domingo, 16 de outubro de 2011

2689) Já batemos no iceberg (16.10.2011)



Meu primo, que mora perto da proa, me confirmou por email. O choque com o iceberg foi em novembro do ano passado. Aqui, no Convés 18, sentimos o abalo em dezembro, e foi então que começaram os boatos. Em fevereiro, um comunicado do Capitão aos passageiros disse que estava tudo bem, mas a essa altura, apesar da censura na mídia interna, já havia um certo consenso de que algo tinha mesmo acontecido. Há cada vez mais migrantes afluindo para o meio do navio. Todos são obrigados a dar versões tranquilizadoras dos fatos e desculpas esfarrapadas sobre os motivos de sua mudança às pressas. Há uma corrente oficial de otimismo nas TVs, no sistema de rádio e de alto-falantes que só nos dão dados positivos sobre o percurso e as condições meteorológicas. Mas há também uma corrente subterrânea de rumores, de histórias contadas pela metade, de fotos e vídeos em baixa resolução mostrando situações dantescas, e nos levando a duvidar de nossa sanidade mental. Porque basta olhar em volta, como insistem os tripulantes, para constatar o sol brilhando, o céu azul, a coreografia plácida dos albatrozes e das gaivotas; para ver à noite as nuvens esparsas arrastadas pelo vento, a luz prateando o espelho das águas. Como acreditar nesses vídeos clandestinos dos migrantes da proa, mostrando o rombo cataclísmico no casco, as catadupas de água, os marujos em capas de plástico amarelo bombeando água para fora, em mangueiras maiores que sucuris? Como acreditar que andares inteiros do porão de carga já estão invadidos pelas águas, como crer nas fotos que mostram um rastro de automóveis e eletrodomésticos boiando à deriva nas ondas revoltas? Nem mesmo o pranto histérico dos que perderam parentes ou amigos nos convence, porque a própria histeria os deixa incoerentes, há detalhes que não batem, datas, nomes, fatos cujos relatos não coincidem. Mas todos os dias, enquanto nos douramos ao sol na piscina, basta que nos debrucemos para ver, centenas de metros abaixo, no tombadilho principal, a extensa fila de viajantes, com malas, caixotes e trouxas de pano à cabeça, nos postos de controle, solicitando passagem. Não vêm para ficar aqui, claro; estão em busca de abrigo nos territórios mais baratos (e nos compartimentos populares) na região da popa. Mas o mero fato de atravessarem nosso território nos contamina de inquietação. “Por que passam por aqui?”, murmurou hoje de manhã a Duquesa de Beauséjour, massageando as narinas. “Se querem ir para a popa, bem que podiam alugar botes e ir remando”. Concordei, bocejei, fiquei contemplando meu uísque onde boiava um indestrutível bloco de gelo.

sábado, 15 de outubro de 2011

2688) A palavra vexame (15.10.2011)



É uma palavra que já vi produzir mais de um mal-entendido entre nordestinos e sudestinos em geral. Para o pessoal do Sudeste, vexame é sinônimo de constrangimento, vergonha, situação desagradável e embaraçosa: 


“Passei o maior vexame ontem no Banco, um cheque meu voltou e tive que ir lá cobrir o valor”. 

Desse sentido se derivam várias palavras correlatas: 


“Fiquei muito vexado quando no meio da reunião o vice-presidente falou para todo mundo que estava esperando um relatório meu há uma semana e eu não tinha apresentado nada”; 


“É melhor resolvermos isto internamente, pois eu não quero ficar exposto a uma situação vexatória diante dos alunos”.

No Nordeste, contudo, vexame significa pressa, açodamento: “Deixe de vexame, que o ônibus só sai às três horas e ainda é meio-dia.” Estar vexado é estar com pressa: “Olhe, vamos deixar para discutir isso outra hora, eu estou muito vexado porque deixei o táxi esperando aqui na frente”.

Um exemplo interessante e talvez pouco notado está no poema “Os doentes”, de Augusto dos Anjos: 


“Do fundo do meu trágico destino,
onde a Resignação os braços cruza, 
saía, com o vexame de uma fusa, 
a mágoa gaguejada de um cretino.” 


Note-se que o sentido do verso de Augusto é: “com a velocidade de uma música executada em fusa”. Uma fusa é uma das menores subdivisões do tempo musical, indicando notas executadas com grande rapidez. É uma imagem análoga à que o poeta emprega em “Gemidos da Arte”, onde um pássaro salta de galho em galho “com a rapidez de uma semicolcheia”.

Vexar-se, no sentido de apressar-se, fazer algo às pressas, aparece também no folheto Romance do Pavão Misterioso, de João Melquíades Ferreira: 

“Logo no segundo dia 
Creusa saiu à janela
os fotógrafos se vexaram 

tirando o retrato dela 
quando inteirou uma hora 
desapareceu a donzela. 

"João Batista viu depois 
um retratista vendendo 
alguns retratos de Creusa 
vexou-se e foi dizendo: 
quando quer pelo retrato? 
porque comprá-lo pretendo."

“Avexar-se”, no sentido de “apressar-se” virou um desses termos que os cariocas consideram típicos dos nordestinos, tanto assim que se dirigem a eles, em tom brincalhão, dizendo: “Não se avexe não, bichim!”. A expressão, que pelo menos nos meus círculos linguísticos era de uso muito raro, voltou à evidência com a canção “A natureza das coisas”, composição de Accioly Neto gravada por vários cantores: “Se avexe não, que amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada...” 

Note-se também que essa construção é tipicamente nordestina, dizer “Se avexe não” ao invés de “Não se avexe”. Detalhes assim são tão típicos da fala nordestina quanto o vocabulário propriamente dito.



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

2687) Canto Fúnebre sem Música (14.10.2011)





(Der müde Tod, de Fritz Lang)

Quando perdemos um amigo, ou alguém que mesmo não conhecendo pessoalmente admirávamos à distância, temos aquela angústia de querer dizer um monte de coisas e saber que não temos palavras. As palavras existem. Estão à nossa espera. Nós é que não conseguimos achá-las. (Como se sabe, todas as palavras de Vidas Secas ou do Claro Enigma estão no dicionário. O segredo é colocá-las na ordem certa). A poesia lírica, que fala dos sentimentos, é uma revelação de nós mesmos quando nos justapomos ao sentimento do poeta. Dizemos, ao ler o poema lírico: “Eu também sinto assim”; e às vezes: “Sei que de agora em diante vou sentir assim”.

Todos nós sentimos, na morte de alguém, não apenas a dor da nossa perda pessoal, mas a perda coletiva de todos, o desperdício de que uma pessoa como aquela deixe de existir. A minha perda pessoal (nunca mais vou ver Fulana, nunca mais vou conversar com Fulano) é multiplicada pelas perdas de todos; porque aquela pessoa foi única para cada um. Multiplicou-se em muitas ao logo da vida, tendo com cada um de nós uma relação única e irrepetível. Ao morrer, multiplicou a perda.

Em momentos assim, um dos primeiros textos que me vêm à mente é o poema abaixo, “Dirge Without Music”, da americana Edna St. Vincent Millay (1892-1950). (Quem quiser conferir o original, está aqui: http://bit.ly/aCLrnY). Entre tantos poemas de resignação que há por aí, o dela é de uma serena recusa. Exprime o amor à vida desta poetisa que um dia disse ser capaz de “tocar uma centena de flores, e não colher nenhuma”. Aqui vai, tentando manter mais o sentido do que a rima.

“Não me conformo em ver os corações apaixonados sendo trancafiados no chão duro. 
É assim, e vai ser assim, porque assim tem sido desde tempos imemoriais. 
Para dentro da escuridão eles deslizam, os sábios e os adoráveis. Coroados 
de lírios e de louros eles vão; mas eu não me conformo.

“Amantes e pensadores, todos, todos para dentro da terra! 
Misturem-se com o pó indiscriminado e mudo! 
Um fragmento do que vocês sentiram, do que souberam, 
uma fórmula, uma frase vai ficar – mas o melhor se perdeu.

“As respostas rápidas e espertas, o olhar honesto, o riso, o amor, 
tudo isto foi embora. Foi alimentar as rosas. Tão elegantes e sinuosas 
são as flores. Tão perfumadas quando brotam. Eu sei. Mas não concordo. 
 A luz em teus olhos era mais preciosa do que todas as rosas do mundo.

“Descendo, descendo... rumo à escuridão do túmulo. 
Suavemente eles se vão, os belos, os ternos, os afetuosos. 
Discretamente eles vão, os inteligentes, os espirituosos, os valentes. 
Eu sei. Mas eu não concordo. E não vou me conformar.”



Aqui, o texto original:

DIRGE WITHOUT MUSIC

I am not resigned to the shutting away of loving hearts in the hard ground.
So it is, and so it will be, for so it has been, time out of mind:
Into the darkness they go, the wise and the lovely.  Crowned
With lilies and with laurel they go; but I am not resigned.

Lovers and thinkers, into the earth with you.
Be one with the dull, the indiscriminate dust.
A fragment of what you felt, of what you knew,
A formula, a phrase remains,—but the best is lost.

The answers quick and keen, the honest look, the laughter, the love,—
They are gone.  They are gone to feed the roses.  Elegant and curled
Is the blossom.  Fragrant is the blossom.  I know.  But I do not approve.
More precious was the light in your eyes than all the roses in the world.

Down, down, down into the darkness of the grave
Gently they go, the beautiful, the tender, the kind;
Quietly they go, the intelligent, the witty, the brave.
I know.  But I do not approve.  And I am not resigned.






quinta-feira, 13 de outubro de 2011

2686) Os Indispensáveis (13.10.2011)




(na foto: Ivanildo Vila Nova)

Depois que conhecemos Toulouse Lautrec ou Mozart e os transformamos em referência obrigatória, pensamos que não saberíamos viver num mundo sem eles. Mas saberíamos, sim. Um artista só é indispensável depois que é conhecido. Se nunca ouvirmos falar nele (ou mesmo se ouvimos falar, mas de sua obra não escutamos um pio), nossa vida corre mansa do mesmo jeito, sem um catabí a mais ou a menos.

Eu, por exemplo, vivo num mundo onde não existiram os poetas Anacreonte e Alexander Pushkin, os romancistas William Faulkner e Leon Tolstoi,, os cineastas Manoel de Oliveira e Satyajit Ray, os compositores Schoenberg e Stockhausen.

Sei que são indispensáveis para muita gente, e não discuto que o sejam, mas minha vida transcorreu até agora dispensando-os, sem a menor cerimônia. (Claro que não digo isso me gabando. É uma mera constatação de que a arte é longa e a vida é breve, ou que a arte é uma semibreve e a vida é uma semifusa).

Nunca li muitos autores que são indispensáveis à maioria da humanidade. Para mim, são apenas nomes na lista cronológica dum almanaque. Do mesmo jeito, conheço pessoas que vivem num mundo em que Augusto dos Anjos não existiu. Nunca o leram, nunca se interessaram por ele, e viveriam igualmente bem se Augusto tivesse morrido de escarlatina aos sete anos, sem ter escrito uma linha.

Sinto em calafrio de horror quando um amigo de infância me pergunta: “Quem é esse tal de Philip K. Dick?”, e percebo que eu e ele vivemos em universos incompatíveis. Conversar com estrangeiros, então, é um terror sem fim: gente que nunca ouviu falar em Carlos Drummond, em Nelson Pereira dos Santos, em Mário de Andrade...

Um gremlin sertanejo e malicioso pousa agora no meu ombro, me cutucando pra que diga: “Também é terrível conversar com cariocas ou paulistas, que fazem cara de estranheza ao me ouvir falar em Manuel Xudu, em José Pacheco, em Colombita, em Rogaciano Leite, em Delarme Monteiro...”

Mas o gremlin recolhe as asas e cai fora, encabulado, quando lhe explico que a imensa maioria dos nordestinos também nunca ouviu falar nesses indispensáveis do nosso Panteão. Como dizia Joyce: “Vê agora. Esteve ali todo o tempo sem ti: e existirá sempre, mundo sem fim”.

Uma cultura compartilhada aproxima pessoas com divergências pessoais ou políticas. O nazista de um conto de Borges é admirador de Shakespeare e Beethoven, e isto de certa forma o traz para mais perto de mim do que algum vizinho meu, com quem cruzo no corredor, e que até hoje não deu a mínima para esses dois. Existem pessoas na Terra que nunca ouviram falar nos Beatles ou em Sherlock Holmes. Que planeta estranho deve ser esse que habitam.






quarta-feira, 12 de outubro de 2011

2685) A dor que deveras sente (12.10.2011)




A televisão adora matérias sobre reencontros. Pais e filhos que não se veem há 40 anos, irmãos que foram separados na infância, famílias que se dispersaram, etc. Aparecem nos programas de Ana Maria Braga, de Luciano Huck, de Faustão; aparecem no “Fantástico”, no “Globo Repórter”... 

A televisão adora localizar essas pessoas, organizar o encontro, preparar, gravar tudo, editar de um jeito bem caprichado e mandar ao ar para extrair lágrimas simultâneas em vinte milhões de lares.

Vemos o homem grisalho dentro do ônibus, indo de São Paulo para o lugarejo nordestino de onde emigrou; e vemos a velhinha de cabelos brancos, sentada na sala, à sua espera. Chega esquecemos das câmaras que acompanham um no ônibus e vigiam a outra na sala. 

O ônibus para, o filho desce, vem se aproximando do portãozinho da casa. Na sala, a mãe se ergue, vai à janela, ansiosa: “Vige Maria! Parece que é ele...” Batem à porta. A câmara de dentro mostra a velhinha indo abrir, a câmara de fora mostra o nervosismo do filho. 

A porta se abre, os dois nem sequer se olham, caem nos braços um do outro. Uma das câmaras dá um zoom numa lágrima.

A TV mostra isto o tempo todo, correto? Não se passa um mês sem que algum programa de grande audiência nos peça licença para apertar o botãozinho daqui de dentro que nos faz ficar de olhos úmidos. Se eu, que sou este poço de cinismo, fico, de vez em quando, que dizer dos seres humanos normais? 

E é um momento como estes nos dá um exemplo perfeito da junção entre verdade interior e fingimento exterior, entre sentimento e representação, entre a integridade da emoção vivida para dentro e a sós e a esquizofrenia da emoção vivida para fora e diante de uma platéia.

Não custa lembrar Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.” A dor sentida é uma, a dor fingida é outra, embora ambas doam. A emoção que a mãe e o filho teriam ao se reencontrar por conta própria seria uma. Mãe e filho se reencontrando no “Fantástico” é outra. 

É uma emoção triangulada, em que há uma terceira parte (as câmaras, metonímia da audiência) envolvida. No mundo-espetáculo, não existem mais dores invisíveis: tudo é show público em tempo real. Toda emoção é planejada e executada conforme um roteiro. Não digo que a emoção é falsa, digo que é outra. 

Assim como é outra a emoção que o poeta experimenta. No instante de escrever, o que conta não é o que sentiu, é o que convém externar diante da platéia, o que é possível reinventar com palavras. Poetas e atores são especialistas nessas emoções trianguladas, representadas, fingidas com sinceridade.






terça-feira, 11 de outubro de 2011

2684) Dicionário Aldebarã II (11.10.2011)



A civilização humanóide de Aldebarã-5 possui uma complexa civilização influenciada pelos colonizadores terrestres. Seu vocabulário exprime a natureza de seu planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura. Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Wullygag”: a sensação de irrealidade que se tem no instante em que se recebe uma má notícia longamente prevista.

“Pergonix”: óculos especiais que permitem ver tudo como se fosse um antigo filme em preto-e-branco.

“Andiblons”: fruta local cuja característica é não ter qualquer aspecto fixo (forma, cor, tamanho), mas apenas o mesmo sabor.

“Hepernim”: abrigos contra o sol e a chuva, feitos de material heterogêneo (folhas, palha, vime, madeira, etc.), onde cada pessoa que se abriga tem que contribuir com mais um pedaço para a estrutura.

“Yand-nul”: a percepção instintiva do que existe dentro de um embrulho apenas olhando-o pelo lado de fora.

“Lundoos”: pequenos ídolos esculpidos que se acredita trazerem boa sorte, e que servem para escorar as portas, evitando que batam com o vento.

“Reschaft”: a silhueta de uma cidade vista ao longe por quem vem pela estrada, e que tem um formato diferente a depender do ponto cardeal por onde se chega.

“Empizyum”: a lembrança involuntária de um fato ou de uma pessoa, provocada pelo fato de ouvirmos, sem perceber, uma música que os evoca.

“Thufarli”: alguma coisa que, depois de passar muito tempo sem acontecer, começa em certo momento a acontecer várias vezes, em rápida sucessão.

“Ilkonno”: o terceiro braço (cibernético) que o Estado fornece a toda mãe de Aldebarã, para usar durante os primeiros dois anos de vida de cada filho.

“Amburenes”: cortinas feitas com padrões de fibras plásticas coloridas, que mudam de desenho ao longo do dia, conforme as frequências de onda e a intensidade da luz do sol.

“Gronem”: o involuntário grunhido de desagrado que os aldebarãs produzem, baixinho, sempre que lhes vem à lembrança um episódio incômodo que viveram.

“Woltell”: a imagem de uma coisa em nossa memória (um quadro na parede, p. ex.) que faz com que continuemos a vê-la mesmo depois de ela ter sido retirada dali, até que alguém nos chama a atenção para este fato.

“Anspurdys”: ao pé da letra, “ilhotas”, mas se refere a pequenos atos cotidianos, banais, que sempre se repetem da mesma maneira, não importa o quanto as circunstâncias exteriores da nossa vida tenham mudado para melhor ou para pior.

“Olgzum”: colar utilitário onde os aldebarãs penduram pequenos objetos de uso diário, documentos, remédios que precisam tomar, relógio, etc.

domingo, 9 de outubro de 2011

2683) John Lennon, 71 anos (9.10.2011)




“Você se lembra de quando era pequeno, e as pessoas pareciam ser tão grandes?” (“Remember”, 1970).

“Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor” (“God”, 1970).

“Eu estou farto de assistir cenas de primadonas esquizofrênicas, egocêntricas e paranóicas... Tudo que eu quero é verdade, me mostre alguma verdade” (“Gimme some truth”, 1971).

“A mulher é o negro do mundo – nós a obrigamos a pintar a cara e dançar” (“Woman is the nigger of the world”, 1972).

“Sim, estamos jogando juntos estes jogos mentais, projetando nossa imagem no espaço e no tempo” (“Mind Games”, 1973).

“Nós todos somos águas de rios diferentes, por isto é tão fácil ficarmos juntos; nós todos somos água num vasto oceano, e um dia vamos nos evaporar juntos” (“We’re all water”, 1972).

“O Karma Instantâneo vai lhe pegar e olhar seu rosto de frente... É melhor você se aprumar, querida, junte-se à raça humana” (“Instant Karma”, 1970).

“As pessoas dizem que eu sou maluco, desperdiçando minha vida em sonhos, e me dão conselhos para me salvar; mas eu estou numa boa, vendo as sombras na parede” (“Watching the Wheels”, 1980).

“Quando você está sozinho, sem ninguém, basta dizer a si mesmo: segure as pontas” (“Hold On”, 1970).

“Eu não quero ser soldado, mãe, não quero morrer, eu não quero ser advogado, mãe, não quero mentir” (“I don’t wanna be a soldier”, 1971).

“Tudo que estamos dizendo é: experimentem a paz, para ver se funciona” (“Give peace a chance”, 1969).

“A gente nasce na prisão, cresce na prisão, e é mandado para uma prisão chamada escola. A gente chora na prisão, ama na prisão, vive na prisão como idiotas”. (“Born in a prison”, 1970).

“Parei numa esquina com Yoko, esperando por Jerry, surgiu um cara com um violão oferecendo maconha, e dizendo que o Papa fuma todo dia... Quê que é isso, New York?!...” (“New York City”, 1972).

“Todo homem tem uma mulher que o ama, chova ou faça sol, na vida ou na morte; se ele a encontrar vai ficar sabendo disto, quando encostar o ouvido ao seu peito” (“Every Man has a Woman who Loves Him”, 1980).

“Ninguém o ama quando você está velho e grisalho, ninguém precisa de você quando você está de cabeça para baixo” (“Nobody loves you when you’re down and out”, 1974).

“Quando estou no fundo do poço e sem contato, sem nada pra dizer, eu percebo que é apenas uma condição de ver as coisas como eu vejo; a intuição me leva até lá, me leva para qualquer parte” (“Intuition”, 1973).

“A vida é o que acontece com você quando você está ocupado fazendo outros planos” (“Beautiful Boy”, 1980).

“O que quer que lhe ajude a atravessar a noite está OK” (“Whatever gets you through the night”, 1974).




sábado, 8 de outubro de 2011

2682) Graciliano e Cândido (8.10.2011)




(Graciliano Ramos e Antonio Cândido)

Circula na Internet (deve estar no YouTube) um vídeo de uma palestra de Antonio Cândido sobre o escritor Graciliano Ramos e sua obra. 

Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=p3r-dY-0Ows 

Cândido, que deve ter uns 90 anos, é talvez uma das últimas pessoas vivas que conheceram Graciliano pessoalmente. 

Ele narra episódios de sua juventude no interior de Minas, quando ele e outros rapazes que gostavam de ler iam para a estação esperar a chegada do trem, onde vinham as caixas de livros para serem recebidas pelo dono da livraria local. E eles, que não eram bobos, compravam os livros ali mesmo no abrir da caixa, antes que chegassem à vitrine. 

Ele fala da importância das capas modernistas dos livros de Jorge Amado, Graciliano, etc., o quanto aquelas capas com desenhos diferentes produziam neles, jovens, a sensação de um mundo que estava mudando e de uma literatura que era (ironia das ironias!) o anúncio dessa mudança. Hoje, a literatura (não falo da ficção científica) é sempre a última a ficar sabendo.

Uma observação interessante de Cândido diz respeito ao Modernismo, que hoje é muito mais importante do que quando aconteceu. Cândido lembra que os livros modernistas vendiam pouco e eram pouco lidos. Sua influência se expandiu ao longo do século inteiro, mas, na época em que houve a Semana de Arte Moderna, o Brasil leitor a ignorou solenemente. Hoje, a gente fala da Semana como se ela tivesse tido em 1922 a repercussão de um Rock in Rio.

Outra coisa que ele destaca é o fato de que quando falamos em Romance Regionalista nordestino estamos nos referindo aos habituais suspeitos: Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Graciliano... 

Cândido lembra que escritores duradouros como estes surgem por entre outros autores, dos quais, a princípio, não se distinguem. Todos são novos, todos são vibrantes e estão dizendo algo nunca dito; e são todos lidos em conjunto. Com o passar dos anos, acontece uma decantação, uma filtragem. 

E ele diz: “Vou citar para os senhores alguns dos grandes autores dessa primeira fase do regionalismo, e penso que só os professores aqui presentes conhecerão algum”. 

Tiro e queda: dos nomes citados eu só conhecia Permínio Asfora (que ele pronuncia “Ásfora”), de quem meu pai tinha em casa, nos anos 1950, o romance Fogo Verde

E ele cita os demais, livros e autores que foram grandes quando surgiram e já não o são: Amando Fontes, Lauro Otaviano (Gororoba), Aurélio Pinheiro (Macau), Clóvis Amorim (Alambique), João Cordeiro (Corja), Cordeiro de Andrade (Cassacos)... Tirando Cândido e mais uma meia dúzia de macróbios, quem lembra desses heróis, que foram eclipsados por Graciliano & Cia?







sexta-feira, 7 de outubro de 2011

2681) Sugestão de pauta (7.10.2011)



Quando pisei pela primeira vez numa redação de jornal, aos quinze anos, tomei contato com uma das mais nobres instituições da imprensa, aquilo que chamamos informalmente de Tesoura Press. Era no tempo dos “Diários e Rádios Associados” de Assis Chateaubriand, expressão que meio século atrás tinha o mesmo peso que têm hoje os fonemas “Organizações Globo”. Os Associados tinham como principal órgão impresso O Jornal, editado no Rio de Janeiro, que servia a todos nós de fonte inesgotável de informação. Sendo ele o principal órgão da rede, qualquer jornal da rede podia impunemente (e na verdade devia) copiar qualquer matéria que ele publicasse. E tome a Tesoura Press a funcionar.

A bem da verdade histórica e do memorialismo, não cortávamos as matérias com tesoura: colocávamos a folha do jornal aberta na mesa, apertávamos uma régua marcando a linha do corte, na vertical e na horizontal, e puxávamos a folha de encontro à régua. Depois era só colar o recorte numa folha tamanho ofício, fazer as retrancas, ou seja, as indicações de tamanho, colunas, página, ilustração, etc., e descer via cordão pelo buraco do poço (uma abertura vertical através do piso, forrada de madeira, que ligava a redação no 1º. Andar e as oficinas no térreo). Beleza! Pausa para um cafezinho.

As famigeradas “sugestões de pauta” que hoje nos chegam pela Internet são um mero prolongamento dessa lei do menor esforço que preside o jornalismo mal pago. Para que quebrar a cabeça atrás de notícias, se já temos notícias publicadas no órgão líder da nossa cadeia, e basta recortá-las? Para quê, se chega às nossas mãos, diariamente, uma pilha de envelopes com “press-releases” impressos, de empresas de todo tipo, com a notícia que lhes interessa já redigidazinha, calibrada, no tom certo, doida pra saltar para a vitrine luminosa da página impressa? Pra que bater pernas nas calçadas e se esbaforir ao sol do verão em busca de coisas importantes que mereçam ser publicadas, se nossa caixa de emails (a minha, pelo menos) mostra diariamente 255 mensagens com o promissor título de “Sugestão de pauta”? É a tendência dos tempos, e em meio século só fez crescer.

O corolário: liberdade de imprensa deveria significar também iniciativa de imprensa. Pensamento próprio, idéias próprias, agenda própria de ação, de posições a serem tomadas. Um jornal (uma rádio, uma TV) não é um mero muro onde alguém chega e prega seu cartaz de propaganda. Um jornal é (ou teria que ser, idealmente) um muro que pensa, um muro com idéias próprias, que não exibe somente o que lhe pregam por cima. Um muro que pauta a si próprio, que só prega em si algo em que acredita.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

2680) Duas cidades numa só (6.10.2011)



Além da dimensão social e política que claramente tem, The City & The City de China Miéville (2009) é um romance sobre a mente humana, o olhar humano. Porque mesmo se cruzando nas mesmas ruas e praças, os habitantes de Beszel e de Ul Qoma, as duas cidades rivais e superpostas, são proibidos de perceber a presença uns dos outros. Dirigir-se a alguém da outra cidade, tocá-lo, ou mesmo olhá-lo e perceber sua existência é um crime, designado como “breach” (quebra, violação), e existe uma polícia política invisível vigiando todos, o tempo inteiro, e punindo severamente quem se esquece de não-ver e de não-ouvir os habitantes da outra cidade que circulam pelo mesmo espaço. A cidade, na verdade, possui bairros inteiros que pertencem só a Beszel ou só a Ul Qoma; e possui muitas áreas em que as duas se superpõem, e que são chamadas de “crosshatched” (hachuradas, ou seja, zonas cinza, intermediárias, que podem ser frequentadas pelas duas populações, desde que não se vejam).

China Miéville usa neste romance uma prosa clara, direta, límpida, diferente do estilo surreal-barroco-cyberpunk de Perdido Street Station, outro livro dele (que comecei e não terminei). Nos agradecimentos ele cita Raymond Chandler, Kafka, e outros. A estes nomes eu somaria George Orwell (1984: supervigilância, autoridade invisível e onipresente, paranóia)), Neil Gaiman (Neverwhere: uma cidade-dentro-da-cidade, espaços físicos que pertencem ao mesmo tempo a dois universos distintos). Não em termos de influência, mas de uma mentalidade semelhante, uma visão quântica da realidade urbana, em que duas realidades contraditórias coexistem no mesmo espaço físico.

Miéville diz que o livro surgiu da idéia de escrever sobre grupos de criaturas que vivem lado a lado, mas são de diferentes espécies, e por isso reagem ao mesmo ambiente de forma diversas, tendo diferentes tipos de casas; uma exageração do modo como homens e ratos habitam uma cidade. (Algo disso está em Perdido Street). Mas ele afirma que cientistas políticos do Departamento de Estado dos EUA chegaram a propor para o problema político da cidade de Jerusalém essa solução (que, para Miéville, funciona muito bem num romance mas não seria aplicável na vida real): um espaço urbano único em que diferentes cidadãos são regidos por relações sociais e jurídicas totalmente diversas, e sobre o qual se exercem duas autoridades políticas superpostas.

Quem já leu o livro e sabe como acaba (advertência obrigatória em romances de mistério) pode ler neste link (http://bit.ly/hj82H1) uma ótima entrevista de China Miéville sobre ficção científica, urbanismo, política contemporânea.