sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

5219) "Sonhos de Trem" (30.1.2026)




 
Fui assistir este filme de Clint Bentley, que está disponível no Netflix, porque nele temos mais um brasileiro indicado ao Oscar: o diretor de fotografia Adolpho Veloso.
 
Como as indicações para O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho estão (merecidamente) atraindo todas as atenções, levei algum tempo para saber que havia outro brasileiro concorrendo, e fui ver o filme. Não me arrependi. 
 
Sonhos de Trem conta a história de um lenhador no noroeste dos EUA, aquela região fria e montanhosa entre os Estados de Washington, Montana, Idaho, e a fronteira do Canadá. 
 
Houve um tempo em que existiam passagens dando acesso ao mundo antigo; trilhas estranhas, atalhos ocultos. Você virava uma esquina e de repente estava cara-a-cara com o grande mistério, o alicerce de todas as coisas. E mesmo que esse mundo antigo já tenha desaparecido, mesmo tendo sido enrolado como um velho rolo de pergaminho e guardado em algum lugar, ainda dá para escutar os seus ecos. (Da narração do filme) 
 
É um filme sobre memória e a tentativa de fazer com que algo não desapareça para sempre. Pessoas, principalmente. Neste aspecto, se parece com O Agente Secreto, seu concorrente nas premiações distribuídas pela mão invisível do mercado. O ótimo Joel Edgerton perdeu o Golden Globe para Wagner Moura; agora, as duas produções concorrem ao Oscar de “Melhor Filme”. 



É a história de Robert Grainier, um homem introspectivo, defensivo, consciente de que está lidando com forças desconhecidas que a qualquer momento podem se voltar contra ele.  E isto não o impede de viver épocas felizes. 
 
Grainier se preocupava cada vez mais que algo terrível o estivesse seguindo, que a morte o encontraria ali, longe do único lugar onde ele realmente queria estar. 
 
Ele tem uma esposa e uma filhinha, mora numa cabana de madeira, que eles mesmos construíram, junto a um rio. Mas precisa viajar para longe, na época da derrubada das árvores, e ficar meses sem ver a família. 



Os fiscais-de-título hão de implicar também com este, porque de fato são muito rápidas as cenas em que Robert faz as suas longas viagens em ferrovias entre sua cabana (perto de Spokane, no estado de Washington) e as florestas remotas onde trabalha de-alugado. 




Lenhador é uma profissão sofrida para um homem que tenha temperamento meditativo, empático. Os deste filme parecem broncos; são uns sujeitos ensimesmados, rudes, mas de vez em quando se saem com algumas reflexões que (graças ao milagre da literatura) não parecem estranhas às suas vozes, às suas testas franzidas, à sua percepão do que são e do que fazem. 



O ótimo William H. Macy, irreconhecível no centro de uma barba branca, faz um personagem ímpar. Ele é Arn Peeples, um dinamitador veterano, conversador, gabola. Gosta de ficar contando histórias pitorescas, sentado num tronco, enquanto os outros fazem força braçal. Nisto, acaba se parecendo com um personagem encantador de Guimarães Rosa, o Lalino Salãthiel de “A Volta do Marido Pródigo”. 



Arn Peeples tem sempre uma frase afiada para animar a conversa. 
 
 
PEEPLES
Acabamos de derrubar árvores que estão aqui há 500 anos. Isso perturba a alma de um homem, quer você reconheça ou não. (...) Este mundo é cheio de conexões sutis, rapazes. Cada fio que puxamos, não sabemos como influenciará o todo. Somos só crianças neste planeta, tirando parafusos da roda gigante, pensando que somos deuses. 
 
OUTRO LENHADOR:
Isso é besteira. Já morei em Washington também. Cortei madeira por todo o Canadá e voltei. Tem árvores suficientes para cortarmos por mil anos. E quando a última for cortada, a primeira já estará tão grande quanto qualquer uma de hoje. 
 
PEEPLES
Eu me lembro que pensava isso mesmo quando era jovem. Exatamente o mesmo. 
 
O caladão Robert fica escutando essas conversas, à noite, na beira da fogueira. Escuta, observa, absorve. E sonha: seus sonhos são fragmentos de lembranças, flashbacks que surgem no filme sem grande originalidade narrativa, mas pelo menos poupando o espectador daquele clichê, hoje incontornável, de mostrar o personagem erguendo-se na cama, arquejante, de olhos arregalados. 


 
Joel Edgerton tem uma interpretação contida, atenta, produzindo uma presença sólida, mas vulnerável. Nos diálogos, tem a tendência de não encarar o interlocutor, ficar virado para o horizonte, escutando tudo mas olhando para longe. 
 
O filme se baseia na novela homônima de Denis Johnson, indicada ao Prêmio Pulitzer. E usa, de maneira muito eficiente, uma narração em off com o texto do livro. Já vi roteiristas dizerem que “a narração em off é o derradeiro refúgio dos incompetentes”, e concordo que ela é uma das escapatórias mais preguiçosas para quem escreve roteiro. Mas neste filme, ela funciona com perfeição, para meu ouvido. 



Primeiro, porque o livro conta a história de Robert Grainier de maneira distanciada, informativa, em terceira pessoa, como se estivesse fazendo um resumo da vida dele para alguém que vai usar isso para um trabalho mais profundo. Quem faz a narração, no filme, é o ator Will Patton, especialista em audiobooks, e que gravou também o audiobook da novela de Denis Johnson. A voz de Patton é uma voz “contemporânea”, com ritmo e inflexões modernas, e isso produz o curioso efeito de aumentar ainda mais o distanciamento, por estar contando a vida de um homem de cerca de cem anos atrás, em ambientes e paisagens de cem anos atrás. 
 
Assim, sempre que a narração em off volta a se ouvir, somos arrancados daquele ambiente tão realista (e a fotografia de Adolpho Veloso é excelente, sim) e ficamos com a impressão de estar espreitando o passado através de algum daqueles “cronoscópios” da ficção científica: uma engenhoca com que alguém de hoje nos conta e mostra, como numa TV, uma história de 1910. 
 
O diretor Clint Bentley, numa entrevista, citou dois títulos que o ajudaram a criar esse efeito de narração na terceira pessoa: Jules et Jim (1962) de François Truffaut e Y Tu Mamá También (2001) de Alfonso Cuarón. 
 
Os lenhadores de Sonhos de Trem têm um pequeno ritual quando sepultam na floresta um dos seus, vítimas dos frequentes acidentes nas quedas das árvores. Pregam no tronco de uma árvore o par de botas do defunto. As pessoas no futuro ficarão sabendo que ali pertinho está enterrado um lenhador, e sua passagem neste mundo não será esquecida por completo.