terça-feira, 7 de abril de 2026

5229) O Deus da Guerra (7.4.2026)



O deus da guerra (Der Kriegsgott)
Bertolt Brecht (trad. BT)
1949.
(traduzido da versão inglesa de Michael Hamburger)

Eu vi o velho deus da guerra de pé num pântano, entre a parede de pedra e o precipício.
Cheirava a cerveja grátis e a ácido carbólico, e mostrava os testículos às adolescentes, porque tinha sido rejuvenescido por vários cientistas. 
Tinha a voz de um lobo enrouquecido, e declarava seu amor por tudo que era jovem. 
Ao seu lado estava uma mulher grávida, trêmula de medo.
Falando com desenvoltura, dizia ser o maior dos defensores da ordem. 
E contava como por toda parte impunha a ordem nos estábulos, esvaziando-os.
E, assim como quem joga migalhas de pão aos pássaros, alimentava os pobres com migalhas tomadas de outros pobres.
Sua voz ora era forte, ora suave, mas sempre rouca. 
Com a voz forte ele nos falava dos grandes tempos que estavam por vir, e com a voz suave ele ensinava às mulheres como cozinhar corvos e gaivotas.
Seus ombros estavam sempre inquietos, e a toda hora ele olhava para trás, como se temesse ser apunhalado.
E de cinco em cinco minutos ele garantia ao público que iria tomar pouco, muito pouco do seu tempo.
 





5 comentários:

Anônimo disse...

Pensei neste texto do Millor sobre tradução. https://www.lpm-blog.com.br/?p=24603

Paulo Rafael disse...

Muito bom!

Braulio Tavares disse...

Millôr é um dos maiores escritores brasileiros, e minha visão da arte da escrita é muito formada por ele.

Airton Dirceu Lemmertz disse...

Observamos a decrepitude do poder travestida de renovação: o arcaico belicismo, agora reabilitado por artifícios tecnocráticos, posiciona-se estrategicamente no vácuo entre a rigidez institucional e o abismo do caos. O cenário exala uma mistura nauseante de populismo barato e assepsia autoritária, enquanto o sistema, rejuvenescido por engenharia de conveniência, expõe sua obscenidade moral às gerações que ainda não aprenderam a temê-lo.
Sua retórica, emitida com a rouquidão de quem devora as próprias bases, simula um apreço predatório pela juventude, mantendo a vulnerabilidade — representada pela figura grávida e acuada — sob constante coerção psicológica. Este ator geopolítico, mestre da dissimulação, autoproclama-se o fiador da estabilidade global, enquanto sua "ordem" resume-se à higienização de recursos e ao esvaziamento das capacidades produtivas sob o pretexto de limpeza administrativa.
Sua política distributiva é um exercício de cinismo: pratica uma caridade de soma zero, alimentando os despossuídos com os parcos despojos subtraídos de seus próprios semelhantes. Oscila, com cálculo diplomático, entre a grandiloquência das promessas de um futuro glorioso e a pedagogia da escassez, instruindo as massas a sobreviverem com o que há de mais abjeto.
Contudo, a linguagem corporal trai a insustentabilidade do regime. A inquietude de seus movimentos e a vigilância paranoica contra a dissidência interna revelam um líder que sabe que o punhal da história está sempre à espreita. No fim, entre promessas de brevidade e garantias de mínima interferência, ele consome o tempo e a soberania de todos, hipotecando o futuro em nome de uma ordem que só serve à sua própria sobrevivência.

Portal G disse...

Muito interessante seu conteúdo!