quarta-feira, 11 de março de 2026

5225) O amor e o dinheiro (11.03.2026)



 
A crítica literária já glosou e reglosou o tema da “contabilidade afetiva” em Machado de Assis, o tema das afeições avaliadas por critérios monetários ou financeiros. Parece que Machado tinha um prazer mórbido em mostrar seus personagens comparando amores a fortunas, troca de afagos a câmbio de moedas. 
 
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”, queixa-se (ou vangloria-se) Brás Cubas. Amor e dinheiro andam de mãos dadas, ou não conseguem andar. 
 
O conto “Anedota Pecuniária” é uma das melhores ilustrações desse sentimento. Publicado na Gazeta de Notícias (6-19-1883), foi recolhido depois em Histórias Sem Data (1884). É a história de Falcão, um homem que ama o dinheiro, e aqui chegamos ao osso da questão. Outros personagens podem amar uma mulher rica; Falcão vai direto ao ponto, e ama a riqueza em si. 
 
Logo nas primeiras páginas, o autor, que ainda está nos explicando a alma desse sujeito, narra como ele tirou a dúvida de um garoto, na rua, sobre se uma nota de cinco mil réis era verdadeira ou falsa. 
 
Corriam algumas notas falsas, e os pequenos lembraram-se disso em caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou trêmulo na nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...
-- É falsa? - perguntou com impaciência um dos meninos.
-- Não; é verdadeira.
-- Dê cá - disseram ambos.
Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima; depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que esperava por ele, disse-lhe com a maior candura do mundo:
-- Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto ver.


 

É um solteirão (“Casar era botar dinheiro fora”), mas o destino lhe põe no colo uma sobrinha de 11 anos, após a morte do irmão e da cunhada. Ele cria a órfã, Jacinta, com todo carinho. Cerca a menina de cuidados. 
 
Aos treze [anos], Jacinta mandava na casa; aos dezessete era verdadeira dona. Não abusou do domínio; era naturalmente modesta, frugal, poupada. 
 
Machado tem uma adjetivação curiosa. Quando ele diz “modesta, frugal, poupada”, são qualidades à primeira vista tão próximas que um professor de workshop literária mandaria cortar uma ou duas. São redundantes. Ao mesmo tempo, porém, dão-nos a idéia de que as qualidades da menina-moça não eram muito expansivas, muito espaçosas; eram qualidades muito próximas umas às outras, como pessoas numa madrugada chuvosa, num ponto de ônibus. 
 
Falcão cultiva essa filha (que não lhe custou muito investimento) até pô-la moça e visível aos olhos do amigo Chico Borges, que volta e meia aparece para jogar cartas. Chico e a moça começam a encompridar olhares, mas quando Falcão recebe a notícia do namoro não reage bem. 
 
Vem aí o lado contemporâneo de Machado. O leitor de hoje que o folheia pela primeira vez pensa: “Quem diria que o povo daquele tempo era tão moderno, tão 2026, tão Faria Lima!”.  A ver: 
 
Era isto em 1869. No princípio de 1870 Falcão propôs ao outro uma venda de ações. Não as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava ganhar de um só lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este respondeu-lhe finamente que andava pensando em oferecer-lhe a mesma cousa. Uma vez que ambos queriam vender e nenhum comprar, podiam juntar-se e propor a venda a um terceiro. Acharam o terceiro, e fecharam o contrato a sessenta dias. Falcão estava tão contente, ao voltar do negócio, que o sócio abriu-lhe o coração e pediu-lhe a mão de Jacinta. 
 
Quem são Falcão e Chico Borges? São os famosos investidores, aqueles indivíduos que têm algum dinheiro sobrando, in-ativo, des-empregado, sub-utilizado, capital descarregando a bateria por falta de uso. Esse dinheiro tem que ser investido em alguma coisa. Coisas, em sessenta dias, podem se valorizar, podem também se desvalorizar, e temos aqui a receita de um jogo mais interessante do que o voltarete ou a canastra. 


 
É na inebriação do investimento financeiro que Chico Borges pede a mão da moça, mas Falcão é avarento de seus afetos, e recusa. A vida, porém, é cheia de esquinas, e às vezes é dobrando esquinas que rodeamos o quarteirão e, sem ter recuado um passo, nos encontramos de novo numa cena já vivida. Porque, sessenta dias depois... 
 
Entretanto, o sol, modelo de funcionários, continuou a servir pontualmente os dias, um a um, até chegar aos dois meses do prazo marcado para a entrega das ações. Estas deviam baixar, segundo a previsão dos dois; mas as ações, como as loterias e as batalhas, zombam dos cálculos humanos. Naquele caso, além de zombaria, houve crueldade, porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram até converter o esperado lucro de quarenta contos numa perda de vinte.
 
Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspiração de gênio. Na véspera, quando o Falcão, abatido e mudo, passeava na sala o seu desapontamento, propôs ele custear todo o deficit, se lhe desse a sobrinha. 
 
Justiça seja feita a Falcão: não vendeu a sobrinha ali, no quente da oferta. Negou-se, a princípio; foi para casa, consultou-se com a Insônia (“essa musa de olhos arregalados”, como dizia Dom Casmurro) e somente na manhã seguinte correu à casa de Chico para fechar o acordo. 
 
Jacinta e Chico Borges se casam, mas o escritor, que também gosta de revisitar situações, faz com que outra sobrinha órfã, Virginia, venha parar sob a asa de Falcão, após a morte de uma irmã viúva. E repetem-se ciclicamente os afetos... os cuidados recíprocos... a vigilância ciumenta (“...janelas cerradas, advertências à preta, raros passeios, só com ele e de olhos baixos.”)... 


 
Falcão gosta sinceramente da segunda menina, tal como gostara da primeira; mas tudo nele é investimento e planilha. Ele sabe que precisa planejar a própria morte, e vez em quando prepara o espírito de Virginia. 
 
-- Esta há de fechar-me os olhos - repetia ele consigo mesmo. Um dia, chegou a pensá-lo em voz alta: - Não é verdade que você me há de fechar os olhos?
 
-- Não diga tolices!
 
Conquanto estivesse na rua, ele parou, apertou-lhe muito as mãos, agradecido, não achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar, ficaria provavelmente com os olhos úmidos.
 
Pobre de Falcão, a rua era outra mas o quarteirão tinha o mesmo formato. Na vida de Virginia aparece um tal de Reginaldo, que já vem de caso pronto, já vem planejando pedido, noivado, e o mais que se segue. Reginaldo é moderno, mora em New York e economiza em dollars (Machado grafa assim). E logo na primeira conversa, espalha trunfos na mesa.  
 
Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo de New York, com trinta anos feitos e trezentos mil dollars ganhos. Vinte e quatro horas depois visitou o Falcão, que o recebeu apenas com polidez. Mas o Reginaldo era fino e prático; atinou com a principal corda do homem, e vibrou-a. Contou-lhe os prodígios de negócio nos Estados Unidos, as hordas de moedas que corriam de um a outro dos dous oceanos. Falcão ouvia deslumbrado, e pedia mais. Então o outro fez-lhe uma extensa computação das companhias e bancos, ações, saldos de orçamento público, riquezas particulares, receita municipal de New York; descreveu-lhe os grandes palácios do comércio...
 
Um homem não pode lutar contra o Destino, ainda mais quando esse Destino na verdade é ele mesmo. Falcão deixa-se levar. Deixa-se levar à casa de Reginaldo para ver sua coleção de moedas do mundo inteiro, que deve ser algo mais deslumbrante do que uma coleção de revistas de ficção científica dos anos 1940, ou de folhetos de cordel dessa mesma safra. Falcão fica em êxtase.
 
Falcão foi. Reginaldo mostrou-lhe a coleção metida num móvel envidraçado por todos os lados. A surpresa de Falcão foi extraordinária; esperava uma caixinha com um exemplar de cada moeda, e achou montes de ouro, de prata, de bronze e de cobre.
 
Falcão mirou-as primeiro de um olhar universal e coletivo; depois, começou a fixá-las especificamente. Só conheceu as libras, os dollars e os francos; mas o Reginaldo nomeou-as todas: florins, coroas, rublos, dracmas, piastras, pesos, rupias, toda a numismática do trabalho, concluiu ele poeticamente.
 
-- Mas que paciência a sua para ajuntar tudo isto! - disse ele.
 
-- Não fui eu que ajuntei - replicou o Reginaldo -; a coleção pertencia ao espólio de um sujeito de Filadélfia. Custou-me uma bagatela: - cinco mil dollars.
 
Na verdade, valia mais. Falcão saiu dali com a coleção na alma; falou dela à sobrinha, e, imaginariamente, desarrumou e tornou a arrumar as moedas, como um amante desgrenha a amante para toucá-la outra vez. 
 
Moedas, amantes, não é tudo a mesma coisa?... Não contarei o final do conto, porque o leitor já o adivinha, mas vale a pena olhar no original a puxada de tapete de Machado de Assis nas expectativas do seu leitor de 1883, numa piscadela metalinguística. 
 
Fala-se muito na importância do amor sincero, mas pergunto se o amor de um avarento pelo seu ouro não será sincero também. É assim o “nosso homem” Falcão, cujo ascetismo me lembra o banqueiro Daniel Dantas, bilionário que mantém em casa um sofá rasgado e só se alimenta de arroz e batatas (segundo os jornalistas que o têm entrevistado). 


 
O Rei Midas da mitologia transformava em ouro tudo em que encostasse a mão. Homens como Falcão transformam em preço tudo que tocam com a mente ou com o olhar. É o olhar do inseto, já nos advertia Philip K. Dick; ou o olhar do viciado em drogas, que ao ver um objeto ou uma pessoa, pensa logo: “Por quanto posso vendê-lo na primeira calçada? Quantos gramas de droga isso aí pode me fornecer?”.
 
Entretanto [diz Machado], basta ver este olhar felino, estes dois beiços, mestres de cálculo, que, ainda fechados, parecem estar contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feição capital do nosso homem é a voracidade do lucro. Entendamo-nos: ele faz arte pela arte, não ama o dinheiro pelo que ele pode dar, mas pelo que é em si mesmo! Ninguém lhe vá falar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem mesa fina, nem carruagem, nem comenda. Não se ganha dinheiro para esbanjá-lo, dizia ele. Vive de migalhas; tudo o que amontoa é para a contemplação. 
 
O amor do tipo “arte pela arte” não é o amor pelo consumo conspícuo, pela esbórnia, pela ostentação, pela orgia. É o amor pelo Número.


 
 



terça-feira, 3 de março de 2026

5224) O Flamengo está bêbado (3.3.2026)




O dinheiro é talvez a mais perigosa das drogas, porque não tem sintomas aparentes. O indivíduo bêbado-de-dinheiro parece normal, mas está sujeito, ou mais que isto, está condenado a praticar todo tipo de insensatez. 
 
O dinheiro produz sensações combinadas de invulnerabilidade, de impunidade, de onipotência, de estar-com-a-razão. Produz até mesmo a ilusão de ser amado, pela quantidade de gente sorridente que atrai. 
 
Já fiquei bêbado algumas vezes, mas, mais do que isso, já pastorei muito bêbo chato. Aquele amigo que se embebeda e não quer ir para casa, quer tomar a saideira, nem que seja na lata de lixo onde acabou de vomitar. 
 
Uma vez era um amigo que tinha acabado de assinar um contrato absurdamente desproporcional com sua vida financeira até então, e recebeu umas “luvas” astronômicas. Pegou o telefone, convocou todo mundo, patrocinou uma mesa de vinte pessoas num restaurante cujo nome não vem ao caso, insistiu em trazer três litros de uísque para uma mesa em que todo mundo só queria chope. (Era verão carioca. Verão é outra droga embriagadora, merece um capítulo à parte.) 



 
Ele não permitiu que ninguém puxasse a carteira. A noite desceu pelo ralo, todo mundo foi embora e fiquei eu, de olho nele, visto que morávamos no mesmo bairro e nenhum dos dois tinha carro, então sobrou pra mim. 
 
Um garçom, já à paisana, nos conduziu amável mas firmemente à porta; saímos para a rua nos primeiros rubores da aurora. Meu amigo cambaleou, abriu os braços para o mar, para a possibilidade do sol, eu com a mão no ombro dele para navegá-lo. Paramos num dogão da madruga. Ele apontou: 
 
-- Eu adoro essas coisas. Já teve noite que eu queria comer um desse e não podia pagar. 
 
-- Eu também – concordei, e era verdade. – Mas a gente acabou de comer uma bacalhoada. 
 
-- Dois, completos! – berrou ele, de dedo em riste, para a moça de olhos redondos e sonolentos. – Com tudo que tiver direito! Milho, maionese, ervilha, bacon, coentro... Tem coentro? 
 
-- Eu não quero – avisei. – E você não precisa. Olha, lá vem um táxi. Bora pegar esse. 
 
-- Pra viagem! – insistiu ele. – Come amanhã. 
 
Perdemos três táxis que passaram devagar, se oferecendo, até que recebemos os dois pacotes (nessas horas, concordar é mais simples). Ele puxou do bolso uma nota de cem reais, botou no balcão. 
 
-- Senhor, o seu troco. 
 
-- Não precisa! 
 
Semana passada, muitos anos depois, estávamos eu e ele na calçada de outro boteco, conversando abobrinhas, chorando pitangas, desdenhando as uvas verdes do sucesso alheio, e eu lembrei esse episódio. Ele passou a mão pelo cabelo agora branco, e disse: 
 
-- Rapaz, aquele foi um período muito maluco. Eu vi tanto dinheiro que pensei que estava vendo o dobro. 
 
Mudamos de assunto. Águas passadas. Sobrevivemos, não é verdade? Estamos aqui. Vamos pedir mais um chope e ficar de olho na pilhazinha de cartões. Vamos descontrair, vamos falar de futebol. 




Vamos falar do Flamengo, e seus 144 milhões de reais para contar com o ponta-esquerda Samuel Lino, e seus 58 milhões de reais pelo lateral-direito Emerson Royal, e seus 263 milhões de reais pelo meia-atacante Lucas Paquetá. 
 
(Não venham me corrigir as cifras, peguei no Google, e os valores são meramente ilustrativos.) 
 
Existe uma enorme semelhança entre o futebol e as altas finanças. São dois universos que se fundamentam na competição: as chances são poucas, os concorrentes muitos. Tudo é concorrência, é disputa, é antagonismo, tudo são desfechos onde alguém vai ganhar e alguém vai perder. E quem decide isso é o deus que preside esse dois universos: o Número. 
 
O futebol (os esportes, por extensão) se baseia no Número. É bem verdade que mil interpretações subjetivas podem ser aplicadas a um confronto, flutuação de critérios, sutilezas qualitativas, o escambau. Mas um a zero é um a zero, sete a um é sete a um. No mundo mental e emocional dessas pessoas, o Número é a última e definitiva instância que determina a realidade dos fatos, a direção da História. Os números são estes. Eu ganhei. Você perdeu. 
 
Eu ganhei mais vezes, eu perdi menos vezes, minha percentagem é maior, minha margem de erro é menor, minha média está subindo. Eu e você queríamos comprar algo, você ofereceu 5, eu ofereci 6 e levei. Eu sou o primeiro desta lista. Eu consegui isto mais vezes do que qualquer um. 
 
E nada disto é “opinião”: tudo é Número, a única coisa indiscutível do universo. 



 
O Brasil tem cerca de 300 bilionários. Vinte anos atrás, eram dois ou três. Não é exagero dizer que metade desses indivíduos vivem mais transtornados do que um inquilino da cracolândia. 
 
E milionários? São (é o que me traz a pesquisa de dois cliques) 572 mil no país, e entre estes pode incluir jogadores dos grandes times do mundo. Adivinhem quem está entre os grandes times do mundo. 
 
Não nos enganemos, quem manda no mundo é o conceito de Número, muito mais do que o conceito de Deus, que aceita diferentes versões, ou o de Democracia, que aparentemente ninguém leva a sério. 
 
O futebol é o universo dos empurrões, cabeçadas, quedas, cotoveladas, dribles, matadas no peito, embaixadinhas, folhas secas, lençóis, bola na trave, bola na bochecha da rede, gol de placa, chute na orelha da bola, cama-de-gato, corta-luz, drible da vaca... Mas tudo isto em função de um número. 
 
As altas finanças são compostas de ativos, passivos, debêntures, papéis da dívida, ações preferenciais, mercados futuros, helicópteros, jatinhos, carpetes, limos, charutos... Mas tudo isto, também, em função dos números. 
 
E a sensação numérica da fortuna financeira é mais grave do que “café espresso” ou outras drogas excitantes. 



 
Num dos seus contos de Dublinenses (1914), “Depois da Corrida”, James Joyce diagnosticava: “O deslocamento muito rápido pelo espaço nos deixa inebriados; o mesmo se dá com a fama; o mesmo se dá com a posse de dinheiro”. 
 
Joyce se referia às corridas de automóveis do começo do século passado. No conto, um rapaz irlandês, classe mediazinha, aficionado das corridas, faz uma farra-de-amanhecer-o-dia junto com amigos bem mais ricos do que ele, todos eles europeus do continente. Acaba torrando um dinheiro que não tem. 

Eu estava finalizando este artigo na madrugada de ontem para hoje, enlevado pela goleada de 8x0 que o Flamengo aplicou no time-com-10-homens do Madureira. Faltou a James Joyce completar: “Uma grande quantidade de gols nos deixa inebriados”. 
 
E nesse momento pipocaram nas redes sociais as notícias da demissão do técnico Filipe Luís e eu achei que não precisava dizer mais nada. Deixa o pessoal se divertir, antes que venha a ressaca.