Artigos de Braulio Tavares em sua coluna diária no "Jornal da Paraíba" (Campina Grande-PB), desde o 0001 (23 de março de 2003) até o 4098 (10 de abril de 2016). Do 4099 em diante, os textos estão sendo publicados apenas neste blog, devido ao fim da publicação do jornal impresso.
domingo, 30 de junho de 2019
4480) O Bicho do Mazagão (30.6.2019)
Quem se interessa pelos monstros que povoam o nosso inconsciente coletivo deve consultar um dos livros mais importantes dessa nossa memória cultural.
Geografia dos Mitos Brasileiros, de Luís da Câmara Cascudo, é um registro precioso de histórias de monstros, assombrações e criaturas sobrenaturais por todo o Brasil. Inclusive transcrevendo -- o que é muito importante -- o texto dos relatos originais, muitos deles dos séculos 18, 19 etc
Aqui se fala de Lobisomem, Mula Sem Cabeça, Curupira. Fala-se também de outros mitos menos conhecidos: a Onça-Boi...a Cobra de Asas... o Arranca-Língua... o Mão-Pelada... o Pé de Garrafa...
Muitos desses bichos foram abordados na literatura de cordel. Existem no entanto outros monstros que a gente imagina que só existem em outros países, outros continentes. O Pé Grande, ou Big Foot, é um monstro que faz parte do imaginário da América do Norte mas que não é muito citado aqui no Brasil.
O Pé Grande também é chamado Sasquatch, e é descrito como uma criatura coberta de pelos, que caminha ereta, tem cerca de 2 a 2,5 metros de altura. Ganhou o nome Pé Grande porque suas pegadas chegam a meio metro de comprimento.
Muita gente considera que Chewbacca, o famoso ajudante de Han Solo na série Star Wars, seria um Pé Grande interplanetário.
Voltando à literatura de cordel: eu considero ser um Pé Grande a criatura descrita neste folheto de grande importância histórica: O Bicho do Mazagão, escrito por Rosil Cavalcanti, nosso grande compositor gravado por Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Marinês e muitos outros.
O folheto de Rosil foi impresso na Gráfica de Júlio Costa, e traz a data na capa: Campina Grande, maio de 1964. Talvez sua publicação tenha sido incentivada pelas celebrações do Centenário da nossa cidade, acontecido nesse ano.
Que eu saiba, é o único folheto publicado por Rosil. Um folheto de 44 páginas, em septilhas (estrofes de 7 linhas). Muito bem escrito, métrica correta, rimas perfeitas, tudo à altura das excelentes letras de músicas assinadas por Rosil Cavalcanti.
O poeta afirma, logo nas primeiras páginas:
O versejar não é fácil
como pensa muita gente;
o leitor compra o folheto
sem parecer exigente
em casa lê a história
grava tudo na memória
mas não é isso somente.
A história tem que ser
bem contada, na verdade,
pode até ser fantasia
pode ser realidade
mas não pode à criação
faltar imaginação
e nem continuidade.
O poeta às vezes falha
por uma rima forçada,
pra não perder o sentido
da idéia já pensada;
porém isso se dispensa
pois rima certa compensa
a rima desmantelada.
É uma boa reflexão, de quem já pôs a mão na massa.
Rosil refere que a história se passa nas matas do Piauí, na fronteira com o Maranhão, “na Serra da Catruzama, vizinha do Pindurão; estão ali situadas as terras do Mazagão.”
O herói chama-se Antão, é um rapaz disposto e trabalhador que ouve falar de um bicho monstruoso capaz de estraçalhar todo um destacamento de soldados mandado à sua procura. Antão vai ouvir o depoimento do Cabo Zé, único sobrevivente do confronto, que diz:
Era um monstro terrível
de quinze palmos de altura
eu estava bem sentado
numa forquilha segura
quando vi o bicho andando
ia quse desmaiando
já mudando de figura.
Me segurei bem seguro
pra ver o bicho perfeito
era grande, feio, forte,
não caminhava direito
estava assim, adiante
tinha tudo dum gigante
descomunal e sem jeito.
(...)
Sentindo faro dos cabras
ele foi pra gameleira
passava quebrando tudo
deixava atrás a esteira
ia babando, raivoso,
dando grunido horroroso
e com forte rosnadeira.
Aqui, acolá batia
com as mãos no corpo nu;
tinh catinga de enxofre
parecia Belzebu,
todo preto e cabeludo
cabeça grande, testudo,
e força de boi zebu.
O Cabo Zé estava trepado em cima de uma árvore e foi o único que escapou para contar a história. Antão escuta o relato, e pede uma descrição mais detalhada:
Agora diga, seu Cabo,
esse bicho como é.
Prontamente disse o Cabo:
“O bicho anda de pé
tem quinze palmos de altura
tem quse seis de largura
e dentes de jacaré.
“Os braços passam dos joelhos
as orelhas são compridas
os olhos são luminosos
as unhas muito crescidas
as mãos grandes pra danado
o nariz muito achatado
as pernas descomedidas.
“Da cabeça até os pés
ele é todo cabeludo
lustroso na luz da lua
que se parece veludo
é ronceiro no andar
barulhento no pisar
passa por cima de tudo.
“Quando rosna lá na mata
estronda toda a quebrada,
dos dois buracos da venta
sai fumaça avermelhada
andando vinha grunindo
os dentes todos rangindo
tem a cara esbranquiçada.”
Antão, resolve enfrentar o bicho sozinho, e vai direto para o local da refrega. E o poeta Rosil descreve:
Seguiu o rastro no chão
em direção ao nascente:
a marca do pé do bicho
era grande, diferente,
comprido, largo e bem cheio
de palmos, deu dois e meio
não era pé de vivente.
Não vou dar spoiler do final, até porque o confronto físico entre os dois se estende por várias páginas.
Será que o Bicho do Mazagão é o mesmo Pé Grande dos Estados Unidos? Não importa. Os dois existem na imaginação coletiva, e cada relato desse tipo traz mais uma camada de imaginação, de fantasia, de medo e de confronto com o medo... que é um medo de todos nós.
quinta-feira, 27 de junho de 2019
4479) Nada além de uma ilusão (27.6.2019)
(ilustração: “São Jerônimo e o Anjo”, Simon Vouet)
Tem
coisas nesta vida que eu acho que somente as prostitutas enxergam com clareza.
Não
me refiro àquelas garotas de programa blasés
de Beverly Hills, às louronas turbinadas de 50 mil dólares o fim de semana.
Penso naquelas moças meio cabírias, meio irmas-la-douce, meio
santas-rosinhas-do-mangue, meio terezas-batistas-cansadas-de-guerra. As da vida
real.
Penso
nisso porque estávamos conversando sobre literatura. Escritor chorando-pitanga
é um espetáculo divertido, porque cada um quer contar a maior vantagem e a
desgraça maior, ao mesmo tempo. Meu livro não vendeu nada, meu editor não me
compreende, minha capa ficou um presepe, a livraria botou na estante errada, o
crítico disse que o livro de fulano é melhor que o meu... E por aí vai.
E
eu me lembrei de uma matéria sobre prostituição urbana que li muitos anos
atrás, num daqueles jornais da imprensa nanica, não sei se foi no “Versus” ou
no “Movimento” ou em outro.
O
repórter estava entrevistando uma prostituta jovem, e ela explicou que ia para
o puteiro logo de manhã, porque o movimento lá começava cedo.
--
Eu pego uns dez ou doze fregueses durante o dia – explicou ela – aí de noite eu
volto pra casa, meu namorado tá me esperando, aí eu dou umazinha com ele e vou
dormir.
O
repórter disse:
-
Mas depois de transar o dia inteiro você ainda tem disposição pra transar,
quando chega em casa?
E
ela respondeu:
-
Ah... é a ilusão do amor...
Eu
guardei essa frase como quem guarda um cheque nominal, cheque aliás que já
descontei tantas vezes e permanece com saldo. O que nos leva a continuar
publicando livros que só nos dão trabalho, “muído”, dor de cabeça,
contrariedades e até prejuízos? O que nos leva a continuar insistindo nisso? É
a ilusão do amor.
Não
existe nada mais abstrato do que o público que lê um autor, qualquer um. É um
conjunto de individualidades que nunca formam um coletivo, que raramente se
agrupam sob um mesmo teto, que não se conhecem entre si, e que ao se conhecerem
(“Puxa vida, você também lê Valêncio Xavier?!...”) tanto podem cair nos braços
uma da outra quanto observar-se com ciúme e desconfiança pelo resto da vida.
Se
escritor já é uma criatura que não presta, avalie leitor.
E
no entanto é para alegrar essa irmandade desunida que o escritor gasta sete
sapatos de ferro correndo de editora em editora, submetendo-se às brincadeirinhas
da imprensa popularesca em troca da glória duvidosa de uma resenha com foto, comparecendo
a programas de TV que nunca o viram mais gordo e onde ele é coagido a informar
quem é e o que faz, e ir embora mais cheio de dúvidas existenciais do que
chegou.
É
a ilusão de quem em algum rincão remoto do país o seu gracejo produziu uma
risada, que a sua cena de suspense eriçou pelos, que ao ler a sua reflexão
crítica algum leitor ou leitora fechou o livro, marcando o lugar com o dedo,
ergueu o olhar para a parede e murmurou: “Puta que pariu, é exatamente isso”.
Isso para um autor equivale a um passaporte para o céu; mas que não passe
disso.
Se
for para passar, que tal um cheque ou depósito mensal, do tipo “faço isso para
garantir que o senhor continue escrevendo”? O autor se derramaria em gratidão
diante dessa bênção protegida pelo anonimato. (E não estou fantasiando –
aconteceu com Tchaikóvski.)
O
que nos move é a ilusão de que esses fantasmas ambulantes que compram nossos
livros irão nos mandar, de Coromandel ou de Ituiutaba, pelo menos uma postagem
telepática de agradecimento por uma frase bem escrita, um diálogo na-mosca, uma
descrição vívida, uma idéia estimulante, um tipo inesquecível. Mesmo quando não
seja bem o caso.
A
maioria dos autores, sei muito bem, estremeceria de terror ante a idéia de que
algum desses leitores viesse bater à sua porta para agradecer. “Não! Agradeça
lá de longe!”, diria ele, porque se sente mais à vontade amando a humanidade à
distância, de onde é mais fácil retocar suas qualidades e maquiar seus
defeitos. Ele ficaria mais que satisfeito com um email, aquelas mensagens na
linha do curto-demais-o-que-o-senhor-escreve.
Por
mais afável que ele pareça à primeira vista, um autor é em geral alguém que se
sente melhor entre poltronas, luminárias e silêncio do que entre gente que o
cobre de elogios.
Um
escritor é, mal comparando, como uma mulher que se veste elegantissimamente mas
tem vergonha de ficar nua à vista alheia, porque sabe o corpo que tem. O autor
quer a ilusão de ser amado, por suposto; mas ele não quer ser amado pela
criatura quasímoda que sabe ser, mas pelo que escreve, e que são as coisas boas
que ele tem para dar ao mundo.
E
é por essa mesma razão que o escritor cobra para escrever.
Sei
que muitos escritores fazem questão de escrever de graça, dar palestras de
graça, ministrar aulas de graça, participar de eventos de graça, e assim por
diante. Estão no seu direito, mas não têm o direito de se horrorizar quando a
gente diz: “Faço, mas faço por mil reais”.
Uma
vez me ligaram de uma grande publicação brasileira, de circulação nacional, com
centenas de empregados e milhões de reais em faturamento. Queriam um texto
assim-assim, para uma matéria com a temática tal-e-tal (muito interessante,
aliás), com umas duas laudas, etc e tal. Eu falei que faria, e disse meu preço
para isso, 500 reais.
O
funcionário refugou:
-
Olha, seria uma colaboração gratuita, mas que vai te dar muita visibilidade,
vai divulgar teu nome, teu trabalho... Nós não temos verba para pagar por esse
texto.
Eu
me senti tão miserável que pedi:
-
Então faz o seguinte. Me paga 50 reais, e tudo bem.
-
50 reais? – espantou-se ele. – Por que?
E
eu disse:
-
Ah... é a ilusão do profissionalismo...
segunda-feira, 24 de junho de 2019
4478) A rima forçada (24.6.2019)
Todo mundo sabe que no Cemitério
das Profecias Apressadas o túmulo dos que preconizaram o fim da poesia com métrica
e rima fica a apenas duas aléias de distância do mausoléu dos que decretaram o
fim da pintura figurativa.
Modernismos literários à parte, a
poesia de forma fixa continua a ser praticada no mundo inteiro, convivendo em
paz com as formas mais recentes, que incluem a poesia não-discursiva, a poesia
visual, o poema-objeto, o poema-performance, e por aí vai.
Rimar é como dançar. Exige intuição
e exige técnica. Para efeito deste artigo vou considerar apenas a chamada rima
exata ou rima consoante, onde as duas
palavras que rimam precisam ter som igual a partir da vogal da sílaba tônica
(rima / prima; tônica / eletrônica; precisa / camisa, título / capítulo; etc).
É diferente da rima toante, em que
basta haver uma certa semelhança entre os sons: longe / onde; olhos / relógios;
estrada / mata. Em geral, a rima toante se funda na vogal tônica, que é a
mesma, como nos exemplos anteriores, ou parecida, como nestes: automóvel /
ouro; quente / parede; profundo / pulso.
O Rei da Rima Toante chama-se João
Cabral de Melo Neto.
O poeta é o dono do seu poema.
Ninguém o obriga a nada. Quando põe o lápis no papel ou o dedo no teclado, ele
é livre para escrever palavras até de cabeça para baixo, se quiser (Carlos
Drummond já o fez, em “Amar/Amaro”).
Acontece, no entanto, que nessa
Metrópole da Liberdade Absoluta existe uma região chamada O Bairro das Formas
Fixas, como o soneto, o hai-kai, a sextilha, a décima... São fixas porque o
prazer de cultivá-las está nas regras que devem ser seguidas. O jogo poético tem
um componente de desafio técnico. Grande parte da sedução dessas formas
poéticas é o esforço de estar à altura de uma exigência radical. A prática das
formas fixas é uma espécie de esporte radical poético. Não é para qualquer um.
É para quem pode.
O poeta que usa essas formas
precisa mostrar que as conhece e as domina, tal como um músico que empunha o
violão ou senta ao piano deve mostrar domínio do instrumento. Sem isso,
dificilmente ele vai produzir algum efeito estético.
As palavras que rimam são utilizadas
pela semelhança de som. O poeta inexperiente, que tem pouco vocabulário, tende
muitas vezes a terminar uma linha com uma palavra qualquer e, ao chegar na próxima
linha onde a rima deve aparecer, colocar no papel a primeira rima que lhe vem à
cabeça. O poema é romântico. Ele diz à amada: “Eu te amo, e por isso estou
aqui”. Mais adiante, precisando de algo que rime com “aqui”, vê-se obrigado a
enfiar no poema um abacaxi ou um índio guarani, que não têm nada a ver com o
que está sendo dito. Estão ali somente para não perder a rima. É o que chamamos
de rima forçada, rima apelativa, usando palavras que entraram no poema como
Pilatos no Credo.
A
palavra que rima está sendo usada pelo som, mas é preciso fazer com que pareça
estar sendo usada pelo sentido. Como se nenhuma outra palavra pudesse ter
sido colocada ali, a não ser aquela, que, aliás, vejam só a coincidência! –
rima exatamente com a palavra de uma ou duas linhas atrás.
Vi uma discussão sobre aquela
antiga canção, “Mamãe” (Herivelto Martins, David Nasser e Washington Harline), que
diz:
Mamãe, mamãe, mamãe...
Eu te lembro, chinelo na mão,
o avental todo sujo de ovo...
Se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe,
começar tudo tudo de novo.
É evidente que o letrista queria
encerrar a canção com estas duas últimas linhas, certamente as primeiras que
ele pensou para este trecho. Ele precisava de uma palavra que rimasse com
“novo” – e que se encaixasse no contexto. Podia ter usado povo, louvo, comovo... A solução encontrada (que
alguns contestam) me parece boa, porque o avental sujo de ovo se encaixa
perfeitamente na memória de infância proposta pela letra. A palavra fornece a
rima, mas também tem tudo a ver com o assunto.
Palavras que têm poucas rimas
forçam o poeta (ou o letrista de música) a repetir eternamente um pequeno
repertório. Uma passada de olhos pela música popular brasileira nos mostra que
o uso da palavra samba acaba levando
os autores a se referir a muamba, corda bamba, a corda e a caçamba e assim por diante. A palavra Brasil, curiosamente, tem centenas de
rimas possíveis, mas alguma pressão cívica empurrou inúmeros poetas ao uso de varonil, céu de anil, eventualmente fuzil
ou cantil.
Drummond já abriu um poema
(“Consideração do Poema”) anunciando: “Não
rimarei a palavra sono / com a incorrespondente palavra outono”. Drummond
nunca foi inimigo da rima. Rimou fartamente ao longo de sua obra, mas esse
pontapé na mesa era para que as rimas fossem pensadas, e tivessem uma motivação
maior além da mera sonoridade. Ou seja – que parecessem estar ali não pelo som,
mas pelo sentido.
Pode-se falsificar uma rima? Há
exceções? Claro, e exceções ilustres. Um caso clássico de rima apelativa foi
produzido por Victor Hugo, no seu poema de tema bíblico “Booz endormi” do livro
La Légende des Siècles (1855-1876). Dizia ele:
Tout reposait dans Ur et dans Jérimadeth ;
Les astres émaillaient le ciel profond et sombre ;
Le croissant fin et clair parmi ces fleurs de l'ombre
Brillait à l'occident, et Ruth se demandait, (…)
(Em tradução rápida, ou seja, sem
pretender reproduzir todos os efeitos do original:
Tudo estava em repouso em Ur e em Jérimadeth;
os astros cravejavam o céu fundo e sombrio;
o crescente fino e claro, entre as flores da sombra,
brilhava no ocidente, e Ruth se inquiriu...”
Muitos críticos se dedicaram a
buscar essa referência geográfica à cidade de Jérimadeth, até que se percebeu
que era um trocadilho do poeta com “J’ai rime à deth”, “eu tenho uma rima para deth”. Rimas inventadas para “quebrar o
galho” de um autor não são coisa rara, mas o fato disso ser feito pelo maior
poeta francês não apenas legitima em parte o processo, mas aos meus olhos deixa
o poeta, que era tão sisudo, com uma imagem mais bem-humorada e simpática.
Muitos poetas, antes de começar a
redigir uma estrofe, fazem uma pequena lista das rimas possíveis. A lista de
rimas é um pequeno mapa dos caminhos que ele poderá percorrer para dizer o que
pensa. Ações metódicas como esta não comprometem a espontaneidade da escrita.
Pelo contrário: mostrando antecipadamente as alternativas, ajudam a escrita a
fluir de modo mais espontâneo, e deixam o poeta mais seguro, já sabendo por
onde pode passar para chegar ao objetivo.
Se o poema vai ter rima obrigatória,
não custa nada fazer antes uma lista de palavras com essa rima. E procurar
entre elas as palavras que pareçam mais naturais, que desenvolvam o assunto da
melhor maneira. É preciso evitar o perigo da primeira rima que vem à cabeça. Geralmente
é ruim.
Por toda parte vemos poemas onde o autor,
escrevendo meio de improviso, põe no fim do verso uma palavra com poucas rimas.
Digamos que ele escreveu “cinza”. Agora, por causa disto, precisa escavacar a
memória atrás de uma rima correta, e só acha “ranzinza” – e aí vai ter que
encaixar essa palavra tão específica dentro do assunto que vinha tratando. Às
vezes, dá. Geralmente, não. É aquele caso de “pintar o piso e se encurralar num
recanto”. Fica sem escolhas.
quinta-feira, 20 de junho de 2019
4477) O fantasma e o mundo lacunar (20.6.2019)
(Shirley Jackson, em 1951)
Uma coisa que me incomoda às vezes com as histórias de fantasmas
é que às vezes elas tendem a uma uniformização de explicações. O que é o
fantasma? Ah, é a alma de alguém. A pessoa morreu mas a alma continua presa ao
mundo material.
Acho a hipótese válida, não como explicação da realidade, mas
como elemento capaz de gerar uma situação narrativa. Uma situação de drama. Ou
de comédia. Uma história humana, enfim, e num universo onde coisas assim são
possíveis.
Mesmo que esse universo não dure mais que o tempo dessa
história.
O espiritismo kardecista – que, curiosamente, é mais uma coisa
que Brasil e França compartilham de maneira especial, tal como ocorre com o
culto a Santos Dumont – contamina com suas explicações muitas dessas histórias,
que giram em torno das consequências morais da transposição do Umbral.
Todo fantasma é uma alma? Pode ser. Pode também ser uma materialização
completa de uma pessoa, uma “alma” capaz de pegar num copo, beber água,
empunhar um objeto, falar e ser ouvido por alguém.
Shirley Jackson, uma grande escritora, mais conhecida por “The
Lottery” (1948) e “The Haunting of Hill House” (1959), tem um conto intitulado
“The Lovely House” (1950).
Vou contar dando spoiler, porque apesar de ser uma história
muito boa deve ser apenas “uma das 20 melhores de Shirley Jackson”. Tem muitas
outras, melhores até, para quem não conhece.
Margaret é uma moça mediana que vai passar uns dias na imponente
casa de campo da família de sua amiga Clara Montague. A época parece ser a da II
Guerra. A mansão tem salas e mais salas
de obras de arte, de tapeçarias, de murais, de espelhos. É um museu vivo, onde
vive o casal Montague e sua filha, e estão à espera do filho que está no
exército.
Um lugar meio Downton
Abbey, só que menos rico, e com apenas um trio de moradores.
Margaret (que está sempre achando que veste uma roupa inadequada),
passa ali alguns dias inesquecíveis, porque a cada corredor e cada passagem há
tesouros de arte em volta. A família a trata com fidalguia, com simpatia,
tentando deixá-la à vontade.
Chega o filho deles, irmão de Clara. Vem fardado e acompanhado
de um capitão, jovem como ele, mas mais lacônico e retraído. A família os
recebe, em comitê. Todos falam ao mesmo tempo, dão pausa, depois desatam a
falar de novo, riem, vão se descontraindo.
Nos dias seguintes, naquele clima lacônico e meio “vitoriano”,
saem para passear, para fazer píquenique, os dois casais: Clara e o capitão; Margaret
e Paul, o irmão da amiga. Todos são muito discretos, conversam cheios de
reticências, de frases incompletas.
A história de Margaret é contada por ela em primeira pessoa, mas
como está fora de seu ambiente e fica deslumbrada com tudo que vê
(principalmente com o irmão da amiga, Paul) ela não consegue articular uma
frase sequer que não seja um lugar-comum de banquete-em-família ou uma pálida
tentativa de esclarecer uma dúvida, que passa despercebida.
É aquele ambiente parecido com A Era da Inocência ou com aqueles intermináveis mal-entendidos de country house nas novelas de Henry
James. Viver entre aquelas pessoas atentíssimas era reconhecer a importância
crucial de rituais, linguagens, parâmetros e referências.
Algumas peripécias depois, o exército chama Paul de volta e ele
lamenta não poder ficar mais tempo no seio da família, que tanto ama. Margaret
ergue diante dele algumas esperanças de reencontro futuro, como pipas num dia
sem vento.
Quando Margaret desce, ao amanhecer do dia da partida, com o automóvel
já resfolegando à porta e as malas enfileiradas no vestíbulo, vê no saguão o
casal idoso, donos da casa, a amiga Clara e o capitão, que se dirige ao casal
com firmeza, mas com simpatia, dizendo que as tapeçarias estão se desfiando, há
vidraças quebradas, etc., e que é bom cuidar melhor da casa.
“Sim, meu filho,” diz o casal, e dá suas justificativas.
E
Paul? Quem é Paul?, pergunta-se Margareth, e esta é a linha crucial de todo o
conto.
O spoiler é parcial, porque na história há muito mais coisas,
mas ela propõe, como várias outras histórias, uma intersecção de universos que
vai além da jornada abúlica, ritualística, da alma cristã que ficou presa a um
objeto, ou aposento, ou edifício, e não consegue decolar rumo à eternidade.
Sem precisar negar a existência da alma cristã, que nem é
mencionada, Shirley Jackson conta-nos um mistério de tempos que coexistem sem
que todo mundo o perceba.
Pode haver universos nas lacunas um do outro, como aquelas peças
do xadrez a quem é permitido um movimento muito além do mero dia a dia, do avançar-uma-casa
da escala de tempo em que vivemos. Seres que têm no Tempo um movimento mais extenso,
até mesmo oblíquo, até mesmo em 3-D, como o cavalo...
Shirley Jackson não teoriza isso, nem precisa, nem faz falta,
até porque bem de acordo com o espírito meio anacrônico daquele paraíso
bucólico (visto através dela, e na última página através dos olhos do capitão)
as coisas são enxergadas de maneira impressionista, numa sociedade refinada e
obsoleta, onde as pessoas se comunicam por duplos-sentidos, formalidades, e
indicações veladas.
Num mundo assim, fica cada vez mais difícil estabelecer um conceito
tão básico quanto o do “realidade consensual”.
domingo, 16 de junho de 2019
4476) A ficção e seus mistérios (16.6.2019)
Uma das pragas editoriais mais daninhas é aquela
recomendação: “Tire isso, o leitor não vai entender”. É uma recomendação que
vai das salas dos editores até as oficinas literárias, passando pelas mesas de
bar e pelas famosas “dicas de escritores experientes aos escritores jovens e
ansiosos pelo sucesso”.
“Tire isso, o leitor não vai entender.” Só falta explicar melhor: “O leitor é burro
e, mesmo que nem todos o sejam, você deve escrever pensando no mais burro de
todos. É assim que a televisão funciona.”
E é mesmo – por isso a televisão é uma coisa tão burra e tem tanto
sucesso.
O leitor tem que ter a humildade de saber que está
abrindo um livro para – entre mil outras coisas – aprender. Ficar sabendo o que
não sabia. Ter acesso ao que lhe era desconhecido. Tomar conhecimento de um
hábito social, de uma paisagem obscura, de uma palavra que vai ter que checar
no dicionário. O leitor está ganhando coisas, e acha ruim?
Isso me vem à cabeça sempre que estou lendo um livro de
50, 100 anos atrás. Livros que estão repletos de pequenos detalhes do cotidiano
que faziam parte da vida das pessoas naquele tempo e lugar, mas que podem soar
estranhos ao leitor de hoje.
O Leitor de Hoje! Tem horas em que a gente o vê como um ditadorzinho
ignorante e mimado, que esperneia de descontentamento quando se vê diante da
primeira coisa que não entende.
Esse diapasão mental de todas as pesquisas mercadológicas
destinadas a produzir O Livro Que O Leitor De Hoje Será Incapaz De Largar –
aquilo que os resenhadores norte-americanos chamam de The Unputdownable Book, a
pedra filosofal de todo autor, capaz de transformar em ouro puro todo o chumbo
dos linotipos em que o livro foi composto.
(Atenção – proibido falar em linotipos, porque O Leitor
De Hoje não sabe o que é linotipo, e se souber pode ter um AVC devido a um
excesso de informação nova em seus neurônios despreparados.)
Eu estava lendo um conto inglês de 1910 ou por aí e me
deparei com um personagem, um médico de maleta em punho indo atender um doente
em casa. Verdade que a casa era uma torre e o doente era uma pessoa “com berço”.
Nas minhas leituras mais antigas, era comum um médico,
numa noite de relâmpagos, vestir a roupa às pressas ao atender um chamado,
subir na primeira carruagem e rumar para um bairro distante, para atender um
paciente.
O leitor de hoje entende isso? Ele entende que venha um
SAMU, ou uma equipe de paramédicos, ou o helicóptero de um plano de saúde. Mas
o médico, o clínico, sair de cabeça descoberta, na intempérie, em plena
madrugada?
Quando eu era garoto e via filmes norte-americanos eu me
encantava com aquela porta de tela de arame que nas casas de lá são colocadas pelo
lado de fora das portas propriamente ditas. Não me lembro se já vi uma dessas
na vida real.
Nos romances da virada do século, da época de Sherlock
Holmes, de Arsène Lupin, de Edgar Wallace, era comum haver numa casa um
aparelho de telefone com dois receptores e um microfone, de modo que quando
alguém atendia era possível outra pessoa pegar o segundo auscultador e
acompanhar a conversa.
Eu nunca tinha visto um telefone assim, e acho que li
sobre isso antes mesmo de ter a honra de falar num telefone pela primeira vez,
e maldo que foi na casa de dona Alice do Ó, na rua Miguel Couto. Era um dos
dois ou três telefones que havia na rua inteira.
Vocabulário é uma coisa que precisa ser muito arrevezada
para me deter. Não tenho medo de palavras novas, pelo contrário, e ainda sei em
que livros vi pela primeira vez as palavras catalisador (Planeta Proibido),
impertérrito (Caçadas de Pedrinho), nenúfar (Histórias Extraordinárias), protonotário
(Dom Casmurro), charneca (O Cão dos Baskervilles), azinhaga (Os
Miseráveis)... Por outro lado, nunca consegui ler Huckleberry Finn no original, por causa da tentativa de grafia
fonética. Gosto do livro, mas encalho no linguajar inglês, que a tradução,
feliz ou infelizmente, não preservou.
Todo leitor tem direito a gostos e desgostos, e se a
alguém não agrada a pontuação em Saramago ou a despontuação em Beckett, é o
direito de cada um. Ninguém é obrigado a ler o que não lhe agrada, a não ser
que haja razões extra-literárias para isso. Por outro lado, acho que todo
leitor criterioso admite que perde algo quando não lê um livro, seja olivro bom ou ruim.
Quando encontramos anacronismos, costumes de outras
épocas que agora nos parecem estranhos ou ridículos, temos a obrigação de não
julgar aquilo simplesmente confrontando-o com os nossos hábitos ou os nossos
valores. É preciso fazer a triangulação “autor” e “ambiente” com o terceiro
vértice, o “leitor” no centro do seu
mundo.
Como não sei praticamente nada sobre a vida cotidiana no
Império Otomano, se um dia por acaso eu ler alguma obra ambientada nesse
período irei certamente me admirar com detalhes de alimentação, de batalhas, de
indumentária, de costumes familiares... Outros mundos, outras regras, outros
hábitos e acho que quem gosta de ler gosta muitas vezes por isso mesmo: para
vivenciar histórias inteligíveis num ambiente que é possível entender,
descrever e explicar para nós mesmos.
quinta-feira, 13 de junho de 2019
4475) Modos de ser brasileiro(a) (13.6.2019)
(foto: Augusto Pessoa)
Acertar passarinho com laranja chupada.
Decorar escalações de times de 20 anos atrás.
Ler poemas para a namorada.
Molhar pão na sopa.
Beber chope morno em copo de plástico sem reclamar.
Tirar espinho do pé com alfinete.
Passar duas horas numa livraria, sair com as mãos vazias
e mil histórias na imaginação.
Pagar a conta mais antiga no dia em que chega a mais
nova.
Subir o morro de madrugada para ver o sol nascer.
Contar os segundos entre o relâmpago e o trovão para
saber a distância.
Molhar os pés no riacho.
Aprender a dormir no ônibus e acordar uma parada antes.
Ficar doidão sem perder o juízo.
Escrever certas coisas e nunca mostrar a ninguém.
Impedir que experiência e entusiasmo se tornem antônimos.
Colecionar nuvens engraçadas.
Emborcar besouros e ir embora.
Na hora do TSE, tirar o som e olhar os candidatos nos
olhos.
Dizer com licença, desculpe, por favor, muito obrigado.
Saber tomar um porre sem aborrecer ninguém.
Designar tarefas, explicar antes, cobrar depois.
Deixar que os velhos e as crianças conversem em paz.
Ir a pé para economizar os trocados do ônibus.
Sentar bem na frente para ver o filme antes dos outros.
Ensinar os filhos a rezar e a tomar a bênção.
Não ter medo de pensar em nada.
Ver alguém dormindo com frio, cobri-lo e ir embora.
Descascar laranja sem partir a espiral.
Fazer em um só dia uma amizade que acaba durando a vida
toda.
Procurar tesouros enterrados.
Praticar tiro-ao-alvo com bodoque e lagartixa.
Botar bombril na antena da TV.
Procurar dançar sempre no miolo do salão.
Todo aniversário ficar junto da parede e marcar a altura.
Procurar discos voadores até ser capaz de jurar que viu
um.
Jogar bola com o cachorro.
Empilhar moedas por ordem de tamanho.
Jogar damas com tampas de garrafa.
Fazer promessas a torto e a direito, e pagá-las todas.
Assar castanhas na brasa.
Ter um número da sorte.
Inventar apelidos para os conhecidos.
Durante as férias ler os livros da próxima série para ir
se preparando.
Desembarcar sozinho na rodoviária de uma cidade sem
conhecer ninguém.
Saber andar a cavalo e de bicicleta.
Fazer a barba antes da idade para que venha logo.
Ter um santo de devoção e não contar pra ninguém.
Adormecer pensando nas despesas mas acordar novinho em
folha.
Nadar, nadar e correr na praia.
Virar a noite para entregar um trabalho no prazo.
Acertar um contrato “de boca” e cumpri-lo em cada
detalhe.
Fazer um curso noturno pensando em daqui a dez anos.
Assar na chapa o pão francês de ontem.
De meia em meia hora dar uma volta na casa apagando luzes
desnecessárias.
Pagar bem um trabalho bem feito, e fazer bem um trabalho
bem pago.
Consertar e manter na ativa um eletrodoméstico até ele
morrer de morte natural.
Saber quando é hora de desistir por enquanto.
Passar uma noite em claro com uma criança com febre.
Aprender a dobrar lençol sozinho e a cortar as unhas da
mão direita.
Tratar outra pessoa como se fosse você, tratar um bicho
como se fosse uma pessoa, tratar uma planta como se fosse um bicho, tratar uma
coisa como se fosse uma planta.
Praticar estas ações, e todas as demais, nos círculos
concêntricos do coração do Brasil: sua cidade, seu bairro, sua rua, sua casa.
(Uma versão
ligeiramente diferente foi publicada no Fascículo Especial de Leituras
Compartilhadas / Leitura Ampla, ano 2, Rio, 2005, www.leiabrasil.org.br)
sábado, 8 de junho de 2019
4474) Com mulher não se brinca (8.6.2019)
Eu estava de passagem por uma cidade paraibana, que chamarei, ao estilo Monteiro Lobato, de Três Estrelinhas. Ia a trabalho e fiquei num hotelzinho acolhedor. Na primeira tarde percebi que tinha deixado no Rio meu caderno de anotações.
Eu dou preferência a caderno tamanho livro, capa dura, pode
ser espiral ou encadernado, mas prefiro com pauta estreita, porque minha letra
é miúda. Saí do hotel em busca de uma papelaria, num sol de duas-da-tarde capaz
de torrar um pão-com-manteiga no peitoril da janela.
Achei a papelaria e entrei. A súbita transição daquele
forno abrasador para a sombra fresca cheirando a papel foi como o acesso a uma
zona crepuscular fora do tempo e do espaço. A loja era do tipo estreita e
comprida, tendo de um lado prateleiras do chão ao teto, e do outro um balcão longo com tampo de
vidro.
Ninguém no Caixa, que ficava logo à entrada; lá no fundo,
apenas duas atendentes arrumando coisas. Fui para lá, refrescado, leve, sem
pressa nenhuma.
As duas estavam conversando, conversando permaneceram,
como se eu fosse transparente. Parei junto da prateleira, peguei numa coisa e noutra,
porque gosto de fazer o senhor educado e esperar que alguém se dirija a mim
primeiro.
Ilusão trêda, diria Augusto dos Anjos, porque a conversa
ali estava com mais de mil na buraqueira. A morena estava de pé junto à parede:
rabo de cavalo, bonitinha, vinte e poucos anos, uns olhos líquidos cheios de
paciência atávica. Recebia e colocava na prateleira mercadorias que a loura,
agachada, retirava de uma caixa onde caberia a papelaria inteira.
– Eu tou com um ódio tão grande, tão grande – estava
dizendo a loura, que era bronzeada, saradona, teria seus trinta-e-bote-força,
rosto sardento, queixo resoluto – que a vontade que eu tenho é de dar um tiro
naquele corno.
- Vige, mulher – disse a morena, recebendo uma pilha de
caixas de lápis de cor e arrumando na prateleira, bem metodicazinha. – Teu
marido, e tu chama de corno.
– Deus é testemunha que eu nunca botei chifre nele, mas
com a raiva que eu tou vou acabar botando com o primeiro que aparecer.
Fiquei por ali, como quem não quer nada. Ela prosseguiu:
– Um safado daquele, um nojento. Eu não sei como é que eu
não fiz uma besteira.
– Pois é, mulher. Na tua casa?! O homem ter a coragem de
trazer uma mulher pra dentro da tua casa, botar em cima da tua cama? Eu fico
passada com Válter, nunca pensei.
- Pois eu vou dizer uma coisa – disse ela, estendendo uns
pacotes de papel A-4, um por um. – Nunca chegue em casa fora de hora, minha
filha. Principalmente se você for casada com um folgado, que só trabalha quando
quer. Chega me dá um abuso quando eu tou trocando de roupa pra vir trabalhar e
ele fica deitado, abrindo a boca, com sono, dizendo que vai ter que levar a
picape na oficina, mas só mais tarde, e vai dar mais um cochilo porque está
cansado. Só vive cansado, nem sei do quê.
A outra riu, arrumando os pacotes.
– Eu sei do quê... Quando você tá de lua boa, só chega
aqui contando vantagem e dizendo que o serviço é bom.
A outra limpou as mãos nos jeans, pegou umas caixas de
alguma coisa e ficou checando uma nota fiscal cheia de vias.
- O serviço dele tá com os dias contados – disse por fim,
dobrando a papelada e recomeçando. – Remédio pra dormir, e uma serra-de-pão.
A morena riu, curvando o corpo.
- Pára com isso, Dete, tu sabe que não é capaz.
- De capar um safado daquele? Sou capaz sim. – Deu de
ombros. – Depois costura de novo no lugar e ele fica com a lição.
A conversa estava ficando punk demais e eu resolvi
intervir.
- Hrrrm-hrrrmm – pigarreei.
A morena me olhou de frente. Dete girou o corpo e me
checou de cima a baixo. Nunca me senti tão nu.
- Boa tarde – disse eu. – Não quero interromper.
- O senhor tá procurando alguma coisa? – disse a
moreninha.
- Caderno pautado, capa dura, assim desse tamanho –
respondi, fazendo com as mãos um gesto que no mesmo instante me pareceu
totalmente inapropriado, descabido.
A loura me desfechou um olhar que equivalia ao
raio-cristalizador daquelas séries de ficção, capaz de transformar em gelo uma
fogueira de mil graus.
A morena me salvou.
– Tem não.
– ‘Brigado – disse eu, e bati miseravelmente em retirada,
rumo ao bendito calor que reinava do lado de fora da caverna ártica, siberiana,
silenciosa, que deixei às pressas para trás, quando emergi na canícula com suor
na testa e uma crônica engatilhada.
segunda-feira, 3 de junho de 2019
4473) "Do amor e outros demônios" (3.6.2019)
Os estudiosos da obra de Gabriel Garcia Márquez citam o parágrafo de abertura de Cem Anos de Solidão (1967) como um dos mais brilhantes da literatura. É o famoso trecho onde ele se refere ao gelo e ao pelotão de fuzilamento.
Numa
entrevista a Armando Durán, em Caracas (1968), o escritor comentou um aspecto
importante de sua técnica de escrita.
O problema
mais árduo é escrever o primeiro parágrafo. Pode levar muitos meses, e
inclusive muitos anos, até que eu tenha a noção exata de como deve ser. Só
quando está escrito o primeiro parágrafo se pode decidir, de forma definitiva,
se a história tem futuro, e só então sabemos qual será seu estilo e sua
extensão, e quanto tempo será necessário para escrevê-la.
Parece
um exagero, mas isto tem muito a ver com a curiosa personalidade desse autor,
uma mistura interessante de objetividade e fantasia.
Li
há pouco sua novela Del Amor y Otros
Demonios (1994), um relato de paixão sexual e possessão diabólica que
poderia ser comparado, por um resenhista menos respeitoso, a um cruzamento
entre Lolita e O Exorcista.
É
a história de Sierva Maria de Todos los Ángeles, uma menina de doze anos, com
uma cabeleira que lhe desce abaixo da cintura, e da paixão catastrófica que ela
desperta no padre Cayetano Alcino del Espíritu Santo Delaura y Escudero,
encarregado de seu exorcismo.
A
menina não está propriamente possuída pela demônio. Seu pai, um nobre de
Cartagena das Índias, tem motivos para supor que ela contraiu hidrofobia, mas
os acessos a que ela é sujeita levam o bispo local a providenciar para que ela
seja exorcizada, pois a mera raiva não seria capaz de produzir os fenômenos
ofensivos que a acometem.
Eis
o primeiro parágrafo do livro (tradução de Moacir Werneck de Castro):
Um cachorro
cinzento com uma estrela na testa irrompeu pelos becos do mercado no primeiro
domingo de dezembro, revirou mesas de frituras, derrubou barraquinhas de índios
e toldos de loterias, e de passagem mordeu quatro pessoas que se atravessaram
no seu caminho. Três eram escravos negros. A outra foi Sierva Maria de Todos
los Ángeles, filha única do marquês de Casalduero, que fora com uma empregada
mulata comprar uma fieira de guizos para a festa de seus doze anos.
Garcia
Márquez era um cinéfilo, fez crítica de cinema, deu cursos de roteiro, foi um
dos criadores de uma famosa escola de cinema em Havana. O livro Como Contar um Conto transcreve suas
conversas com seus alunos dos cursos de roteiro, e mostra o modo descontraído,
tentativo, sempre aberto e sempre crítico, com que ele procura abordar as
possibilidades de uma história a ser contada.
Esse
primeiro parágrafo é muito cinematográfico ao descrever uma ação veloz e
contínua, a disparada do cachorro através do mercado, como se a câmera o estivesse seguindo de perto. E ao mesmo tempo ele vai temperando a ação física
imediata com aquelas informações gerais que só um ponto de vista distanciado, como
o da literatura, pode fornecer: “filha única do marquês”, “para a festa de seus
doze anos” – informações que daria muito trabalho “mostrar” e é mais simples
“dizer”.
A
história se passa em Cartagena das Índias, a cidade-porto onde Márquez viveu em
diferentes períodos de sua vida, e já neste trecho inicial temos a convivência
misturada entre marqueses e escravos, um dos eixos da narrativa.
E
o cachorro-doido nos conduz, nesse trecho, à protagonista da história, essa
menina de doze anos que se torna o epicentro de um torvelinho social, sexual e
religioso.
Sierva
Maria de Todos los Ángeles é filha de um nobre arruinado e depressivo, e de sua
esposa espertalhona, uma matrona ninfomaníaca viciada em “mel fermentado e
barras de cacau”. Os pais não gostam da menina. Esta é “adotada” pelos
escravos, dorme na senzala com eles, canta suas cantigas, fala sua língua. E
tem um temperamento indomável.
A
mordida do cachorro produz suspeitas de hidrofobia que se estendem por toda a
primeira metade do livro e levam o pai arrependido a pedir o socorro de um
médico agnóstico e do bispo local. A menina é refratária a qualquer tratamento,
e quando está ensandecida dana-se a praguejar em iorubá. O bispo diz que é caso
de exorcismo, e a garota se transforma numa Linda Blair que precisa ser
amarrada à cama.
Até
que entra a segunda peça mais importante do jogo, o padre Cayetano Escudero
que, encarregado de exorcizar a possessa, acaba deixando-se possuir
(espiritualmente, pelo menos) por ela. E aí fecha-se um nó esboçado nas
primeiras linhas do livro, porque, tal como o cachorro-doido, o padre Cayetano
tem cabelos negros e com uma mecha branca por cima da testa. É ele, na verdade,
e não o cachorro, o desencadeador da desgraça final.
O
ambiente colombiano descrito por Garcia Márquez lembra muito o universo “casa
grande e senzala” de Gilberto Freyre, com aqueles nobres cultos que falam latim
e nunca trabalharam, vencidos pela indolência, amorrinhando-se na rede o dia todo à sombra das mangueiras, cedendo à promiscuidade com os
escravos, vivendo em mansões semi-desmoronadas por onde passeiam galinhas e
bodes.
Europa
e África são os dois polos culturais da história, e Sierva Maria acaba se
tornando um corpo europeu de menina branca, com quilométrica cabeleira ruiva,
possuído por superstições africanas, folguedos africanos, um certo desprezo
pela dor física e uma certa indiferença ao sofrimento moral.
Esse
magnetismo africano é sugerido no terceiro parágrafo, quando se fala que
naquele mesmo dia estava sendo posta à venda no mercado
...uma única
abissínia, de sete palmos de altura, untada com melaço em vez do óleo comercial
de rigor, e de uma beleza tão perturbadora que parecia mentira. Tinha o nariz
afilado, o crânio acabaçado, os olhos oblíquos, os dentes intactos e o porte
equívoco de um gladiador romano. Não a ferraram no barracão, nem anunciaram sua
idade e estado de saúde; puseram-na à venda por sua beleza apenas. O preço que
o governador pagou por ela, sem regatear, e à vista, foi seu peso em ouro.
Essa
escrava reaparece perto do fim do livro, quando o Vice-Rei passa pela cidade e
o governador lhe oferece um jantar. A escrava é trazida nua à sua presença, e o
Vice-Rei, perturbado, afasta os olhos e diz: “Tirem essa mulher daqui”.
"Essa
mulher" reflete, de algum modo, a potência do desejo sexual reprimido que leva à
desgraça a menina selvagem de doze anos e o padre exorcista que se apaixona
pelo demônio que o encarregaram de expulsar.