, a dos seus antepassados, e imaginou, descreveu e celebrou as muitas vidas que poderiam ter sido do seu filho atropelado pelos cavalos dos “kalliks”.
Em nome da arte da palavra, que não muda o mundo mas lhe dá feição e sentido, e é capaz de modificar o passado, eternizar o presente e multiplicar o futuro.”






quarta-feira, 20 de junho de 2012

2901) Tempo real (20.6.2012)




(ilustração: Gio MacCluskey)


"Tempo real". Esta é uma expressão curiosa, surgida, pelo que me consta, com a Internet.  Antes dela tínhamos milhões de coisas acontecendo em tempo real mas não nos sentíamos obrigados a dar um nome a isto. 

“Em tempo real”, na linguagem de hoje, significa um fenômeno qualquer em que transmissão e recepção sejam simultâneos, ou seja, a coisa acontece num lugar e é vista em outro no mesmo momento.  

(Se bem que nada é simultâneo, de acordo com a Física. Há sempre um intervalo, mas em termos da percepção humana é uma fração de segundo tão pequena que para efeitos práticos pode ser ignorada. Para tais grandezas, físicos e matemáticos usam o adjetivo “desprezível”, que sempre me pareceu meio insultuoso.)

Em tempo real significa aquela noite inesquecível em que o U-2 fez um show demolidor num estádio na Califórnia, e eu assisti o show em meu PCzinho no Rio de Janeiro, sentado na minha cadeira giratória, indo buscar cerveja na geladeira. 

Alguém pode argumentar que se o show tivesse ocorrido na véspera e eu o estivesse vendo 24 horas depois (ou 240 horas depois, etc.) minha impressão de ineditismo seria a mesma, e não discuto.  

Aí é que entram as sutilezas do Espírito do Tempo.  O prodigioso não é que a gente esteja vendo aquilo em tempo real, mas que SAIBA que está vendo em tempo real. O prodigioso não é a simples transmissão da informação, mas o pequeno triunfo psicológico que ela nos proporciona, aquela sensação de momentânea onipotência, a sensação de estarmos (a Humanidade inteira, ou pelo menos uma parte importante dela) envoltos num casulo telepático em que tudo nos acontece ao mesmo tempo aqui e agora.  Isto é precioso.

Talvez tenhamos sentido algo assim quando nos deparamos pela primeira vez com o telégrafo; com o rádio; com o telefone; com a televisão; mas isto nunca ocorreu com tanta intensidade. Quando estou num chat, tipo frase-vai, frase-vem, com algum amigo que está na Europa ou na Ásia penso: “Ora, isto não é mais extraordinário do que um telefonema”. 

Mas telefonemas são uma comunicação um-a-um, e a Internet nos proporciona isto multiplicado por multidões incalculáveis. E reparem bem na poesia do nome.  Todo tempo é real, não é mesmo? Quando leio uma peça de Ésquilo, foi real o momento em que foi escrita, é real o momento da leitura, bem como é real o intervalo de 2.500 anos que nos separa.  Hoje, porém, temos um real simultâneo, e não um real esgarçado no tempo. 

Como se o fato de outros seres humanos estarem pensando na mesma coisa no mesmo instante tornasse essa coisa mais espessa, mais socialmente verdadeira, mais humanamente real.  E, em última análise, é isso mesmo que acontece.

    


terça-feira, 19 de junho de 2012

2900) Harry Stephen Keeler (19.6.2012)



(esquema de uma "webwork" de Keeler)

Existem artistas que a gente admira mas não curte, e artistas que a gente curte mas não admira. Há grandes romancistas cuja prosa nos entra por um ouvido e sai pelo outro sem que o sismógrafo do cérebro sofra o menor estremeço. E há romancistas que reconhecemos serem menores, romancistas a quem obviamente faltam certos requisitos, mas que nos despertam um fascínio permanente.  

É o caso de um dos grandes excêntricos da literatura dos EUA, Harry Stephen Keeler (1890-1967), autor de uma obra gigantesca, disforme, muitas vezes canhestra, de vez em quando brilhante, com rasgos estilísticos que fariam encabular um ginasiano e com enredos de uma complexidade que faz Thomas Pynchon parecer um minimalista. Bem – comparar com Pynchon não adianta, porque Pynchon é um keeleriano sem os defeitos de Keeler.  Digamos: Balzac.

Keeler criou um processo, chamado de “webwork”, para compor seus enredos complicados, com dezenas de personagens, centenas de situações entrecruzadas, pistas falsas, confusões de identidade, coincidências e anti-coincidências (=quando algo que deveria acontecer não acontece). 

Escreveu quase 100 romances, e olha que o romance típico dele não tem menos de 400 páginas (muitos, por alguma razão, são traduzidos em Portugal). Mantinha um gigantesco arquivo de recortes de fatos estranhos, bizarros, inesperados, que usava em suas narrativas de crime e de FC. 

Sua homepage (http://bit.ly/bWvEZl) dá exemplos de sua prosa saborosa, inusitada, meio desconexa, em romances como O Enigma da Caveira Viajante, O Rosto do Homem de Saturno, O Caso dos 16 Feijões, O Mistério do Periquito de Madeira, O Homem que Mudou de Pele, etc. Sua volúpia fabulatória não tem paralelo, bem como seus extraordinários sistemas de criação de enredos.

Falei que não admiro Keeler? Falei mal. Poderia dizer, como o Conselheiro Acácio, que admiro suas qualidades mas não seus defeitos. E a verdade é que os defeitos (a prosa muitas vezes canhestra, as situações improváveis e forçadas, os personagens que não parecem pessoas mas meras funções para desencadear peripécias) só são considerados como tal num sistema de valores que visa à produção de uma prosa produzida noutro nível de realidade.  Criticamos Keeler com instrumentos feitos para medir Balzac (que aliás era combatido, em sua época, por críticos que usavam instrumentos pré-Balzac). 

A editora independente Ramble House imprime seus livros por demanda (http://bit.ly/9KpjZy); suas frases inimitáveis podem ser seguidas no Tweeter através de @HarrySKeeler. Era um homem obsessivo, trabalhador incansável, e fundou um império habitado por ele só.







domingo, 17 de junho de 2012

2899) Drummond: "Moça e Soldado" (17.6.2012)





Dizem os que conheceram Carlos Drummond que ele era um desses paqueradores meio tímidos, que ficam circulando pela rua, de olho nas moças que passam.  Não sei se isso é verdade ou se é uma auto-sugestão das testemunhas, influenciadas pelos inúmeros poemas em que o autor se descreve fazendo exatamente isto. Circular pelas avenidas cheias de gente, sempre de olho atento nos atributos das moças em volta, seguindo esta ou aquela no mesmo passo, é uma grande Arte; ainda mais quanto o poeta é mineiro, casado e não tem intenção de fazer assédio, de incomodar, de abordar moças na rua.  Ele não quer “nada além de uma ilusão”.

“Moça e Soldado” é um dos poemas do seu livro de estréia (Alguma Poesia, 1930) em que ele se dedica a esse esporte. “Meus olhos espiam / a rua que passa. / Passam mulheres, / passam soldados”.  O detalhe cinematográfico do poema é a angulação voltada para baixo, rumo às pernas dos passantes: “Meus olhos espiam / as pernas que passam. / Nem todas são grossas... / Meus olhos espiam. / Passam soldados. / ...mas todas são pernas.”  De olhos baixos, o poeta se livra de cruzar os olhos com as possíveis ofendidas, e aproveita para avaliar o torneado das pernocas.  No “Poema de 7 faces” que abre o livro, ele já se perguntava: “Pra que tanta perna, meu Deus?”.

O poema faz o paralelo constante entre as “moças bonitas feitas para namorar” e os “soldados barbudos feitos pra brigar”.  A época era de conflagração política, e aquelas ruas deviam ser de vez em quando invadidas por soldados, ora desfilando, ora de folga. E o poeta compara as pernas que passam marchando ao som de “tambores e clarins”, e as pernas que simplesmente passam.  Passam para brigar, e passam para namorar; e Drummond conclui com sua melancolia recorrente: “Só eu não brigo. / Só eu não namoro”.  Essas duas provas de masculinidade lhe são vedadas; ele inveja os soldados, deseja as moças, mas pressente que os dois existem num mundo mais saudavelmente animal do que o dele.

Este espírito de paquerador peripatético seria mais bem descrito por Drummond em seu livro seguinte, Brejo das Almas, no poema “O procurador do amor”, onde ele diz: “Meu olhar desnuda as passantes. / Às vezes um bico de seio / vale mais que o melhor Baedeker”.  Baedeker eram os famosos guias turísticos do começo do século, publicados na Alemanha, muito ricos em informação. Ele diz: “O andar, a curva de um joelho, / vinco de seda no quadril / (não sabia quanto eras pura), / faço a polícia dos ‘dessous’”. O termo francês tanto se refere à parte de baixo quanto às roupas íntimas femininas. Que o poeta flâneur não perdia de vista nem de imaginação.

sábado, 16 de junho de 2012

2898) Manipulando textos (16.6.2012)



Vejam só que episódio mais pulga-atrás-da-orelha. Philip Howard é um blogueiro que mora na ilha de Ocracoke, na Carolina do Norte. Talvez eu esteja comprando gato por lebre, e ele seja apenas mais uma farsa ou pegadinha internética; mas dessa suspeita nenhum de nós, que somos de carne e osso, escapa. Então, suponhamos que ele existe mesmo e que no seu blog relatou uma estranha descoberta (http://bit.ly/L5d9wk).

Philip estava lendo Guerra e Paz de Tolstoi, livro que pode ter mais de mil páginas, dependendo da edição. Para a mão não cansar, Philip comprou um e-reader Nook, fornecido pela cadeia de livrarias Barnes & Noble. A certa altura ele leu uma frase com um verbo estranho. A frase era: “"It was as if a light had been Nookd in a carved and painted lantern...." Mais ou menos: “Era como se uma luz tivesse sido ????? numa lanterna entalhada e com pinturas...”. Ele não entendeu essa palavra “Nookd”, mas aquilo se repetiu outra vez, e outra. A repetição confirmou sua suspeita inicial: em todo o texto daquela tradução a palavra “kindle” (que por acaso é a marca do e-book da Amazon, maior rival da B&N) havia sido substituída por “Nook”, a marca do seu próprio leitor eletrônico. Isto é mais ou menos como você abrir um e-book de História do Brasil e ver que todas as vezes que o nome de Vasco da Gama aparece ele está substituído por Flamengo da Gama.

Philip comenta: “Alguém na B&N – um funcionário de 20 anos? o Diretor Geral? – tinha programado essa substituição”. Certamente (digo eu), sem dar atenção a incidências inesperadas (e mudanças indesejadas) de outras palavras. Deve-se ter sempre cuidado com a melíflua sugestão informática: “Substituir tudo”. Metade dos meus cabelos brancos com revisão de textos devem-se a ofertas deste tipo. O problema maior, no entanto, diz Philip, é não sabermos até que ponto o texto pode ter sido manipulado.  Se eu nunca li o livro, se eu não conheço a obra de Tolstoi, não sei ler em russo...  Que tipo de segurança, de confiança, posso ter a respeito da autenticidade daquilo que estou lendo?

Até parece que foi o livro eletrônico que inventou esse tipo de insegurança, mas devem ter sido a Arte da Cópia, primeiro, a Arte da Tradução, depois, e a Imprensa, por fim. Como podemos confiar na honestidade moral e intelectual (para não falar na competência técnica) de milhões a quem coube entender, traduzir, examinar, copiar?  Cada vez que uma informação passa por uma mente humana ela é refratada, como a luz passando através da água. O livro eletrônico e seu “substituir tudo” são apenas a ampliação desse risco antigo, e a introdução de novos dilemas cruciais de ordem técnica.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

2897) Primeiríssimas Estórias (15.6.2012)








Antes de estrear em livro com Sagarana, em 1946, Guimarães Rosa já tinha escrito outras obras que depois não quis publicar.  Uma delas foi o volume de poemas Magma, de 1936, com o qual chegou a ganhar um concurso, e que só foi oficialmente publicado em 1997. Estes 61 anos são um intervalo longo demais para um livro aparecer? Pois prestem atenção neste outro, que saiu no ano passado pela Nova Fronteira: Antes das Primeiras Estórias, organizado por Janaína Senna, reunindo contos publicados entre 1929 e 1930, ou seja, um intervalo de 82-83 anos entre publicação em periódico e publicação em livro.

Em meu livro A Pulp Fiction de Guimarães Rosa (Ed. Marca de Fantasia, João Pessoa, 2008) analiso estes contos que Rosa publicou, quando tinha 21-22 anos, em O Jornal e na revista O Cruzeiro. Minha primeira informação sobre eles veio de um artigo publicado por Ivan Teixeira no Estado de São Paulo (26.9.1992). Na Biblioteca Nacional, no Rio, consultei os originais, copiando longos trechos com lápis de grafite, para poder escrever o meu comentário. Agora os quatro contos saíram na íntegra pela Nova Fronteira, com um prefácio elogioso de Mia Couto.

Qualquer leitor de Guimarães Rosa e qualquer admirador da literatura fantástica sairá enriquecido da leitura destes “contos de aprendiz”, que mostram o escritor mineiro, ainda verde, vivendo aquele momento quântico em que um rapaz inteligente e devorador de livros pode se transformar tanto num imitador da literatura alheia quanto num autor capaz de reinventar a literatura.  Rosa era um sujeito vaidoso. Todo mundo que escreve é vaidoso, mas alguns têm a vaidade dos perfeccionistas, para quem nada do que produzem está à altura de sua genialidade, e acham que precisam retrabalhar ainda mais o texto. São sinais evidentes disto o fato de que ele rejeitou Magma (um bom livro de poemas) e estes contos, onde passa do gótico (“O mistério de Highmore Hall”) para o “weird” (“Tempo e Fatalidade”), e da fantasia heróica ("Makiné”) para o regionalismo exótico (“Caçadores de Camurças”). Sem falar que passou cerca de oito anos retrabalhando os contos de Sagarana até achar que mereciam publicação. Os contos experimentais de Rosa talvez desagradem àqueles que têm em mente um Guimarães Rosa monolítico, categorizado, decifrado por fim. Eu gosto deles porque suas influências juvenis modificam e enriquecem a obra posterior, revelam camadas de sensibilidade e de prosa que, em retrospecto, vemos estarem presentes nos sertões futuros. O passado pode ser modificado quando uma nova descoberta nos traz novas revelações, e Guimarães Rosa ainda não disse tudo que veio dizer.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

2896) Três contos de FC (14.6.2012)



(escultura: Jeremy Mayer)


O escritor Luiz Bras, no jornal Rascunho (Curitiba) promoveu uma enquete informal entre leitores de ficção científica, pedindo que votassem nos três melhores contos da FC brasileira. Fui um dos consultados, mas o pedido veio num momento caótico do meu cotidiano.  Quando me toquei, vi que não tinha respondido à pergunta de Luiz. O conto mais votado foi “A escuridão” (1963) de André Carneiro, um dos grandes textos de nossa FC (eu o incluí na minha antologia Páginas de Sombra, de 2003).  Em todo caso, mesmo com atraso, aqui vão os contos que eu havia anotado e esqueci de enviar para a enquete.

Eu votaria em “Ma-Hôre” (1961) de Rachel de Queiroz, que incluí na antologia Páginas do Futuro (2011). É a história de um pequeno ser anfíbio em cujo planeta desembarca uma nave terrestre. Ele dá um jeito de entrar na nave, aprende a se comunicar mais ou menos com os astronautas, e ao subir com eles ao espaço começa a tramar um jeito de escapar. É um conto na linha tradicional da FC em que criaturas mais simples e mais primitivas conseguem, por sua engenhosidade, iludir membros de uma civilização mais tecnológica.

Votaria em “61 Cygni” (1960) de Fausto Cunha, que também incluí na antologia Contos Fantásticos de Amor e Sexo (Ímã Editorial, 2011). É a história assustadora de uma prostituta que, de madrugada, num beco escuro, se depara com um cliente muito fácil de satisfazer, porque sempre se satisfaz. É um conto cruel à maneira de Villiers de l’Isle Adam, e tem um final “slingshot” que projeta toda a história num outro nível de realidade. E votaria em “Dea mayor sperientiae”(1965) de Nilson Martello, disfarçado de crônica do século 14, relatando o encontro de um rei português com uma criatura extraterrestre, com direito a uma saborosa reconstituição/contrafação do português falado na época. Foi republicado por Roberto Causo em sua antologia Estranhos Contatos (Caioá Editora, 1998).

Escolhidos estes contos, percebi que eram todos de uma mesma época, e que eu não havia incluído nenhum conto contemporâneo, embora haja muitos deles de boa qualidade.  O que ocorre é que em enquetes assim nunca buscamos a surpresa, e sim o óbvio; buscamos textos que nos parecem tão bons ou tão importantes que ninguém ousaria discordar.  Um pequeno cânone em forma de pílula. São importantes para mim (não só estes, claro) porque os li antes dos 16 anos.  Eles me mostraram, a mim que lia de Ray Bradbury a Richard-Bessière, o que uma FC brasileira poderia fazer dentro do universo da nossa língua e da nossa intuição fabulatória. Eles me ajudaram a ter da FC brasileira uma alta expectativa literária, desde o começo.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

2895) Longe muitas léguas (13.6.2012)


A vida de um migrante sofre uma fratura que nunca mais desaparece. É como um vidro trincado: pode não ter perdido nenhum pedaço, mas aquela rachadura vai ficar visível para sempre. A tragédia dele começa pelo fato de que vai embora a contragosto: falta de trabalho, falta de oportunidades, guerra, catástrofes naturais (a seca, etc.)...  Vejam que estou excluindo dessa lista o sujeito que simplesmente decide ir embora do lugar onde nasceu, pelo simples prazer de conhecer lugares diferentes, ter novas experiências. Esse não é propriamente um migrante – é um viajante, um aventureiro, um cara que foi tentar a vida noutro país ou cidade. O migrante é o que migra a contragosto, o cara que, pela sua vontade, nunca sairia daquele lugar.

Na terra alheia, começa o processo de endeusamento e mitificação do lugar que foi abandonado. Ele pensa: “Nada do que eu vejo se compara ao que eu já vi”. O migrante sonha com uma Era de Ouro que é geográfica, em vez de histórica.  Uma Era de Ouro situada no espaço e não no tempo, na distância e não no passado.  Teoricamente, uma Era de Ouro à qual ele pode voltar um dia – basta ver o açodamento e a euforia com que voltam tantos.  Porém, toda viagem no espaço é também uma viagem no tempo, e quando o migrante retorna percebe que seu lugar de origem mudou, que seu pé de serra sofreu interferências, que sua Era de Ouro está toda azinhavrada.

Este é o motivo pelo qual tantos migrantes preferem não voltar.  Não querem passar pela decepção do protagonista de “Viagem aos Seios de Duília” de Aníbal Machado, um sujeito de meia idade que retorna à cidade natal para rever os seios de sua namorada adolescente, o que resulta num desfecho pra lá de previsível.  Nenhum par de seios resiste à ausência de quem os avistou uma vez, e nenhuma terra natal se preserva intacta e disponível, eternamente, à espera do migrante que a abandonou por motivos de força maior.

Melhor não voltar, e deixar que a memória fique tirando fotos de si mesma. Melhor deixar que essa memória seja contaminada pela imaginação, o que é mais embelezador do que contaminá-la de realidade. Na memória só muda o que nosso desejo ordena.  Todo migrante faz do lugar de onde partiu a sua nova “terra do sonho distante”; torna-se um migrante ao contrário, que todos os dias abandona o presente e foge na direção de um passado onde tudo acontece de acordo com seu desejo e nostalgia. E todo migrante é feliz porque a Era de Ouro de sua memória nunca foge, nunca se perde, nunca se deteriora. Pelo contrário: todos os dias é aperfeiçoada, burilada por esse retorno incessante de quem criou uma miragem maior e mais duradoura do que os desertos.

terça-feira, 12 de junho de 2012

2894) Budista Tibetano 234 (12.6.2012)






Procurei o meu Mestre logo após o trimestre das Cerejeiras, e o encontrei lavando folhas de chá. “Olá, Kagyu. Ouvi dizer que teu pai havia sido preso”. Ainda ofegante pela subida da encosta, respondi: “Por dois dias apenas, mestre, e logo foi solto.  Houve um equívoco”.  “Um equívoco?!” disse ele. “A prisão ou a soltura?”. Expliquei: “Confundiram-no com alguém que tinha agredido uma família, mas ele foi solto assim que um dos agredidos concordou em fazer o reconhecimento”.  “O que poderia ter acontecido dois dias antes”, observou ele. “Claro, mas quem somos nós para discutir com a lei”, disse eu.  Pobre só tem razão quando pede desculpas.

O mestre perguntou a razão da minha vinda. Expliquei que decidira tornar-me um contador de histórias, não um sacerdote. “Bastaria essa frase para comprovar que tens pelo menos metade da razão”, disse ele, “porque nenhum homem com vocação de sacerdote diria o que acabas de dizer. Se serás contador-não-sei-das-quantas é problema teu, mas sacerdote não tens a menor condição de ser”.  Acolhi com resignação aquelas palavras que já esperava e beijei-lhe a mão. “Mestre”, continuei, “deves lembrar que ainda me deves uma resposta”. “Sem dúvida, disse ele, “porque dei-te a nona resposta no Mês do Vento passado, era algo que dizia respeito a um silogismo, não?” Ele virou-se meio impaciente e saiu andando.  Acompanhei-o na direção do pequeno pavilhão onde ele tinha sua oficina manual. “Sim, mestre”, insisti, “mas quero saber só mais uma coisa”.  Segurei-o pelo braço, mesmo vendo-o apressado.  Mas eu tinha que perguntar aquilo. “Como se conta uma história?”.

Ele parou, olhou em volta, apontou uma pedra no jardim. “Estás vendo aquela pedra, que parece tão pesada, tão sólida?” “Sim”, respondi. “Achas que posso fazê-la levitar?” Encolhi os ombros: “Mestre, como posso saber?”. “Então, olha”, disse ele.  Fiquei olhando para a pedra. Em algum momento me pareceu que ela estremecera, que se movera um pouquinho de nada, mas fiquei o tempo todo atribuindo aquilo à auto-sugestão. “Chega”, disse ele, relaxando os ombros, e me conduzindo-me pelo braço encosta acima. “Por quanto tempo olhaste a pedra?”, perguntou. “Não sei, uns dois minutos talvez”, respondi. “De que cor era ela?”, perguntou ele. Meu estômago se fez silêncio e minha mente se fez um branco. “Cor?”, perguntei. “Desculpa”, disse ele, “esqueci de avisar antes qual a pergunta que iria fazer”.  Deu-me um tapa no ombro que me fez balançar. “E agora que encerramos a nossa atividade docente, vamos almoçar. Minha sacerdotisa pessoal preparou ninhos de andorinha à mongol, um prato especial para quem conhece sua origem”.