quarta-feira, 13 de maio de 2026

5234) A bola e a fama (13.5.2026)

  




(fotos meramente ilustrativas)

1
 
Minha família se mudou para o Alto Branco em 1961, quando o Alto Branco era um continente à espera de Cristóvão Colombo. Era considerado um bairro distante, e não tinha sequer uma linha de ônibus – havia apenas uma precária linha de kombis onde todo mundo se amontoava e se espremia na maior festa, principalmente em dia de feira. 
 
E tinha vastas extensões de campo aberto, coberto de grama ou de areia fina, alqueires e mais alqueires disponíveis para a prática do esporte bretão. 
 
A maioria da turma da nossa rua estudava de manhã, de modo que a partir das 3 da tarde, quando o sol esfriava, corria todo mundo a jogar futebol. Futebol é um esporte adaptável, mutante. A gente jogava descalço, a bola era de plástico, e a barra eram duas pedras, ou dois montes de roupa. Barra-com-traves era um luxo raro.  


 
Foi um verdadeiro rito-de-passagem quando conseguimos nos cotizar para uma bola de couro marca Drible, número 3, que eu e Severino Brasil compramos na Casa Esporte, ao velho Fuba, e levamos trocando passes pela rua afora até chegar à casa dele na Napoleão Laureano. Já nos víamos como profissionais, porque eu e ele, com quinze anos, trabalhávamos no “Diário da Borborema” e recebíamos salário de verdade. 
 
E vou inserir aqui um personagem fictício mas simbólico. Um amigo nosso, que vou chamar aqui de “Aderbal”, e que era um dos mais animados com o jogo. Seu sonho era ser goleiro, não importava muito se do Treze, do Campinense ou do Paulistano (era no tempo em que existia o Paulistano). Os ídolos dele não eram Pelé nem Garrincha: eram Gilmar, Manga, Pompéia, Marcial, Cabeção... Sem esquecer, é claro, os ídolos locais: Waldemar, Augusto, Brito, Dudinha, Galego, Elias, Apinagés... 



 
Aderbal cultivava a mitologia goleirística com uma dedicação assombrosa. Um dia, apareceu de boné. Chamei Severino de banda.
 
-- Que moda é essa agora?
 
-- Ele disse que é por causa de Yashin – explicou ele. --  O boné protege a visão.
 
-- Então pra semana ele vem de óculos?!...
 
O boné tudo bem, mas o que invocava a gente é que quando vinha uma bola propícia Aderbal caprichava no salto. O modelo dele era Pompéia, do América, que a imprensa chamava “o Constellation”, uma marca de avião daquele tempo. Quando a bola era chutada de longe e vinha descrevendo um arco manso, descendente, Aderbal caprichava e se erguia no ar como um acrobata, corpo esticado, braços estendidos, sob os aplausos da molecada menor que se amontoava em volta do campinho para assistir.
 
-- Aderbal, a bola!
 
-- Não deu! – Ele se erguia esbaforido, espanando a poeira. – Muita força.
 
-- Rapaz, a bola era rasteira, tu pulasse pra cima!
 
Ele não pulava para a bola: pulava para os fotógrafos, aqueles fotógrafos imaginários que na fantasia dele haveriam de preservar seu vôo para as gerações futuras.
 
O jogo, para ele, era uma mera formalidade. O resultado da partida era irrelevante. Todo aquele moído acontecia apenas para que ele se erguesse no ar feito um albatroz e fosse clicado pelos fotógrafos do futuro. E quem de nós tinha o direito de criticar? Éramos meninos, cheios de energia, e todos sonhando. Sonhar com a foto não era muito diferente de sonhar com o gol.
 
Eu, Pedro, Severino, Geraldo, Jovany, Jânio, Fredinho, Pedro Augusto, Marinaldo, Luisão, Zezito, Zé Novo, Chiquinho Perácio, Jacinto, Belo, Nenê, Mizinho... O que importava mesmo era a alegria, no campo da Graminha ou das Barreiras. Ninguém ali estava destinado a sair com foto na página de esportes. (Bem – Luisão, que torcia pelo Campinense, chegou a jogar no Treze, e a treinar no Náutico.)



 
2

A gente pisca o olho, e passaram-se sessenta anos. O mundo é outro e o ser humano é o mesmo.
 
Dias atrás o jornal The New York Times produziu uma matéria intitulada “Os 30 Maiores Compositores Americanos Vivos”. Deu o que falar, porque o jornal convocou cerca de 250 votantes por todo o país para fornecerem suas listas, mas na verdade quem escolheu a lista final foram seis críticos do próprio jornal.
 
A polêmica está lavrando por lá, não apenas porque a escolha dos críticos “xóvens” deixou de fora inúmeros nomes respeitados, mas porque eles gravaram um videocast justificando suas escolhas – e foi possível constatar o quanto esse pessoal é autossuficiente, posudo, esnobe e todos os adjetivos equivalentes.
 
Fiquei sabendo da confusão através de dois comentaristas que respeito. O crítico Ted Gioia, que sigo na plataforma Substack, e o músico Rick Beato, cujos vídeos de análise musical vejo há anos no YouTube.  Nem sempre concordo com eles, claro; assim como nem sempre concordo comigo. Não importa. São os conceitos que contam, são os critérios que me fazem prestar atenção e manter respeito.

 
Disse Ted Gioia, numa postagem recente no Substack, sobre os “cricríticos” do New York Times:
 
https://www.honest-broker.com/p/rick-beato-versus-the-ny-times
 
Por uma curiosa coincidência, eu tinha postado uma crítica musical um dia antes desse vídeo do Times ser divulgado. Nesse artgo, intitulado “Nove Regras da Crítica de Música”, fiz esta afirmação:
 
“Confie na sua resposta emocional a um trabalho de criação artística, e abra o olho com as posições críticas que vão de encontro ao modo como você se sente. Abra o olho com qualquer crítico que menospreza a sua fruição da música ou de alguma outra forma de arte. Não estou dizendo que o crítico precisa concordar com essas reações suas, mas, uma clara hostilidade e um menosprezo doutrinário às suas reações emotivas a uma obra qualquer são um sinal de alerta.” (...)
 
Ted Gioia cita uma resposta do pianista de jazz Brad Mehldau, que descreve um tipo muito comum de crítico de música:
 
É um esnobe, ansioso para “estar por dentro”, e por isso torna-se crítico. Ele ouve música, não porque goste de música, mas porque é a música que define o seu modo narcisista de entender a si mesmo.
 
 
E aqui tem Rick Beato pegando-ar com a rapaziada:
 
https://www.youtube.com/watch?v=IQTMkjQvHoc
 
Não é só na música popular, concordam? É na crítica literária, na crítica de cinema, na crítica de teatro. Até mesmo nos comentaristas de futebol ou de política. O sujeito conquista posições de poder e usa esse poder para ser temido e bajulado. Seus critérios visam pessoas. São acima de tudo pessoais e pragmáticos, e têm pouco a ver com a qualidade artística (ou seu equivalente) do que parecem estar analisando. São narcisos afundando devagar nas águas turvas de si mesmos.
 
Isso é um pecado, é um crime? Talvez não seja, mas a questão não é esta. A crítica de arte, o jornalismo cultural, os prêmios literários e tudo que se assemelha a isto usam critérios pessoais. Sendo pessoais, precisam ser muito claros. Porque lidam com o subjetivo, com o gosto pessoal de cada um. O público precisa saber que não está sendo enganado, e que aquele crítico  não apenas “fez o dever de casa” (ninguém pode ser crítico sem estudo) mas também tem um respeito sincero pelas obras que está enaltecendo ou destruindo.
 
Sem esse respeito não há crítica. A crítica não pode ser um conjunto de abstrações teóricas impostas de cima para baixo, ou um conjunto de atitudes irônicas, piadinhas, rompantes furiosos, lacrações, venetas, julgamentos subjetivos que se recusam a examinar a si mesmos, que se recusam a submeter-se a algum tipo de freios-e-contrapesos.
 
Um crítico não tem o direito de dizer: “Não sei, só sei que foi assim”. (Um poeta tem.)
 
Críticos podem ser bajuladores, servis, interesseiros... E podem ser cruéis. Lembro que David Lean, o diretor de Lawrence da Arábia e de Doutor Jivago, caiu na besteira de aceitar um convite para um almoço com críticos de cinema novaiorquinos, quando lançou A Filha de Ryan, e saiu dali tão abalado que passou anos sem coragem de fazer outro filme.
 
Sou do tempo em que uma crítica musical no Jornal do Brasil tirava de cartaz um show que acabara de estrear no Canecão. O show era bom? Era ruim? Não importa. Essa concentração de poder é perigosa, e o excesso de poder, a gente já sabe, costuma puxar de dentro das pessoas o que elas têm de pior.
 
Quando vejo algumas barbaridades ditas por alguns “jornalistas” ou “influenciadores” contemporâneos, do alto de sua orgulhosa desinformação e de seus milhões de seguidores, a vontade que me dá é de murmurar baixinho: “Aderbal, olha a bola!”.


quarta-feira, 6 de maio de 2026

5233) Para que serve uma fórmula (6.5.2026)




 
[ a Jornada do Herói ]
 
A palavra “fórmula” é quase um tabu no mundo literário. Com certa razão, porque a literatura popularesca apropriou-se deste recurso e o ordenhou até a secura. 
 
A “Jornada do Herói”, tão querida dos manuais de roteiro e de narrativa, não passa de uma fórmula, com tudo que ela tem de positivo (no caso uma estrutura arquetípica, presente em todas as culturas) e de perigoso (no caso, a repetição, o clichê, o lugar-comum). 
 
A fórmula é um certo conjunto de procedimentos que se repetem de história para história. Não gosto muito é da palavra “fórmula”. É um termo que vem da Química, e pelo menos a mim transmite uma idéia de escrupulosa exatidão. O que não é bem o caso na literatura. 
 
A “fórmula” de um remédio é um elenco de substâncias, em doses miudamente medidas. Leve-se uma receita a uma farmácia de manipulação, e o farmacêutico procurará consultar a “fórmula” e produzir algo exatamente igual ao que foi feito nas vezes anteriores. Não pode mudar nem um miligrama. 
 
Não é assim na literatura. O que chamamos de fórmula literária é na verdade um leiaute: primeiro vem essa coisa aqui, depois esta, depois aquela outra... É um guia estrutural. O romance detetivesco está cheio de formatos assim. O conto de fantasmas também. Também as historinhas de amor (inclusive, imagino, as tais “romantasias” que hoje em dia estão pulando como pipocas no fogareiro)... 
 
A fórmula serve para inspirar. Ora que diabos, até a fórmula de um título serve para inspirar. 



Muitos autores policiais criam séries baseadas em fórmulas que vêm expressas no título. 
 
John D. MacDonald tem uma série de romances em cujos títulos aparecem cores que têm significado especial na história: Nighmare in Pink, The Quick Red Fox, A Deadly Shade of Gold... 
 
Erle Stanley Gardner deu a seu advogado-detetive Perry Mason uma infinidade de “casos” com iniciais dobradas: The Case of the Spurious Spinster, The Case of the Grinning Gorilla, The Case of the Borrowed Brunette, The Case of the Black-eyed Blonde… 
 
Sempre imagino que esses autores inventam um título sonoro, atraente, baseando-se nessa “fórmula”. E depois inventam um enredo que lhe corresponda. 
 
Ellery Queen tem, entre outras obras detetivescas, uma série de romances baseados em personagens/objetos de nacionalidades diferentes. Meus preferidos são O Mistério da Cruz Egípcia, O Mistério do Ataúde Grego, O Mistério da Laranja Chinesa, O Mistério dos Irmãos Siameses (citado por Jorge Luís Borges no conto “Exame da Obra de Herbert Quain”), O Mistério do Pó Francês, O Mistério do Sapato Holandês... 
 
Os pessoal da “Crippen & Landru”, editora especializada em mistério policial, chama a esta série “The Location Object Mystery”, ou seja, todos os títulos incluem uma locação (geográfica) e um objeto. 
 
Dito isto, vou dar agora alguns pequenos exemplos de como uma fórmula desse tipo pode sugerir idéias pela mera combinação de elementos escolhidos ao acaso. (E vejam a sutileza desta expressão – porque a busca na memória é feita ao sabor do Acaso, pelo olho, mas é a mente criadora quem aponta o dedo e escolhe: “Este aqui me serve”.) 
 
O que vem a seguir é improviso ao teclado, sem consultar arquivos nem notas. 
 
O Mistério da Caneta Coreana 
Um conto policial em que a solução do crime / mistério / problema repousa numa série de textos manuscritos (podem ser cartas, ou um testamento, ou um caderno-diário, etc.) feitos por uma pessoa, utilizando uma caneta de estimação, que ela dizia ter comprado em Seul. Descobre-se depois que essa caneta tinha dois tubos de tinta internos, que podiam ser alternados, e que um deles escreve com tinta invisível. Submetida à luz ultravioleta (ou coisa desse tipo), a página escrita revela outro texto superposto, que desmente ou altera o primeiro. 
 
O mistério do Passaporte Brasileiro 
Um homem é encontrado morto no primeiro andar de uma oficina mecânica em Osasco, e em sua mesa há cerca de vinte passaportes brasileiros, todos falsos, em nome de pessoas famosas (artistas, políticos, atletas, etc.) que afirmam, é claro, nada ter a ver com aquilo. A trama se funda no fato de que a mixagem étnica do Brasil torna qualquer pessoa um brasileiro plausível (branco, negro, oriental, etc.). (Este tema foi utilizado, com uma inteligente torção, no filme “Terra Estrangeira”). A questão é: por que usar fotos e nomes de gente famosa, à sua revelia? 
 
O Mistério do Boato Indiano 
Uma série de crimes inexplicáveis assola a cidade de Mumbai. Pessoas sem qualquer conexão entre si são assassinadas em circunstâncias idênticas, e o criminoso deixa recados idênticos (mas igualmente inexplicáveis) junto a cada vítima. Descobre-se depois que se tratava de um boato gerado na Internet, em que um versinho satírico feito por um jovem foi traduzido e retraduzido em todos os idiomas que se falam na cidade, até ganhar contornos místicos e ameaçadores, por distorção verbal. Isto fez com que um grupo de tresloucados passasse a executar os crimes que julgavam estar sendo profetizados. (Para efeito dramatúrgico, convém criar outro boato, este inofensivo, nos capítulos iniciais, para desviar as suspeitas do leitor.) 
 
O Mistério da Capela Portuguesa 
No interior de Portugal, crimes misteriosos ocorrem numa antiga capela do século 17, onde pessoas aparecem mortas, tendo vindo de muito longe para rezar ali, de maneira inexplicável para as respectivas famílias. O detetive começa a perceber um padrão de regularidade unindo as vítimas e as datas de suas mortes. (Ao escrever isto percebo que estou me lembrando do clássico francês “As Mortes Misteriosas de Canteperdrix”.) 
 
O Mistério do Candelabro Italiano 
Um casal rico tem na sala de visitas um belo candelabro comprado em Roma, durante sua lua-de-mel. O marido morre. A viúva, anos depois, no leito de morte, sussurra aos filhos que o testamento está guardado no candelabro italiano. Eles mexem de todas as maneiras e nada encontram; chegam a pensar em derreter o metal. Depois, o detetive descobre que eram duas folhas de papel ofício datilografadas, assinadas, cuidadosamente dobradas, dentro da caixa da cópia VHS do filme de Delmer Daves, guardada entre centenas de outras no escritório do pai. 
 
Inúmeras vezes, precisando de um ponto de partida para um texto (principalmente quando eu publicava diariamente em jornal) recorri a sorteios combinatórios, pegando duas palavras ao acaso, e batendo com uma na outra até produzir uma fagulha. Nunca dava para atear fogo à casa, mas muitas vezes me acendia uma vela na escuridão.