Li em algum livro psicanalítico ou equivalente que um
momento crucial na infância é quando uma criança mente aos pais pela primeira
vez e escapa impune. Ela percebe que não é apenas um grão-de-areia passivo na
ventania do mundo. Ela não está apenas sendo rebocada para um lado e depois
para outro; não tem apenas a obrigação de ouvir e obedecer; ela pode também
manipular os acontecimentos, e os relatos sobre esses acontecimentos, a seu
favor. Que é (pensando bem) o que seus pais fazem o tempo inteiro (como todo
adulto).
Não se trata (pelo menos neste estágio) da questão moral
de mentir, de enganar, até porque nessa fase da vida as mentiras são em geral
mentiras bobinhas. (Sim, sei que existem crianças assassinas e psicopatas, há livros
e filmes sobre isto, de Ellery Queen a Robert Mulligan, de Jerome Bixby a William
Golding, de Agatha Christie a John Wyndham, etc.).
Estou me referindo a mentiras tipo “já arrumei meu
quarto”, “fiz o dever de casa”, “não sei quem quebrou o jarro”, “comi meu
almoço todo e não sei que comida é essa na lata de lixo”, etc.
Os psicólogos advertem que esse tipo de mentira, mais do
que configurar um mau-caratismo em botão, tem uma finalidade mais importante:
revelar à criança que o mundo mental dela é só dela. Um mundo ambíguo onde ela
é o único e todo-poderoso habitante, e uma prisão de onde jamais poderá sair.
O raciocínio de “a mentira é importante para afirmar a
noção do Eu” evolui para o seguinte: não, o importante não é apenas o mentir, o
enganar; o importante é estabelecer um fato mental de que somente eu tenho
conhecimento, e os adultos não.
Quando eu tinha por volta de 9 ou 10 anos moramos a cem
metros do Estádio Presidente Vargas, o “campo do Treze”, do meu time do
coração. Era tão perto que quando tinha jogo noturno a gente aproveitava e
jogava pelada na rua, aproveitando a iluminação dos refletores.
Meu pai tinha duas cadeiras cativas, cuja caderneta eu
por muitos anos (já adulto) exibia orgulhoso no portão que dava acesso à parte
de cima da arquibancada. Mas nessa fase dos dez anos a minha primeira tarefa ao
chegar no local era subir na cadeira e olhar através dos cobogós da parede: de lá,
avistava a parte traseira da nossa casa, e nosso quintal! Era uma reafirmação
de que o mundo existia mesmo, e por isso nunca dei ouvidos ao Bispo Berkeley.
Depois, refinei um pouco essa percepção. A gente sempre
via o jogo comendo amendoim, meu pai comprava logo um punhado de pacotinhos. Um
dia, amassei o papel de um saco de amendoim, fazendo uma bolinha, e o enfiei no
cobogó. A dúvida (não formulada nestes termos, evidentemente) era: a cadeira
cativa de onde eu via o jogo (e por extensão a arquibancada, o estádio, o mundo
em si) era sempre a mesma?
Domingo que vem, o Treze joga de novo, lá vamos nós, e
bingo! A bolinha de papel estava lá! E era a mesma: tive o cuidado de
desamarrotar e conferir. O mundo existia independentemente da minha percepção.
E por isso nunca dei ouvidos a Philip K. Dick.
Não preciso relatar aqui o número de vezes em que pensei
naquela bolinha de papel durante a semana. A bolinha, que era um pedaço da
minha vida, estava escondida naquele cobogó anônimo, mas nas semanas seguintes
(claro que a pus de volta) virou um pedacinho meu existindo à distância de mim.
Na minha memória afetiva, isto se conecta com um conto
que eu li mais ou menos nessa época: “O abacaxi de ferro”, de Eden Phillpotts, em
que um homem sente amor por um abacaxi de ferro, parte da decoração do portão
de uma casa por onde ele passa de vez em quando. Ele inexplicavelmente se
apaixona por esse abacaxi e de noite, quando chove, fica deitado em sua cama,
no escuro, pensando se o abacaxi está com frio.
Republiquei esse conto em minha antologia Contos Fantásticos no Labirinto de Borges (Casa
da Palavra, 2005, trad. Julio Silveira).
O que era isso? Acho que remete de volta àquele papo
anterior dos psicólogos sobre as mentiras da infância. Não é a mentira. É o
segredo. É aquela coisa que faz parte de mim, e cuja existência (ou
importância) somente eu percebo. É uma extensão de minha consciência afetiva.
Por isto uma das melhores cenas de O Último Imperador (1987) de Bernardo Bertolucci é quando o
ex-imperador Puyi, já adulto e destronado, tem acesso ao trono onde sentava
quando era imperador, e cutuca lá dentro e tira de lá um inseto ou coisa
parecida que ali colocou quando menino.
Críticos de cinema, os famosos catadores-de-lêndeas,
argumentaram que um bichinho como aquele não teria sobrevivido tantos anos. São
os idiotas da objetividade, como dizia Nelson Rodrigues.
Por isto uma das melhores cenas de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) de Jean-Pierre Jeunet é
quando ela descobre no rodapé da casa em que mora uma cavidade em que algum
garoto antigo guardou uns brinquedos e depois esqueceu; e na sequência ela
pesquisa a família, descobre o garoto (agora adulto) e faz chegar às suas mãos
(anonimamente) os brinquedos.
São segredos, mas não são segredos criminosos ou
vergonhosos ou inconfessáveis. São segredos apenas porque são algo que só uma
pessoa sabe, e ela se deslumbra quando confere que aquilo ainda existe, e ela
pira quando Alguém demonstra (e de uma maneira discretamente carinhosa) revela
que descobriu tudo.
E o segredo permite controlar um pedacinho do mundo,
porque sabemos algo que outras pessoas ignoram. Li nas redes sociais um
episódio divertido, aparentemente algo que ocorreu na Inglaterra. Lá existe a
tradição/superstição da “Fada do Dente” (“the Tooth Fairy”), que costuma
“comprar” os dentes de leite das crianças. Quando o dentinho cai, é só colocar
embaixo do travesseiro, e na manhã seguinte a Fada deixou ali uma moeda!
Pois teve um garoto que resolveu fazer um experimento.
Depois de “vender” alguns dentes para a Fada, ele resolveu esconder de todo
mundo que outro dentinho tinha caído. Ficou na moita, pôs o dente embaixo do
travesseiro por três noites... e nada. Então ele comunicou aos pais que o dente
caíra, e repetiu o ritual. Na manhã seguinte, a moeda estava lá. E o garoto
rasgou: “A Fada são vocês!...”.
O seu segredo é uma parte essencial da sua realidade,
porque é uma coisa que só você sabe, e esse saber é muitas vezes uma vantagem.
Dá para pensar que esse garoto vai se dar bem no mundo empresarial ou político.
Mas mesmo um segredo pequeno, inofensivo, é uma coisa que
talvez morra com você caso você não a compartilhe com alguém. Por isso as
novelas e os romances usam tanto esta expressão, de que “Fulano de Tal levou o
seu segredo para o túmulo”. Tecnicamente, claro, não levou nada. O segredo
deixou de existir simultaneamente com a sua atividade cerebral, mas aí quem
está sendo catador-de-lêndeas sou eu.