quarta-feira, 29 de abril de 2026

5232) Histórias de cantador (29.4.2026)




(ilustração: J. Borges)     

 
Esta foi nos velhos tempos em que eu morava em Campina e vivia assessorando informalmente os cantadores de viola, em seu relacionamento com a imprensa (porque eu era crítico de cinema no “Diário da Borborema”) e com o meio acadêmico (porque eu estudava Ciências Sociais na atual UFCG). 
 
Marcaram uma cantoria para Bandeira Sobrinho às nove da manhã. Não era uma cantoria, na verdade, era uma simples apresentação, no auditório da universidade, em Bodocongó. Havia uns professores de fora visitando o campus, e entre a programação cultural resolveram botar: “Apresentação de cantadores”. 
 
-- É meia horinha apenas – explicou a moça que telefonou para ele. – O senhor canta meia hora e pronto.  Tem um cachê de xis reais. 
 
Não faço mais idéia de quanto era um cachê naquele tempo. Bandeira retrucou: 
 
-- Tudo bem. Com quem eu vou cantar? 
 
-- É só o senhor – disse ela, toda satisfeita. 
 
A maioria dos brasileiros pensa que um cantador de viola canta sozinho. É um pouco como pensar que um jogador de tênis joga sozinho. 
 
-- Tem que ser uma dupla – explicou Bandeira. – Porque a técnica da cantoria consiste em fazer versos alternados. E todos dois têm que receber. 
 
Não sei se a moça entendeu a questão técnica, mas criou-se um impasse, porque de um lado ela se via pressionada a duplicar o cachê, e do outro lado ele se via pressionado a dividi-lo. Sem falar que universidade demora meses pra fazer um depósito. 
 
Acabaram combinando que ele cantaria sozinho, até porque, reiterou ela, “não era uma cantoria, era uma apresentação informal”. Bandeira concordou aos resmungos. 
 
Somente na véspera ele soube que a apresentação seria às nove da manhã. 
 
-- Ninguém merece – me disse ele, tempos depois, quando me narrou este episódio. – As pessoas pensam que toda hora é igual, e que verso é como água da torneira, a qualquer hora que abrir a água é a mesma. 
 
-- Não dava para transferir o horário? – sugeri, só para alternar a conversa. 
 
-- Meio difícil, porque era sexta à noite e eu recebi o folheto impresso a cores, com foto minha e tudo. E lá estava eu, escalado para cantar sozinho, e às nove da manhã. 
 
-- Público leigo – disse eu. – Meia hora!  Leva um balaio de sextilhas e num instante passa. 
 
-- Me deram duas laudas de pessoas, com currículo e tudo, que eu devia saudar – disse ele. – Eu já estava me arrependendo de ter nascido. Mas compromisso é compromisso, e eu amarro o burro onde o dono do burro manda. 
 
Às oito e meia ele estacionou o fusca e desceu com a viola encasacada. Foi bem recebido, havia uma mesa comprida com água, cafezinho e biscoitos. Depois, houve uma abertura formal e ele foi chamado ao microfone. 
 
-- Cantei em pé, o que acabou sendo bom, porque me ajudou a ficar acordado. Fiz uma introdução, fiz o elogio regulamentar. 
 
O elogio era um verso para cada visitante. 
 
-- Cantei um verso que não esqueço até hoje – disse Bandeira. – Cantei no piloto automático, como você gosta de dizer. “Saúdo neste auditório / professor Manuel Simão / tem doutorado em São Paulo / tem prêmios em profusão / e é grande autoridade / nas pesquisas do algodão.”  Vieram os aplausos e nisso o camarada se levanta entusiasmado, puxando palmas, e sobe no palco, vem até o microfone. Educadamente me empurra para o lado, se apossa do microfone e começa um discurso. 
 
-- Eita. 
 
-- Falou da importância dos poetas populares para a educação do povo brasileiro, falou do Nordeste como ponta-de-lança da cultura neste país sem memória, e por aí foi. E eu do lado, querendo cabecear de sono. 
 
-- Foi elogiar, deu nisso. 
 
-- Aí ele falou que era do interior de Pernambuco, que o avô tinha sido vaqueiro. E disse: “Poeta Batista”, e você sabe como eu fico quando alguém erra meu nome, “vou lhe dar um mote para você glosar”. 
 
-- Aí deu um mote de três linhas, desmetrificado. 
 
-- Pior. Ele disse com toda solenidade, como se fosse um locutor de congresso; “Quem é vaqueiro não pode / ser cantador de viola!”  E foi se sentar, todo confiante. 
 
-- Esse mote é do tempo em que Adão era cadete. 
 
-- Calma, que o melhor vem aí. Eu já estava invocado porque o camarada subiu no palco e cortou minha apresentação sem nem pedir licença. “Ah, mas ele era um professor...” Ora, professor tem que ser mais educado do que quem não tem diploma!...  
 
-- Você glosou o mote? 
 
-- Aí é que está. Eu estava com tanto sono que pratiquei uma desonestidade. Pior do que uma desonestidade: uma imprudência. Eu cantei o verso de Pinto do Monteiro, fazendo de conta que era improviso meu. 




(Pinto do Monteiro)


-- O famoso verso de Pinto! 
 
-- Está em todos os livros, não é mesmo? Eu devia ter me lembrado disso na hora, mas estava com a cabeça a meia-pressão. E aí cantei o verso de Pinto, não sei se você sabe ele de cor. É assim: 
 
Vaqueiro é pra pegar touro, 
amansar bezerro e vaca, 
cortar pau, fazer estaca, 
e consertar bebedouro. 
Fazer queijo, beber soro, 
curtir couro e raspar sola, 
fazer freio e rabichola, 
tanger cabra e capar bode... 
Quem é vaqueiro não pode
ser cantador de viola.
 
-- É um grande verso – disse eu, protocolarmente. 
 
-- Com as impressões digitais de Pinto do Monteiro – disse Bandeira. – Mas o perigo está aí. O público aplaudiu, aí o “misera” do professor ficou em pé de novo e falou alto, lá do auditório: “Poeta, esse verso é de Pinto! Eu pedi foi uma glosa sua.” Até aí tudo bem. Mas ele complementou: “Caso seja possível”.  
 
-- Alguma razão ele tinha, né, poeta?...  
 
-- Eu pedi a Deus que um raio fulminasse aquele corno, mas Deus tem juízo e não me escutou. O jeito foi voltar ao microfone, e a raiva foi tanta que acabou me ajudando a produzir o resultado. E eu cantei:  
 
Vaqueiro não tem desgosto
não passa noite acordado
não compra vinho fiado
não acorda com sol-pôsto;
não vive de tiragosto
nem de rum com Coca-Cola
não canta por uma esmola
não bebe cana, e não fode...
Quem é vaqueiro não pode
ser cantador de viola.
 
-- Eita. 
 
-- A platéia veio abaixo, a apresentação foi um sucesso, e o infitete me agarrou na maior euforia, quase me bota no braço. E na segunda-feira o cachê bateu na conta. 
 



 
 
 
 
 




2 comentários:

  1. Já faz alguns anos que tento comprar seu livro "Bandeira Sobrinho" e não consigo nem na Estante Virtual.

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  2. Carmelo, é livro da Editora Imeph: https://www.imeph.com.br/#catalogo Procure pelo meu nome!

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