Sempre que testemunho os exageros de devoção de tantos amigos meus pela série Star Wars, repito mentalmente um mantra meio quilométrico no qual lembro a mim mesmo que eles viram o primeiro filme da série na mesma idade virginal com que eu vi Planeta Proibido e A Máquina do Tempo, e que foram os filmes de Lucas que cumpriram para eles a função revelatória, a função estrada-de-Damasco ou estalo-de-Vieira, de lhes arrebatar a imaginação. Vi o início da saga de Luke Skywalker com 27 anos, dos quais dez de cineclubismo e crítica em jornal. Era um pouco mais calejado do que um garoto de dez, e sei a diferença. Na minha frente ninguém fala mal de Fred Wilcox ou de George Pal.
O arrebatamento existiu, por vias transversas. Quando vi Guerra nas Estrelas (esse era o nome; depois arranjaram-lhe um apodo para dar
simetria ao índice da série.) eu morava em Salvador e mexia com cinema dia e noite,
mas me acreditava o único leitor de FC do Brasil. Só um ou outro amigo com quem
dava para comentar um livro ou pedir dicas de filme. E num espaço de tempo
muito curto vi o filme de Lucas e o Contatos Imediatos de Spielberg.
Esses dois caras estão há mais de 30 anos cantando um
mourão-voltado de sucessos, um bate aqui, o outro responde acolá. Acho
Spielberg mais à vontade dirigindo, seus filmes são mais soltos. Os de Lucas,
mesmo os bons, nunca mais tiveram aquela soltura de American Graffitti. Mas Star Wars era igual ao cinema mental que fazíamos lendo livrinhos de bolso e
pulp magazines antigos. Era futurâmica, era argonauta, era amazing. E era uma
aventura pop; não tinha nenhum compromisso com o realismo, desde que fosse
possível produzir um efeito melodramático.
O roteiro deste filme novo segue a planta-baixa de várias
sequências que deram certo nos anteriores. Há repetição e há inversão de
padrões, tanto nas triangulações de personagens quando nas estratégias de
destruição do poder inimigo. O filme reconstitui personagens e situações em
quantidade bastante para dedilhar o espectador da prima ao bordão. É bonito
como alguns personagens envelhecem, e como continuam a ser nada mais do que
eles mesmos.
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